O estado primitivo de perfeição e de luzes sobrenaturais é atestado por todas as tradições — quod semper, quod ubique, quod ab omnibus: “Sobre esse ponto, não há dissonância: os iniciados, os filósofos, os poetas, a história, a fábula, a Ásia e a Europa não têm mais que uma voz. Não somente os homens começaram pela ciência, mas por uma ciência diferente da nossa, e superior à nossa” — 2º Encontro.
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Uma das principais manifestações dessa ciência é a linguagem — Maistre afasta desdenhosamente as teses “progressistas” do século XVIII que pretendem que as línguas puderam ser “inventadas” ou que se formaram insensivelmente.
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Maistre escreve a Bonald: “O senhor Visconde fala como um anjo sobre as línguas, que são quase toda a metafísica. É preciso estar possuído por quatro ou cinco demônios para crer na invenção das línguas” — Lettres et opuscules, I, p. 454.
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“As línguas começaram, mas a palavra nunca, e nem mesmo com o homem” — e essa convicção permite estabelecer que a palavra prova as relações que unem os homens à potência divina.
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Maistre observa vestígios de ciência superior nos próprios vocábulos latinos primitivos: “Como os antigos Latinos, quando ainda só conheciam a guerra e a lavoura, imaginaram exprimir pela mesma palavra a ideia da oração e a do suplício? Quem lhes ensinou a chamar a febre de purificadora, ou expiatória?”
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Homero atesta a mesma verdade ao falar “de certos homens e de certas coisas que os deuses chamam de uma maneira e os homens de outra.”
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Entre o paraíso perdido — por culpa do homem — e o paraíso reencontrado — graças a Deus que o auxilia —, entre a unidade antes da divisão e a unidade após a divisão, a história da humanidade se inscreve como um drama, como uma ação, como uma história.
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Nesse drama, os homens são atores, responsáveis na medida em que sabem querê-lo — e o indivíduo é solidário da humanidade não apenas em sua natureza que participa da reidade e pode agir pela reversibilidade, mas também por ser idêntico a ela em certo sentido, pois cada alma partiu de um paraíso e a ele afinal retornará.
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Reaparece assim o sentimento trágico da vida — do qual o século XVIII, e o próprio Diderot, havia sido perfeitamente desprovido.
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Rousseau havia posto o problema, mas em termos que o definiam tão mal que dificilmente se o reconhecia; Senancour não havia conseguido fazer ouvir sua voz; e Chateaubriand havia deslocado e restringido à sua própria personagem a verdadeira questão.
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O romantismo tomará melhor consciência da falência de um racionalismo demasiado estrito e da certeza que prometia ao homem um homem regenerado — e de fato qual romântico não foi profeta: Lamartine descrevendo as “visões” de La Chute d'un ange, Vigny esboçando Satã salvo após Eloa, e Nerval, e Hugo, e Balzac escrevendo Louis Lambert e Séraphita, e Nodier, e Ballanche, sem contar Saint-Simon, Fourier ou Lamennais.
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O mal-estar à maneira de Senancour e de Chateaubriand, feito de incerteza, pode bem se dissipar — mas é para se tornar angústia definida, angústia diante de sua liberdade e de sua responsabilidade: “quando se vê os poetas tão preocupados com o bem e o mal, e de modo tão instante?”
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O tempo deixa de ser desenrolamento uniforme e mecânico — torna-se elemento essencial na história humana e sentimento vivido e em geral dolorosamente vivido, pois se escoa sem trazer o cumprimento de uma promessa; daí “o intolerável vazio que encontro em toda parte”, daí o tédio e essa consciência do tempo que “come a vida.”
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A angústia e o tédio estavam implicados no pensamento de Maistre — para pouco que se o adotasse sem emprestar também sua armadura, sem guardar sua forte coesão.