O pensamento weigeliano não representa uma interpretação adequada das intenções originais de Martinho Lutero, mas constitui uma leitura possível de suas afirmações sobre Deus.
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A proposta interpretativa de Valentin
Weigel não necessita ser descartada sob rótulos de Gnosticismo ou filosofia puramente não cristã.
O desafio para Valentin
Weigel consistia em compreender como a criatura pode ser simultaneamente semelhante e dessemelhante a Deus em termos de vontade humana.
Gnothi seauton de 1571 representou o esforço inicial de Valentin
Weigel para estruturar um argumento teórico amplo fundamentado em antíteses binárias.
As antíteses binárias organizam em correlatos simples os múltiplos termos doutrinários que haviam sido enredados em contradições clericais.
O autor aponta uma lista de alternativas conceituais opostas que devem ser mantidas em mente durante a leitura das escrituras sagradas:
Adão encontra seu oposto conceitual na figura de Cristo.
A Desobediência contrapõe-se diretamente à Obediência.
O Homem Natural opõe-se à dimensão do Sobrenatural.
A Letra estabelece antítese com o Reino do Espírito.
A Morte encontra-se em oposição à esfera da Vida.
As Trevas contrastam com a realidade da Luz.
A Cegueira opõe-se ao estado de Verdadeiro Conhecimento.
A Lei define-se em oposição à mensagem do Evangelho.
A Não Graça encontra seu contrário na dimensão da Graça.
A Transgressão da Lei opõe-se ao seu Pleno Cumprimento.
A Injustiça estabelece contraste absoluto com a Justiça.
O Velho Nascimento opõe-se ao processo do Novo Nascimento.
A Vontade Própria contrapõe-se diretamente à Vontade Divina.
O estado de Preso e aprisionado para a Morte opõe-se à condição de Livre e solto para a Vida.
As oposições conceituais listadas encontram-se na Bíblia, registrando-se com especial frequência nos escritos do
Apóstolo Paulo.
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Os pares representam uma encruzilhada metodológica entre a exegese bíblica literal ou espiritual e entre a experiência mundana ou mística.
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A simplicidade das antíteses visa oferecer uma resposta direta contra as complexidades das controvérsias e recriminações teológicas.
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Os contrastes relembram ao leitor que todas as escolhas reduzem-se fundamentalmente à opção única entre Deus e o próprio eu.
Valentin
Weigel destacou exatamente essas antíteses ao defender sua ortodoxia luterana em 1572, ciente de que elas estruturavam a escrita do próprio Martinho Lutero.
A obra Do Cristianismo Livre de Martinho Lutero, publicada em 1520, inicia-se com uma antítese de caráter paradoxal sobre o status do cristão.
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O cristão é definido como um senhor livre sobre todas as coisas, não estando sujeito a nenhum poder humano.
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O cristão define-se simultaneamente como um servo dócil em todas as coisas, sujeito à totalidade dos homens.
A antítese entre liberdade e servidão possui parentesco conceitual com a dualidade existente entre o reino divino e os reinos deste mundo.
O paradoxo assemelha-se ao mistério do ser divino perante o nada da criatura e à divisão nítida entre a luz e as trevas.
O ser humano habita uma realidade condicionada pelos aspectos de Cristo e do mundo, ou da graça e da natureza material.
O paradoxo luterano expressa uma visão dualista do cristão como uma criatura simultaneamente constituída por espírito e carne.
Martinho Lutero postula a existência de uma diferença vasta entre o reino de Cristo e o governo secular exercido por príncipes e senhores.
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O pregador deve abster-se de interferir no governo secular para evitar a criação de desordem e confusão social.
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A liderança da igreja deve ser exercida exclusivamente por meio da Palavra, considerada a espada oral da instituição.
O governo secular mobiliza uma ferramenta de coerção física totalmente distinta da espada pastoral da palavra falada:
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O governo secular, por outro lado, empunha uma espada diferente, uma espada de punho e uma vara de madeira para infligir punição física.
A vara do pregador atinge unicamente as consciências humanas por meio do impacto provocado pela Palavra divina.
As duas ferramentas de coerção devem ser mantidas rigorosamente separadas para impedir a invasão mútua de províncias de autoridade:
O cristão deve obediência à autoridade civil do governo no plano exterior, embora permaneça livre na dimensão da fé, segundo a doutrina de Martinho Lutero.
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A orientação luterana alinha-se com as diretrizes do
Apóstolo Paulo no capítulo treze da Epístola aos Romanos.
A salvação reside no plano interior, não sendo afetada por obras humanas ou pela obediência civil exigida do homem exterior.
O reino da liberdade interior ou do espírito configura-se como um território extraterritorial em relação ao poder político do príncipe.