ATFO
Meu amor, no Éden, era puro e simples como eu; era um sentimento misturado com minha vida, que não me parecia distinto dela. Não poderia deixar de amar, mesmo que quisesse. O amor era como o princípio do meu ser e a luz da minha vida. Agora, ao contrário, meu ser tornou-se o princípio dele, e minha vida dele se desprendeu. Conheci como um sentimento livre o que antes conhecia apenas como um modo de existência.
Seja que Adam se conceba em sua essência universal ou particular, Eva é sempre sua faculdade criadora, sua força eficiente, sua vontade própria, por meio da qual ele se manifesta exteriormente. No princípio de sua existência universal, Eva não se distingue da faculdade criadora universal da qual Adam emana. É apenas no momento de sua distinção que Adam se torna um ser independente e livre, podendo exercer exteriormente, segundo sua vontade própria, sua força eficiente e criadora. É sempre por Eva que Adam se modifica para o bem ou para o mal. Eva faz tudo nele ou fora dele.
Ao personificar (…) transformou-se em fato histórico (…) um ato cosmogônico que começou na origem da vida elementar, que ainda dura e durará até que essa vida dê lugar a outra.
— Byron
… Fiz o que ele (Nahash) quis; mas, como já te contei suficientemente, o efeito terrível que se seguiu ao meu ato criminoso esteve muito longe de corresponder à nossa expectativa. O curso que minha vida seguia na eternidade parou; tudo parou ao meu redor; e vi, com um espanto indescritível, que as produções do meu Éden e todas as criaturas que ali havia colocado, consolidadas por uma força que me era desconhecida, não dependiam mais dos atos da minha vontade. Um movimento retrógrado tudo invadira. Arrastado com todo o resto nesse movimento terrível, seria em vão que tentaria pintar-te minha angústia. Ela está tão acima da tua imaginação quanto todas as forças reunidas de todos os homens estão acima da força de um só homem. Foi no meio dessa angústia que a voz do Altíssimo se fez ouvir para mim, e que Sua misericórdia dignou-se pôr-lhe um termo, mudando, por Sua onipotência, o modo da minha existência, que nada mais poderia mudar. Então, tomei formas análogas às que minhas produções haviam tomado. Tornei-me corpóreo como elas. O Eterno Deus poderia, sem dúvida, aniquilar minhas produções; mas, como o sofrimento — consequência inevitável da minha falta — só poderia ser curado dividindo-se ao infinito, e quanto mais fosse compartilhado e dividido, mais suportável se tornaria e mais rapidamente tenderia a apagar-se, Ele dignou-se fazer com que toda a natureza corpórea, que era minha obra, concorresse para minha cura. Assim, a massa de dores que deveria pesar no futuro sobre a totalidade dos homens que nasceriam de mim foi grandemente aliviada pela partilha feita com os animais. Foi um grande ato de misericórdia da parte dEle em favor da humanidade; pois, repito, os animais poderiam ter sido aniquilados; mas, como minha obra, não podiam continuar a viver de minha vida sem compartilhar suas vicissitudes. Não eram mais inocentes do que meus descendentes o são e serão; porque, mais uma vez, todos esses seres, sob qualquer ponto de vista que se os considere, não são senão eu, eu mesmo, cuja unidade passou à diversidade.
Portanto, desejar que os animais não sentissem fadiga nem dor seria desejar que os homens suportassem mais, o que não seria nem justo nem piedoso: pois todos têm a mesma origem, com a única diferença de que a do homem é mais nobre e tende mais diretamente à imortalidade. (…)
… É que não apenas os animais compartilham os sofrimentos de Adão e os aliviam ao dividi-los, mas esse próprio Nahash, esse soberano dos espíritos, como ele se intitula, Lúcifer ou Satã, como queiras chamá-lo, também os compartilha e os alivia da mesma maneira.
… Pois sobretudo considera- Que o Espaço e o Tempo são os únicos eternos. — Byron
“Não, Nahash, não: o Espaço e o Tempo não são os únicos imutáveis, pois o Espaço, como deverias saber, é apenas um modo da Imensidade; e o Tempo, um momento da Eternidade. E, se puderes, lança os olhos nessa profundidade e considera o que já te disse: que, depois de ter sido induzido por ti a colher o fruto da ciência, minha vida em sua aurora, que avançava com um curso majestoso e suave na Eternidade, parou subitamente e tomou um movimento retrógrado. Ela retornou, portanto, à noite da qual havia saído, e isso foi o Espaço; retrocedeu na Eternidade, e isso foi o Tempo.”
… Esse meio, meu Filho, foi mudar o modo da minha existência, colocar na Imensidade o Espaço, na Eternidade o Tempo e — o que é ainda mais admirável — reduzir a unidade à divisibilidade. Foi o que se fez. Assim, meu sofrimento, que de outra forma teria sido único e eterno, tornou-se temporal e fracionado. De universal, tornei-me particular; e a divisão que deveria ocorrer em minha essência começou. Essa divisão, que se manifestou no teu nascimento e no de Abel, efetiva-se pela geração. Um grande encanto está ligado a ela pelo Eterno Deus, e é sem dúvida um de Seus maiores benefícios; pois, para que esse meio de cura pudesse operar, era preciso que fosse irresistível, como já te disse.“
… Nenhuma dessas frações poderá dizer que é inocente, pois não nasceu na inocência; nem poderá dizer que está condenada, pois não houve condenação, mas apenas um remédio aplicado a um mal do qual essa fração participou com o Todo do qual fazia parte. E se essa fração, assustada como estás agora com essa morte à qual está submetida — como tudo o que depende do Espaço e do Tempo — se rebelar contra ela, provará sua ignorância de mais de uma maneira; pois todos os meios necessários lhe serão dados, conforme a posição em que se encontrar, para que saiba que a morte é apenas uma simples mutação, uma mudança de estado que conduz da diversidade à unidade, da mesma forma que o nascimento conduz da unidade à diversidade. É mesmo possível que essa fração de mim mesmo, se se purificar aos raios da Inteligência, chegue a apreender em meu seio toda a verdade que possuo e compreenda tão bem quanto eu compreendo que nascer e morrer não são senão a manifestação desse movimento misterioso que vai da Imensidade ao Espaço e do Espaço à Imensidade; da Eternidade ao Tempo e do Tempo à Eternidade: de modo que, para ela, o nascimento e a morte não serão mais do que uma mudança de estado, uma passagem do estado de essência ao de natureza, ou do estado de natureza ao de essência.”