ORIGENES et al. Homilies on Numbers. Downers Grove, Ill: IVP Academic, 2009.
O texto trata da natureza e do propósito dos julgamentos divinos e dos castigos, demonstrando que mesmo objetos e eventos aparentemente negativos possuem um papel benéfico no plano de Deus.
Conforme o relato sobre os incensários de Corá, Deus não ordenou que fossem rejeitados, mas que fossem transformados em placas para revestir o altar, como memorial para os israelitas.
A Escritura relata que Eleazar, filho de Aarão, tomou os incensários de bronze dos que foram queimados e deles fez discos para cobrir o altar, a fim de que nenhum estrangeiro se aproximasse para oferecer incenso diante do Senhor, para não ser como Corá e sua conspiração.
A comparação entre os julgamentos divinos e os humanos evidencia que Deus não descarta completamente aquilo que foi usado por pecadores, mas o reaproveita para um fim santo.
Os incensários de bronze dos que se revoltaram figuram as Escrituras divinas, sobre as quais os hereges colocam um “fogo estranho” ao introduzir interpretações contrárias à verdade.
A designação “bronze” para os incensários não é supérflua, pois representa o mero som da voz, sem o poder do Espírito, ao contrário do ouro e da prata que simbolizam a pureza da fé.
As palavras dos hereges, levadas ao altar de Deus, servem para que a verdade brilhe mais intensamente em comparação com o erro, como no exemplo de refutar
Marcion ou Basilides com as Escrituras.
Se o ensino da igreja fosse simples e não fosse cercado por asserções dos ensinos heréticos, a fé não pareceria tão clara e examinada; as heresias existem para que a fé não se torne inativa, mas seja refinada por tais exercícios.
A necessidade da existência de heresias, conforme o apóstolo, é para que os que são provados se manifestem, sendo os incensários dos hereges colocados ao redor do altar para que a distinção entre crentes e incrédulos se torne certa e manifesta.
As coisas boas são mais bem conhecidas em comparação com as más, como a luz em contraste com as trevas e a doçura do mel em comparação com o amargo.
Se o
diabo e as potestades contrárias fossem removidos, as virtudes da alma não poderiam brilhar sem a luta, e a glória dos sacerdotes fiéis não brilha sem a rejeição e o castigo dos infiéis.
Os justos parecem mais brilhantes diante de Deus em comparação com os outros, como no caso de Noé, que foi declarado “justo e perfeito em sua geração”, e de Ló, que parecia mais justo à medida que os sodomitas pioravam.
Noé foi considerado perfeito não em termos absolutos, mas “perfeito em sua própria geração”; Calebe e
Jesus receberam mérito imortal não tanto por sua confissão, mas por causa do terror de seus companheiros, os outros dez espias.
O exemplo dos incensários dos condenados serve para impedir que alguém assuma com presunção o dever sacerdotal dado por Deus, devendo-se ceder àquele que adquiriu o ofício pela vontade de Deus e não por ambição humana.
A proteção divina e o derramamento de graça são especialmente manifestos nos momentos de perseguição e tribulação, quando a glória de Deus se faz presente.
Quando o povo murmurou contra Moisés e Arão, a nuvem cobriu o tabernáculo e a majestade do Senhor apareceu, recebendo Moisés e Arão, o que não havia ocorrido antes.
O povo disse: “Vós matastes o povo do Senhor”, e quando a congregação se precipitou sobre Moisés e Arão, eles fugiram para o tabernáculo do testemunho, e a nuvem o cobriu, e a majestade do Senhor apareceu.
Aprendendo com isso, percebe-se quão grande é o benefício que vem durante as perseguições dos cristãos, quando Deus se torna seu campeão e o Espírito é abundantemente derramado.
É especialmente naquele tempo que a graça do Senhor está presente, quando a crueldade humana é despertada, pois onde abundou o pecado, superabundou a graça.
A glória de Deus não aparece quando se está dormindo ou em lazer, mas sim quando se está em meio a perseguições, tribulações e perigos, como exemplificado na vida do apóstolo Paulo.
Paulo não teria alcançado a glória de Deus senão por esses meios, tendo estado “em tribulações, em dificuldades, em prisões”, sendo “três vezes chicoteado”, “uma vez apedrejado”, sofrendo “três naufrágios” e enfrentando “perigos de rios, perigos de salteadores, perigos de falsos irmãos”.
A intercessão de Moisés e Arão, figuras da lei e da oração, é eficaz para apaziguar a ira divina e salvar o povo da destruição.
Moisés e Arão, como homens santos e perfeitos, caíram com o rosto em terra para interceder pelo povo que se levantava para matá-los, demonstrando o amor ao próximo e a oração pelos perseguidores.
Eles, que são santos e perfeitos, e mais discípulos do
evangelho do que da lei, “amam os seus inimigos” e “oram pelos seus perseguidores”, conforme ensina Cristo.
A lei, significada em Moisés, ensina o conhecimento e o amor de Deus, enquanto Arão exemplifica a súplica e a oração, e ambos intercedem para que a ira cesse e o Senhor seja propiciado.
Quando a indignação divina surge, se a lei de Deus retorna ao coração, ensinando o arrependimento e a satisfação pelas transgressões, a ira cessa, como se Moisés e Arão intercedessem por todo o povo.
Se o coração se endurece e não se converte ao Senhor, nem se humilha diante dele, não há Moisés nem Arão, isto é, conhecimento da lei e fruto do arrependimento, para escapar da destruição.
Se se diz: “Deus não se importa com a vida dos mortais, nem essas coisas pertencem a Deus”, e se pensa que Ele abandonou, é certo que não há Moisés e Arão, e teme-se que o Senhor, ao vir, não encontre fé na terra.
O cumprimento da lei e a sua novidade espiritual são demonstrados no amor aos inimigos e na oração pelos perseguidores, ensinados por Cristo e praticados por Moisés e Arão.
Moisés e Arão, ao orarem pelos que os perseguiam, já praticavam o que o
Evangelho posteriormente ensinou, mostrando que o poder do
Evangelho está na lei e que os
Evangelhos são compreendidos como tendo o fundamento da lei.
Eles “caem com o rosto em terra” e oram por aqueles que se levantaram em insurreição para matá-los, revelando que o poder do
evangelho está na lei.
A lei é um “
Antigo Testamento” apenas para aqueles que a entendem de maneira carnal, mas para aqueles que a entendem espiritualmente e de acordo com o sentido evangélico, ela é sempre nova.
Para os que entendem e explicam a lei espiritualmente, ambos são “Novos Testamentos”, não pela idade do tempo, mas pela novidade do entendimento.
A obediência à lei e o amor ao próximo são virtudes que não envelhecem, renovando-se no Espírito para aqueles que as guardam, enquanto para o pecador, até os
Evangelhos se tornam velhos.
O mandamento do amor, dado na lei, nunca falha e nunca envelhece; ele renova continuamente no Espírito aqueles que o observam, mas para quem não preserva a aliança do amor, os
Evangelhos se tornam velhos.
O sumo sacerdote Aarão, ao oferecer incenso no acampamento e interceder entre os vivos e os mortos, deteve a praga que devastava o povo, prefigurando a ação do verdadeiro sumo sacerdote.
Aarão, encorajado por Moisés, tomou o incensário com fogo do altar e incenso, correu para o meio da congregação e ofereceu intercessão, parando a destruição que já havia começado.
Moisés disse a Aarão: “Toma o incensário, põe nele fogo do altar, deita incenso sobre ele e leva-o rapidamente ao acampamento, e intercede por eles, porque a ira já começou a destruir o povo.”
Aarão, vestindo as vestes sacerdotais, foi ao local onde a morte havia chegado e ficou entre os vivos e os mortos, fazendo cessar a devastação.
A imagem do sumo sacerdote entre os vivos e os mortos prefigura
Jesus Cristo, o verdadeiro sumo sacerdote, que tomou o incensário da carne humana e o fogo do altar, ou seja, sua alma, e acrescentou o incenso do Espírito imaculado.
Cristo destruiu aquele que tinha o poder da morte, isto é, o
diabo, para que todo aquele que nele crê não morra, mas viva eternamente.
A figura do incensário, do fogo e do incenso foi reconhecida pelo
anjo destruidor, que compreendeu o mistério e, naquela época, a imagem prefigurada os salvou, enquanto a verdade da salvação veio a nós.
O
anjo devastador não se envergonhou das vestes de púrpura e linho do sumo sacerdote, mas entendeu as coberturas que estavam por vir e a elas cedeu, pois toda a criação é inferior a elas.
A “destruição” ou “despedaçamento” que cessou refere-se aos pecadores, que são como vasos de barro, e a figura do “despedaçamento” indica a fragilidade e a possibilidade de reforma ou condenação.
A Escritura chama os pecadores de “vasos de barro”, como indicado pelo profeta Jeremias, e o apóstolo Paulo também utiliza essa imagem ao falar de vasos para honra e para desonra.
Jeremias, nas Lamentações, diz: “Os filhos de Sião, que eram honrados e cheios de ouro, como foram considerados vasos de barro?”, e Paulo afirma que, se alguém se purificar, será vaso para honra.
A intenção humana é o fator que determina se alguém se torna um vaso para honra ou para desonra, pois a mente, ao escolher o bem, torna a pessoa um vaso útil, mas a negligência a torna um vaso para desonra.
O corpo e a letra da lei são comparados a “vasos de barro” que contêm o tesouro da graça e do conhecimento de Deus, mostrando que a mensagem divina é guardada em coisas humildes.
O apóstolo diz: “Temos este tesouro em vasos de barro”, referindo-se ao corpo e também às palavras da lei, que parecem vis e desprezíveis, mas nas quais “os tesouros da sabedoria e do conhecimento de Deus estão escondidos”.
O episódio das varas, com a vara de Arão que floresceu, revela o princípio da escolha divina e a prefiguração da ressurreição e dos dons espirituais.
Deus ordenou que Moisés tomasse doze varas dos príncipes de Israel, uma para cada tribo, e colocasse a vara de Arão na tenda do testemunho, para que a vara do escolhido florescesse e cessassem as murmurações.
O Senhor disse a Moisés: “Pega uma vara de cada casa paterna, de todos os seus príncipes, doze varas, e escreve o nome de cada um na sua vara; e o nome de Arão escreverás na vara de Levi; e as porás na tenda do testemunho, diante do testemunho, onde eu virei a vós.”
Cada governante tem uma vara, e a vara de Arão, o sumo sacerdote, foi a única que floresceu, produzindo botões, flores e amêndoas, indicando a escolha divina sobre a tribo de Levi.
A vara de Arão, da casa de Levi, floresceu, produzindo brotos, flores e amêndoas, enquanto as outras varas não mostraram sinal de vida, confirmando a escolha de Deus.
O fruto da vara de Arão, as amêndoas, simboliza o ensino da lei e dos profetas, que tem três camadas: a letra amarga, o revestimento da disciplina moral e o sentido oculto da sabedoria divina que nutre as almas.
A amêndoa tem uma casca amarga, uma camada protetora e, por fim, a semente que alimenta; assim, a lei tem a letra que mata, a disciplina necessária no corpo e o significado dos mistérios da sabedoria e do conhecimento de Deus.
A vara seca que floresce prefigura a ressurreição dos mortos, e os quatro elementos que surgiram na vara (broto, botão, flor e fruto) correspondem às quatro qualidades do corpo ressurreto: incorrupção, poder, glória e espiritualidade.
O que é semeado em corrupção ressurgirá em incorrupção, em poder, em glória e em corpo espiritual, assim como a vara seca produziu broto, botões, flores e amêndoas.
A generosidade de Deus supera suas promessas, tanto nos dons quanto nos castigos, e a vara de Arão simboliza o progresso espiritual do crente em Cristo.
Deus prometeu apenas que a vara escolhida floresceria, mas na realidade ela produziu brotos, botões, flores e frutos, mostrando que ele concede muito mais do que promete.
Deus prometeu uma coisa, que a vara do escolhido floresceria, mas quando o prometido se cumpriu, viram-se não apenas brotos, mas também botões, flores e amêndoas, um acréscimo quádruplo.
A mesma lógica se aplica às promessas futuras, que ultrapassam toda compreensão humana, e também aos castigos, que podem ser multiplicados conforme a gravidade da falta.
O que o olho não viu, nem o ouvido ouviu, nem subiu ao coração do homem, é o que Deus preparou para os que o amam, superando tudo o que se pode ver, ouvir ou pensar.
A vara de Arão, que é Cristo, produz nos crentes quatro estágios de desenvolvimento espiritual: a confissão inicial (broto), o recebimento da graça (botão), o avanço na virtude (flor) e a produção do fruto da justiça (amêndoa).
A primeira confissão de Cristo é o primeiro brotamento; o segundo é o botão, quando se recebe a graça pela santificação do Espírito; o terceiro é a flor, com o avanço e a atratividade do caráter; o quarto é o fruto da justiça, que dá vida a outros.
Esses quatro estágios correspondem às quatro fases da vida espiritual mencionadas por João em sua epístola: crianças, jovens, adolescentes e pais, representando diferentes níveis de progresso da alma.
João escreve a crianças, jovens, adolescentes e pais, não por idades físicas, mas por diferenças nos níveis de progresso da alma, assim como no brotamento da vara sacerdotal.
Cristo se torna diverso para cada um conforme a necessidade: como vara para os negligentes, que precisam ser corrigidos, e como flor que desabrocha para os justos, que progridem na justiça e produzem os frutos do Espírito.
Para o mais lânguido e negligente, Cristo se torna uma “vara”, que não “sobe”, mas “sai” para tirá-lo do estado em que está; mas para o justo, ele “sobe e floresce”, produzindo o fruto do Espírito, que é amor, alegria, paz, longanimidade e outras virtudes.