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biblia:emmanuel:noe

Noé

Pour commenter la Genèse. Paris: Payot, 1971

DO DILÚVIO A BABEL

  • A Escritura sugere que, desde o início da criação, o homem se levanta contra o homem; somente a partir de Abraão a história toma outro rumo, pois ele é o primeiro a aprender que o homem só pode e deve se opor a si mesmo.
    • Caim se levantou contra seu irmão, Cam contra seu pai e, na construção da torre de Babel, os homens se revoltaram contra os homens.
    • Abraão será o bem-amado de Deus por seu mérito e obediência à palavra, inaugurando o diálogo com Deus que lhe faz compreender a verdadeira dignidade.
  • Noé não tem mérito, sendo justo apenas em sua geração (6.9), a dos maus, para mostrar que as nações podem beneficiar da graça quando são justas em suas gerações.
    • A graça é um dom, o mérito é uma vitória; Israel nunca pode beneficiar da graça sem mérito, enquanto as nações são Noé e Israel é Abraão.
    • Uns sábios disseram que Noé teria sido justo em uma geração de justos, mas outros replicaram que ele era justo apenas em sua geração corrompida, não contando nada em uma geração de justos.
    • A história de Noé, como a de Adão ou Caim, termina em um impasse: depois de Caim, Deus destrói os homens; depois de Noé, ele os dispersa.
  • Não basta andar com Deus para ser justo (apenas para sê-lo entre os maus); para ser justo entre os justos, é preciso também andar com os homens e poder dizer: “Farias perecer o justo com o ímpio?” (18.23).
    • Andar contra Deus é pecar e ser destruído; andar com Deus é obedecer cegamente sem participar pessoalmente dos mandamentos (justo em uma geração injusta); andar diante de Deus é ultrapassar a condição do homem e tornar-se o bem-amado de Deus (Isaías 41.8).
  • Deus ordenou a Noé que construísse uma arca para abrigá-lo com sua família e um casal de cada espécie de animal; o dilúvio durou quarenta dias e as águas cobriram a terra por cento e cinquenta dias.
    • Deus se lembrou de Noé; o corvo e a pomba foram enviados; a pomba voltou com uma folha de oliveira, e depois não voltou mais, indicando o fim do dilúvio.
    • Deus disse em seu coração que não amaldiçoaria mais a terra e que as sementeiras e a colheita, o frio e o calor, o verão e o inverno, o dia e a noite não cessariam enquanto a terra durasse.
    • Deus abençoou Noé e seus filhos, estabeleceu sua aliança com eles e com todos os seres, e o arco nas nuvens é o sinal dessa aliança.
    • Todos os homens descendem de Noé e seus filhos, mas Cam lhe faltou com o respeito; mais tarde, os homens quiseram erguer uma torre que chegasse ao céu, mas Deus confundiu sua língua e os dispersou.
    • Após a dispersão, os descendentes de Sem permaneceram em Sinear, onde nasceu Héber, pai dos hebreus, cuja descendência culmina em Terá, pai de Abraão.
  • A segunda pericope da Escritura (Noé e o dilúvio) foi o ponto de partida da chamada crítica bíblica, devida a várias gerações de teólogos e sábios que chegaram a certas conclusões que declaram se impor à razão.
    • A ciência dita bíblica começou com a Renascença, quando alguns homens das nações aprenderam hebraico para estudar o texto sagrado no original, mas seu objetivo era sempre o mesmo: adaptar o texto às suas ideias preconcebidas.
    • Os biblistas buscavam a confirmação de suas opiniões e a verificação de suas crenças, enquanto a tradição vivia dentro da Escritura, que lhe entregava o que havia de único e eterno.
    • Perguntaram-se se Deus havia ditado sua lei a Moisés e como ele poderia ter descrito sua própria morte; mais tarde, a Bíblia passou a ser considerada apenas um monumento literário.
    • Um biblista percebeu que, recortando a história do dilúvio, podia obter duas versões do mesmo evento, concluindo que dois escritores diferentes a teriam redigido e um terceiro as fundido.
    • A presença de dois nomes divinos no episódio (o Tetragrama e o nome comum “Deus”) foi usada como confirmação: o relato que usa o primeiro seria mais antigo e ingênuo, o outro mais recente e elaborado.
    • O método foi estendido aos primeiros capítulos do Gênesis: os 33 primeiros versículos (1.1 a 2.3) usam “Deus”; a sequência até o fim do capítulo 3 usa “Senhor Deus”.
    • A hipótese das duas fontes (mais engenhosa que sólida) foi logo condenada, dando lugar a outras teorias (dos fragmentos, dos complementos, das três fontes), cujo florescimento, divergências e extravagâncias provam sua fragilidade e puerilidade.
    • A teoria dos fragmentos (recortes de relatos justapostos em ordem arbitrária) era puramente negativa e destrutiva, não deixando nada da Bíblia senão um amontoado de pedaços mal costurados.
    • A hipótese dos complementos (um relato fundamental com complementos folclóricos acrescentados) foi considerada pior que as outras.
    • A descoberta de três fontes (uma com o Tetragrama, duas com o outro nome divino) exigiu grandes justificativas, mas logo se considerou o termo “fontes” impróprio, preferindo-se “documentos”.
  • A definição de documentos separados e independentes entre si não parou de crescer, com critérios de análise que se pretendiam científicos (estatística de palavras, estilo, ideias teológicas) mas que não refletem a natureza do texto sagrado.
    • A própria definição de “documento” é incompatível com a da Escritura, pois um documento é um escrito que serve de prova, não sendo redigido com um sentido transcendente, mas com um propósito profano ou simplesmente administrativo.
    • A análise estatística não pode provar a existência de documentos diferentes num texto onde a técnica narrativa escolhe uma palavra ou expressão em vez de outra, e a crítica literária ignora completamente a estrutura do pensamento hebraico.
    • O insustentável é a compilação a partir de documentos associados uns aos outros, supondo uma síntese realizada por um redator ou, pior, vários redatores semi-definitivos trabalhando bem ou mal.
    • O postulado fundamental dos biblistas (de que os trechos com “Elohim” são de outra mão ou origem que os com o Tetragrama) é simplista, como mostram os exemplos de Êxodo 3.4 e Gênesis 17.1-3, 22.11-14, 28.12-13, 32.10.
    • No relato da criação de Adão e Eva e da tentação (Gênesis 2.4 a 3.24), os dois nomes divinos estão constantemente associados; nos capítulos seguintes, o Tetragrama designa o Deus misericordioso e “Elohim” o Deus do julgamento (Gênesis 4.9-10).
    • Há inúmeros exemplos de nomes divinos misturados na boca de um mesmo personagem (Noé em 9.26, Abraão em 14.22, Isaac em 27.27-28, Jacó em 28.21).
    • Para os biblistas, quando os nomes são separados é demonstração de documentos diferentes; quando estão juntos, é prova da fusão de duas fontes pela retoque do compilador.
  • A pesquisa dos biblistas, sendo estéril e pecando pela base, não está prestes a terminar, mas é bom observar que a imensa maioria dos biblistas são cristãos (protestantes e, mais recentemente, católicos).
    • Esses crentes do milagre (divindade de Jesus, nascimento miraculoso, ressurreição) recusam o milagre mais indubitável, no qual o próprio Jesus de Nazaré acreditava: que os cinco livros de Moisés foram ditados por Deus no Monte Sinai.
    • Para Emmanuel (o autor), judeu pelo coração e pelo espírito, a Escritura é a lei de Deus que ele transmitirá a seus filhos e descendentes como a recebeu de seus pais; as pesquisas dos biblistas não abalam sua certeza e fidelidade.
  • A história de Noé e do dilúvio atraiu a atenção dos arqueólogos, que pretenderam que o texto bíblico fosse uma adaptação de um velho relato babilônio (a décima primeira tabuleta da epopeia de Gilgamesh, com a história de Outa-napishtim).
    • Não há dependência real entre o relato da Escritura e o poema babilônio, embora a história do dilúvio participe do fundo comum de todas as civilizações semíticas.
    • O escritor sagrado utilizou uma tradição primitiva do dilúvio, mas o ardente monoteísmo da tradição de Israel apagou até o menor traço do grosseiro paganismo que se espalha no relato de Outa-napishtim.
  • No relato bíblico, Deus decide exterminar tudo o que vive e salva o único que merece a salvação; Outa-napishtim é um herói divinizado que pede sua imortalidade, enquanto Noé é um homem que permanecerá homem.
    • A decisão dos deuses de enviar o dilúvio na epopeia é tomada sem motivo sério (o barulho dos homens impede os deuses de dormir), enquanto na Escritura é a perversão e a maldade dos homens que inspiram o projeto divino.
    • Ea, o deus de olhos brilhantes, trai seus semelhantes em proveito de um mortal que lhe apraz favorecer, falando a uma parede para que Outa-napishtim surja as confidências; Deus fala diretamente a Noé.
    • O deus babilônio recomenda embarcar toda semente de vida, todo grão, todos os bens e riquezas; Deus salva o justo e sua família com os seres vivos que Noé fará entrar na arca.
    • Outa-napishtim faz entrar no navio sua família, seus próximos e os operários que trabalharam na construção; não se trata de uma regeneração da humanidade pela aliança divina com o justo, mas de uma aventura mítica onde os homens industriosos triunfam sobre os deuses malévolos.
    • Os deuses babilônios se apavoram com o dilúvio e se refugiam no céu, “acocorados como cães”; Ishtar profere maldições, e os outros deuses juntam suas lamentações aos seus blasfêmios.
    • O relato da catástrofe é muito curto na epopeia; na Escritura, apesar da sobriedade do estilo, é uma página de grandeza e poesia trágica.
    • Outa-napishtim solta uma pomba, uma andorinha e um corvo, que não voltam; na Bíblia, o corvo vai e volta, e a pomba volta com um ramo de oliveira, símbolo do apaziguamento da natureza.
    • Outa-napishtim oferece um sacrifício em torno do qual os deuses “se reúnem como moscas”; Noé sacrifica, mas é sobre a palavra suprema do perdão divino que se encerra o relato da Escritura.
  • Não há lição moral ou religiosa na narração sumero-babilônia do dilúvio; ao contrário, o escritor sagrado traz uma visão ética e teológica do mundo, completamente diferente das tradições populares do oriente semita.
    • Os ensinamentos fundamentais da Escritura na história de Noé marcam a ruptura da ideologia hebraica: Deus é um, bom (pune o mau e salva o justo), não confere imortalidade a nenhum mortal, e os sacrifícios só lhe são agradáveis na medida em que testemunham as qualidades espirituais de quem os oferece.
  • A história de Noé não pode ser destacada do conjunto da obra. A segunda perícope começa com a genealogia de Noé, mostrando que a maldição divina às famílias adâmicas degeneradas se liga à primeira perícope e termina a história da humanidade antediluviana.
    • Há uma admirável simetria: a genealogia dos adâmitas (5.1-32) tem 32 versículos, mesma extensão da genealogia dos noaídas (10.1-32) e da genealogia dos semitas (11.1-32).
    • Os capítulos 6 a 9 têm, por um versículo, três vezes 32 versículos, cada tranche com uma parte bem determinada da narração: decisão de Deus e construção da arca (6.1 a 7.10), narração do dilúvio (7.11 a 8.19), glorificação de Deus e nova aliança (8.20 a 9.29).
    • Seis épocas bem distintas e logicamente distribuídas foram incluídas em 32 versículos cada uma, não sendo possível que seja puro acaso, havendo um desígnio bem firme do Escritor.
    • O primeiro capítulo do Gênesis, acrescido do primeiro versículo do capítulo 2, também conta 32 versículos, o mesmo número do valor da palavra “coração” (assento da inteligência), como está em Provérbios 16.21 e 18.15.
  • A história do dilúvio propriamente dita (6.5 a 8.22) compõe-se de duas vezes 32 versículos, mostrando unidade de inspiração e perfeita coesão de todas as articulações de seu conteúdo.
    • Ela se divide em três partes (preparação, dilúvio, apaziguamento), cada uma com quatro cenas de quatro versículos cada, com alguns versículos isolados para resumir ou sublinhar a ação.
    • Na primeira parte (preparação), Deus decide destruir a terra culpada e salvar Noé, que obedece à voz de Deus e constrói a arca.
    • Na segunda parte (dilúvio), Deus diz a Noé para entrar na arca com todos os seres vivos, as fontes do abismo se abrem, e todos os seres vivos desaparecem, exceto Noé e seus companheiros.
    • Na terceira parte (apaziguamento), as águas baixam, Noé solta o corvo e a pomba, Deus lhe diz para sair da arca, e ele oferece holocaustos, encerrando-se com as palavras de Deus de que as sementeiras e a colheita não cessarão.
  • O único herói da história do dilúvio é Deus mesmo; Israel está ausente, a natureza está desolada, os homens são maus, o único justo (Noé) é mudo.
    • Antes do dilúvio, Deus fala duas vezes a Noé; depois do dilúvio, fala duas vezes, mas Noé nunca responde, senão por seus atos, confirmando que é o justo de sua geração, mas apenas em um mundo de pecadores.
    • Deus não é ajudado em sua empresa; a história começa com sua cólera e termina com sua bênção, mas nenhum homem se ofereceu para aceitar a aliança e se tornar colaborador de Deus.
  • Antes do aparecimento dos patriarcas, Deus reconhece seu fracasso com os adâmitas, mas sabe que os noaídas não serão melhores que seus predecessores; a torre de Babel, Sodoma e Gomorra testemunharão isso.
    • Deus abençoa Noé e seus filhos para que sejam fecundos e encham a terra (9.1), mas duas grandes mudanças ocorrem: o mundo não mudará mais (o dilúvio é agora impossível, 8.22), e o homem se tornará um terror para o animal e será carnívoro (9.2-3).
  • O primeiro código de leis na Escritura é o dos noaídas: sete mandamentos (ter magistrados, e proibições de sacrilégio, idolatria, incesto, homicídio, roubo e crueldade).
    • Desde o tempo de Noé até hoje, este é o mínimo de obrigações para um não-judeu; o único preceito positivo é ter uma justiça e se curvar a suas decisões.
    • O não-judeu que aceita os sete mandamentos dos noaídas e os aplica com zelo é um homem piedoso que tem parte na vida eterna, segundo os sábios.
    • As interdições de sacrilégio e idolatria, para os sete mandamentos, repousam sobre a aparição de Deus a Noé, mas a reta razão basta para impor a todos os homens a recusa do incesto, homicídio, crueldade, roubo ou decepção.
  • O dilúvio e a salvação de Noé levaram os sábios a ver um justo em cada noaída que aplica as sete prescrições, enquanto os doutores cristãos viram na arca de Noé uma prefiguração da Igreja, fora da qual não há salvação.
    • A interpretação cristã é teologicamente falsa, e o orgulho dos doutores é grande ao afirmar que os não-cristãos estarão para sempre privados da visão de Deus.
    • No judaísmo, a aliança com Deus não é o privilégio exclusivo de Israel; os justos das nações têm sua parte na vida eterna e no mundo vindouro.
  • A aliança estabelecida com Noé e seus filhos (e por eles com toda a terra) não é um verdadeiro pacto entre duas partes livremente contratantes, pois Noé não promete nada e nada lhe é pedido; é uma graça concedida por Deus a suas criaturas humanas e animais.
    • O termo técnico “cortar a aliança” não é usado na história de Noé; Deus usa os verbos “estabelecer” e “dar” (para o sinal), e, para a aliança, o verbo será suprimido (“a aliança entre mim e ti”, 9.15).
    • Será preciso esperar uma verdadeira aliança com compromisso recíproco (com Abraão, a aliança será efetivamente “cortada” e marcada na carne pela circuncisão).
    • Moisés obtém uma aliança (Êxodo 34.10), e esta aliança, que vem da mais alta antiguidade, nos liga direta e pessoalmente, pois não foi feita com nossos pais, mas conosco, que estamos hoje aqui todos vivos (Deuteronômio 5.3).
  • Após enumerar as raças e povos descendentes de Jafé e Cam, a Escritura dá os nomes dos cinco filhos de Sem: Elão, Assur, Arpachade, Lud e Arã (10.22).
    • Elão habitará além dos dois rios; Assur (a Assíria) fixar-se-á ao norte da Mesopotâmia e submeterá todo o universo até as fronteiras de Judá; Arpachade é avô de Héber, de quem descende a raça profética dos hebreus; Lud habitará a longínqua Lídia; Arã é pai dos arameus.
  • O mistério não se dissipou sobre a origem dos semitas, que se crê serem originários da grande Arábia ou do oeste asiático (país de Amurru), ou que se formaram na parte setentrional do país dos dois rios, onde nômades antes de se tornarem sedentários.
    • Na origem, os dois grupos étnicos (semitas no norte, sumérios no sul) se misturam e interpenetram, sendo impossível traçar qualquer fronteira racial ou linguística.
    • Após a supremacia ter passado sucessivamente de uma cidade a outra, a cidade de Akkad foi fundada pelo grande Sargon, aparecendo pela primeira vez na história os novos povos que não terminaram de transformar o universo: os semitas.
  • O período da história egípcia que vai de Snéfrou (fundador da IV dinastia) a Pépi II (último grande monarca da V) é, sem dúvida, o mais florescente do antigo império (c. 2700 a 2300 a.C.), vendo o poder absoluto do rei-deus no zênite, com as três grandes pirâmides e os mastabas da aristocracia.
    • Durante esses mesmos quatro séculos, na Mesopotâmia, cria-se e desenvolve-se a civilização sumeriana, desde Messilim, rei de Kish, e a primeira dinastia de Ur, até Lougal-zaggizi e a expansão semita de Sargon, o Antigo.
    • Na região do Nilo, a presença dos mastabas ao pé da pirâmide testemunha a importância crescente dos dignitários, cujos cargos se tornam hereditários, e o palácio real abriga as famílias dos dignitários.
    • Ao longo dos séculos, mudanças imperceptíveis transformam o mundo egípcio pela promoção da burocracia, com uma verdadeira armada de altos funcionários que mantêm uma casa privada com seus próprios intendentes, escribas, administradores e chefes de corveia.
    • A estabilidade da monarquia e o florescimento de uma classe dirigente que domina um povo de cultivadores, criadores, pescadores e artesãos termina por enfraquecer a realeza em proveito dos senhores privilegiados do palácio real.
    • Os túmulos da aristocracia se multiplicam ao redor das cidades provinciais, que se tornam centros da administração regional dominados pela nobreza, levando à formação de pequenos países independentes de organização feudal.
    • Pouco a pouco, tudo se transforma: a administração, a economia, depois a política; o rei é ainda, em teoria, o proprietário único de toda a terra de seu reino, mas as grandes famílias se tornam os verdadeiros mestres das aldeias e dos campos.
    • Quando a monarquia se encontra perante uma comoção social no fim do antigo império, o país mergulha na revolução e o Estado, enfraquecido por sua aristocracia, desmorona após o reinado de Pépi II.
  • Enquanto na Mesopotâmia as cidades-Estado da Caldeia começavam sua evolução em sentido inverso (tentando cada cidade impor-se às outras pela força das armas, com uma competição entre o rei e o grande sacerdote), o poder na cidade sumeriana é nitidamente dividido (daí sua fraqueza), sendo essencialmente diferente do do Egito.
    • Na Caldeia, a maior parte da população trabalha para o templo (e não para o domínio real), sendo o templo que mantém o Estado; o poder diferente comanda uma diferença no desenvolvimento da economia.
    • Os sumerianos estabelecem contatos com o resto do mundo mesopotâmio, com os países mediterrâneos e, sem dúvida, hindus.
    • Os habitantes da Caldeia não são guerreiros; sua infantaria é a menos bem organizada da antiguidade, feita para o combate no lugar, facilmente vencida pela mobilidade do guerreiro acádio (arco e flechas).
    • Por volta de 2300 a.C., quando as cidades sumerianas estão unidas por Lougal-zaggizi, Sargon, o Antigo, rei de Akkad, torna-se mestre de toda a Mesopotâmia e, em breve, de toda a Ásia anterior.
  • Nesses anos, terríveis abalos derrubam a organização estabelecida: a Suméria é arruinada, Tróia desmorona, o antigo reino dos faraós se desmorona ao mesmo tempo que o jovem império da Suméria.
    • O grande império semita é fundado, estendendo-se do Golfo Pérsico ao Mediterrâneo, abrangendo todos os países mesopotâmios, Elão, Síria, Fenícia, talvez parte da Anatólia e Chipre, durando mais de cem anos.
    • Este período de unidade mesopotâmica, por mais instável que tenha sido, é a primeira tentativa de unificação do mundo conhecido, de um império mundial, criando o primeiro verdadeiro Estado (que não depende mais do templo) com uma administração central e um exército.
    • O último golpe ao poder dos padres é desferido por Naram-Sin, neto de Sargon, que traz sobre seu elmo os dois chifres, símbolo de sua divindade.
  • De Naram-Sin (o deus de Akkad, rei dos quatro países) até Hamurabi, que funda o primeiro império babilônio, decorrem mais de meio milênio (c. 2300 a 1730 a.C.).
    • Nesse intervalo, a Suméria retoma a supremacia por um curto período, Akkad desaparece no grande império de Babilônia, os Guti se tornam mestres desses territórios e são expulsos, e os Amorréus invadem as ricas planícies dos dois rios.
    • Apesar da passagem dos séculos, nada muda no modo de vida da Mesopotâmia: o homem permanece o escravo do homem e da terra, com agricultura e criação baseadas num sistema complicado de irrigação.
    • É nesse cenário que nascerá nosso pai Abraão.
  • A história da torre de Babel (11.9) ensina que o curso da história é uma constante ascensão dos impérios seguida de seu desmoronamento, formando-se do limo da terra e do sangue das gerações, tornando-se monstruosos e depois se deslocando em um piscar de olhos.
    • Antes do fim do segundo milênio da criação, uma torre deveria ser construída de comum acordo para tocar o céu, mas o Senhor confundiu sua língua e eles foram dispersos.
    • Poucos anos depois, recomenda-se o movimento ascendente da centralização real; em 1730 a.C., Hamurabi (sexto rei de sua dinastia) unifica a Mesopotâmia sob a dominação da Babilônia, e Enlil (velho deus de Nippur) desaparece, cedendo lugar a Marduk, o grande deus da Babilônia.
    • É nessa época que nascerá nosso pai Abraão.
  • A história de Abraão será o terceiro começo: o primeiro foi Adão (abençoado para encher toda a terra, mas sua maldade fez fracassar o projeto divino); o segundo foi Noé (abençoado para encher toda a terra, mas os homens tiveram o mesmo pensamento sacrílego e Deus os dispersou).
    • Depois de dois fracassos sucessivos de um reinado universal, Abraão não terá mais por bênção encher toda a terra, mas tornar-se a cabeça de uma linhagem.
    • Deus não confia mais na humanidade, mas em um só homem e em seus descendentes: “Serei teu Deus e o de tua posteridade depois de ti” (17.7).
    • Abraão será fecundo ao infinito e nações sairão dele (17.6), mas ele não tem mais que dominar a terra como Adão nem enchê-la como Noé.
    • O projeto de Deus não é mais alargar sua aliança sobre toda a face da terra, mas aprofundá-la no tempo pela eleição de uma raça de homens que aceitarão essa aliança e serão suas testemunhas.
  • Na primeira parte da Escritura antes do nascimento de Abraão, Deus não pede coisas difíceis aos homens – simplesmente que sejam humanos; os comentadores mostram que o mal provém essencialmente de os homens pecarem contra os homens pela violência (6.5, 6.13).
    • Cada pecado do homem em relação a seus semelhantes atinge indiretamente Deus, como aparece a propósito do povo de Sodoma (13.13), mas o acento da Escritura é colocado nas relações dos homens entre si, que só elas importam, pois só elas perturbam a ordem do mundo.
    • É nesse sentido que se deve compreender que o clamor contra Sodoma e Gomorra tendo-se aumentado, o Senhor desceu para ver se os maus das duas cidades tinham efetivamente agido segundo a rumor que subiu ao céu (18.20-21).
    • Pede-se pouca coisa à geração do dilúvio, à de Babel, à das cidades da planície, e somente uma recusa obstinada era sua resposta; mas a Abraão será pedido muito mais (separar-se do que ama, expulsar Ismael, sacrificar Isaac), e é porque Abraão aceita todas as provas para si e pede graça para os outros que a fidelidade, a retidão, a abnegação e a santidade poderão fazer sua entrada no mundo.
  • Os dois primeiros fracassos da empresa divina provam que só os homens – e não Deus – podem estabelecer a cidade de Deus numa sociedade humana; Deus precisa do homem tanto quanto o homem precisa de Deus.
    • A possibilidade metafísica de uma opção postula o mal sobre esta terra, mas a ação perseverante de um justo apaga o mal, e a aparição de Abraão é o penhor de uma melhor partida neste terceiro e último começo.
    • A Escritura sugere que, com a eleição de Abraão, Deus admite ele mesmo as imperfeições de sua obra e aceita ser ajudado pelo homem para repará-las.
    • Dessa ideia decorre a aliança: Deus promete, mas antes de aceitar um compromisso formal, o homem lhe pergunta: “Que me darás?” (15.2), e Deus lhe concede uma posteridade (15.5); então Abraão teve fé no Senhor, e ele lhe imputou isso como justiça (15.6).
    • Esse versículo capital sela o pacto entre Deus e o homem, que engaja ambos pela eternidade: sem Deus, Abraão não pode ter uma posteridade bendita; sem a ajuda do homem, Deus não pode restaurar sua obra.
  • Deus precisa do homem tanto, e talvez mais, do que o homem precisa de Deus; o pacto que Deus propõe se choca, durante as primeiras gerações, com a recusa obstinada do homem ou com seu silêncio.
    • Adão se cala quando Deus significa uma interdição (2.16), não se dirige a Deus para agradecer a ajuda que lhe é dada (2.18), e não responde sim quando Deus pergunta se comeu da árvore (3.11).
    • Caim se cala quando Deus lhe dirige a palavra (4.5-6), mente quando Deus lhe pergunta onde está seu irmão, e não busca contato com Deus.
    • Deus fala a Noé antes e depois do dilúvio, e Noé nunca responde; o pacto será estabelecido por Deus com todas as criaturas sem a intervenção de Noé.
    • A geração de Babel ignora Deus; os homens falam entre si (11.3-4), Deus fala também (11.7), mas nunca há diálogo.
    • A palavra de Deus sem a resposta do homem é a impossibilidade teológica de Deus, a ausência de um Deus metafísico.
    • Abraão falará com Deus; pela primeira vez, Deus aparecerá ao homem (12.7); a primeira verdadeira reunião de Deus e do homem se faz na pessoa de Abraão.
    • A palavra de Deus com a resposta do homem é a possibilidade mística de Deus, a presença do Deus vivo.
  • “Estabelecerei minha aliança entre mim e ti e te multiplicarei ao infinito” (17.2): a aparição de Deus a Abraão testemunha a vontade divina deliberada de se encontrar na intersecção do primeiro sentimento monoteísta e do primeiro sonho universal.
    • O sentimento monoteísta é a presença do homem sozinho diante de Deus sozinho (“entre mim e ti”); o primeiro sonho universal é que todos os homens possam aceder a esse grau (“te multiplicarei ao infinito”).
    • O universal é Abraão e não Babel; os homens de Babel aspiram a se reencontrar, a se fundir de novo uns nos outros e a retomar a construção da torre, porque é terrível ficar destacado dos outros, sozinhos com Deus, para ouvir tremer no fundo de si mesmo essas duas palavras da aliança divina: “entre mim e ti”.
  • A torre de Babel constantemente se interpõe entre o homem e Deus; enquanto se participa de sua edificação, tudo é claro e alegre no esforço de um trabalho coletivo, e o abismo está ausente, pois a torre continua a subir.
    • De repente, entre aqueles que foram multiplicados ao infinito (à imagem de Abraão), um construtor para, a colher de pedreiro na mão, ouve a palavra da aliança (“entre mim e ti”), e a torre sob seus olhos desmorona, e eis o abismo diante dele.
  • A raça de Abraão não é apenas diferente da coletividade de Babel, ela lhe é oposta: os homens de Babel buscam atingir Deus por meios materiais e todos juntos; os descendentes de Abraão, por meios espirituais e cada um separadamente.
    • A coletividade de Babel crê poder estabelecer sua ligação com Deus pela Torre, pelo Panteão, pela Igreja ou pela Internacional; a posteridade de Abraão sabe que não há outro meio senão o trato direto e pessoal com Deus.
    • Os homens de Babel precisam de mágicos, pontífices, padres ou delegados; a posteridade de Abraão é composta de homens consagrados que dispensam intermediários, como está escrito: “Vós vos santificareis e sereis santos” (Levítico 20.7).
  • Toda verdadeira comunidade se edifica sobre uma parentela espiritual, mas a ausência de relações fraternas entre os homens conduz a Babel.
    • Os homens de Babel buscam atingir fins espirituais por meios materiais; nisso, sua empresa é fútil e impossível, pois o espírito só pode ser obtido por meios espirituais.
    • Não há meio termo entre a loucura e a impossibilidade; Abraão e sua posteridade devem realizar o impossível.
  • O trecho consagrado a Babel está situado entre duas genealogias (a dos filhos de Noé e a dos filhos de Sem), que traçam uma linhagem de homens uns descendentes dos outros; a primeira termina em Babel, a segunda dela decorre.
    • Para uma como para outra, o epicentro é Babel, que subentende uma reunião de homens seguida de um esparramamento, e um ajuntamento que preludia uma nova dispersão.
    • A história começa em Abraão, cuja posteridade ignora Babel.
  • A comunidade da qual Abraão é o pai é fundada na tradição; a tradição é a história em potência como a história é a tradição em ato.
  • O espaço só conta para o pagão; é o tempo que importa ao judeu; a natureza foi oposta à cronologia; as nações vivem na geografia, Israel na história.
    • Antes de Abraão, todas as precisões que a Escritura dá são espaciais (localização do jardim do Éden, a terra de Node, as montanhas de Ararate, Sinear, Nínive, Canaã).
    • É somente a partir de Abraão que a história se ordena; já não são homens anônimos que se dispersam sobre a terra para povoá-la, mas um só homem que percorre diversos países (Ur, Harran, Canaã, Egito, Mamré, Bersabéia), e sua história é que importa.
    • A história começa com Abraão para terminar com o Messias; é Israel que os liga como uma ponte sobre o grande precipício das nações.
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