HOMEM

FAIVRE, A. Eckartshausen et la théosophie chrétienne. Paris: C. Klincksieck, 1969.

O coração sem o espírito só comete erros,

    O espírito sem o coração só causa infelicidades,
    O espírito com o coração produzem todas as nossas felicidades.
  * Suficiência do conhecimento prático validado pela experiência e utilidade na maior parte do tempo, sem necessidade de uma precisão extrema.
  * Crítica ao orgulho dos filósofos que determinam o conhecimento puro a partir dos sentidos sem observar a progressão das coisas, esquecendo o estado de degradação e a perda tanto na inteligência quanto na vontade.
  * Proposta de busca pela verdade por meio de três graus de conhecimento: no físico, no espiritual e no divino.
  * Descrição da incapacidade atual de contemplar a Luz e a verdade nua como a nuvem sobre o santuário, comparando a grosseria da matéria que envolve a parte espiritual à fragilidade intrínseca do vaso de argila.
  * Identificação da inflexibilidade das fibras e a imobilidade dos humores como correntes materiais que sufocam a voz da verdadeira razão devido ao barulho dos elementos da máquina corporal, assemelhando-se a nuvens que obscurecem o sol.
  * Refinamento apenas do homem-animal pelo ápice da cultura até o momento, com o anúncio do início de um período de maior necessidade de luz e razão.
  * Comparação da situação atual à de paralíticos dependentes das muletas da razão natureza — que exibe a aparência no lugar da verdade — e do sentimento natural — que faz escolher o mal pelo bem.
  * Representação da vontade como o boi atado ao jugo das paixões e da razão como a alma que acolhe preconceitos e tolices, necessitando receber luz do alto.
  * Simbolismo da centelha sagrada humana pelo fogo que devora o holocausto, a qual teria resplandecido no Templo da criação se o homem não tivesse se afastado do seu objetivo.
  * Menção, em correspondência a Jung-Stilling, a uma faculdade superior à razão com formas, meios e métodos próprios, cujos meios de conhecimento são formas originais ligadas às ideias primordiais da divindade.
  * Visão dos objetos do mundo espiritual pelo olho interno sob a luz da divindade por meio da progressão e da proporção.
* A análise da razão humana introduz a compreensão de duas outras faculdades essenciais: a vontade e a imaginação.
  * Alteração da vontade humana, exigindo pensar e querer em Deus para atuar no relacionamento correto, renascendo na vontade divina para receber sua energia.
  * Definição da vontade como o primeiro direito e o elo entre os Espíritos e Deus, com a liberdade divina caracterizada por uma vontade que não pode ser mal empregada, ao passo que a das criaturas comporta o abuso.
  * Contraste entre o reino das forças superiores, onde a vontade se exerce sem intrigas, e a realidade dos grandes do mundo terreno.
  * Dependência da recepção da luz do alto em relação ao aperfeiçoamento da vontade, que permanece como uma centelha secreta capaz de assemelhar-se à luz solar.
  * Subordinação da inteligência à Fé, do coração à Esperança, e da vontade à Caridade, compondo-se a grande cadeia dos seres de membros com vontade pura.
  * Instrução da alma pela presença divina sobre as ações necessárias para agir em conformidade com Sua vontade, exigindo atividade espiritual pelo fato de o fogo que repousa sob a cinza ser um fogo morto.
  * Atribuição da felicidade mais às ações do que à ciência, definindo-se a vontade como o órgão da razão que conecta o espírito à alma e a alma ao coração.
  * Valorização da imaginação pela capacidade de extrair o simples do múltiplo, unindo e assimilando imagens quando segue a ordem das coisas, ou gerando erros e extravagâncias caso contrário.
  * Consideração da imaginação, do julgamento, de la inteligência, da memória e do pensamento como progressões de uma única força da alma necessária para a relação com o corpo, as quais retornam à fonte onde não há tempo nem imagens.
  * Recomendação de moralizar a imaginação, considerada a inimiga mais perigosa da razão quando desregulada, pois o coração não pode ser moral se a imaginação não o for.
  * Definição dessa faculdade como mais ativa do que passiva, sendo a fonte de todas as invenções e das impressões agradáveis ligadas às artes, com consequências às vezes mais duradouras que as sensações reais.
  * Advertência para a necessidade de pensar mais com a razão do que com a imaginação, com o ser humano sendo mais ativo do que pensante, cabendo à razão fechar os ouvidos às sereias enganosas.
  * Exigência de manutenção de uma imagem precisa da ordem universal para harmonizar as modificações internas e externas aos deveres de homem, cidadão, patriota, cristão e imortal.
  * Caracterização do excesso da imaginação como sinal de decadência quando esta supera a vontade e a razão, embora seu uso consciente permita realizar feitos extraordinários.
  * Visão e audição durante os sonhos sem necessidade de olhos e ouvidos, explicando-se o mistério do sonambulismo e do sono magnético através da vibração que a alma exerce sobre os nervos.
  * Relato da narrativa de um sonho sob a forma de poema por Eckartshausen, que por vezes encara a vida real como um mau sonho do qual desejaria despertar, um tema recorrente no romantismo alemão.
  * Vínculo entre fenômenos do inconsciente e fatos sobrenaturais ou manifestações suprasensíveis, com imagens registradas pelo espírito modificando ações sem a intervenção da reflexão consciente.
  * Ilustração do impacto de cores e imagens na reconciliação de indivíduos, como no caso do funcionário orientado a usar um traje verde e uma rosa para agradar o chefe, ou do casal reconciliado após a eliminação de um perfume com musgo, indesejado pelo marido.
  * Narrativa sobre a dama que readmitiu um antigo doméstico após Eckartshausen posicionar o retrato do falecido amante dela ao lado da caixa de pagamento, demonstrando a eficácia prática dessas teorias psicológicas.
* As concepções antropologicamente relevantes de Eckartshausen sobre o homem atual — a humanidade após a queda — concentram-se nos problemas psicológicos e caracterológicos e na teoria da linguagem.
  * Remessa das questões morais para o estudo sobre o homem e a sociedade, por estarem ligadas apenas indiretamente à visão fundamental da antropologia.
  * Dependência da psicologia em relação à compreensão dos laços entre alma e corpo, constituindo os elementos ar e fogo um corpo etéreo denominado corpo da alma ou esquema de percepção.
  * Comparação do caminho da alma ao corpo à transição da luz ao crepúsculo, reforçando a premissa de que nenhum domínio está isolado.
  * Definição dos órgãos dos sentidos como filtros que conduzem partículas grossas à unidade do espírito e da alma, a qual possui faculdades excepcionais por ocupar a última posição na cadeia dos Espíritos.
  * Condicionamento da vida interior à constituição e às circunstâncias, exigindo que o tratamento do homem o considere um organismo conectado ao grande espírito da natureza.
  * Vínculo entre a saúde moral e a saúde física ou a ciência das sensações, que ensina a suportar a dor e a aproveitar a alegria, com o verdadeiro prazer devendo ligar-se à alma e não apenas aos sentidos.
  * Denominação de ciência das sibilas para a arte de prever ações humanas e adivinhar pensamentos secretos por métodos naturais.
  * Apresentação do quadro caracterológico relacionando temperamentos, elementos, cores, paixões e sangue:
    * Sanguíneo — Ar — Brilhante — Leviandade — Claro
    * Fleumático — Água — Branca — Indiferença — Blanquecino
    * Colérico — Fogo — De fogo — Ira — Escuro
    * Melancólico — Terra — De chumbo — Tristeza — Negro
  * Origem da esmola dada por um sanguíneo na quebra de seu equilíbrio pela visão do pobre, e não necessariamente na virtude, assim como uma doença pode anular o interesse por atividades antes vitais.
  * Associação entre o magnetismo e a capacidade de meios físicos para gerar ou suprimir distúrbios nervosos e doenças da alma.
  * Atribuição do temperamento de nascimento à constituição dos pais e ao estado de seus humores e sangue na procriação, com a recomendação de evitar a concepção sob o efeito da ira.
  * Menção a aberrações psicológicas, como o homem que dependia do toque no veludo para relacionar-se ou outro que desmaiava ao tocá-lo, além do indivíduo que buscou um autômato que simulava a agonia por prazer em ver a morte.
  * Busca pela explicação para tais desvios em experiências remotas vividas pela mãe na gravidez ou na sensibilidade dos corpúsculos do tato.
  * Proposta de estudo dos homens em função do clima, ar, alimentação e profissão para discernir a verdadeira felicidade, que consiste na aproximação da divindade e da destinação eterna.
  * Análise da imaginação conforme o temperamento: lenta no fleumático, rápida no colérico, clara no sanguíneo e duradoura no melancólico.
  * Classificação dos crimes segundo o tipo caracterológico: sanguíneos agem por precipitação; coléricos cometem crueldades e violência; fleumáticos praticam abusos por negligência; e melancólicos executam crimes premeditados.
  * Citação de Helvetius para explicar que falsos julgamentos derivam da ignorância ou das paixões, e de Baader para ilustrar o caráter destrutivo da paixão.
  * Definição do verdadeiro entusiasmo como o acolhimento da luz sob o raio da razão, distinguindo-o de interesses desordenados.
  * Exemplo de caráter patológico na história real de Marie, que assassinou familiares mantendo-se impassível no julgamento.
  * Alteração das feições faciais conforme os pensamentos, permitindo decifrar a verdade do coração através desses hieróglifos.
  * Origem das paixões em forças expansivas ou contrativas, sendo o amor romântico ou exaltado uma doença da alma prejudicial por romper o equilíbrio.
  * Contraste com o amor duradouro baseado no respeito e na amizade, que eleva o sentimento à exaltação da alma, com os exaltados religiosos, filosóficos ou sensuais partilhando da mesma enfermidade.
  * Definição da filosofia cristã como a união de sobriedade, conhecimento da natureza, sã moral e vontade nobre.
* A experiência demonstra que a paixão conduz inevitavelmente à dor, ao passo que uma tensão harmoniosa e simultânea de todos os sentidos proporciona deleite, como ilustrado pelo leito celeste do Doutor Graham, reproduzido por Eckartshausen com um mecanismo de leve movimento.
  * Aceleração da morte pelo flogístico do sangue, sendo o rejuvenescimento associado à ausência de matéria inflamável mediante ar puro, alimentação correta, água, eletricidade negativa e um meio ocultado pela divindade.
  * Permissão ao homem para provar o suco das folhas da árvore da vida através de um ramo próximo, embora pouco conhecido.
  * Divergência entre as teorias da linguagem de Eckartshausen e Saint-Martin em relação a Boehme: para este, as línguas atuais mantêm um caráter representativo, enquanto para os dois primeiros elas designam as coisas de modo insuficiente.
  * Busca pela formulação de uma teoria sobre uma língua universal, afirmando-se a existência de uma linguagem de Deus e das coisas expressa através de suas energias.
  * Definição das palavras como invólucros de pensamentos e ideias encarnadas, sendo as obras as manifestações do Deus que é Verbo falante.
  * Presença desse Verbo criador no homem, deformado pela queda, sendo o sensível a expressão de forças suprasensíveis que operam conforme o tempo e a progressão.
  * Comparação do processo da fala, que se origina completo no espírito antes de se envolver em palavras, à forma externa da natureza que manifesta sua essência interior.
  * Definição de cada indivíduo como uma palavra divina e da linguagem humana como um tipo da linguagem da natureza, com a concepção de uma linguagem espiritual através do sopro e do contato direto com a alma.
  * Identificação da música como expressão da harmonia presente para a alma, subsistindo como harmonia das esferas mesmo quando o ouvido nada percebe.
  * Carakterização do mundo visível como figura do invisível, onde o exterior é a assinatura do interior que trabalha constantemente para se manifestar.
  * Substituição do termo língua por logos, com a distinção entre a linguagem silenciosa da alma que contempla a própria imagem e a linguagem sonora que comunica espíritos por emanação ou irradiação.
  * Comparação da recepção da luz divina pelo homem ao reflexo da luz solar pela lua, constituindo a refração desse raio as letras da escrita divina e os caracteres primitivos das coisas.
  * Associação desse mistério à Tábua de Esmeralda, com a consideração da natureza como uma escrita permanente que comunica a verdade a quem sabe lê-la.
  * Definição do universo como um conjunto de caracteres e de cada forma como a letra viva de um grande alfabeto que revela o amor, a verdade e a sabedoria de Deus, elevando a leitura dos símbolos às formas primordiais.
* A língua humana manifesta forças espirituais e intelectuais cuja origem decorre de uma ordem superior, não se explicando por fatores históricos ou pela organização física.
  * Fundamentação da compreensão analógica na linguagem, permitindo reconhecer o Uno no múltiplo, o invisível no visível e a energia no efeito.
  * Viabilização da civilização pelas línguas, embora nenhuma seja perfeita por expressar apenas marcas e não as coisas em si, gerando ambiguidade nos termos filosóficos até que a unidade se realize no interior.
  * Vinculação entre a imperfeição linguística e a necessidade de uma língua e escrita primitivas únicas, cujo desaparecimento é sinalizado pela busca humana por aprender múltiplos idiomas.
  * Rejeição da invenção arbitrária das letras, com as primeiras simbolizando as progressões da inteligência, enquanto as palavras expressavam a vontade e os sentimentos.
  * Lamento pela perda da língua de luz devido ao obscurecimento do simples pelo múltiplo, embora ela ainda penetre a casca grossa das letras atuais através de formas luminosas.
  * Explicação de que a aproximação dessa luz pela prece, união e fé permite à razão ver objetos espirituais e refrações que formam ideias luminosas inexprimíveis pela linguagem comum.
  * Definição do idioma corrente como o tipo da língua primitiva na qual as formas geram construções de luz, transmitidas apenas de boca em boca.
  * Atribuição do empobrecimento espiritual das línguas ao acúmulo de palavras e ao enredamento do espírito na letra, distanciando o homem do Verbo intelectual e físico da divindade.
  * Evocação de Herder para sustentar que as letras são fontes de erros e que o homem em contemplação não consegue comunicar sua visão.
  * Origem da obscuridade das línguas atuais no obscurecimento do médium entre o mundo sensível e o intelectual, sendo as mais antigas da Ásia mais perfeitas e simples por possuírem poucas raízes, como o bengali com setecentas raízes.
  * Vinculação da origem da escrita luminosa à razão divina expressa pelas formas da Sabedoria, as quais constituem o modelo recebido por Moisés para organizar o alfabeto da língua de luz, denominada Sabedoria criada ou exemplar de toda a criação.
  * Comparação desse sistema a um espelho e a pontes que ajudam a atravessar os torrentes do mundo dos sentidos, preservados pela Tradição e vigentes na Antiga Aliança como a ciência secreta dos sacerdotes.
  * Realização de milagres pela união de espírito, alma e corpo que permite falar uma língua de energia capaz de penetrar no interior das coisas, poder possuído por Jesus para comandar aos elementos.
  * Identificação da expressão do Christ em nós como o momento em que o Verbo feito carne se torna Verbo no homem, operando como Tudo em Tudo.
  * Contraste com as línguas vulgares, com os espíritos se comunicando por meio da evidência de seus pensamentos, uma experiência restrita a poucos, cuja ampla difusão seria um flagelo inadequado à natureza grosseira da atividade terrena.
  * Desilusões trazidas a Eckartshausen pelo conhecimento direto do interior das pessoas sem o uso da linguagem.
  * Recomendação de estudo modesto das línguas atuais, com a escrita servindo à inteligência e a língua ao coração, expressando os vocábulos apenas nomes e não as coisas.
  * Desnecessidade da linguagem caso houvesse a ausência da organização corpórea grossa, pois esta constitui apenas a explicação das impressões.
  * Classificação da audição como o sentido mais enganoso e sujeito aos caprichos da imaginação, com a visão sendo menos propensa a desvios.
  * Acordo com Herder sobre a linguagem humanizar ao conter o fluxo de sensações, embora possibilite a mentira, ao contrário dos animais que expressam apenas o que sentem.
  * Proposta de classificação do canto das aves segundo os sentimentos expressos, considerando seu idioma de interesse por serem os animais mais comunicativos, o que explicaria a compreensão demonstrada por Apolônio de Tiana.
  * Fundamentação da teoria da linguagem na lei da analogia, onde palavras contêm letras, sílabas, progressões, números e linhas, atuando como invólucros das ideias tornadas sensíveis.
  * Análise do simbolismo das letras: I representa a Unidade e o espiritual, aliando-se apenas ao X, que simboliza a plenitude e a natureza; O representa a periferia e o mundo dos sentidos; U exprime a união entre o espiritual e o material através da lei da assimilação, originando a consoante Q; E é o quadrado do tempo; A vincula-se ao H e ao K como o tipo das duas energias da natureza.
  * Instrução contida na pronúncia: A é livre; E impõe limites à sua infinitude; I exige um recuo da garganta que depura o sopro interno; U mimetiza a união espiritual e material pelo lábios em formato de círculo.
  * Definição do traço ou caractere como anterior à letra e próximo do espiritual, funcionando as letras como hieróglifos primordiais das primeiras energias.
  * Atuação do homem sempre dentro das leis essenciais, de modo semelhante ao desenhista que opera com linhas retas e curvas, refletindo as ideias divinas na alma como imagens coordenadas pelo pensamento.
  * Caracterização da primeira língua original como justa por ser o tipo da natureza, onde as letras mostravam as energias, as sílabas indicavam as ações e a palavra apontava o todo, repetindo as três progressões das coisas criadas através de vogais imateriais e consoantes corporais.
  * Demonstração da lei geral da formação das letras por meio do estudo dos caracteres samaritanos, sírios, turcos, persas, fenícios, armênios, etruscos e chineses.
  * Presença comum das teorias sobre a origem da linguagem entre os teosofistas e no pensamento romântico, que eleva a poesia ao nível da religião e transforma a palavra em magia.
  * Alinhamento da afirmação de Saint-Martin sobre o direito dos poéticos caminhar ao lado do dos profetas com a visão de Novalis sobre ancestrais que acumulavam funções de adivinhos, sacerdotes, legisladores e médicos.
  * Impossibilidade concebida por Madame de Staël de que a transição do grito selvagem à perfeição da língua grega ocorresse por gradação simples.
  * Ausência de uma teoria original da linguagem em Eckartshausen, destacado por recolher uma tradição em sua pureza sob as marcas da analogia e das formas luminosas.