DESENVOLVIMENTO DOS SIGNOS

ATFO

Tentemos descobrir como o signo, manifestando-se externamente, produziu um nome; e como o nome, caracterizado por um tipo figurado, produziu um signo. Tomemos, por exemplo, o signo Fabre cita aqui a letra hebraica correspondente, mas isso não importa, no caso particular, para a sequência do raciocínio. M, que, enunciado por meio de seus elementos primordiais, o som e os órgãos da voz, torna-se a sílaba äM ou e se aplica àquela das faculdades da mulher que a distingue eminentemente, isto é, à de Mãe. Se algum espírito atacado de ceticismo me perguntar por que encerro a ideia de Mãe nessa sílaba äM ou , e como posso ter certeza de que ela realmente se aplica a ela, responderei que a única prova que tenho a lhe dar, na esfera material em que se envolve, é que, em todas as línguas do mundo, desde a dos chineses até a dos caraíbas, a sílaba äM ou se liga à ideia de Mãe, äB, ou äP, , à do Pai. Se duvida de minha afirmação, que prove que é falsa; se não duvida, que me diga como pode ser que tantos povos diversos, lançados a distâncias tão grandes, desconhecidos uns aos outros, tenham concordado na significação dessa sílaba, se essa sílaba não é a expressão inata do signo da maternidade.

Mas ela o é: é uma verdade gramatical que todos os sofismas de Hobbes e de seus discípulos não poderiam abalar.

Apoiemo-nos no ponto fundamental e prossigamos. Quais são as ideias relativas ou abstrativas que se ligam a ou decorrem da ideia primordial representada pela sílaba äM ou ? Não é a ideia da fecundidade, da multiplicidade, da abundância? Não é a ideia da fecundação, da multiplicação, da formação? Não se vê nascer dessa fonte toda ideia de ação excitada e passiva, de movimento exterior, de força plástica, de vínculo próprio, de foco, de meio, etc., etc.?

É inútil prosseguir essa exploração: qual é o leitor, chegando até este ponto de minha Gramática, que não possa ir tão longe e mais longe do que eu? Pois bem, essa multidão de ideias, todas encerradas na ideia primordial de Mãe, ou se liga ao signo figurado, ao caráter típico que a representa, ou dela decorre e o segue.

Cada signo parte dos mesmos princípios e adquire o mesmo desenvolvimento. A palavra é como uma árvore robusta que, lançando-se de um tronco único, começa por ramificações raras; mas que logo se estende, se desdobra, se divide numa infinidade de ramos cujos rebentos entrelaçados acabam por se misturar e se confundir.

E que esse número imenso de ideias, decorrentes de um número tão pequeno de signos, não espante. É por meio de oito chaves chamadas koua que a língua chinesa, primeiro reduzida a duzentos e quarenta caracteres primordiais, elevou-se até oitenta, e mesmo oitenta e quatro mil caracteres derivados.

Ora, quanto mais uma língua é nova e próxima da natureza, mais o signo conserva nela sua força. Essa força se extingue insensivelmente à Medida que as línguas derivadas se formam, se fundem umas nas outras, se identificam e se enriquecem mutuamente de uma multidão de palavras que, pertencendo a várias populações primeiro isoladas, depois reunidas, perdem sua sinonímia e acabam por se colorir de todas as nuances da imaginação, ao se prestarem a todas as delicadezas do sentimento e da expressão. A força do signo é a pedra de toque gramatical, por meio da qual se pode JULGAR, sem erro, da antiguidade de qualquer língua.

Em nossas línguas modernas, por exemplo, o signo, pressionado, fundido no signo, muitas vezes quebrado, muitas vezes extraviado, sempre revestido do cimento idiomático e da ferrugem das eras, é muito difícil de reconhecer; só cede a uma análise obstinada. Não é assim em hebraico. Essa língua, como um rebento vigoroso, saído do tronco ressequido da língua primitiva, conservou, em pequeno, todas as formas e toda a ação. Os signos são ali quase todos evidentes, e vários mesmo se empregam isolados. (…) (Histoire philosophique)