Espanha

François Secret. Kabbalistes chrétiens de la Renaissance

Primórdios da cabala cristã na Espanha

A literatura apologética da Espanha medieval, que desenvolveu a controvérsia contra os judeus, é vista como o local onde se pode observar o desenvolvimento da utilização da cabala pelos cristãos.

Um dos primeiros autores é Moisés Sefardi, que se converteu em 1106 e adotou o nome de Petrus Alfonsus, cujo diálogo foi frequentemente reeditado com o livro do “Douto Rabi Samuel” para demonstrar o verdadeiro Messias.

O tema foi difundido sobretudo pelo “Punhal da Fé” (Pugio fidei), composto por volta de 1278 pelo dominicano espanhol Raimundo Martin.

O “Punhal da Fé” desenvolve temas da literatura talmúdica e midrásica que atraíram a atenção dos cabalistas cristãos.

Um tema frequentemente retomado pelos cabalistas cristãos é o da “profecia de Elias”: o mundo durará 6000 anos, sendo 2000 anos vazios (sem lei), 2000 anos sob a Lei e 2000 anos para o reino do Messias.

No “Punhal da Fé” encontra-se uma história sobre Jesus e o shem hammeforash (nome expanso) para realizar milagres.

No “Punhal da Fé” também se encontra o tema do rigor e da misericórdia a partir de Gênesis III, 23, onde o nome YHWH indica misericórdia e Elohim indica juízo.

Na dedicatória de sua “Alocução sobre o significado do nome Tetragrama”, Arnaldo de Villanova (discípulo de Raimundo Martin) recorda seu débito para com seu antigo mestre.

O interesse dos cristãos pelas tradições judaicas não podia deixar de desaguar na cabala, e Abraão Abulafia relata como alguns de seus discípulos chegaram à heresia cristã por não compreenderem os mistérios da Temurah.

A primeira menção do termo “cabala” aparece na obra de Abner de Burgos, que após o batismo (1320) assumiu o nome de Afonso e tornou-se cônego de Valladolid.

A obra de Afonso de Burgos foi extensivamente conhecida por meio da “Fortaleza da Fé” (c. 1458) de Afonso de Espina, cujo livro III considera os “Mecubalim” como uma seita.

Uma obra polêmica, o “Zelo de Cristo contra os judeus e sarracenos” (c. 1450), foi escrita pelo bispo de Burgos Afonso de Cartagena, que serviu de conselheiro de João II e do Papa Eugênio IV.

Por volta de 1450, um “novo cristão”, Afonso della Torre, escreveu sua “Deliciosa visão da filosofia” (publicada em 1485), cujo capítulo VI introduz a cabala.

Jacobo Pérez de Valência, eremita agostiniano e bispo de Crisópolis, em seus “Comentários aos Salmos” (1484), não usa o termo cabala, mas ataca o “sacrilégio judeu Mair, que inventou a Mishnah”.

O dominicano alemão Petrus Niger, que aprendeu os rudimentos do hebraico na Espanha com meninos judeus, escreveu um “Tratado contra os pérfidos judeus sobre as condições do verdadeiro Messias” (1475).

Pico della Mirandola, em seu “Heptaplus” (1489), apresentou uma exegese das primeiras palavras do Gênesis que teve duradoura fortuna entre os cabalistas cristãos.

Lourenço de Brindisi, frade capuchinho canonizado em 1881, retomou a exegese de Pico em pelo menos três de seus sermões, desenvolvendo-a em trinta e três palavras.

Conclui-se que essa literatura apologética, que devia assumir na obra de Pico della Mirandola o esplendor do Renascimento com o aporte da cabala, conheceu na Itália uma floração excepcional.