Theosophia — Sebastian Franck (1499-1542)
Koyré, Alexandre. Místicos, Espirituais e Alquimistas do Século XVI Alemão. São Paulo: Editora Unesp, 2017.
O Afastamento de Sebastián Franck em Relação a Lutero e ao Luteranismo
O afastamento de Franck em relação a Lutero não foi motivado apenas pela oposição à fé implícita e à “fé do carbonero” que acreditava por ordem, mas teve raízes mais profundas em sua personalidade.
Franck criticou amargamente a “traição” de Lutero e demonstrou, em sua exposição das doutrinas do reformador, a oposição entre seus primeiros e últimos escritos.
O desastre dos partidos avançados da Reforma, a inquisição, a repressão sangrenta dos anabaptistas e a substituição do “espírito” pela “letra” o inclinaram a admitir o fracasso da Reforma.
As perseguições que sofreu o levaram definitivamente para as fileiras dos inimigos de Lutero.
A ideia de uma justiça imputativa e de uma justificatio ab extra lhe pareceu a negação do próprio princípio da religião.
Na luta entre os partidários do “espírito” e os da “letra”, Franck se alinhou necessariamente contra os últimos, embora não estivesse inteiramente ao lado dos primeiros.
A Natureza do Pensamento de Sebastián Franck como um Solitário e “Primeiro Homem Moderno”
Franck foi um solitário que jamais viveu as questões do pecado e da salvação da mesma maneira que Lutero, buscando no movimento da Reforma uma espiritualização da vida religiosa e moral.
Para ele, a vida religiosa e a vida moral não se separavam, e ele não parece ter compreendido a grandeza ou a tragédia da concepção luterana.
Seguiu Lutero em sua luta contra a Igreja, mas se separou quando viu que Lutero não estava disposto a abandonar a ideia de uma Igreja visível dispensadora de ensinamentos, graça e sacramentos, pois para Franck toda organização exterior da vida religiosa carecia de valor.
Chamado de “primeiro homem moderno” por Dilthey, não era homo religiosus como seus contemporâneos, nem um homem de ação ou pensamento, confundindo sua religião com a moral.
Seu “misticismo” era uma metafísica mais pensada do que vivida, uma filosofia que não era experiência; ele carecia de grandeza, não era muito original nem profundo como filósofo, sendo mais um compilador que sofreu diversas influências.
Suas leituras (santos padres, místicos alemães, reformadores, clássicos e humanistas) se confundiram em um misticismo espiritualista onde o humanismo cristão e o estoicismo se encontravam, resultando em um mosaico sem grande profundidade ou erudição.
A Concepção de Deus em Sebastián Franck: Bondade, Imanência e Panteísmo
O Deus de Franck é próximo, amável e doce, sendo visto antes de tudo como o Bem substancial (eine wesentliche Güte), uma força infinita do Bem infinito que criou e mantém o mundo e o homem.
Franck estava tão cheio da ideia de Deus como bondade e providência que lhe parecia inata à consciência humana, levando o homem naturalmente a crer em Deus e a amá-lo com um amor confiante e filial (confidere in Deum).
Apesar de aceitar as doutrinas místicas e teológicas que afirmam que Deus não pode ser definido e é superior a toda noção, sendo aplicável apenas por negações (espersonlos, wirklos, affectlos), ele se humaniza por e para nós.
Em si mesmo, Deus é superior aos conceitos e definições, não sendo nada de definido nem determinado, pois não tem fim nem termo; ele é o Nada e é o Ser mesmo, a Substância de toda substância, a Natureza de toda natureza, o fundamento do Universo e a fonte da natureza.
Embora não tema o panteísmo, o Deus de Franck não se confunde com o mundo; ele é Espírito (selbständiger Geist) e, mais do que isso, é amor e amor eterno.
A Visão de Franck sobre o Homem, o Pecado e o Livre-Arbítrio
O homem, como imagem e semelhança de Deus, é por natureza bom, pois Deus se revela nele e para ele, deixando impressas as marcas do Criador em sua natureza.
Embora o homem tenha pecado e seu esplendor primitivo se tenha ensombrado, o mal e o pecado não puderam macular sua essência; a substância do homem permaneceu boa, sendo o pecado um “acidente”.
Com sua fé tranquila e seu sentido moral, Franck jamais admitiu a perversão total do homem ou a doutrina do servo-arbítrio, permanecendo fiel a Erasmo contra Lutero e Zwinglio.
O homem é livre, pode fazer o mal e o bem, e Deus não o condenou por um decreto arbitrário, pois sem liberdade moral e metafísica não haveria responsabilidade nem justiça divina.
Franck formulava as relações entre Deus e o homem com base em categorias morais, mantendo-se frio diante das afirmações luteranas sobre a impotência e perversão total do homem, convencido de que a onipotência e onisciência divinas se conciliam com a liberdade total do homem.
A Distinção e Relação entre Deus, Mundo e Natureza em Franck
Embora Deus seja a natureza de toda coisa, a coisa não é menos distinta de Deus, pois sua própria natureza, que é sua capacidade de agir e padecer como Deus a criou, lhe confere uma substancialidade e um ser próprios.
A infinitude de Deus, presente e agente em toda parte no mundo, não implica a absorção do mundo por Deus, assim como a luz não se confunde com o ar ou os objetos que ilumina.
Deus enche o mundo, mas não está no mundo; é antes o mundo que está em Deus, como o ar no qual se vive, se move e se existe, sendo tudo (céu, terra, inferno) em Deus, e tudo é bom na medida em que participa do ser divino, inclusive o
Diabo.
Franck via o mundo como uma expressão natural e uma revelação natural que revela o Criador, sendo toda revelação “natural” em grau eminente, pois a própria natureza de Deus, que é Amor, implica sua revelação às criaturas capazes de recebê-la (capazes Dei).
A Revelação Natural e a Crítica ao Schriftprincip dos Reformadores
Para Franck, a ideia de revelação natural está implicada pelas próprias noções de homem e de Deus, pois um ser sem a ideia de Deus não seria homem, e ele invocava o texto de São João sobre a luz que ilumina todo homem e
Tertuliano (anima naturaliter est christiana).
Um Deus todo bondade e amor não poderia deixar de se revelar aos homens nem esperar séculos para se revelar parcialmente por meio da Escritura a um grupo restrito, pois isso seria limitar Deus e torná-lo “parcial”.
A eternidade divina implica sua manifestação contínua, pois Deus sempre se revelou aos homens, nunca se ocultando deles, embora seja incognoscível e incompreensível por ser infinitamente superior às forças da inteligência.
Deus não é o Deus escondido (Deus absconditus) que vive em mistério inacessível, mas Luz e Espírito eminentemente presente no espírito que ilumina.
A Relatividade das Formas Concretas de Religião e o Valor da Letra e do Espírito
A infinitude divina implica a relatividade de todas as formas concretas de religião, que são imperfeitas por serem exteriorizações temporais do espírito e representarem Deus não como ele é, mas como aparece ao homem em condições históricas dadas.
Nenhuma letra ou forma expressa adequadamente o espírito, pois na representação e no conhecimento humano tudo é relativo: tal homem, tal povo, tal Deus.
Franck falava de “pagãos iluminados” (erleuchute Hayden) e buscava a revelação divina tanto em Cícero, Sêneca, Platão ou Plotino quanto no
Evangelho.
Se todo conhecimento de Deus é uma revelação, sempre houve cristãos antes da vinda de Cristo e os há hoje entre pagãos, papistas, judeus e muçulmanos que, embora reneguem o Cristianismo exterior, permanecem fiéis ao Espírito de Deus, ao Logos, ao Cristianismo interior.
A Interpretação Simbólica de Adão, Cristo e a Redenção
Adão e Cristo não são meros fatos históricos, mas fatos simbólicos e humanos: Adão é o homem, a humanidade inteira, cada um de nós; Cristo é Deus e é mais uma vez a humanidade.
Do ponto de vista moral, é absurdo crer que a queda de Adão implicou a condenação de toda a humanidade, pois ninguém pode ser justamente condenado pelos atos de outro, e Deus não criaria homens para a condenação.
A natureza humana não está completamente pervertida; todo homem é pecador, mas o pecado não empata sua natureza, e se Adão está em cada um, Cristo também está como a Luz interior, o Espírito, que é nós mesmos e nos salva e justifica, não ab extra.
O centro do Cristianismo não é a Redenção como fato histórico único, pois seria uma tolice admitir que Deus se enfureceu e precisou de um sacrifício para aplacar sua cólera, já que Deus é amor e sempre nos amou.
Crítica à Justificação pela Fé e a Perda de Valor da Igreja
Franck considerava absurdas as doutrinas da justificação vicária e da justificação pela fé, pois uma crença meramente intelectual em um fato histórico que não transforma moralmente a pessoa não poderia ser “levada em conta” por um Deus justo.
Para ele, a ideia de Igreja havia perdido todo valor, pois Deus age diretamente sobre a alma, sendo quase uma blasfêmia vincular sua ação aos sacramentos.
A
Bíblia não tinha para Franck o valor de única revelação real de Deus, e a eficácia do rito era um erro do homem exterior; atar o espírito por meio da obrigação do batismo, da pregação e da comunhão era um erro.
A
Bíblia, tomada ao pé da letra, é um entremeado de erros, contradições e coisas imorais, não valendo mais, do ponto de vista moral, do que Ovídio ou Tito Lívio.
A Escritura como Paradoxo e a Natureza Dupla da Realidade
Embora as opiniões humanas sejam relativas e falsas por se afastarem da verdade espiritual, a verdade é uma, o espírito é um, e a verdadeira religião, a do espírito e da verdade, é uma, sendo as múltiplas religiões falsas na medida em que se particularizam e se tornam “heresias”.
A Escritura não se contradiz; ela ironiza, faz paradoxos e é ela mesma uma paradoxo, sendo verdadeira de uma verdade superior porque a realidade é paradoxal.
O mundo, como o homem, é duplo: o mundo interior e o mundo exterior, o mundo da realidade profunda e o mundo da aparência, que são reais de maneiras distintas e falsas, correlativas ao homem exterior e carnal.
O homem é um microcosmos que representa o grande, e os dois “mundos” se opõem e se negam: do ponto de vista do mundo carnal, a verdade do espírito é loucura, e vice-versa.
A Verdadeira Igreja de Deus como Comunidade Espiritual e a Rejeição do Sectarismo
Se o verdadeiro sentido da Escritura é simbólico e espiritual, não há Igreja exterior, mas apenas a verdadeira Igreja de Deus, a comunidade espiritual de verdadeiros crentes disseminada entre pagãos, turcos, judeus e falsos cristãos.
Franck repudiava toda separação e toda nova formação de comunidade “exterior” de “eleitos”, distinguindo-se dos espiritualistas sectários de seu tempo.
Em sua “Igreja” ampla havia lugar para Sócrates,
Orígenes e os “heréticos” que ele amava em sua Ketzercbronik, pois lhe pareciam campeões do princípio da religião espiritual, da liberdade e da convicção pessoal.
Não havia lugar para os “sectários”, “santos”, “eleitos” e “predestinados”, pois a “heresia predestinacionalista” implicava a responsabilidade divina e fazia de Deus a fonte do mal.
A Natureza do Mal como Negação e a Tentativa Fracassada do Ser Finito
Franck aceitava a teoria tradicional que identifica Deus com o Ser e reduz o mal a uma negação, preocupando-se mais com o mal do que com o pecado, e não tendo o sentimento agudo da potência e realidade do pecado como Lutero.
O pecado não é nada além de uma negação, uma perversão e uma ausência, pois para Deus só existe o ser; essa essência negativa do mal explica como o homem, embora livre, pôde ser seu autor, já que o pecado é uma diminuição do ser, um “acidente”.
O homem, criado do nada, voltou-se para si mesmo em vez de se voltar para Deus, tornando-se egoísta e carnal, mas não pôde destruir sua substância, que permaneceu boa.
O pecado foi uma tentativa (unmützes Konat) do ser finito de se separar de Deus, mas essa tentativa não teve sucesso nem poderia ter, pois Deus o mantém no ser; assim, metafisicamente, nada mudou: o pecado existe para o homem, mas não para Deus.
O Papel da Liberdade Humana e da Ação da Graça na Salvação
Franck foi acusado de pelagianismo e sinergismo por insistir no papel da liberdade humana, mas afirmava simultaneamente a ação total da graça e a liberdade completa do homem, dizendo que a vontade é “sempre livre e sempre serva, potente para tudo e impotente para tanto” (semper libera et semper serva, potens omnia e impotens tantum).
Deus age sempre no homem como o homem quer que ele aja, ou melhor, como o homem quer agir; assim, o homem é livre para se condenar ou se salvar, pois é o homem quem permite que Deus, o Cristo interior, o Espírito,
o Logos, aja nele.
O homem, ao se voltar livremente para o eu profundo que é a expressão de Deus (imago Dei), permite que Deus aja nele, acenda a luz interior e o afaste do mal que ele mesmo adotou por sua vontade.
O homem pode fazer o vazio em si mesmo, abandonar o “Adão” (von sich selbst ablassen), destruindo o que o pecado acumulou na alma, e então Deus nasce na alma e cuida de seu renascimento espiritual e reintegração.
O Processo de Regeneração (Wiedergeboren) e a Identificação com Cristo
Embora o mal e o pecado tenham a realidade de acidentes criados pela alma, é a própria alma que pode reduzi-los à nada, momento em que o Espírito, Cristo, Deus, se lhe outorga, regenera-a, esclarece-a e a faz viver.
Esse processo não é a ação transcendente de uma causa exterior, pois o quid divinum, a graça que regenera a alma, está nela mesma; o Cristo interior é a imagem divina, a luz natural e inata, que é reavivada por Deus.
Pode-se dizer que a graça faz tudo e que o homem exterior nada pode ou quer fazer, mas também que é o homem interior, a imagem de Deus, que se despoja do si mesmo exterior graças à luz que há nele e que recebeu de Deus.
O homem interior, vitorioso sobre Adão, identifica-se com Cristo, assim como se pode dizer que é Cristo quem age nele; dizer que o homem é regenerado equivale a dizer que Cristo nasceu nele, pois a alma que alcança o desprendimento (Gelassenheit) abdica de sua própria vontade e permite que Cristo viva nela.
A Identidade e Distinção entre Deus e Natureza na Metafísica de Franck
Franck identifica Deus e a natureza e os distingue resolutamente, o que é um “paradoxo” que, em termos modernos, refere-se à identidade do diverso, construída sobre a noção de expressão.
A noção de expressão permite identificar a expressão com o que ela expressa e, ao mesmo tempo, distingui-la radicalmente, o que possibilita distinguir entre Deus em si, não expresso, e Deus expresso, e identificá-los novamente.
A expressão é essencial ao que se expressa, mas não modifica a natureza do ser expressado, que permanece “fora” e “superior” à sua expressão, a qual jamais pode expressá-lo inteiramente.
Deus em si, a divindade, como tal, não é nada, não se conhece porque só se pode conhecer aquilo que é algo, e o ato de conhecimento de si indicaria uma dualidade e separação que não tem lugar na unidade absoluta.
O Autoconhecimento de Deus e a Filosofia da História de Franck
Deus se conhece por e em sua imagem (o homem) na medida em que se reflete na criatura; se conhece como aquele que age e se expressa na medida em que age; e se conhece a si mesmo no ato pelo qual as criaturas o conhecem, sendo Deus o verdadeiro sujeito desse ato e identificando-se as criaturas com ele nesse ato.
A filosofia da história de Franck é simples: a história é uma segunda ou terceira
Bíblia (sendo o livro da natureza uma delas), e suas Crônicas demonstram a ação de Deus e da providência divina na história.
A história perde seu sentido histórico e se torna um símbolo intemporal, onde não há desenvolvimento entre criação, encarnação e juízo final, mas sim a luta eterna entre Adão e Cristo, o espírito e a carne.
Franck via na história a luta perpétua entre o egoísmo, o mal, o pecado, a carne e o “mundo” contra o espírito de amor e abnegação; os povos se combatem movidos pela paixão do ganho, da potência e da dominação, e forças internas a cada nação lutam contra o espírito, a liberdade, a tolerância e o amor.
A Visão de Franck sobre as Formas Sociais, o Poder e a Igreja Invisível
Franck não era partidário da “natureza social” da sociedade e do estado, pois para ele, todas as formas sociais baseadas na força e na opressão são de natureza adâmica, tendo sido fundadas pela queda e pelo pecado.
O papado e o império não são formações acidentais; sua estrutura é eterna e aparece sempre que o espírito é derrotado pela matéria, sempre que Cristo sucumbe diante de Adão.
Os homens não suportam a liberdade e buscam se ajoelhar diante de alguém para se liberar das obrigações impostas pela liberdade e pela verdadeira moral, buscando sua salvação na intolerância, nas percussões, cerimônias, ritos e sacrifícios.
Toda atividade que não é espírito pertence ao tempo e está fadada ao nada, como o poder dos romanos que edificaram algo nunca antes visto, mas que já não existe mais; diante desse espetáculo de lutas eternas sem meta e sem significação, Franck exclama: “Que miséria! Seria para chorar se levássemos a sério… mas não passa de uma comédia.”
O consolo de Franck é que, apesar de tudo, o espírito é eterno, e Deus eternamente se revela aos homens, oferecendo os tesouros de sua bondade, amor e graça; sempre houve homens cuja alma foi iluminada pela luz divina, que adoraram a Deus em espírito e verdade, e que, embora sempre perseguidos, formam a Igreja invisível e eterna, à qual Franck declara pertencer e da qual ninguém o separará.