Os dois personagens do diálogo não simbolizam apenas os dois “estados” da cristandade, “a clerezia e o laicado”.
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Parece que em cada uma dessas personagens ele colocou algo de si mesmo.
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O Auditor, o leigo, faz ver às vezes que também pertence ao mundo eclesiástico e, em uma passagem nitidamente autobiográfica, expressa por que também ele havia assinado a famosa Formula Concordiae e por que — aus begreiflichen Gründen — não se havia negado a dar seu assentimento a essa doutrina que sabia perniciosa.
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Claramente se percebe que os motivos alegados — algo sofísticos — não haviam bastado para devolver a paz à alma do pastor.
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Precisamente desde seu ponto de vista, havia sentido quão indigno era por não proclamar sua fé.
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Quando
Weigel-Auditor acusa o Concionator de ter induzido mediante seus ensinamentos ao erro as pobres gentes, os leigos, cuja salvação lhe estava confiada, é a si mesmo a quem dirige essas censuras.
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É a si mesmo a quem a Morte (o terceiro interlocutor do Dialogus, que representa a Cristo) censura ter falsificado a doutrina de Cristo, terla substituído por um ensinamento humano, ter substituído a letra pelo espírito, ter ensinado a justiça imputativa (imputativa justitia), ter negado a necessidade de uma justiça essencial, de uma participação real da alma na justiça divina, da habitação essencial (essentialis inhabitatio).
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Sábio teólogo, aluno e mestre das Universidades de Leipzig e de Wittenberg, conhecia bem a doutrina de seu adversário, e seu Concionator não é de modo algum uma caricatura.
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Para
Weigel, no entanto, é a caricatura de um pastor autêntico.
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Porque não extrai seus argumentos e suas objeções de seus próprios fundos, de sua própria experiência, são os livros que leu, Lutero, Melanchthon, os Loci, a Examinatio ordinandorum os que lhe ditam suas respostas.
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Em posse da “boa doutrina”, consciente da importância de seu papel — com efeito, sobre ele descansa a Igreja, ao menos a Igreja visível, instituição divina, instrumento necessário da salvação —, o Concionator opõe com toda sinceridade à doutrina própria de
Weigel (que ele qualifica de “herética”, anabatista, entusiasta, fantasmagórica, osiândrica, schwenckfeldiana, münzeriana, etc.) seu principal argumento.
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Se, como o Auditor afirma, a salvação só é possível pela ação direta e imediata da graça, por uma participação essencial, por uma transformação e uma santificação da alma, para que serve então a Escritura, essa revelação literal de Deus?
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Para que servem os sacramentos que, no entanto, representam a morte expiadora de Cristo para nós?
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E nesse caso, como livrar da desesperança o homem pecador, ao qual só a fé no valor da substituição vicária de Cristo, da expiação cumprida por Ele uma vez por todas — expiação da qual se aproveita pela graça de Deus — pode impelir a crer e a ter confiança em sua salvação?
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E se essa confiança não está fundada, para que serve a renúncia a toda a obra da Reforma, o retorno a formas de piedade monástica, o abandono do Gaudere in Domino, da atitude nova da fé-confiança, ou mesmo a negação do valor da morte de Jesus?