ORIGENES et al. Homilies on Numbers. Downers Grove, Ill: IVP Academic, 2009.
A vitória sobre Sihon, o rei infrutífero e orgulhoso, e a posse de sua terra figuram a derrota do diabo e o domínio de Cristo e de sua igreja sobre o mundo.
Sihon caiu “pela matança da espada”, e essa espada é a Palavra de Deus, que é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes, sendo também a espada do Espírito.
Os filhos de Israel tornaram-se senhores de toda a terra de Sihon, desde Arnom até Jaboque, sendo Arnom a “maldição” que marca o início do reino do
diabo e Jaboque a “luta” que marca o seu fim.
Todo aquele que deseja sair do reino do
diabo encontrará uma luta contra seus ministros, mas se lutar e vencer, não será mais cidade de Sihon, mas cidade de Israel, como aconteceu com o patriarca Jacó.
Israel, entendido como o Israel em Cristo, e não o Israel na carne, habita em todas as cidades dos amorreus, que são as igrejas de Cristo espalhadas por todo o mundo.
Cada pessoa foi primeiramente uma cidade do rei Sihon, dominada pela loucura e arrogância, mas quando o forte foi atacado e derrotado, e seus bens saqueados, tornou-se cidade de Israel, desde que a árvore infrutífera seja cortada e o rei orgulhoso seja derrubado.
A principal cidade do reino de Sihon, Hesbom, que se traduz como “pensamentos”, é incendiada e destruída, mas deve ser reconstruída pelos que falam em figuras, ou seja, pelos profetas e pela lei.
O domínio do
diabo reina principalmente nos pensamentos, pois do coração procedem os maus pensamentos, e por isso a cidade de Hesbom é necessariamente queimada com o fogo que o Salvador veio lançar sobre a terra.
O Senhor disse que do coração procedem os maus pensamentos, assassinatos, adultérios, furtos, falsos testemunhos e blasfêmias, e que são estas coisas que tornam o homem impuro.
Os “enigmatistas”, que são os que falam figurativamente, como a lei e os profetas, dizem: “Vinde a Hesbom, para que seja edificada”, indicando que a cidade de Sihon, outrora caída e queimada, deve ser reconstruída.
Quando um pagão que vive na ignorância religiosa tem seus dogmas pagãos derrubados pela palavra de Deus, os filhos da igreja reconstroem em seu coração pensamentos bons, sentimentos piedosos e o ensino da verdade.
A guerra contra Og, rei de Basã, que se traduz como “torpeza moral”, e cujo nome significa “obstáculo”, deve ser travada de modo a não deixar nada vivo.
O relato sobre Balaão e sua jumenta é repleto de dificuldades tanto no sentido histórico quanto no interior, mas a narrativa demonstra que as palavras podem ter mais poder do que as armas.
O rei Balaque, diante da invasão de Israel, esquece-se das armas e deposita toda a sua esperança nas palavras de Balaão, um adivinho famoso, para que este amaldiçoasse o povo e o vencesse.
Balaque envia mensageiros a Balaão com presentes, pedindo que ele venha amaldiçoar o povo que saiu do Egito, na esperança de que o povo, que o exército não pôde vencer, fosse vencido pelas palavras de Balaão.
A arte mágica, que utiliza palavras para produzir efeitos, é atestada pelas Escrituras, que também condenam seu uso, pois seus ministros são
anjos renegados e demônios imundos.
Os encantadores e mágicos do Egito transformaram varas em serpentes e água em sangue por meio de uma arte de palavras, mas não puderam reverter esses atos, enquanto o poder de Deus pode restaurar todas as coisas.
O rei Balaque conhecia o poder das orações de Israel e por isso buscou um feiticeiro que pudesse contrapor palavras e maldições às suas súplicas.
Balaque sabia que Israel vencia seus inimigos pela oração, não pelas armas, como aconteceu contra Faraó e contra Amaleque, e por isso concluiu que precisava de palavras e orações que pudessem vencer as orações de Israel.
Quando Moisés erguia as mãos para Deus, Amaleque era vencido, mas quando seus braços relaxavam e desciam, isso causava a derrota de Israel, mostrando que a batalha era vencida pela oração.
O rei compara Israel a um bezerro que arranca a grama do campo com a boca, indicando que o povo luta com a boca e com os lábios, tendo armas em suas palavras e orações.
Os demônios invocados pelos mágicos estão presentes para fazer o mal, não o bem, e não podem ser invocados juntamente com as coisas santas de Deus.
Os demônios são invocados por mágicos para o mal, e é a eles que Balaão recorria por meio de uma arte e composição de palavras, tornando-se grande entre os homens por essa amizade com os espíritos malignos.
Nenhum espírito santo obedece a um mágico, e aquele que recebeu autoridade para invocar Cristo não pode novamente invocar demônios, pois se o fizer, o
Espírito Santo foge dele.
Deus impede Balaão de ir amaldiçoar Israel, mas permite que ele prossiga após insistir, colocando em sua boca palavras de bênção e profecia.
Deus vai ao encontro de Balaão e lhe pergunta sobre os mensageiros, proibindo-o de ir com eles e de amaldiçoar o povo, pois ele é bendito.
Deus diz a Balaão: “Não vás com eles, não amaldiçoes o povo, porque ele é bendito”, mostrando que a vontade divina era proteger Israel das maldições do adivinho.
Deus não condena a raça dos demônios “antes do tempo”, pois eles são necessários para o treinamento e as vitórias dos justos, e por isso ele impede que Balaão os invoque, para que não pereçam antes do tempo.
Se a liberdade de escolha fosse removida dos demônios, não haveria mais luta para os atletas de Cristo, e sem combate, não haveria recompensa nem vitória, por isso Deus permite que os demônios existam até o tempo determinado.
Balaão, persistindo no desejo do dinheiro, obtém permissão para ir, mas Deus coloca sua palavra em sua boca, transformando maldições em bênçãos e profecias.
A jumenta de Balaão vê o anjo que o adivinho não vê, e o animal irracional, falando com voz humana, repreende a loucura do profeta.
O
anjo do Senhor se coloca no caminho contra Balaão, mas somente a jumenta o vê, e o animal, que não era digno de ver o
anjo, acaba por silenciar Balaão e repreender sua loucura.
A Escritura diz que “um animal mudo, respondendo com voz humana, repreendeu a loucura do profeta”, mostrando que até mesmo uma criatura irracional pode ser instrumento da correção divina.
A jumenta que carregava Balaão é uma figura da igreja, que antes carregava o adivinho, mas agora é libertada pelos discípulos para carregar Cristo.
Assim como
Jesus enviou seus discípulos para desatar uma jumenta e seu jumentinho para que ele pudesse montar nela, a igreja, que antes carregava Balaão, agora é desatada das cadeias e carrega Cristo, entrando na santa cidade celestial.
A profecia que diz: “Alegra-te, filha de Sião; proclama, filha de Jerusalém; eis que o teu rei vem a ti, manso e montado numa besta de carga” se cumpre quando Cristo monta na jumenta, que são os que creem dos judeus, e no jumentinho, que são os que creem dos gentios.