O cálice é posto antes do batismo porque a virtude existe em função da verdade, e não a verdade em função da virtude, de modo que a prática virtuosa orientada pela verdade permanece livre da vanglória.
A verdade corresponde ao conhecimento divino, enquanto a virtude corresponde aos combates sustentados por esse conhecimento, razão pela qual a fadiga virtuosa só se mantém pura quando não pretende antecipar a coroa antes dos sofrimentos.
A mera forma teórica do conhecimento ou a simples imagem moral da virtude mantém a alma presa a figuras exteriores da verdade e a infla de presunção.
O culto exterior da lei revela Deus quando seus símbolos visíveis são investigados pelo intelecto, que encontra na carne da lei a razão divina escondida como uma pérola.
A natureza visível conduz ao conhecimento de Deus quando a percepção sensível não a encerra em sua aparência, mas a razão de cada criatura é investigada intelectualmente.
O discernimento une espírito da Escritura, razão da criação e intelecto humano, libertando a alma da letra, da aparência e da percepção sensível que dispersam em múltiplas opiniões.
A fé é substância das coisas esperadas e prova das realidades invisíveis, podendo também ser compreendida como disposição interior boa ou conhecimento verdadeiro dos bens inefáveis.
A fé é uma potência relacional que realiza a união perfeita e imediata, acima da natureza, entre aquele que crê e Deus crido.
O ser humano, composto de alma e corpo, move-se segundo a lei da carne e a lei do espírito, e somente a fé sem dúvida rompe o peso quase imóvel da sensibilidade carnal.
A potência da irracionalidade enraíza-se tão profundamente pela percepção sensível que muitos reduzem o ser humano à carne dotada de sentidos para o gozo da vida presente.
Tudo se torna possível a quem crê quando o intelecto não se separa da união com Deus pela fé e se afasta do mundo e da carne por meio das boas obras.
A fé é conhecimento indemonstrável e relação sobrenatural pela qual a alma se une a Deus de modo superior ao conhecimento e à intelecção.
O intelecto unido diretamente a Deus suspende sua própria potência discursiva, e a dúvida nasce quando ele retorna à intelecção de realidades posteriores a Deus.
O iniciante na piedade ocupa-se obedientemente da prática das virtudes, deixando a Deus, pela fé, as razões profundas dos mandamentos.
O perfeito conhece as razões dos mandamentos, bebe-os primeiro em espírito e depois realiza pelas obras a carne inteira das virtudes.
A busca primeira do reino de Deus e de sua justiça significa buscar antes o conhecimento da verdade e depois o exercício das condutas convenientes.
A fé deve pedir apenas aquilo que conduz ao conhecimento de Deus e à virtude, como libertação das paixões, resistência às provas e separação do intelecto em relação às criaturas.
Quem tudo busca pela fé em vista da união imediata com Deus recebe o que pede, enquanto a busca sem essa finalidade transforma as coisas divinas em instrumento de glória própria.
A purificação da vontade em relação ao pecado preserva incorrupta a natureza corruptível pela providência da graça do Espírito.
A diferença entre natureza e graça explica por que os santos ora resistem às paixões por
milagre da graça, ora cedem a elas pela condição natural.
A memória da conduta dos santos permite abandonar a morte das paixões e acolher a vida das virtudes.
Deus conduz cada pessoa, justa ou injusta, ao fim próprio de sua vida segundo a determinação que estabeleceu antes dos séculos.
A tempestade de Paulo simboliza as tentações involuntárias, enquanto a ilha, o fogo, a lenha e a víbora representam a esperança, a ciência contemplativa, a natureza visível e a potência maligna destruída pela luz do conhecimento.
O Apóstolo é perfume de vida para quem progride da prática à contemplação e perfume de morte para quem passa da ignorância à incredulidade ou mortifica louvavelmente os conceitos passionais.
As três potências da alma, razão, ira e concupiscência, procuram, desejam e combatem pelo bem, alimentando o intelecto com conhecimento incorruptível quando se ordenam ao amor de Deus.
O Verbo de Deus, ao fazer-se homem, restaura a natureza humana morta para o conhecimento e a deifica pela graça, como a água transformada na qualidade do vinho.
Deus criou a natureza humana com volitividade e potência para realizar o devido, orientando seu movimento natural e voluntário para a prática das virtudes.
A lei segundo a natureza ensina que o desejo deve dirigir-se primeiro à busca mística do Criador antes de procurar a sabedoria presente nas coisas.
O poço de Jacó simboliza a Escritura, cuja água é o conhecimento, mas Cristo concede pela graça uma sabedoria que supera a pequena porção alcançada pelo estudo das letras.
A árvore da vida produz vida, enquanto a árvore da ciência do bem e do mal, por não ser árvore da vida, torna-se produtora de morte.
A árvore da vida corresponde à sabedoria, própria do intelecto e da razão, enquanto a árvore do conhecimento do bem e do mal se vincula à irracionalidade e à percepção sensível.
A composição humana de alma inteligível e corpo sensível permite interpretar a árvore da vida como o intelecto da alma e a árvore do bem e do mal como a sensibilidade corporal.
O intelecto discerne entre realidades inteligíveis e sensíveis, temporais e eternas, enquanto a percepção sensível discerne entre prazer e dor no corpo.
O discernimento sensorial do prazer e da dor transgride o mandamento divino, enquanto o discernimento intelectual das realidades eternas guarda o mandamento e come da árvore da vida.
O bem do intelecto é a disposição impassível segundo o espírito, ao passo que o bem da percepção sensível é o movimento prazeroso voltado ao corpo.
Quem persuade a consciência a tratar o mal como bem natural estende a mão para uma falsa árvore da vida, e Deus separa esse homem da vida para que a consciência não legitime o mal.
A razão bem plantada como videira gera conhecimento quando cultivada pelas virtudes, e esse conhecimento produz a bela êxtase que retira o intelecto da relação com o sentido.
O Maligno une conceitos sensíveis a formas exteriores para gerar paixões, impedindo a potência racional de subir às realidades inteligíveis.
A palavra de Deus é lâmpada e luz porque ilumina pensamentos naturais, queima pensamentos contrários à natureza, dissipa a vida sensível e castiga a adesão voluntária à carne.
O retorno a Deus exige primeiro o retorno a si mesmo pela rejeição das paixões contra a natureza e pela separação mental das coisas criadas.
A lei escrita liberta das paixões, a lei natural ensina a honra igual a todos os homens, e a lei espiritual aperfeiçoa pela semelhança possível com Deus.
O intelecto conhece naturalmente realidades corpóreas e incorpóreas, mas recebe pela graça apenas os reflexos da santa
Trindade, crendo que ela é sem presumir conhecer sua essência.
Quem ama a mentira é entregue a ela para aprender, pelo sofrimento, que abraçou a morte em lugar da vida.
Deus conhece apenas o bem por essência e ignora o mal enquanto não possui potência para realizá-lo.
O peito do Levítico simboliza a contemplação elevada, e a espádua indica a prática, a virtude e a operação mental reservadas aos sacerdotes que possuem Deus como herança.
Os dotados de conhecimento e virtude pelo Espírito tornam outros corações capazes de piedade e fé, desviando sua prática da corrupção para os bens sobrenaturais.
A justiça presente é espelho da justiça futura, e o conhecimento atual das coisas excelsas permanece imagem obscura da verdade que será revelada.
O espelho representa os arquétipos da virtude, enquanto a imagem obscura manifesta os arquétipos do conhecimento.
Quem agrada a Deus pela prática eleva o intelecto pela contemplação à região dos inteligíveis, sem ser capturado pelas imagens passionais da percepção sensível.
Quem contempla pela fé os bens futuros abandona carne, sentidos e coisas sensíveis, colocando-se acima da natureza durante as tentações, como Abraão preferiu Deus a Isaac.
Quem pratica a virtude e medita as palavras divinas somente por amor de Deus caminha com conhecimento na via da verdade.
A preparação exterior da via por jejum e ascese permanece tortuosa quando nasce de vanglória, cobiça, adulação ou motivo distinto do agrado divino.
A valle dos que prepararam a via do Senhor é preenchida por conhecimento e virtude quando o Verbo de Deus chega por meio dos mandamentos e rebaixa as potências do mal.
Os lugares ásperos das tentações involuntárias tornam-se caminhos planos quando o intelecto acolhe fraquezas e tribulações com alegria e ação de graças.
Quem busca a vida verdadeira aceita as penas voluntárias e involuntárias como morte do prazer, transformando tribulações em caminhos planos rumo ao prêmio celeste.
A continência endireita os caminhos tortuosos do prazer, e a paciência torna planos os lugares ásperos da dor, permitindo ver a salvação de Deus.
Quem ama a virtude extingue voluntariamente a fornalha dos prazeres, e quem conhece a verdade não é detido pelas penas involuntárias em seu movimento para Deus.
Quem corrige pela continência as paixões voluntárias e aplaina pela paciência as tentações involuntárias torna-se puro de coração e recebe a graça da impassibilidade.
As cisternas simbolizam corações capazes dos carismas celestes da santa ciência, escavados pelos mandamentos e cheios do conhecimento espiritual que purifica e nutre as virtudes.
O Senhor escava cisternas no deserto ao purificar e ampliar os corações dignos para receber as chuvas divinas da sabedoria e ensinar os rebanhos ainda infantis de Cristo.
A região montanhosa simboliza a contemplação superior da natureza no Espírito, cultivada por quem se liberta das imagens sensíveis e sobe às razões inteligíveis.
O intelecto que conserva a memória de Deus busca o Senhor pela contemplação no temor, isto é, pela prática dos mandamentos.
O discurso sublime sobre a divindade permanece na alma como torre fortificada pelo cumprimento dos mandamentos.
As razões particulares unem-se às universais, e uma razão relacional em espírito unifica intelecto e percepção, céu e terra, sensível e inteligível, natureza e razão.
Quem separa os sentidos das paixões fecha o acesso diabólico ao intelecto e constrói, na contemplação natural, torres de opiniões piedosas sobre os seres.
Todo intelecto forte na contemplação é agricultor verdadeiro que guarda os germes divinos do bem enquanto conserva a memória salvífica de Deus.
A contemplação sem erro dos seres exige uma alma libertada das paixões e das imagens sensíveis, chamada Jerusalém pela virtude íntegra e pelo conhecimento imaterial.
Sem fé, esperança e caridade, nenhum mal é destruído perfeitamente e nenhum bem é realizado integralmente.
A fé fortalece o intelecto combatente, a esperança apresenta o auxílio divino e a caridade extingue o ataque inimigo pelo desejo de Deus.
A primeira ressurreição em nós é a instauração da fé ordenada pelos mandamentos, pela qual Deus ressuscita naquele que o havia morto pela ignorância.
A conversão a Deus manifesta a realidade plena da esperança, que torna presentes os bens futuros e persuade a alma de que Deus a protege nas guerras espirituais.
A caridade une os dispersos, harmoniza as potências da alma e imprime na memória a beleza do esplendor divino.
O intelecto cingido pela força divina possui como chefes a razão, a concupiscência e a ira, que cooperam para destruir o mal e conservar a virtude.
A potência racional gera conhecimento e fé, a concupiscível gera desejo e caridade, e a irascível sustenta a paz pela posse estável do bem desejado.
A contemplação natural não deve ser acessada antes da purificação das paixões, pois as imagens sensíveis podem imprimir paixões no intelecto ainda imperfeito.
Quem fecha os sentidos contra as paixões e detém o movimento do intelecto para as coisas exteriores vence a potência tirânica do mal pela mão divina.
Quando razão, ira e concupiscência se desordenam, ignorância, tirania e desenfreio dominam a alma e ativam o hábito do mal.
O intelecto assaltado por potências malignas deve suspender a contemplação natural, dedicar-se à oração, domar o corpo e guardar as virtudes que protegem a alma.
Quem fecha os sentidos pela continência impede a entrada das formas sensíveis no intelecto e derrota as maquinações do
diabo pelo mesmo caminho material por onde ele veio.
O intelecto que une naturalmente a percepção sensível a si pela razão recolhe o verdadeiro conhecimento da contemplação natural.
As fontes fora da cidade simbolizam as coisas sensíveis, e o rio que atravessa a cidade representa o conhecimento natural situado entre intelecto e percepção sensível.
Quem abandona a contemplação natural durante as tentações e se recolhe à oração mata o estado produtor do mal e afasta envergonhado o
diabo.
Abel teria escapado de Cain se não tivesse saído ao campo da contemplação natural antes de alcançar a impassibilidade.
Dina teria evitado a humilhação por Sichem se não tivesse saído com as filhas do país, isto é, com as imagens sensíveis.
Antes do estado perfeito, a contemplação natural deve ser evitada para que a busca das razões espirituais das criaturas não recolha inadvertidamente paixões.
Quem assume a imagem do homem celeste segue o espírito da Escritura por virtude e conhecimento, enquanto quem traz a imagem do homem terrestre se prende à letra e ao culto corporal.
A força de Deus é a virtude que destrói paixões, e a sublimidade de Deus é o conhecimento da verdade que abate a potência da mentira.
O conhecimento inesquecível manifesta a glória superinfinita da verdade, e a imitação voluntária da bondade providente concede ao intelecto a semelhança possível com Deus.
A língua simboliza a capacidade cognitiva da alma, e o palato simboliza o amor natural ao corpo, de modo que sua união desordenada impede a memória da paz da virtude e do conhecimento.
Os apetites e prazeres naturais não são censuráveis por serem necessários à conservação da natureza, mas devem ser superados para evitar a escravidão das paixões contra a natureza.
As palavras de Deus só são ouvidas quando a prática de quem as pronuncia lhes serve de voz, expulsando demônios e edificando o templo do coração.
A palavra da Escritura é limitada pela letra nas coisas narradas, mas permanece incircunscritível segundo o espírito e as contemplações dos inteligíveis.
A recepção da Escritura segundo Cristo exige esforço na interpretação dos nomes e recusa da redução judaizante das promessas espirituais à corrupção terrena.
O voto promete bens a Deus, enquanto a oração pede os bens salvíficos providos por Deus, cujo auxílio responde às disposições interiores voltadas à virtude e ao conhecimento.
O reino diabólico, figurado pelos assírios, guerreia contra virtude e conhecimento ao desordenar concupiscência, ira e razão em favor dos prazeres sensíveis.
A bondade suprema imprime sua glória nas essências inteligíveis e também nas realidades sensíveis, permitindo que o intelecto suba por elas até Deus.
O intelecto coroado de virtude e conhecimento reina como Ezequias sobre Jerusalém, isto é, sobre a condição impassível da visão de paz.
Quem realiza plenamente virtude e conhecimento pela prática e pela contemplação torna-se superior às paixões carnais e eleva o intelecto às realidades divinas.
Quem habita a impassibilidade como Jerusalém recebe pela contemplação as razões espirituais da criação e se eleva acima das paixões, dos corpos naturais e das formas sensíveis.
A filosofia prática eleva acima das paixões, e a contemplação eleva acima das coisas visíveis ao conduzir o intelecto às realidades inteligíveis que lhe são próprias.