Apresentam-se argumentos da parte contrária que tentam refutar a pré-existência.
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O primeiro argumento propõe que, se a alma se une ao corpo como castigo, a união não seria normal nem representaria uma perfeição da natureza, agindo como um mal.
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A primeira resposta por instância lembra que o homem foi submetido ao castigo de comer o pão com o suor do rosto e a mulher a parir com dor, sem que isso seja antinatural para a terra ou para os homens.
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É normal que o corpo grosseiro sem a glória da inocência seja destinado ao castigo.
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A segunda resposta aponta a falácia de tomar o relativo pelo absoluto.
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A união da alma com o corpo não ocorre de forma essencial, mas relativa, envolvendo também vantagens destinadas a devolver a alma ao estado primitivo.
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O segundo argumento afirma que o natural vale mais do que o que está fora da natureza, sendo a separação da alma algo fora da natureza e a união algo natural e superior.
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A resposta exige a distinção entre a natureza considerada após a introdução da matéria e a considerada segundo a essência da coisa.
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A união é natural no estado moderno de corrupção, mas não na Essência, pois a alma pode ser concebida sem união.
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O terceiro argumento alega que, se Deus criasse as almas separadas no princípio, não teria criado tudo segundo a perfeição de cada espécie, pois a perfeição da alma ocorreria na união com o corpo.
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A resposta distingue a alma no estado perfeito e após a queda, aceitando a asserção apenas para o segundo caso.
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O uso de muletas por um coxo não significa que as muletas contribuam para o aperfeiçoamento da espécie humana.
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O quarto argumento propõe que, se as almas existem antes do corpo, deveriam estar na via, na pátria ou em nenhum dos dois, locais que não lhes poderiam ser atribuídos.
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A resposta indica que as almas estavam primeiro na pátria onde nasceram, depois em estado neutro ao caírem no pecado, e retornam à via ao serem introduzidas no corpo, tornando a premissa menor falsa.
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O quinto argumento baseia-se na premissa de que as almas não poderiam esquecer totalmente o estado primitivo se tivessem pré-existido, sendo manifesto o esquecimento atual.
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A resposta aponta que as causas que apagam a memória nesta vida são numerosas e poderosas, não provindo apenas da vida presente.
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A primeira causa de esquecimento é a falta de ocasião para lembrar, como indivíduos que não lembram de sonhos ao acordar, mas recordam deles mais tarde diante de um estímulo.
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A segunda causa é o desabituamento da alma em aplicar-se a certas coisas, como a caligrafia escolar não reconhecida na idade adulta se não fosse pelo nome assinado.
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A terceira causa envolve grandes mutações na constituição do corpo por acidentes, morte violenta ou sono.
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Essas predisposições ao esquecimento tornam-se mais violentas enquanto a alma permanece na prisão terrestre.
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A diferença entre o que a alma via fora do corpo e o que vê dentro dele é maior do que a diferença entre o estado de sono e o de vigília.
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Os cuidados da vida presente introduzem o esquecimento das coisas do além.
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Após a queda, as almas são reduzidas ao estado de cascas e mergulhadas em silêncio por séculos.
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Se o estado de silêncio não estivesse ligado à descida, haveria vestígios de lembrança, como ocorreu com o Christ conforme São João, capítulo dezesseis, versículo cinco.
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A descida no corpo é uma mutação maior e mais apta a apagar a memória do que doenças que causam amnésia nesta vida.
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Uma objeção adverte que, se a mudança de lugar causasse esquecimento total, haveria o risco de esquecimento após a saída do corpo, o que seria absurdo por se esperar a permanência da memória e da consciência.
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A resposta diferencia as situações por haver um estado de silêncio e torpor entre o estado primeiro e o moderno que adormece as faculdades.
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Nada semelhante ocorre entre o estado moderno e o futuro, garantindo a não aniquilação da memória.
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O sexto argumento alega que, se Deus criou as almas com aptidão vital para ocupar três veículos, sendo o último o receptáculo após a queda, Deus as teria criado com a necessidade de pecar.
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A aptidão que determina a passagem pela terra proviria da própria essência, sendo necessária.
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A resposta distingue a aptidão vital em si de sua dedução em ato.
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A existência da aptidão não torna a dedução em ato necessária, pois é falso que toda potência se deduza em ato.
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A potência dos anfíbios de viver em vários elementos não se deduz necessariamente em ato se animais como gansos e patos forem alimentados sempre em terra.
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A alma possui a potência de viver em vários veículos ou fora deles, assim como o cocheiro vive fora da carruagem.
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O sétimo argumento indica que a capacidade de habitar múltiplos veículos faria a alma entrar em outro após o veículo terrestre, não o retomando para a ressurreição da carne.
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A resposta distingue o estado atual da carne e a ampliação do que já foi carne outrora.
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A ressurreição deve ser entendida segundo a segunda acepção, pois a transformação ocorrerá na matéria do veículo conveniente à alma naquele momento, conforme
São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo quinze, versículo cinquenta e dois.
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A imutabilidade da matéria constitui uma mudança de acidentes com identidade de substância, permanecendo intacta a substância que foi carne mesmo se atenuada em ar ou éter.
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O oitavo argumento afirma que, se a alma ocupou a região do ar originalmente, um local semelhante lhe seria devolvido após a morte, o que seria incômodo aos justos por ser o séjour dos demônios e de tempestades.
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A resposta aponta a existência de várias espécies de ar, sendo a mais elevada a grande órbita da terra.
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O ambiente terrestre não é atribuído às almas piedosas por haver locais de maior quietude disponíveis.
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O nono argumento propõe que a pré-existência permitiria ao homem morrer várias vezes se a aptidão vital para o corpo terrestre não estivesse expirada, exigindo o retorno até o despertar da aptidão para o corpo aéreo.
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A necessidade de experimentar a morte mais de uma vez contrariaria a Epístola aos Hebreus, capítulo nove, versículo vinte e sete,
Job, capítulo dezesseis, versículos vinte e dois e vinte e três, e o Segundo Livro de Reis, capítulo doze, versículo vinte e três.
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A resposta ao primeiro trecho exige a distinção entre o termo homem em sentido amplo para designar a alma e em sentido estrito para designar a união com o corpo terrestre, além da distinção entre Julgamento universal e particular.
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Ao deixar o corpo, a alma é levada ao Julgamento particular para se decidir se merece retornar ao estado primeiro, não seguindo o julgamento universal imediatamente à morte de cada homem.
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O trecho de
Job aplica-se a um caso particular sobre o fim da aptidão de
Job para com o veículo terrestre, mostrando que o homem santo não deve temer o retorno, não se aplicando o particular ao universal.
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O terceiro argumento sobre o filho de Davi envolve a falácia de concluir do relativo para o absoluto, sendo um caso específico em que a alma da criança não retornou para formar outro filho durante a vida de Davi.
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O décimo argumento aponta que a hipótese tornaria a glória celeste da vida futura inconstante e passível de perda, baseando-se na queda inicial das almas.
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A resposta opõe as promessas das Escrituras sobre a coroa incorruptível na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo nove, versículo vinte e cinco, e na Primeira Epístola de São Pedro, capítulo cinco, versículo quatro.
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São Paulo afirma a ressurreição na incorruptibilidade na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo quinze, versículos quarenta e dois, cinquenta e dois e cinquenta e três, para que a morte seja absorvida na eternidade junto com o pecado, conforme Oséias, capítulo treze, versículo quatorze.
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O décimo primeiro argumento sugere que múltiplas almas poderiam entrar em um corpo ao mesmo tempo se a faculdade plástica não as permitisse discernir se o corpo já está ocupado.
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A resposta distingue a ingressão formativa da não formativa.
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A ingressão formativa ocorre quando o centro vital da alma se fixa no ponto determinado pelo espírito do universo, permitindo que apenas uma realize a ingressão formativa se mil almas entrarem juntas, sendo as outras obrigadas a abandonar o local.
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O décimo segundo argumento alega que a hipótese implicaria que outros planetas são habitados por homens por serem maiores e mais próximos do lugar bem-aventurado de onde as almas foram expulsas.
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A resposta nega a consequência por falta de matéria seminal adequadamente preparada nesses locais.
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Deus colocou Adam na terra como primeiro preparador dessa matéria, razão pela qual não haveria homens em outros locais.