Orígenes — Homilias sobre o Evangelho de Lucas (Ed. Paulus)
HOMILIA 1
Lc 1,1-4 — Sobre o Prólogo de Lucas, até aquela passagem, quando diz: “…escrever a ti, excelente Teófilo”.
Assim como no seio do povo judeu havia profetas verdadeiros e pseudoprofetas, também no tempo do Novo Testamento muitos tentaram escrever
evangelhos sem que todos fossem aceitos, pois apenas quatro foram escolhidos e entregues às igrejas.
A Igreja possui quatro
Evangelhos, ao passo que os hereges possuem vários, entre os quais um intitulado “segundo os egípcios”, outro “segundo os doze Apóstolos”, e ainda um que Basilides teve a audácia de escrever e intitular com seu próprio nome.
Há também um
Evangelho chamado “segundo São Tomé” e outro “segundo São Matias”, entre muitos outros lidos apenas para não parecer ignorância desconhecê-los.
Apenas quatro
Evangelhos foram aprovados como fonte dos preceitos acerca do Senhor e Salvador.
O conhecimento sensível e o conhecimento da fé
Lucas revela, pelo termo grego pepleroforemenon — que a língua latina não pode explicar com uma só palavra —, que conheceu os fatos com a certeza da fé e da razão, sem hesitar absolutamente em nenhum aspecto.
O profeta roga com insistência: “confirma-me nas tuas palavras.”
Paulo diz sobre os que estavam firmes e sólidos: “Que sejais enraizados e fundados na fé.”
Quem está enraizado e fundado na fé não é abalado pela tempestade, pelos ventos, nem pela chuva, pois o edifício foi fundado sobre a pedra com sólida base.
A firmeza da fé não é dada aos olhos carnais, mas concedida pela inteligência e pela razão; o fiel verdadeiramente avisado e firme segue a razão espiritual para discernir o verdadeiro do falso.
Ver a Palavra de Deus não equivale a ter avistado o corpo do Senhor Salvador, pois Pilatos, Judas e os que clamaram “Crucifica-o” também viram
Jesus segundo a carne sem que isso significasse ver a Palavra de Deus.
Conhecimento e ação
Todos somos Teófilos
O destinatário Teófilo não é apenas um personagem histórico de nome próprio — todo aquele que é amado por Deus é um Teófilo, e para ele o
Evangelho está escrito.
Em grego, “krátistos” exprime o sentido de “muito bom” e “muito forte”, qualidades próprias de todo verdadeiro Teófilo.
Assim como não houve alguém fraco nas tribos de Israel quando saíam do Egito, todo Teófilo é forte, tendo a força e o vigor tanto de Deus quanto de sua Palavra.
A homilia encerra com a doxologia: “a quem pertencem a glória e o poder nos séculos dos séculos. Amém.”