BOON, N. M. Au coeur de l’Ecriture: méditations d’un prêtre catholique. Paris: Dervy-livres, 1987.
O Calice e o Grande Palácio
O cálice atua como um símbolo de dimensões cosmológicas e metafísicas que serve de transparência para o invisível e funciona como a chave de abertura para o mistério da fé.
Centralização de todas as dimensões da realidade na forma de uma cruz perfeita de seis direções ocorre tendo o cálice como o ponto central.
Denominação do cálice na tradição rabínica identifica-o como o grande palácio, em cujo interior se localiza a câmara do rei pacífico, fonte de toda a paz.
A busca pelas origens universais apoia-se diretamente na escritura do novo e do antigo testamento e na tradição rabínica manifestada no livro da splendeur, também denominado Zohar.
A manipulação ritualística da taça das bênçãos exige o uso simultâneo das duas mãos para evocar os aspectos da graça e da rigidez.
Associação da mão direita ao lado sul e à graça atua como princípio fixo na orientação voltada ao oriente.
Associação da mão esquerda ao lado norte e à rigidez completa o equilíbrio ritual necessário.
Atração das bênçãos da região superior decorre da ação de erguer a taça da salvação.
Exigência de pronunciação da bênção requer o pão e o vinho unidos entre si.
Preenchimento da taça com vinho correlaciona-se à lei proveniente do mundo futuro.
A taça das bênçãos constitui o trono sagrado e projeta o mistério da fé sobre os quatro pontos cardinais, unindo o rei David aos três patriarcas.
O Pão do pobre e o Equilíbrio de Salomão
O erro atribuído a Salomão decorreu da ruptura do equilíbrio cósmico por negligenciar as emanações de rigidez do lado esquerdo da árvore sephirothica, as quais representam a penitência e a conversão.
Consequência do desvio de Salomão provocou o afastamento do sol em relação à lua e o advento de sua pobreza.
Necessidade de reconstituição do equilíbrio impõe a transformação do pão do pobre em pão de delícias.
A manutenção do pão azyme no ritual latino justifica-se por representar legitimamente o pão do povo em exílio, impedindo que a substituição pelo pão comum elimine a dimensão da penitência.
Vinculação matemática demonstra que o pão é inseparável da taça dado o valor numérico de setenta e oito, equivalente ao produto de seis por treze.
Localização da taça coincide com o centro denominado Tiphereth, beleza ou coração.
Significado do número seis remete às direções do espaço e aos dias da criação.
Significado do número treze remete à unidade.
Representação geométrica do nome de David associa o triângulo ao antigo caractere daleth para conectar o plano inferior ao superior.
Identificação dos três patriarcas aponta para as três colunas da tradição, sendo Abraham a direita, Isaac a esquerda e Jacob a do meio.
Presença oculta do vav no nome de David manifesta-se através da coluna do meio.
Expressão primitiva para o pão diário traduz-se como supersubstancial, representando o pão do alto que espalha as bênçãos necessárias.
O mistério da fé associa-se de modo estrito ao vinho devido à equivalência numérica de valor setenta que partilham na língua sagrada.
Ocultamento da lei opera-se na sabedoria.
Atuação da inteligência divina, Binah ou a mãe, consiste em transmitir o que se encontra oculto na sabedoria de seu esposo.
Inserção histórica das palavras mysterium fidei ocorria exatamente no meio da consagração do vinho no ritual de Pio V.
Identificação do trono sagrado e do leito de Salomão liga-se diretamente ao altar em Tiphereth, o centro das dez enumerações.
A interpretação de Ezra de Gerone sobre o leito de Salomão indica que os sessenta preux ao redor representam as seis extremidades multiplicadas por dez, as quais recebem o influxo da rigidez.
Vocábulo hebraico para preux conecta-se diretamente a Geburah, que exprime a força ou a rigidez.
Associação do terror da noite refere-se à coluna de esquerda negligenciada pelo rei.
Fixação da paz e do nome sagrado de Salomão ocorre igualmente em Tiphereth.
A equivalência numérica de quatrocentos e quarenta e quatro funde o sentido de Damas, interpretado como canto do leito, ao termo representativo de santuário.
Posicionamento das duas ordens de justos situa-se sob o altar celeste, correspondendo ao sachet des vivants onde as almas estão unidas.
Testemunho de Saint Jean na Apocalipse descreve a visão das almas dos martirizados posicionadas sob o altar.
Relato do livro de Henoch atesta a permanência das habitações e dos leitos de repouso dos justos entre os
anjos.
Justificativa litúrgica para embutir relíquias de santos e mártires na pedra de altar assenta-se na união com o sacrifício universal exposto por Saint
Agostinho.
A constatação de Rabbi Siméon perante a tragédia urbana fundamenta-se na doutrina de que a morte dos indivíduos piedosos possui um valor precioso perante a divindade.
O Cálice, a Caverna e o Coração
A articulação conceitual de Guillaume Postel no século dezesseis reforça os laços entre a taça, o vinho, a caverna e o mistério do segredo espiritual.
A estrutura teológica do
salmo cento e dezesseis desenvolve-se a partir do clamor emitido das profundezas e das amarguras do Scheol em direção à salvação da alma.
Significado do verbo invocar expressa o ato de estabelecer morada e proteger-se na realidade ontológica do nome do senhor.
Relação do verbo salvar com a ação de “enfanter” sugere o nascimento para uma nova vida a partir do nome divino.
Correspondência dos três nomes divinos propostos pelo salmista espelha as três colunas da manifestação, tocando a graça à direita, a justiça à esquerda e a misericórdia ao centro.
A condição de pobreza e humildade espiritual vincula-se à recepção da graça, tendo como símbolo a letra daleth, considerada a porta e a letra pobre.
Atribuição da pobreza espiritual liga-se a Malkuth, a sephirah inferior que acolhe os influxos do alto e inicia o retorno denominado teshubah.
Significado do repouso da alma remete à raiz nouch, associada à consolação.
Dinâmica da ascensão pressupõe uma descida divina e a consequente elevação da alma para circular diante da face do senhor na terra dos viventes.
Equivalência terminológica para a pobreza de espírito manifesta-se através de múltiplos sinônimos na língua hebraica.
O gesto de erguer a taça da salvação coincide com o ato de proclamar o nome divino sediado em Tiphereth.
Cumprimento dos votos traduz a oferenda de boa vontade na qual se harmonizam a benevolência de Deus e a intenção humana.
Alcance da perfeição e da paz manifesta-se no vocábulo ashalem, que abriga os sentidos de shalom e schelemah.
Enquadramento final do
salmo define os átrios da casa do senhor como o centro de Jerusalém, integrando as forças de Yah em Binah e Chokmah.
A taça distingue a morte biológica da renúncia mística que promove o retorno da alma para o seio da mãe Binah, identificada como a vida do mundo vindouro.
Lição de Rabbi Siméon acerca de Jacob demonstra que sua alma não se desprendeu em solo estrangeiro, mas sim na terra dos viventes e em um leito perfeito correlato a Tiphereth.
Simbolismo do maçã e do macieira no cântico refere-se ao mesmo sítio de beleza.
União das vontades de Cristo e do pai realiza-se no momento da acepção do cálice.
Caráter do sepulcro de Cristo assemelha-se a um berço novo que partilha das propriedades do túmulo de Jacob, onde a morte verdadeira inexiste.
Diálogo com Jacques e Jean e as advertências de Saint Paul reiteram que o ato de beber da taça anuncia a morte do senhor até o advento do mundo futuro.
Lamentação sobre a reforma litúrgica aponta que a remoção do
salmo cento e dezesseis obscureceu o sentido profundo da comunhão sob a espécie do vinho.
A Schekinah e o Coração do Mundo
A progressão interna do espaço sagrado revela que o templo constitui o centro do mundo, o santo dos santos o coração do templo e a taça o núcleo da presença real.
Correspondência microcósmica identifica esse centro ao coração do homem perfeito, cujo protótipo é o coração de Cristo como o verdadeiro eixo do universo.
Atributo iconográfico de Saint Jean manifesta-se através do cálice em virtude de ter repousado a cabeça diretamente sobre o coração de Cristo.
Distinção do
evangelho de Saint Jean em face dos três sinoptiques reside em sua evidente vinculação com a sabedoria e com o plano espiritual.
Tradição do santo graal descreve a taça que recolheu o sangue do redentor como uma gema desprendida da fronte de
Lúcifer.
Afinidade etimológica na língua hebraica aproxima o termo émerande das palavras representativas de bênção e reservatório.
Transmissão da taça primordial envolveu Adam, o paraíso terrestre e seu filho Seth como guardião do conhecimento iniciático.
O coração assume o papel de sede do conhecimento real e da sabedoria solar em todas as linhagens tradicionais, contrapondo-se à natureza lunar do cérebro.
Identidade absoluta une o amor e o conhecimento no plano divino, pois a existência das coisas emana do olhar e do amor do criador.
Composição do nome divino Ahavah pelas letras iniciais de céu e terra atesta que a divindade traz o amor inscrito em sua essência.
Constatação de Monsenhor Devoucoux em Autun associa as três cercas do templo de Janus ao termo lobiae, cuja raiz remete ao coração e ao ato de envolver.
Equivalência idiomática nas línguas germânicas preserva o elo intrínseco entre as noções de vida e de amor.
A posição do homem perfeito define-se como a de um mediador entre o céu e a terra, assemelhando-se à estrutura de uma árvore cujas ramificações abrigam as aves simbólicas do plano celeste.
Concepção de Saint Ephrem iguala as árvores do paraíso aos próprios
anjos.
Gesto tradicional da elevação da hóstia sobre o cálice recebia a denominação de sol no topo da árvore, marcando a plenitude da luz.
Significação litúrgica ensina que a separação entre o corpo e o sangue representa a morte de Cristo, ao passo que a sua subsequente união celebra a ressurreição.
Geometria da patena emoldura o símbolo da terra, exigindo historicamente que o sacerdote a erguesse com quatro dedos para sinalizar as quatro direções espaciais.
A descaracterização operada pelo novo ritual de Paulo VI atenuou a clareza simbólica dos gestos ao omitir elementos consagrados e enfatizar excessivamente a dimensão humana das oferendas.
Natureza do sacrifício evoca a ascensão vertical da fumaça para converter-se em ar e unificar-se ao espírito santo.
Propriedade do espírito santo manifesta-se como fonte de perfume e óleo de alegria.
Fusão conceitual expressa-se no vocábulo hebraico nichoach, que condensa simultaneamente os sentidos de agrado, apaziguamento e consolação.
Eliminação do traçado da cruz com as espécies sobre o altar removeu o sinal de delimitação do centro do mundo e de sacralização.
Defasagem da tradução francesa para a prece de humildade apaga o vigor espiritual contido no termo contrição.
Simbolismo cabalístico da noz fundamenta-se na descida da Schekinah ao jardim para colher os frutos que, após o brotamento, geram o óleo odorífero do espírito.
Equivalência do esmagamento da noz corresponde ao estágio derradeiro do retorno em direção a Binah.
Mikael e o Equilíbrio do En Soph
A supressão das rubricas e das preces de incensamento no rito moderno desconsiderou a invocação histórica do arcanjo Saint Michel como príncipe da face.
Função de Mikaël define-se como a do grande sacerdote que atua perante as duas esferas da presença divina, a do alto em Binah e a de baixo em Malkuth.
Identificação regular associa o arcanjo a Metatron, o príncipe e guardião do mundo.
Natureza da angelologia judaica concebe as entidades celestes como plantações integradas a Deus e não como seres apartados.
Formulação gramatical Maleak Ha-Elohim resulta no valor numérico de noventa e um, idêntico ao termo Amen.
Equivalência matemática de trezentos e quatorze vincula o nome de Metatron ao nome divino da onipotência, Schaddai.
Radicação do termo kol no nome de Mikaël aponta para o mistério das cinquenta portas da inteligência e para a libertação promovida pelo jubileu.
Desenho da letra alef encerra o tetragrama sagrado de valor vinte e seis por intermédio de dois yodins e um vav.
O simbolismo da balança portada pelo arcanjo expressa o perfeito equilíbrio das três colunas sephirothicas sob a suspensão infinita do En Soph.
Valor matemático da expressão dentro da balança atinge quinhentos e trinta e dois, correspondendo à grafia plena do nome de
Jesus.
Testemunho de Saint Irénée interpreta essa harmonia numérica como a sustentação e o vínculo absoluto entre o céu e a terra.
Correlação de Monsenhor Devoucoux conecta o número quinhentos e trinta e dois à soma da palavra chave e da porta daleth.
Composição das letras iniciais de Mikaël Schar Haolam gera o próprio nome de Moïse.
A ritualística do incensamento das oferendas baseia-se na dinâmica da ascensão do perfume enriquecido pela bênção e na consequente descida da misericórdia divina.
Execução dos três sinais de cruz com o incensário assinalava a elevação através dos três mundos.
Movimentação dos três círculos rituais, com a inversão do último traço sob a palavra tua, marcava a descida e o retorno ao princípio.
Significado etimológico de mundo nas línguas antigas remete à pureza e à perfeita consonância com o eixo do ser.
Unificação do espaço e do tempo faz-se presente na amplitude do vocábulo hebraico Aulm e no termo latino saecula.
Redução da tradução moderna ao plano estritamente temporal empobrece o sentido do termo agora em sua acepção de presença real.
Propriedade da letra yod denota hieroglificamente a mão como princípio, chave e porta.
Pronunciação da palavra hebraica para ti em sentido inverso reproduz o conceito de todo.
A recitação do
salmo cento e quarenta e um durante o incensamento do crucifixo e do altar reitera que nenhuma ação litúrgica pode ser apartada do ambiente vital do rito.
Finalidade da liturgia consiste no ordenamento integral da diversidade em direção à unidade absoluta pelo amor.
Natureza qualitativa do ato de medir ou contar introduz a transparência luminosa que define as Sephiroth, associada ao pavimento de saphir.
Centralização da face divina atua como fonte de luz e revelação da sabedoria na grande face.
Convenção iconográfica tradicional reserva os retratos de face para exprimir a presença, relegando as figuras indesejadas ao perfil.
Sentido da retidão na ascensão mística desvincula-se de critérios jurídicos e identifica-se à santidade, ilustrada pela fumaça retilínea do altar de Abel.
O erguer das mãos pelo celebrante reproduz fisicamente a estrutura das três colunas, onde os braços espelham a graça e a rigidez, ao passo que o tronco sustenta o eixo central.
Significação dos dez dedos manifesta a totalidade das dez Sephiroth erguidas rumo ao topo dos céus.
Leitura invertida do vocábulo hebraico para topo resulta no termo myrrhe, indicativo de imortalidade.
Fusão das trinta e duas sendas da sabedoria encontra-se representada no termo hebraico para coração.
Configuração inversa do nome Schaddai decompõe-se na palavra mão unida à representação das três colunas sephirothicas.
Duplicidade de sentido na escrita plural da oferenda faculta a leitura de repouso e consolação, em harmonia com as propriedades do espírito santo.
Noção de aliança e suavidade sedimenta-se no período do entardecer, vinculando o encerramento do dia ao despertar de um novo ciclo.