Mestre Eckhart: SERMÃO VII; PERMANECER EM PAZ
Nicolas Boon:
Schalom vem do verbo Schalam que quer dizer “estar consumado”, completo, levado a cabo. O “Tudo está consumado” na boca do Cristo crucificado quer dizer: levei tudo à completude. A Palavra do Cristo junta-se aos sentidos de Concordância, Acalmação, Consolação e Perfeição final na Paz restabelecida entre o que está no alto e o que está em baixo. Na palavra Schalam encontramos a palavra SchM que quer dizer “Nome”. É o Nome do Altíssimo que preenche o Templo, o Lugar Sagrado. Neste Lugar se diz scham. Lemos em 1Reis 8,29: “Meu Nome estará neste lugar”. “Iheyeh schemi (meu nome) (neste lugar) scham”. O Nome do Altíssimo é a razão de ser do lugar. No interior desta palavra Schem, encontramos a letra lamed. A palavra lamad (LMD) quer dizer “ensinar” e é atribuída à Binah, a Inteligência divina. Por sua forma ela é a letra mais alta de todo o alfabeto. E por esta razão ela é comparada a uma Torre, em hebreu: MGDL, migdal. A Tradição rabínica vê na letra lamed, o Vav (V) e o Kaph (K) unidos. O valor numérico do Vav é 6 e do Kaph é 20. O conjunto 26. É assim que a palavra Schalam pode ser lida como o Nome Sagrado YHWH = 26, oculto na noção Schem Nome. O Nome no Nome.
A Paz é, na tradição judaico-cristã, portanto algo diferente da simples ausência de guerra. Esta palavra oculta toda uma plenitude divina, todo o segredo da União da Criatura com Deus. É todo este universo espiritual que deve versar como uma benção sobre aquele ou aqueles a quem desejamos a paz, seja na liturgia ou na vida comum. Os “schalom” que os judeus dirigem uns aos outros são como um Tesouro que se trocam continuamente. Seria importante os cristãos também tomarem consciência da riqueza oculta nesta palavra PAZ, e de seu valor na liturgia da Missa, além das dimensões sociais ou fraternais.
René Guénon: Dictionnaire de René Guénon
A Paz em seu sentido corrente e ordinário é a realização da Ordem, do Equilíbrio e da Harmonia; “estes três termos sendo aproximadamente sinônimos e designando todos, sob aspectos um pouco diferentes, afirma Guénon, o reflexo da Unidade na Multiplicidade mesma, quando esta é conduzida a seu Princípio. A verdadeira Paz, enquanto reflexo da Unidade, não é portanto em realidade senão a obtenção da Unidade ou “Paz do Céu”, a “Paz no Vazio” no qual o ser “estando identificado, por sua própria unificação, à Unidade principial ela mesma, vê a Unidade em todas as coisas e todas as coisas na unidade, na absoluta simultaneidade do “Eterno Presente”. A “Paz no Vazio”, que acaba de ser evocada, é considerada como a “Grande Paz” no esoterismo islâmico, esta Paz sendo obtida pela Presença divina no centro do ser que realiza a união dos contrários, que harmoniza as oposições. No entanto esta Paz, escreve o filósofo Lie-tseu, “só o espírito restabelecido no estado de simplicidade perfeita pode alcançá-la na contemplação profunda”. É a “Paz total” que tem sua estada no ponto central aí onde “todas as distinções inerentes aos pontos de vista exteriores são superados; todas as oposições desapareceram e estão resolvidas em um perfeito equilíbrio. Guénon cita a princípio sobre este assunto o pensador chinês Chuang Tzu que nos explica que “no estado primordial, estas oposições não existiam”. Todas são derivadas da diversificação dos seres (inerentes à manifestação e contingente como ela), e de seus contatos causados pela geração universal. Elas cessariam, se a diversidade e o movimento cessassem. Elas cessam de pronto em afetar o ser que reduziu seu eu distinto e seu movimento particular a quase nada.