ORIGENES et al. Homilies on Numbers. Downers Grove, Ill: IVP Academic, 2009.
A narrativa sobre Balaão e sua jumenta, repleta de dificuldades interpretativas, exige um esforço para além do sentido histórico, buscando compreender como Deus utiliza tanto o bem quanto o mal para seus propósitos.
A dificuldade em entender como Deus “veio a Balaão” e lhe perguntou “quem eram aqueles homens” é agravada pela distinção, na literatura hebraica, entre a escrita do nome do verdadeiro Deus (o tetragrama) e a de deuses em geral, sendo que, neste relato, Deus não é registrado pelo tetragrama.
A Escritura mostra que o Deus de Israel é escrito com um símbolo determinado de letras, chamado tetragrama, enquanto outras formas de escrita indicam a possibilidade de se referir a deuses que não são o Criador.
A pergunta de Deus a Balaão sobre a identidade dos homens e a ordem para não amaldiçoar o povo, pois ele é bendito, levantam questões sobre a aparente ignorância divina e o sentido da proibição.
A providência divina dispõe as coisas de modo que o mal, embora não tenha sido criado por Deus, é utilizado para fins necessários, tornando as virtudes manifestas e provadas.
Se o mal fosse destruído, não haveria oposição às virtudes, e elas não se tornariam mais brilhantes ou provadas, como se vê no exemplo de José, cujo sofrimento causado pela inveja de seus irmãos resultou na salvação de todo o Egito e das nações vizinhas.
A remoção do mal dos irmãos de José eliminaria a interpretação do sonho de Faraó, o armazenamento de grãos no Egito, a sobrevivência do próprio Israel e, consequentemente, todo o êxodo e a dádiva da lei.
Da mesma forma, o mal de Balaque, ao convidar Balaão para amaldiçoar o povo, serviu ao plano de Deus, pois resultou nas profecias que beneficiaram Israel e as nações.
O mal de Judas, ao trair
Jesus, foi usado para a realização da cruz, da morte e da ressurreição de Cristo, que são a base da esperança da ressurreição para todos.
Se a traição de Judas fosse eliminada, não haveria cruz, nem despojamento dos principados e potestades, nem ressurreição, e nem esperança de ressurreição para a humanidade.
Deus não apenas usa as coisas boas, mas também as más para uma boa obra, dispondo de vasos de honra e de desonra em sua grande casa, que é o mundo.
Os vasos de honra e de desonra são entendidos como dotados de razão e livre arbítrio, e cada um se torna um ou outro por sua própria escolha, não por acaso ou vontade do Criador.
Deus não fez o mal, mas, uma vez que este foi encontrado na intenção daqueles que se desviaram, ele não o elimina completamente, pois o utiliza para o benefício daqueles contra quem é exercido, como acontece com os trabalhadores que realizam tarefas essenciais nas grandes cidades.
Assim como nas grandes cidades os menos dignos são condenados a tarefas difíceis, mas necessárias para o conforto da cidade, Deus usa o mal para o avanço e vantagem daqueles para quem as coisas boas são preparadas.
A existência de
anjos sobre as bestas, sobre as práticas terrenas e sobre as coisas santas mostra que não há nada inútil com Deus, e cada pessoa, por suas obras, se oferece para ser formada como um vaso de eleição ou como um vaso de desonra na providência divina.
Se alguém leva uma vida bestial, será colocado entre os
anjos que presidem as bestas; mas se persevera na oração, será recebido na sociedade do
anjo Miguel, que oferece as orações dos santos a Deus.
Balaão, um adivinho que invocava demônios, é usado por Deus para que as profecias sobre Cristo chegassem aos gentios, que não tinham acesso às Escrituras de Israel.
Balaão, que era tido como divino por todos os do Oriente, é procurado por Balaque para amaldiçoar Israel, mas Deus aparece a ele e lhe proíbe a jornada, embora depois lhe conceda permissão para ir, colocando sua palavra em sua boca, não em seu coração.
A palavra de Deus é posta na boca de Balaão, e não em seu coração, porque o desejo da recompensa estava em seu coração, e ele era ganancioso por dinheiro.
A sabedoria de Deus faz com que este “vaso preparado para desonra” sirva para o benefício de quase todo o mundo, pois por meio dele, que era confiado por todas as nações, os mistérios secretos de Cristo se tornaram conhecidos também entre os gentios.
As profecias de Balaão, como a de que “uma estrela sairá de Jacó, e um homem se levantará de Israel”, foram preservadas entre os mágicos do Oriente e levaram os magos a reconhecerem o nascimento de
Jesus.
Alegoricamente, Balaão, cujo nome significa “povo vão”, representa o caráter dos escribas e fariseus, enquanto Balaque, que significa “exclusão” ou “devorador”, representa as potências adversas que buscam excluir e devorar o Israel espiritual.
Os escribas e fariseus, assim como Balaão, fingem ter zelo por Deus, mas suas ações são movidas por recompensas e pela oposição a Cristo, como quando dizem: “Temos uma lei, e segundo a lei ele deve morrer, porque se fez
Filho de Deus”.
Eles parecem ter zelo por Deus, mas é fingido, assim como Balaão, que se refere a Deus, mas na verdade busca recompensas e age movido pela ganância.
A jumenta sobre a qual Balaão montava representa a porção dos fiéis que são comparados a animais por sua simplicidade ou inocência, e que são libertos por Cristo, não por ele mesmo, mas por seus discípulos.
Assim como no
Evangelho os discípulos são enviados para desatar a jumenta e seu jumentinho, também aqui não é por Deus, mas pelo
anjo, que “a boca da jumenta é aberta”, e aqueles que eram mudos convencem aqueles que têm fala.
A profecia de Balaão sobre Cristo, assim como a de Caifás, não deve ser motivo de orgulho para ninguém, pois o que permanece é a fé, a esperança e o amor, sendo o amor o maior de todos.
O apóstolo Paulo ensina que as profecias serão aniquiladas, as línguas cessarão e o conhecimento será destruído, mas a fé, a esperança e o amor permanecem, e o maior destes é o amor, que nunca falha.