NICOLESCU, Basarab. La science, le sens et l’évolution: essai sur Jacob Boehme suivi d’un choix de textes. Paris: Ed. du Félin, 1988.
IV O imaginário como fonte de realidade
a) Imaginação falsa e verdadeira
A interação entre a estrutura ternária e a organização septenária da Realidade está intimamente ligada ao papel ativo e dinâmico da imaginação na cosmologia de Jakob Boehme.
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Boehme distingue entre uma imaginação verdadeira e fundadora (imaginatio vera) e uma imaginação degenerada, separadora e diabólica (a fantasia).
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A originalidade de
Boehme consiste em uma abordagem rigorosa do conceito de “imaginação” através de sua relação com as duas leis que regem todo processo da Realidade.
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Cada qualidade do ciclo septenário funciona como uma fonte da imaginação, diversificando-se infinitamente como imagens ou espelhos, segundo Pierre Deghaye.
A maioria dos comentadores enfatiza o papel primordial da imaginação divina como matriz absoluta de toda forma, adotando uma descrição linear oposta aos textos de Boehme.
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A descrição linear é uma ilusão criada pela linguagem natural, pois todos os septenários têm uma estrutura cíclica e não linear.
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A imaginação divina considerada isoladamente produziria um mundo fantasmagórico e sem consistência.
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Citação: “o eterno que é manifesto em si, também se manifesta fora de si, e espalha sua imaginação.”
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A “nutrição” recíproca de todos os septenários assegura a consistência das formas e gera a diversidade dos cosmos.
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A unidade só tem sentido pela existência da diversidade, e a invariância se nutre da mudança, como em uma “cena santa” em Deus.
A imaginação verdadeira é um fluxo de informação que atravessa todos os níveis da Realidade, assegurando coerência, coexistência e não separabilidade.
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Pode-se falar em graus de imaginação, constituindo o que Henry
Corbin chama de “mundo imaginal”, um reservatório de informação onde as qualidades do ciclo septenário transformam a imagem em corpo.
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A imaginação verdadeira engendra a Realidade em um contínuo jorro e perpétua gênese, sendo a faculdade de produzir imagens que não são imitações, mas realidades que se elaboram.
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O termo alemão “Einbildung” significa literalmente “dar forma”, “modelar”, e
Boehme entende o ato de imaginar como verdadeiramente criador de formas.
A tradução da Bíblia por André Chouraqui reforça a visão de Boehme sobre a imaginação como fonte da Realidade.
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A palavra hebraica “Béréshit” (Gênesis) não significa “no começo”, mas sim “na cabeça”, indicando que Elohim criou o mundo em sua cabeça.
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Há duas criações do homem: uma na imaginação (na forma) e outra criatural (pelo pó do solo), sendo a imaginação verdadeira a fonte de toda Realidade.
O universo de Boehme não é predeterminado; cada nível de Realidade possui sua própria liberdade, e o ciclo septenário pode avançar, recuar ou interromper-se.
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A imaginação pode se perverter e degenerar, gerando monstros vãos sem consistência, uma falsa imaginação “diabólica” (que separa) e bloqueia o processo de autoconhecimento.
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A falsa imaginação está ligada à “vaidade”, que tem um sentido propriamente metafísico, sendo gerada pela não conformidade com o seu lugar nos processos cósmicos.
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Paradoxalmente, a falsa imaginação pode ter um papel construtivo como uma “luz negra” que permite ver melhor a verdadeira luz, desde que sua place seja a “roda da angústia”, uma etapa a ser superada.
b) O sono e o imaginário
O sono aparece na obra de Boehme como um símbolo central, com uma acepção metafísica diferente da linguagem comum.
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Citação: “Contemple e considere o sono – escreve Jakob
Boehme – e você encontrará tudo. O sono nada mais é do que ter sido subjugado.”
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O sono contém em germe um elemento de resistência e bloqueio do processo de corporificação do imaginário, sendo uma ruptura no processo evolutivo.
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O sono significa a interrupção do contato com a imaginação verdadeira, uma separação do fluxo da Realidade por um mergulho no abismo da falsa imaginação.
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Embora o sono em si não seja nocivo (pois o poder divino se esconde no centro onde há sono), o sono prolongado por toda uma vida equivale à morte.
Boehme convida ao despertar e à retomada do contato com a verdadeira imaginação, que é um novo nascimento.
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O homem se constrói a si mesmo pelo poder da verdadeira imaginação, sendo a encarnação dessa imaginação.
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O imaginário e a fé são inseparáveis, e a fé tem uma consistência material, sendo um alimento que nutre os diferentes níveis da Realidade.
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Citação: “… Cristo não come do ser do céu como uma criatura, mas é a fé e a firme oração do homem e o louvor a Deus na alma do homem que constituem seu alimento…”
A nutrição recíproca de todos os níveis da Realidade exige a participação ativa do homem por meio de seu imaginário aberto para a verdadeira imaginação.
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O sono do homem equivale a uma catástrofe cósmica, bloqueando o movimento do universo vivo de
Boehme e transformando-o em um universo morto e mecânico.
c) A física moderna e o imaginário sem imagens
Um clichê tenaz associa a criação científica a uma démarche lógica inabalável, mas o fogo ardente do imaginário frequentemente predomina sobre a calma da lógica.
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O papel do imaginário nas matemáticas modernas foi explorado por Henri Poincaré e Jacques Hadamard, e na física teórica por Gerald Holton.
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Matemáticos e físicos teóricos compartilham o imaginário em um quadro abstrato, mas os físicos precisam confrontar suas representações com a resistência feroz da Natureza.
A física quântica revela uma nova forma de imaginário caracterizada pela abolição total da imagem baseada nos órgãos dos sentidos.
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A escala do mundo quântico (10^{-13} cm) é vertiginosa e esconde uma complexidade infinita, onde a descontinuidade é absoluta.
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A unificação das interações físicas ocorre em energias fabulosas (10^{15} a 10^{19} vezes a massa do próton) correspondendo a distâncias ínfimas (10^{-29} cm), desafiando o imaginário habitual.
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A descontinuidade quântica (energia variando por saltos, números quânticos com valores discretos) é pura e dura, não tendo relação com a descontinuidade da linguagem comum.
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A não separabilidade quântica, onde duas partículas distantes reagem simultaneamente como um todo sem nenhum sinal conhecido, supera a capacidade de aceitar o desconhecido.
Uma alegoria de um mundo bidimensional ajuda a compreender que a “não separabilidade” pode ser um fenômeno simples e racional do ponto de vista de uma dimensão superior.
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O imaginário do mundo quântico abre um espaço de liberdade e compreensão, onde a razão (não estática e evolutiva) e o imaginário são indissociáveis.
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O imaginário ajuda a transpor o limiar entre dois níveis diferentes de Realidade, enquanto a razão ajuda a explorar rigorosamente um nível dado.
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Distinguem-se duas formas de imaginário científico: uma que age dentro de um único nível de Realidade (mais comum) e outra “paradoxal” que age sobre vários níveis (nas grandes invenções de novas teorias).
Max Planck é um exemplo da complexidade do processo interior de clarificação, envolvendo tragédia e luz total.
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O confronto entre dois níveis diferentes de Realidade pela ação do imaginário contém um enorme potencial de poetização do universo e de reencantamento do mundo.
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O imaginário “informado” integra abstração matemática, liberdade da intuição, dados da Natureza e sentimentos, abrindo um grande diálogo entre ciência, arte e Tradição.