MÃE

VIDE: Pétrement; Gordon

Izutsu

No texto que vou citar, destaca-se a importância de “fechar” todas as aberturas e portas como único meio para que um homem chegue a conhecer o Filho e, consequentemente, a Mãe. E o estado final assim alcançado é aquele a que se refere o termo “iluminação”. Cabe ressaltar que o Filho (zi), que, segundo essa interpretação, representa um duplo individualizado da Mãe (mu), nada mais é do que aquilo que Laozi chama, em outras passagens, de Virtude (de) ou, mais estritamente, uma encarnação individual do Caminho, que tem como núcleo existencial a força criadora e vital, ou seja, o Caminho que impregna as “dez mil coisas”. Como veremos mais adiante, Laozi dá a essa força criadora e vital de cada indivíduo, que existe como determinação individual do Caminho, o nome de Virtude.

Todas as coisas sob o Céu têm um Princípio, que deve ser considerado como a Mãe de todas as coisas.

Se você conhece a “mãe”, conhece o “filho”. E se, depois de ter conhecido o “filho”, você voltar para a “mãe” e se apegar a ela com firmeza, não errará em toda a sua vida.

Bloqueie as aberturas, obstrua as portas [ou seja, interrompa o funcionamento normal dos órgãos sensoriais e a atividade centrífuga habitual da mente], e nunca, ao longo de sua vida, [sua energia espiritual] se esgotará.

Se, ao contrário, mantiveres abertas as aberturas e aumentares suas atividades até o fim de tua vida, não encontrarás salvação. Ser capaz de perceber a coisa mais ínfima [ou seja, a coisa suprassensível, que é o Filho do Caminho que carregas dentro de ti] é o que se chama Iluminação. Agarrar-se ao que é suave e flexível [abandonar a rigidez da [Mente escravizada pelas distinções “essenciais” das coisas e aceitar “suavemente” e sem resistência todas as coisas em seu autêntico estado de transformação mútua] é o que se chama de “força”. Se, com a ajuda de tua luz externa, voltares à tua iluminação interna, nunca atrairás o infortúnio. Esse estado [último] é o que se chama de “entrar no eternamente real”. (Tao Te Ching 52)

Toshihiko Izutsu – Sufismo e Taoismo]

Corbin

Entre o mundo das puras luzes espirituais (luzes vitoriais, o mundo das «Mães», na terminologia do Ishraq) e o universo sensível, estende-se na fronteira da nona esfera (a Esfera das esferas) um mundus imaginalis que é um mundo espiritual concreto de figuras-arquétipos, formas de aparição, anjos das espécies e dos indivíduos; a dialética filosófica deduz sua necessidade e situa seu plano; a visão efetiva do mesmo se oferece à apercepção visionária da Imaginação ativa. A conexão essencial que, em Sohravardi, direciona a especulação filosófica para uma metafísica do êxtase, é também aquela que se estabelece entre a angelologia desse platonismo neozoroastriano e a ideia do mundus imaginalis. Este é, afirma Sohravardi, o mundo a que se referiam os antigos sábios, quando afirmavam que, além do mundo sensível, existe ainda outro universo com forma e dimensões, que se estende igualmente no espaço, embora não se trate nem de uma forma nem de uma espacialidade idênticas às que percebemos no mundo dos corpos físicos. É o “oitavo” keshvar, a Terra mística de Hurqalyâ onde se encontram as cidades de esmeralda; terra situada no cume da montanha cósmica que as tradições perpetuadas no Islã designam com o nome de “montanha de Qâf”. (Henry Corbin: Homem de Luz)

Pla

Essa unidade que pede Jesus e que consiste em “ser uma só coisa” resulta acessível ao entendimento com respeito ao Pai, mas sua realização só é possível mediante a Mãe, quer dizer, pelo Espírito Santo, o qual é a Mãe do homem completo, ainda que este só “recebe” esta maternidade perfeita quando o espírito, a essência e a coroa do homem, se une, até ser uma só coisa, com o Espírito de Deus.

Enquanto gerador e dador de Vida eterna, o Espírito de Deus foi interpretado como mãe fecunda desde os primeiros tempos testamentários. No Gênesis se diz que durante as trevas pré-cósmicas “o Espírito de Deus plainava sobre a superfície das águas”. A função engendradora, maternal, a descreve depois o Deuteronômio como o voo de uma águia mãe que “incita sua ninhada e revoa sobre seus filhotes”.

Das asas majestosas da águia à revoada da pomba evangélica a imagem se dulcifica, mas seu sentido real é o esmo e a condição feminina do Espírito se mantém com ou sem a representação de pomba, mas com a mesma função dinâmica, poderosa, de dar a Vida a toda a ninhada que se acolhe sob suas asas.

Assim é como o Cristo Jesus diz no Evangelho dos Hebreus: “Há pouco me tomou minha mãe, O Espírito Santo, por um de meus cabelos e me levou ao monte sublime do Tabor”. É de observar que esta perícope salva do desparecimento quase completo do “Judaico” com o duplo testemunho de Orígenes e Jerônimo, é por si só um emblema que explica a função de “unidade” encomendada ao Espírito Santo enquanto “mãe”. Os cabelos, são aqui a força (dynamis = poder ou força), que se revela na cabeça (a essência, o espírito, ou “coroa” do homem completo). Quanto à subida ao monte, é o testemunho da viagem ascensional da consciência “habitada” (conhecida) pelo Espírito Santo. (Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 101)

Nothomb

Nascimento de Caim

Apesar de todos os esforços da tradição para o camuflar, não há dúvida na leitura atenta do texto (Gen 4) que a sua intenção nesta frase e no episódio exemplar de Caim e de Abel que introduz, é contrariar, ou pelo menos relativizar o discurso natalista em honra desde a época dos patriarcas. De mostrar que se é talvez um mal necessário na lógica da “condição humana”, a maternidade, longe de ser a “bênção” vangloriada pelos padres, é, não somente em relação à natureza edênica mas em si, na sua fatalidade biológica, uma das piores maldições que Deus tentou em vão dissuadir o Homem de se infligir a si mesmo, ao persistir no seu desígnio suicida. Que dar a vida quando não se é deus é automaticamente dar a morte. E que esta morte, já que é de início voluntária, é sempre um assassinato. Não é por acaso que o relato do primeiro nascimento nos ensina que o primogênito da humanidade foi também o seu primeiro assassino, e o segundo a sua primeira vítima. E que a Mulher que no entanto tinha concordado em silêncio — sem ter aplaudido como o Homem — com a ideia desta descendência, viveu a experiência muito mal, para ela de todo inédita. Que Eva blasfemou e acusou Deus no seu coração por esta catástrofe contra a qual Ele a tinha posto em guarda…

A tradição judaica, no “midrash”, não hesita em “corrigir” o texto e em afirmar que em vez de YHWH é preciso ler “o anjo de YHWH”, no caso o anjo decaído Sammael, ou seja, o diabo. E que este, sob a forma fálica da serpente (cara à psicanálise) tinha engravidado Eva no jardim. E eis por que, Caim, rebento do diabo, é um assassino. Quanto à tradição cristã, ela traduz em geral nas nossas bíblias, a preposição que em hebraico quer dizer “com” por “da parte de” ou “com a ajuda de”, assim Segond que faz Eva dizer “Gerei um homem com a ajuda do Eterno.” Mas este homem sendo Caim, isso não nos parece de todo menos blasfemo.

Paul Nothomb. Les Tuniques d’aveugle. Une lecture inouïe de la Bible des Origines. Paris: La Différence, 1990