A tradição da literatura mística alemã exibe uma multiplicidade de subdivisões internas quando submetida a um primeiro exame histórico.
Os místicos alemães costumam ser divididos entre autores do período medieval ou pós-medieval, ou classificados sob os rótulos de católicos e protestantes.
O quadro reúne pensadores de elevada erudição acadêmica ao lado de autores leigos catalogados como desprovidos de instrução formal nas escolas.
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O sapateiro místico Jacob
Boehme e a escritora medieval Hildegarda de Bingen figuram no grupo dos autores leigos ou iletrados.
A história registra o contraste aparente entre duas orientações místicas que parecem mover-se em direções diametralmente opostas.
A primeira orientação foca-se na experiência interior profunda, seguindo as pegadas metodológicas de Mestre
Eckhart.
A segunda orientação volta-se para a contemplação da natureza exterior como corporificação da presença divina, conforme o modelo de Jacob
Boehme.
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Valentin
Weigel transcende as divisões historiográficas tradicionais, indicando que os contrastes intelectuais constituem facetas de uma unidade em evolução.
O autor luterano recolhe conceitos derivados de fontes católicas medievais e funde seus impulsos com as premissas de uma perspectiva protestante.
Valentin
Weigel antecipa o sistema de Jacob
Boehme ao harmonizar a interioridade de
Eckhart com a contemplação da natureza herdada de Cusa e
Paracelso.
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As obras weigelianas validam a autoridade espiritual do homem comum voltado para a aplicação prática da doutrina na imediatez da experiência vivida.
O capítulo vinte e quatro de Der güldene Griff demonstra como os sentimentos de desespero gerados por conflitos históricos atuam como catalisadores da inspiração mística.
Os escritos de Valentin
Weigel evidenciam como condições históricas específicas impulsionaram e definiram a busca mística pelo plano eterno.
O estudo desse contexto preserva relevância pelo fato de a experiência cultural e histórica de Valentin
Weigel apresentar paralelos com o mundo contemporâneo.
A era do autor caracterizou-se por um ritmo acelerado de transformações em todas as esferas da existência social.
A física aristotélica que explicava o mundo natural sofria profundas alterações decorrentes de inovações nos campos da astronomia e da alquimia.
A alquimia funcionava na época como a disciplina precursora da ciência química moderna.
O desenvolvimento da cosmografia era impulsionado pelos relatórios das novas explorações geográficas ultramarinas.
O cenário contemporâneo carecia do estabelecimento de um novo consenso ou ordem estável nos planos da natureza, da religião ou da política.
As inovações nas áreas da teologia e da crítica bíblica tiveram seu impacto social ampliado por uma nova tecnologia de informação.
A Reforma Protestante impulsionada pela revolução da informação colocou os indivíduos perante a escolha de manter as antigas doutrinas ou abraçar os novos dogmas.
O entusiasmo reformador inicial esfacelou-se em um processo de fragmentação interna que azedou as disputas por meio de recriminações mútuas.
O sentimento de entusiasmo primitivo cedeu lugar a uma crise de consciência instalada no espírito dos pensadores mais reflexivos daquela geração.
Os escritos legados por Valentin
Weigel destacam-se como produções de elevada lucidez teórica e caráter inovador dentro do cenário de crise da época.
A engenhosidade e a sutileza do autor funcionam como lembretes de um dilema compartilhado no esforço de manter a fidelidade à verdade respeitando crenças divergentes.