DA ELEIÇÃO E DA GRAÇA
PREFÁCIO DO AUTOR AO LEITOR
1. — Quando a razão humana ouve falar de Deus, daquilo que Ele é segundo Sua Vontade e Sua Essência, ela imagina ou forma a ideia de que Deus é algo distante ou estranho; de que Ele permanece fora do lugar deste mundo, elevado acima dos astros, reinando somente assim no lugar deste mundo por Seu Espírito, por Sua potência presente em tudo; mas de que, em Sua glória e em Sua majestade, na Trindade, onde Ele é própria e particularmente manifesto, Ele permanece no céu, fora do lugar deste mundo.
2. — Disso resulta que a razão cai facilmente na fantasia própria da criatura e imagina que Deus é algo estranho, que Ele deliberou em Si mesmo, em Sua Trindade, por Sua Sabedoria, antes dos tempos da criação, acerca daquilo que queria fazer das criaturas e deste mundo, para que deve servir e a que deve ser destinado todo ser; e que Ele tenha formado assim um destino, em Si mesmo, pelo qual teria querido regular, ordenar e destinar cada coisa.
3. — Daí resulta a opinião errônea, a fantasia e a incerteza da disputa concernente a essa deliberação divina, mantida acerca da sorte dos homens; como se Deus, por propósito e desígnio premeditados, tivesse eleito uma parte dos homens para possuir o reino dos céus, fundado na beatitude santa, e a outra parte para fazê-la sofrer a danação eterna. Que, em uns, Ele quisesse manifestar Sua cólera e, nos outros, que são Seus eleitos, Sua graça. Que Ele também tivesse, por propósito deliberado, estabelecido assim uma diferença entre os homens, a fim de manifestar e fazer resplandecer Sua potência em Seu amor e em Sua cólera; e que, por essa razão, todas as coisas devessem ocorrer assim, por necessidade. Que a parte do gênero humano destinada a manifestar Sua cólera fosse de tal modo endurecida e reprovada pelo propósito deliberado de Deus que não houvesse nenhuma possibilidade de que ela chegasse a participar da clemência divina; e que, ao contrário, não houvesse nenhuma possibilidade, na outra parte, de incorrer na danação.
4. — Mas, embora haja passagens semelhantes na Santa Escritura, e embora a razão humana criatural se compraza na mesma ideia, ainda que nada conheça daquilo que Deus propriamente é, a Santa Escritura não deixa, contudo, de dizer também o contrário: que Deus não quer nem pode ter feito nada de mal por Seu propósito deliberado. Essas duas ideias são, pois, contrárias; pretende-se dar delas ao leitor cristão e imparcial, que ama a verdade e nela procura o fundo interior das coisas, uma explicação abreviada, a fim de reunir os espíritos e de dar o verdadeiro sentido aos princípios que ele deseja meditar e conhecer, e isso com a boa e sincera intenção de comunicar-lhes e pôr-lhes diante dos olhos os dons recebidos, e de mostrar-lhes como se viu luz em tudo isto pela graça do soberano Bem. Não há o menor propósito de atacar ou desprezar por isso quem quer que seja, quaisquer que sejam sua opinião e seu sentimento; mas procura-se conciliar os espíritos e contribuir para a reunião cristã e fraterna, pois se deve fazer com que uns e outros participem dos dons que, pela graça de Deus, cada qual recebeu em particular.
5. — Assim como os ramos de uma árvore não são absolutamente semelhantes uns aos outros quanto à sua forma, embora saiam do mesmo tronco e comuniquem uns aos outros sua essência (Ens) e sua virtude, ao darem flores e frutos, e se alegrem juntos por aquilo que possuem do mesmo tronco, sem nutrir nenhuma inveja por causa da partilha desigual de sua força e de sua virtude de frutificação, do mesmo modo se deve agir uns para com os outros, quanto à partilha dos dons desiguais recebidos. Trata-se somente de voltar os desejos para a verdadeira fonte, para a mãe comum, para o tronco, a fim de que cada ramo empreste sua força e sua virtude ao outro, com benevolência; a fim de que não haja retraimento sobre si mesmo, cedendo ao desejo do orgulho, da avareza, com a intenção de superar a própria mãe comum, da qual se possui a existência, elevando-se acima de todos os seus filhos, os irmãos, e querendo fazer de si mesmo uma árvore separada e particular. Trata-se de não se deixar infectar pelo veneno do Diabo, isto é, pelo veneno do amor-próprio, da falsa impressão magnética, ao querer existir apenas por amor de si mesmo. Pois daí resultam contradições, disputas, más intenções, dissensões, divisões, cismas, violências, pelas quais todos os ramos da árvore da raça humana querem separar-se uns dos outros, invejando-se mutuamente sua essência e sua virtude, declarando-se reciprocamente traidores e rebeldes, enquanto cada um, contudo, não se apresenta a si mesmo senão como um ramo separado de seus co-ramos e se faz reconhecer como tal por seu falso brilho e por seu orgulho. Daí nasce o grande número de dissensões e disputas que, em todos os tempos, dividiram os mortais.
6. — É, pois, a todos os irmãos que se quer fazer conhecer qual é a fonte das disputas, das dissensões e dos cismas que resultaram naturalmente do erro; qual é o verdadeiro fundamento da única religião universal e o que deu lugar a tantas divisões e opiniões diversas. Ser-lhes-á demonstrado de onde a contrariedade, desde que o mundo existe, tomou origem, e ser-lhes-ão dadas explicações fundadas de tudo isso, a fim de que cheguem a ideias nítidas e justas sobre a Vontade Divina segundo o Amor e a Cólera.
7. — Exorta-se, enfim, o leitor, amigo da Verdade, a entregar-se absolutamente à Vontade de Deus, por uma humildade divina, e a abraçar nela seus co-ramos e seus irmãos, com doçura e caridade; então ele poderá apreender facilmente as ideias e verdades sublimes e a ciência certa recebida. Livre de todo erro e preconceito, poderá gozar da verdadeira tranquilidade em que se encontram todas as coisas quando estão no Verbo da potência divina. Recomenda-se, enfim, ao Amor eficaz da Essência (Ens) do Cristo, recomendando ao seu a sincera aspiração e a boa vontade, com a mais terna afeição. Assim seja.