3ª CENTÚRIA SOBRE TEOLOGIA

Resumo dos parágrafos

  1. O Bem que está além do que não tem princípio e além da essência é uno, a santa Unidade tríplice-hipostática, Pai, Filho e Espírito, união infinita de três infinitos cujo princípio do ser, juntamente com o como, o que e qual seja tal ser, é totalmente inacessível aos seres, pois foge a qualquer intelecção dos seres inteligentes, na medida em que de nenhum modo sai do seu natural interno escondido e transcende infinitamente todo conhecimento de qualquer conhecimento.
  2. O que é propriamente bom por essência é o que não tem princípio nem fim, nem causa do ser nem qualquer movimento (quanto ao ser) para alguma causa, enquanto o que propriamente não é, ainda que seja dito ser, existe e é nomeado com base na participação mediante a volitividade no que propriamente é.
  3. Se o Verbo é precedente à geração dos seres, não havia, nem há, nem haverá razão dos seres superior ao Verbo, e o Verbo não é sem intelecto ou privado de vida, mas tem intelecto e é vivente, pois tem como intelecto essencialmente subsistente que o gera o Pai, e como vida essencialmente subsistente e com ele existente o Espírito santo.
  4. Há um só Deus que gera um só Filho e é fonte do Espírito santo: unidade sem confusão e trindade sem divisão, pois o Pai é intelecto sem princípio que, único, essencialmente gera o Verbo único e sem princípio, e é fonte da única, eterna vida, o Espírito santo.
  5. Deus é uno porque a divindade é una: unidade sem princípio, simples, sobressubstancial, sem partes, indivisa; e a unidade mesma é também trindade e o que se segue.
  6. Se toda participação é conceitualmente precedente àqueles que dela participam, então claramente é incomparavelmente superior a todos os seres, em todos os sentidos, a Causa dos seres: é por natureza precedente e é conceitualmente precedente aos seres, não como essência em relação aos acidentes (pois então a divindade seria composta e possuiria a substância dos seres como um completamento da própria existência), mas como essência além da essência, pois se as artes produzem os caracteres dos seus objetos, e se toda natureza em geral produz as formas dos seres que lhe pertencem, muito mais Deus deu existência a todas as essências dos seres a partir do nada, sendo ele além da essência e transcendendo infinitamente a própria afirmação de sobressubstancialidade, ele que conjungiu as ciências às artes para a produção das suas formas, deu à natureza a energia que produz as suas formas, e estabeleceu o próprio ser dos seres tal como ele é.
  7. Deus, que não é participável pelos seres quanto à sua essência, mas que quer que aqueles que são capazes participem dele de outro modo, não sai de modo algum da segreticidade da sua essência, pois também o modo como quem o queira possa participar dele, da maneira que ele sabe (também este permanece perpetuamente escondido a todos); assim, segundo a sua vontade, constituiu os seres que participam dele (do modo que ele sabe) graças à sobreeminente potência da sua bondade; portanto, o que foi feito por vontade daquele que o fez nunca poderia ser coeterno àquele que quis que ele fosse.
  8. O Verbo de Deus, que uma vez por todas foi gerado segundo a carne, sempre, segundo a sua vontade, nasce espiritualmente naqueles que o desejam, em força do seu amor pelos homens, fazendo-se infante plasmando a si mesmo neles com as virtudes, e manifesta de si tanto quanto sabe ser capaz quem o recebe (não que diminua por ciúme a manifestação da sua grandeza, mas avalia com medida a capacidade daqueles que desejam vê-lo); assim, o Verbo de Deus, embora se manifestando sempre nos modos próprios de quem dele participa, sempre permanece invisível a todos conforme a sobreeminência do mistério, e por isso o divino Apóstolo, escrutando sabiamente a potência do mistério, diz que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para os séculos, pois sabe que o mistério é sempre novo e que nunca o intelecto o compreenderá envelhecido.
  9. Cristo Deus é gerado e se faz homem acrescentando a si uma carne que possui uma alma inteligente, ele que deu origem do nada aos seres é gerado de modo sobrenatural por uma virgem sem privá-la em nada da sua virgindade, pois assim como ele se fez homem sem mudar a própria natureza ou alterar-lhe a potência, assim faz mãe aquela que o pare e juntamente a conserva virgem, manifestando um prodígio com outro prodígio e ao mesmo tempo com um escondendo o outro, porque para si, quanto à essência, Deus é sempre mistério; ele exprime a própria natural segreticidade de tal modo que, ao manifestar-se, a torna ainda mais secreta, e do mesmo modo faz mãe a virgem que o pare de tal maneira que a sua concepção torna indissolúvel a virgindade.
  10. As naturezas são mutadas em realidades novas e Deus se faz homem, e não só a natureza divina, estável, imóvel, se move para o que é móvel e instável para lhe firmar a instabilidade, e não só a natureza humana produz sem semente, superando a natureza, a carne que é levada à perfeição pelo Verbo para lhe firmar a instabilidade, mas ainda um astro aparecido a oriente de dia guia os Magos ao lugar da encarnação do Verbo para mostrar misticamente como é superior à percepção sensível a Palavra da lei e dos profetas e como guia as gentes à imensa luz da conhecimento, pois tanto a Palavra da lei como a dos profetas, se piamente contemplada como estrela, guia claramente aqueles que são intimamente solicitados pela graça a reconhecer o Verbo encarnado.
  11. Uma vez que voluntariamente eu, homem, transgredi o divino preceito, o diabo arrastou para o prazer a firmeza da minha natureza, adescando-a com a esperança de se tornar divina, e, introduzida a morte com o prazer, ele se vangloriava, gozando da corrupção da natureza; por isso Deus se faz perfeito homem, sem excluir nada do que pertence à natureza, exceto o pecado (pois de fato este não pertencia à natureza); assim, adescando a insaciável serpente com a isca da carne, a provoca a escancarar a boca para engolir a carne que para ele se tornará veneno e totalmente o destruirá, com a potência da divindade que está nela; para a natureza do homem, ao invés, ela se tornará remédio que, pela potência da divindade que está nela, reconduz à graça original, pois assim como ele, o diabo, tinha derramado o seu veneno de mal mediante a árvore do conhecimento e corrompido a natureza que dele tinha gostado, assim também ele, tendo querido engolir a carne do Soberano, foi destruído pela potência da divindade que está nela.
  12. O grande mistério da encarnação resta sempre um mistério: não só no sentido de que se manifesta na medida da capacidade daqueles que por ele são salvos, e portanto a seu respeito é mais o que ainda não foi visto do que o que foi manifestado, mas também porque o que foi revelado resta ainda totalmente escondido e de nenhum modo é conhecido como ele é; não pareça estranho o que digo, pois, sendo Deus além da essência e transcendendo também qualquer sobressubstancialidade, quando quis vir a uma essência, entrou na essência de modo que transcende a essência; por isso, embora transcendendo o homem, no seu amor pelo homem se fez verdadeiramente homem tomando substância humana, mas o modo como se fez homem resta absolutamente não revelado porque, precisamente, se tornou homem transcendendo o homem.
  13. Escrutemos com fé o mistério da divina encarnação e limitemo-nos a glorificar com simplicidade aquele que se comprouveu em se tornar homem por nós, pois quem, confiando na força de uma demonstração lógica, pode explicar como aconteceu a conceção do Verbo Deus, como o nascimento de uma carne sem semente, como uma geração sem corrupção, como foi mãe aquela que após o parto permaneceu virgem, como aquele que é absolutamente perfeito crescia em estatura, como aquele que é puro foi batizado, como ele que teve fome dava o nutrimento, como ele que se fatiga gratificava de potência, como ele que sofria dispensava curas, como ele que morria dava a vida, e, para pôr a primeira e a última pergunta, como Deus se torna homem, e (coisa ainda mais que misteriosa) como é essencialmente na carne segundo a hipóstase o Verbo que hipostaticamente, segundo a essência, é todo no Pai, como ele que é totalmente Deus por natureza se tornou também totalmente homem por natureza, e como pôde fazê-lo sem negar de nenhum modo nenhuma das duas naturezas, nem a divina (pela qual é Deus) nem a nossa (pela qual se fez homem)? A fé somente pode conter estes mistérios, ela que é substância de coisas que transcendem o intelecto e a razão.
  14. Adão, com a sua transgressão, ensinou à geração da natureza a cumprir-se em força do prazer; o Senhor, banindo o prazer da natureza, não teve nada a ver com uma conceção por meio de semente; a mulher, transgredido o mandamento, ensinou à geração da natureza a começar com a dor; o Senhor, estrometendo esta da natureza com o seu nascimento, não permitiu sofresse corrupção aquela que o havia parido, expulsando deste modo da natureza tanto o prazer voluntariamente buscado como a dor não buscada que a ele se segue, destruindo assim estas coisas de que ele não tinha sido o criador, e nos ensinou assim, misticamente, também a começar de bom grado um outro gênero de vida que talvez parte da dor e das penas, mas que certamente termina em divino prazer e lembrança desmedida; por isso se faz homem e nasce como homem aquele que fez o homem, para salvar o homem, curando-lhe as paixões com a sua paixão (ele mesmo tornado paixão), renovando sobrenaturalmente com as privações sofridas na sua carne, no seu amor pelos homens, os nossos costumes, ao fazê-los conformes ao Espírito.
  15. Quem, com o divino desejo, venceu a tendência da alma para o corpo, torna-se livre de limitações, mesmo que ainda esteja no corpo, pois Deus, que atrai a ânsia daquele que deseja, é sem confronto mais excelso do que tudo e não permite que quem o deseja pregue a sua ânsia a algo que vem depois de Deus; desejemos, pois, a Deus com toda a capacidade da nossa natureza e não deixemos que a nossa determinação seja detida por alguma realidade corpórea; elevemo-nos com a íntima disposição acima de qualquer realidade sensível e inteligível e não deixemos de nenhum modo que alguma limitação da natureza traga dano à nossa vontade de estar com Deus, que é por natureza além de toda limitação.
  16. O padecer dos santos está no combate entre a inveja e a virtude: a primeira que contende para agarrar, a outra que tudo suporta para permanecer invicta, e ainda, a primeira combate para que tenha sucesso o mal, infligindo castigos àqueles que realizam o bem, a outra para manter firmes os bons, mesmo quando por recompensa têm desgraças.
  17. Luta própria da virtude é combater entre as fadigas; prêmio da vitória alcançada por aqueles que suportam, a impassibilidade da alma, conforme a qual, mediante o amor, a alma se une a Deus e se separa, quanto à sua disposição íntima, do mundo e do corpo, pois para aqueles que suportam, vigor da alma é o maltrato do corpo.
  18. O engano do prazer nos roubou o nosso estado original e nós escolhemos a morte em lugar da verdadeira vida: suportemos, pois, com gratidão aquelas penas do corpo que matam o prazer, de modo que a morte deste faça com que desapareça a morte que por seu intermédio apareceu, e nós recuperemos a vida que havíamos vendido pelo prazer e que nos volta paga com pequenas penas da carne.
  19. Se, quando a carne goza, o vigor do pecado costuma acentuar-se, é evidente que, quando esta ao invés sofre, de costume cresce o vigor da virtude; suportemos, pois, generosamente o sofrimento da carne que asterge as manchas da alma e procura a glória futura, pois não são comparáveis os padecimentos do tempo presente com a glória que deverá manifestar-se em nós.
  20. Os médicos ao curar o corpo não oferecem a todos uma mesma medicina; assim também Deus, curando os males da alma, não considera adequado a todos o mesmo tipo de terapia, mas procura a cura distribuindo a cada alma o que lhe convém; sejamos, pois, gratos quando somos curados, mesmo que isso aconteça com dor, porque o fim é bem-aventurado.
  21. Nada revela tanto a disposição íntima da alma quanto as revoltas da carne sofredora; se a alma ceder a elas mostrará de amar mais a carne do que a Deus; mas se for irremovível diante das sacudidelas que estas lhe provocam, mostrará de honrar a virtude mais do que a carne, e em força da virtude a alma acolherá a Deus que vem a tomar morada nela (ele que por ela aceitou padecer à maneira humana) e que lhe grita, como outrora aos discípulos: “Coragem, eu venci o mundo”.
  22. Se todos os santos tiveram parte na correção, também nós devemos ser gratos quando somos corrigidos juntamente com eles para nos tornarmos dignos de ter também nós parte na sua glória, pois o Senhor corrige quem ama, flagela todo filho que acolhe.
  23. Adão, aceitando da mulher saída do seu flanco o prazer que lhe era proposto, causou a saída da humanidade do Paraíso; mas o Senhor, que na dor teve o flanco aberto pela lança, fez entrar o ladrão no Paraíso; amemos, pois, a pena da carne e odiemos em vez disso o seu prazer: uma nos faz entrar e nos reintegra nos bens, o outro nos exclui e nos separa.
  24. Se Deus feito homem sofre na carne, não deverá gozar quem sofre, tendo Deus participante do seu padecer? E este sofrer com ele lhe procura o reino, porque é veraz aquele que disse: “…se só sofremos com ele, para com ele ser glorificados”.
  25. Dado que em todo caso é preciso penar por motivo do prazer que o nosso progenitor amassou com a natureza, suportemos, pois, com generosa constância as penas passageiras que espantam o aguilhão do prazer e nos libertam dos eternos castigos que ele nos procura.
  26. Termo de todos os bens é o amor, porque guia, aproxima e une as almas que nele caminham a Deus, bem supremo e causa de todo bem, pois o amor é fiel e não vem menos; a fé com efeito é o fundamento do que vem depois dela (isto é, a esperança e a caridade) e dá firme confirmação à verdade; a esperança é força dos sumos bens (isto é, da caridade e da fé) porque nos manifesta em si mesma o que é credível e o que é amável em ambas, e ensina a realizar por seu meio a carreira para este escopo; a caridade é o cumprimento das outras duas virtudes, que toda inteiramente abraça o que é sumamente desejável e na qual encontram repouso fé e esperança no seu movimento para aquele termo, e em força de si mesma, ela oferece já o gozo do que ao presente cremos ser e que esperamos será.
  27. A obra mais perfeita do amor e o cumprimento da operação que lhe é própria consiste em efetuar uma troca relacional entre aqueles que ele une, de modo que cheguem a convir a ambos as respetivas propriedades e denominações; assim ele faz deus o homem e faz com que Deus se manifeste como homem e seja indicado com este nome, em força do único e imutável intuito e movimento próprios à vontade de ambos.
  28. Se nós somos verdadeiramente a imagem de Deus, tornamo-nos, pois, imagem de nós mesmos e de Deus, ou antes, imagem de Deus só, de todo Deus, para que nós todos inteiros, sem portar em nós mesmos algo de terreno, nos tornemos íntimos de Deus e nos tornemos deuses, tomando de Deus o nosso ser deuses; deste modo são honrados os dons divinos e é acolhido com amor o advento da paz divina.
  29. Grande bem é o amor e bem primeiro e eleito entre os bens, porque conjunge, mediante si mesmo, Deus e os homens ao redor de quem possui o amor, e ele faz com que o Criador dos homens se manifeste como homem mediante a perfeita semelhança, no bem, com Deus (quanto possível ao homem) do homem deificado; e esta é, penso, a realização do mandamento de amar o Senhor Deus com todo o coração, a alma e a força, e o próximo como a si mesmos.
  30. Devemos saber que o diabo, com engano pérfido e maligno, nos enganou mediante o amor próprio com o estímulo do prazer, e assim nos dividiu, quanto à vontade, e de Deus e uns dos outros, e assim transtornou tudo o que é reto e deste modo dividiu a natureza e a dilacerou em muitas opiniões e fantasias.
  31. Três são os males supremos e primários e, em uma palavra, os autores de todo mal: ignorância, amor próprio e tirania, que têm princípio um do outro e se sustentam mutuamente, pois da ignorância a respeito de Deus vem o amor próprio, e deste procede a tirania contra quem é da nossa mesma natureza; e ninguém poderá negar que o Maligno estabelece em nós estas coisas quando a nossa conduta se revela um abuso das nossas potências (isto é, da razão, da concupiscência e da ira).
  32. Pela razão nós devemos ser movidos a superar a nossa ignorância para pesquisar absolutamente só Deus mediante o conhecimento; pela concupiscência devemos ser impelidos ao desejo de Deus só, mediante uma paixão de amor próprio purificada; em força de uma ira livre de toda vontade de tirania, nós devemos lutar para obter Deus só; e em força destas três potências nós devemos criar aquele amor divino e bem-aventurado pelo qual elas mesmas existem, e que nos une a Deus e torna deus o amante de Deus.
  33. Uma vez que, como disse, o amor próprio é origem e pai dos males, quando ele é arrancado, são também arrancados com ele os males que o seguem, pois quando não há amor próprio, de nenhum modo pode subsistir algum traço ou forma de mal.
  34. É preciso que nós tenhamos cuidado de nós mesmos e uns dos outros, como o próprio Cristo (que aceitou padecer por nós) mostrou precedentemente na sua pessoa.
  35. Por causa da caridade, todos os santos se opuseram ao pecado sem fazer nenhum caso da vida presente, e sofreram várias formas de morte para se separarem do mundo, unirem-se a Deus e unificarem em si mesmos a natureza fraturada, pois esta é a verdadeira e imaculada teosofia dos crentes; seu fim são o bem e a verdade (porque precisamente o bem, que é benevolência para o homem, e a verdade, que é amor de Deus na fé, são os sinais distintivos da caridade), que conjunge os homens a Deus e entre eles e comporta por isso a imutável permanecer dos bens.
  36. Operação e demonstração da caridade perfeita para Deus é a sincera disposição de impulso benevolente para com o próximo, pois quem não ama o seu irmão que viu (diz o divino João) não pode amar a Deus que não viu.
  37. O caminho da verdade é o amor, e o Verbo de Deus que se atribuiu este nome de “caminho” apresenta a Deus Pai totalmente puros aqueles que nele caminham.
  38. Esta é a “porta” através da qual se entra no Santo dos santos, onde se contempla a inacessível beleza da santa e real Trindade.
  39. É verdadeiramente temível (e não há condenação a ele proporcionada) o matar voluntariamente, por amor das coisas corruptíveis, a vida que nos foi dada por Deus conforme o dom do Espírito santo; aqueles que se exercitaram a preferir a verdade ao amor próprio conhecem certamente este temor.
  40. Usemos do modo devido da paz e, anulando a nossa má amizade com o mundo e o seu dominador, ponhamos finalmente termo à guerra que combatemos contra Deus e, fazendo com ele pactos indissolúveis de paz, cessemos de lhe ser inimigos, destruindo o corpo do pecado.
  41. Enquanto nos rebelamos contra Deus mediante as paixões e aceitamos, mediante o vício, de pagar o tributo ao diabo, malvado tirano e assassino das almas, é impossível que possamos fazer-nos amigos de Deus, se primeiro não engajamos uma guerra impiedosa contra o Maligno, pois, mesmo que nos demos o nome de crentes, enquanto não nos tornamos inimigos deste, enquanto não combatemos contra ele, nós continuamos deliberadamente a servir às paixões vergonhosas, e não ganhamos nada com a paz do mundo, quando a nossa alma se encontra em más condições, em revolta contra o seu Criador, na recusa de se sujeitar ao reino dele; ela se encontra ainda vendida sob inúmeros senhores cruéis que a impulsionam para o mal e a induzem com engano a escolher o caminho que leva à perdição, em vez daquele que leva à salvação.
  42. Deus nos fez para que fôssemos consortes da divina natureza e participantes da sua eternidade, e para que aparecêssemos semelhantes a ele em força da deificação por graça, pela qual existem e permanecem os seres e pela qual as coisas que não são são produzidas e têm origem.
  43. Se aspiramos a chamar-nos e a ser realmente de Deus, lutemos para não entregar às paixões o Verbo, como Judas, ou renegá-lo como Pedro; renegação do Verbo é com efeito a recusa de fazer o bem motivada por medo; entregá-lo é o realizar deliberadamente o pecado, e a vontade de pecar.
  44. Termo de toda aflição é a alegria; de toda fadiga, o repouso; de toda desonra, a glória; em suma, termo de todo sofrimento pela virtude é o estar com Deus, permanecer com ele para sempre e gozar o repouso que não tem fim.
  45. Deus, querendo unir-nos uns aos outros na natureza e no conhecimento, e impulsionando na sua bondade o gênero humano para tudo isto, estilou para nós os mandamentos salvíficos, feitos por amor do homem, e por isso nos deu simplesmente como lei de fazermos e recebermos misericórdia.
  46. O amor próprio e a inteligência dos homens, afastando-nos uns dos outros e sofisticando sobre a lei, quebraram a natureza una em muitas partes e, com o seu vir ao mundo, deram também lugar àquela insensibilidade que agora domina a natureza e armaram a natureza contra si mesma mediante a vontade pessoal; por isso, quem quer que tenha conseguido, com pensamento são e nobre sentir, resolver esta anomalia da natureza, fez misericórdia a si mesmo antes que aos outros, conformando a vontade pessoal à natureza e, com a vontade, aproximando-se de Deus em força da natureza e mostrando em si mesmo o que quer dizer “segundo a imagem” e como Deus no princípio tinha ótimamente criado a nossa natureza semelhante a ele e qual cópia distintíssima da sua bondade; ele a tinha feito una consigo mesma em todos os sentidos, alheia a lide e revolta, pacífica, apertada a Deus e a si mesma mediante o amor, em força do qual aderiríamos a Deus com o desejo, e uns aos outros com o mútuo afeto.
  47. O Deus amante dos homens se fez homem para unir a si a natureza dos homens e arrestar o seu volver-se mal contra si mesma, e antes a sua rebelar-se contra si mesma, dividida e sem repouso, por motivo do movimento instável da vontade pessoal acerca de cada coisa.
  48. Nada do que vem depois de Deus é mais precioso para quem tem intelecto, ou melhor, é mais caro a Deus, do que a caridade perfeita; ela une em um aqueles que tinham sido divididos e é capaz de criar uma mesma identidade (não transtornada por facções) entre as vontades de muitos ou de todos, pois é próprio da caridade atuar uma única vontade naqueles que se dão premência dela.
  49. Se por natureza o bem unifica e mantém juntos aqueles que tinham sido divididos, é evidente que o mal, ao invés, divide e corrompe aqueles que tinham sido unidos, pois o mal é por natureza dispersivo, instável, polimorfo e disjuntivo.
  50. Libertação de todos os males e via breve à salvação são o verdadeiro amor de Deus conforme conhecimento e o renegação total da afeção da alma pelo corpo e por este mundo; rejeitando deste modo a concupiscência pelo prazer e o temor da dor, nós nos libertamos do mau amor próprio, somos elevados ao conhecimento do Criador e, recebendo um amor próprio espiritual e bom em lugar daquele mau, um amor liberado da afeção ao corpo, nós não cessamos de render culto a Deus mediante este amor próprio belo, sempre pesquisando da parte de Deus o sustento da alma; este é com efeito o verdadeiro culto, o culto verdadeiramente agradável a Deus: a rigorosa cura da alma mediante as virtudes.
  51. Quem não aspira ao prazer do corpo nem de nenhum modo teme a dor, tornou-se impassível, pois matou a concupiscência e o temor juntamente com o amor próprio que as gerava, e assim matou juntamente também todas as paixões que por seu meio e delas surgiam, como também a ignorância que está na origem dos males, e pertence agora integralmente àquele bem que por natureza é estável, permanente e assim sempre permanece; neste bem ele persiste absolutamente irremovível, espelhando a rosto descoberto a glória de Deus ao contemplar, através do esplendor luminoso que tem em si, a divina e inacessível glória.
  52. Com toda a força de que somos capazes, reneguemos o prazer e a dor da vida presente e nos libertaremos completamente de todo pensamento passional e de toda malícia dos demônios, pois por motivo do prazer nós amamos as paixões e por motivo da dor fugimos da virtude.
  53. Uma vez que todo mal costuma destruir a si mesmo juntamente com as formas que o constituem, o homem descobre através da experiência mesma que a cada prazer se segue com certeza a dor, e por um lado se lança com todo o ímpeto para o prazer, por outro foge o mais que pode da dor, lutando com toda a sua força para conseguir o prazer e pondo todo o seu zelo em repelir a dor, pensando (coisa impossível) de as separar com este método uma da outra e de poder conjungir o seu amor próprio ao só prazer, mantendo-o totalmente estranho à dor; sob a presa da paixão ele parece ignorar que o prazer nunca pode existir sem a dor, pois a pena da dor está misturada ao prazer, mesmo que este pareça fugir àqueles que o provam, por motivo da presa passional do prazer, porque o que é predominante é sempre mais evidente e vela a percepção do que se apresenta juntamente com ele; reclamando, pois, o prazer, por causa do nosso amor próprio, e, pelo mesmo motivo, estudando-nos de fugir da dor, nós volvemos no ânimo inauditas paixões corruptoras.
  54. Ignoramos toda experiência de percepção de prazer e dor quando ligamos, ou antes fazemos aderir a Deus (verdadeiro objeto de amor, desejo e ânsia) o nosso intelecto tornado livre de toda relação com o corpo.
  55. Assim como não se pode render culto puramente a Deus senão purificando completamente a alma, assim não se pode render culto à criatura poupando o corpo; o homem, atuando deste modo este culto que corrompe o corpo, e tornando-se assim amante de si mesmo, era incessantemente sujeito à operação do prazer e da dor, sempre comendo da árvore da desobediência, a árvore do bem e do mal, coisas de que, mediante a experiência sensível, ele teve um conhecimento misto; e se se dissesse que a árvore do conhecimento do bem e do mal é a criação visível, não se iria contra a verdade, pois ela traz naturalmente em si aquela alternância que produz prazer e dor.
  56. Onde não domina a razão costuma suceder o domínio dos sentidos, no qual se encontra de algum modo misturada a potência do pecado que arrasta a alma, mediante o prazer, à piedade pela carne a que é essencialmente ligada; e quando deste modo a alma se dá à cura passional e voluptuosa da carne como obra a ela conatural, o amor da vida natural a persuade também a tornar-se autora do mal que é privado de subsistência substancial.
  57. Mal da alma inteligente é o esquecimento dos bens segundo a natureza, e este esquecimento provém de uma relação passional com a carne e o mundo; mas quando a razão dirige tudo, então ela o faz desaparecer com a ciência espiritual, investigando a natureza do mundo e da carne e impulsionando a alma para a região (a ela conatural) dos inteligíveis, onde não pode penetrar a lei do pecado; então ela não tem mais a percepção sensível que, como ponte, a faz passar ao intelecto, porque já foi desfeita a relação da percepção sensível com a alma, e foi relegado entre as coisas sensíveis; e o intelecto, uma vez superada a relação com estas coisas e a sua natureza, é completamente livre da percepção sensível.
  58. Assim como a razão, quando tem o domínio sobre as paixões, faz dos sentidos outros tantos instrumentos de virtude, assim as paixões, quando têm o domínio sobre a razão, conformam os sentidos ao pecado; e é necessária sóbria atenção e meditação para ver como a alma deva derrubar em melhor a situação, usando daquelas coisas por que antes pecava quais geradoras e sustentadoras das virtudes.
  59. O santo evangelho ensina a renegar a vida segundo a carne, e a fazer profissão de vida segundo o espírito; falo daqueles que, sempre morrendo ao que é humano (isto é, à vida humana na carne conforme a este século), vivem segundo Deus, com o espírito somente, como diz o divino Apóstolo e os seus seguidores, aqueles que de nenhum modo vivem uma própria vida, mas têm a Cristo que vive neles, segundo a alma somente; assim, aqueles que neste século estão mortos à carne por amor de Deus, se distinguem pelo fato de que suportam com alegria muitas tribulações e tormentos, angústias, perseguições e inúmeras formas de tentação.
  60. Toda paixão é sempre constituída por uma combinação de algo de sensível, da percepção sensível mesma e de uma potência natural (qual a ira ou eventualmente a concupiscência), de que o uso segundo a natureza é alterado; se, pois, o intelecto observa o resultado final do encontro destes elementos (isto é, o objeto sensível, a percepção sensível e a potência natural que se lhe refere), poderá distinguir um do outro os vários elementos e reconduzir cada um deles à função que lhe é própria por natureza; poderá considerar em si mesmo o objeto sensível desligado da relação da percepção sensível com ele, e a percepção sensível separada da afinidade com ela do objeto sensível, e a concupiscência ou qualquer outra das potências naturais, sem (por assim dizer) a sua relação passional com a percepção sensível e o objeto sensível, como acontece quando é o movimento de uma paixão a gerar a representação mental; e assim o intelecto desjungue e reduz (como aconteceu outrora para o bezerro de Israel) a composição de qualquer paixão que se apresente e a dispersa sob a água da conhecimento, aniquilando totalmente também a simples representação não passional das paixões, ao reintegrar segundo a natureza cada um dos elementos que a compõe.
  61. Uma vida imbrincada por muitas culpas provenientes das paixões da carne é como uma túnica manchada, pois pela sua conduta de vida, como por um vestido, cada um transparece pelo que é, justo ou injusto: um tem uma vida virtuosa, como uma túnica limpa, o outro ao invés tem uma vida manchada por más ações; ou antes, é uma túnica manchada pela carne aquele estado, aquela íntima disposição pela qual a alma, na consciência, recebe as formas produzidas pela recordação dos maus motos e atividades da carne; quando a alma vê sempre este estado que a envolve como uma túnica, se enche do mau cheiro das paixões; quando, por dom do Espírito, as virtudes se tecem uma com a outra segundo razão, a alma assume uma túnica de incorruptibilidade e, vestindo-a, torna-se bela e gloriosa; quando, ao invés, produzidas pela carne, as paixões analogamente se tecem uma com a outra, a alma assume uma túnica imunda e manchada que mostra por si o caráter da alma, dando-lhe uma forma e uma imagem diferente daquela divina.
  62. Motivo seguro de fé para esperar na deificação da natureza humana nos é dado pela encarnação de Deus, que faz deus o homem, na medida em que Deus se fez ele mesmo homem, porque certamente ele, que se fez homem sem o pecado, divinizará a natureza (sem a transformar em natureza divina) e por si mesmo tanto a elevará quanto ele mesmo por amor do homem se abaixou; o grande Apóstolo ensina misticamente isto quando diz: “…para mostrar nos séculos futuros a sobreeminente riqueza da bondade de Deus para conosco”.
  63. Quando a razão controla a ira e a concupiscência, produz as virtudes; e quando o intelecto aplica a sua atenção às razões das coisas, recolhe infalível conhecimento; quando, pois, a razão, depois de ter rejeitado tudo o que se opõe, encontra o que é amável segundo a natureza, e o intelecto, depois de ter ultrapassado as realidades conhecidas, agarra a Causa dos seres, que ultrapassa essência e conhecimento, então se atua por graça a paixão da deificação, distraindo a razão do natural discernimento (porque não há mais de que discernir), fazendo cessar o intelecto da intelecção segundo a natureza (porque não há mais algo para conhecer), e fazendo deus aquele que é digno de participar do divino, por o ter tornado igual a Deus na estabilidade.
  64. A pena purifica a alma envenenada pela sordidez do prazer e a desliga completamente da sua relação com as coisas materiais, uma vez que ela aprendeu o dano que recebe do afeto por elas; por este motivo Deus permite ao diabo, segundo justo juízo, de oprimir os homens com tormentos.
  65. Prazer e tristeza, ânsia e medo e o que a elas se segue, não tinham sido em origem criadas como pertencentes à natureza humana (de outro modo fariam parte da definição de natureza), seguindo nisto o que aprendo do grande Gregório Nisseno: que estas coisas foram introduzidas por motivo do decadimento da perfeição e aderiram à parte mais irracional da natureza; por causa delas, em lugar da bem-aventurada e divina imagem, imediatamente com a transgressão, tornou-se clara e manifesta no homem a semelhança com os animais irracionais; era preciso com efeito, uma vez obscurecida a dignidade da razão, que a natureza do homem fosse justamente punida por parte daqueles caracteres de irracionalidade que tinha atraído em si; Deus, na sua economia sabiamente conduzia o homem a perceber a grandeza do seu ser dotado de razão.
  66. Também as paixões se tornam bens para quem é zeloso, quando as distraímos sabiamente do que é corporal e as volvemos a ocupar-se da aquisição dos bens celestes; isso acontece por exemplo quando tornamos a concupiscência um moto apetitivo da ânsia espiritual pelas coisas divinas; quando tornamos o prazer uma inocente alegria da operação volitiva do intelecto pelos dons divinos; quando tornamos o medo do castigo futuro pelas culpas premunitivo contra o pecado; e quando tornamos a tristeza um arrependimento corretivo pelo mal presente; em uma palavra, como os médicos sábios que usam do corpo de um animal venenoso (a víbora) para eliminar o dano já em ato ou previsível produzido pela sua mordida, também nós usamos destas paixões para destruir o mal presente ou que esperamos e para a aquisição e custódia da virtude e do conhecimento.
  67. A lei do primeiro Pacto, mediante a sua filosofia prática, purifica a natureza de toda mancha; a do novo, mediante a mistagogia contemplativa, eleva segundo conhecimento o intelecto das coisas do corpo às visões das realidades inteligíveis a ele conaturais.
  68. A sagrada Escritura chama “tementes” os principiantes que de algum modo estão às portas do átrio divino das virtudes; aqueles, pois, que adquiriram em certa medida o hábito da virtude nas palavras e na conduta, define-os “proficientes”; quanto, porém, àqueles que, na pesquisa da virtude segundo conhecimento, já alcançaram a veta da verdade que manifesta as virtudes, ela os denomina “perfeitos”; portanto, quem, uma vez distraído da antiga conduta passional, no temor, entregou todo o seu ânimo às coisas divinas, não faltará de nenhum dos bens que convêm aos principiantes, mesmo que não tenha ainda adquirido o hábito da virtude e não seja ainda participante daquela sabedoria de que se fala entre os perfeitos; mas nem o proficiente faltará de algum daqueles bens que convêm ao grau por ele alcançado, mesmo que não tenha ainda adquirido o sobreeminente conhecimento próprio dos perfeitos, pois os perfeitos, já feitos misticamente dignos da teologia contemplativa, e tendo já tornado o intelecto puro de toda fantasia material e tendo feito com que a imagem da divina beleza porte toda inteira, integralmente, a semelhança, manifestam o divino amor encerrado no seu ânimo.
  69. Duplo é o temor: um puro, um não puro; aquele que é principalmente temor do castigo pelas culpas, e que portanto tem origem no pecado, não é puro, e nem dura sempre, porque desaparece juntamente com o pecado mediante a penitência; é ao invés puro, e não virá nunca menos, aquele temor que está sempre presente independentemente da tristeza pelas culpas, enquanto está de algum modo essencialmente insito na natureza por obra de Deus e torna manifesta a todos a venerabilidade natural de Deus, aquela sobreeminência que transcende todo reino e potência.
  70. Quem não teme a Deus como juiz, mas o venera pela transcendente sobreeminência da sua infinita potência, justamente não faltará de nada, é de fato perfeito na caridade, porque ama a Deus com veneração e com a conveniente reverência; é este que possui o temor que permanece para o século do século, e não falta absolutamente de nada.
  71. Com base nos seres, nós conhecemos a Causa dos seres; com base na diversidade dos seres, aprendemos a sabedoria em si subsistente daquele que é; e do movimento natural dos seres, aprendemos a vida em si subsistente daquele que é, a potência vivificante os seres: o Espírito santo.
  72. O Espírito santo não está ausente de nenhum dos seres, especialmente daqueles que de todo modo participam da razão; é com efeito ele que inclui o conhecimento de cada um, pois é Deus e Espírito de Deus, se encontra provvidencialmente em todos com a sua potência, e move em cada um a razão que possui por natureza; deste modo ele conduz quem é dotado de percepção à percepção de quanto cometeu culposamente contra a lei da natureza, e quem tem vontade dócil a acolher os retos pensamentos da natureza; por isso vemos muitos homens, mesmo entre os mais bárbaros e nómadas, volverem-se a uma vida decorosa e boa, e desprezarem as leis selvagens que desde as origens tinham dominado entre eles.
  73. O Espírito santo está presente simplesmente em todas as coisas enquanto é ele que mantém unidas todas as coisas e vivifica os germes naturais que estão nelas; está presente de modo peculiar naqueles que estão sob a lei, enquanto é ele que lhes mostra aquilo em que transgridem os mandamentos e os ilumina acerca da promessa concernente a Cristo; está presente em todos os cristãos de um outro modo além dos supraditos, a saber, de modo a fazer deles filhos; mas não por isso está presente em cada um destes como autor de sabedoria; como tal está presente só naqueles que têm inteligência e, mediante um modo de vida divinamente inspirado, se tornaram dignos da matança deificante dele; pois quem não realiza os divinos voleres, ainda que crente, tem o coração insensato, como um laboratório de pensamentos maus, e o seu corpo é devedor ao pecado, como sempre emaranhado nas contaminações das paixões.
  74. Deus, que anseia a salvação de todos os homens e tem fome da sua deificação, disseca a sua presunção como a figueira estéril, de modo que prefiram ser justos realmente em vez de aparentá-los e, despojando-se da túnica da sua hipócrita ostentação dos seus costumes, perseguindo ao invés sinceramente a vida virtuosa como quer a divina Palavra, vivam com piedade a sua vida; assim mostrarão antes a Deus a disposição íntima da sua alma, do que aos homens um comportamento exterior de vida moral.
  75. Uma coisa é o significado do fazer, outra coisa o do sofrer; o fazer se define na capacidade natural de operar as virtudes; o sofrer se define ou na graça do que está além da natureza ou no acontecer de coisas contra a natureza; pois, assim como não temos capacidade natural para o que está além do ser, assim não a temos para o que não é; segundo graça nós, pois, sofremos (como coisa que ultrapassa a natureza) a deificação: não a atuamos nós mesmos, pois não temos por natureza a capacidade de receber a deificação; e ainda: nós, quando a nossa vontade incorre no mal, o sofremos como coisa contra a natureza, pois não temos uma capacidade natural de produzir o mal; por natureza, pois, ora, operamos as virtudes enquanto temos a capacidade natural de realizá-las; no futuro, porém, sofremos a deificação, enquanto recebemos gratuitamente a graça de a sofrer.
  76. Somos nós a fazer na medida em que temos por natureza operante em nós a potência racional de realizar as virtudes, e na medida em que temos operante a potência inteligente que é capaz de receber incondicionalmente todo conhecimento, ultrapassa toda a natureza dos seres e dos objetos de conhecimento, e deixa atrás de si todos os séculos; nós, ao invés, sofremos quando, superadas completamente as razões das coisas criadas, chegamos, além do conhecimento, à Causa dos seres e suspendemos a atividade das nossas potências, juntamente com tudo o que é por natureza limitado; tornamo-nos então o que de nenhum modo é produção de uma nossa potência natural, pois a natureza não possui a capacidade de agarrar o que está além da natureza; nada com efeito do que é gerado é capaz de produzir por natureza a deificação, pelo fato mesmo de que não pode agarrar a Deus; é naturalmente próprio à só graça divina o conceder uma proporcionada medida de deificação aos seres: ela, que faz resplandecer a natureza de uma luz que está além da natureza e que a leva acima dos seus limites, conforme a superabundância da própria glória.
  77. Depois desta vida nós cessamos de operar as virtudes; ao invés, ultrapassadas as virtudes, não cessamos de sofrer a deificação por graça, porque um sofrer que está além da natureza é ilimitado sendo operante além da natureza, enquanto um sofrer que é contra a natureza não tem subsistência real e é impotente.
  78. Tanto os modos da virtude como as razões dos seres são figuras dos bens divinos: neles Deus continuamente se faz homem, tomando qual corpo os costumes da virtude e qual alma as razões do conhecimento em Espírito, e assim deifica aqueles que dele são dignos, incidindo neles os caracteres da virtude e concedendo-lhes, subsistente e essencial, a presença de um conhecimento que não engana.
  79. O intelecto crente e dedicado à prática é como São Pedro, mantido prisioneiro por Herodes (isto é, pela lei da pele, porque o nome Herodes significa “de pele”), que é o sentir da carne; Pedro está fechado entre dois corpos de guarda e uma porta de ferro, isto é, combatido pela operação das paixões e pelo consenso da mente às paixões; uma vez ultrapassadas estas, como corpos de guarda ou cárceres, mediante o ensinamento da filosofia prática (como mediante um anjo), chega à porta de ferro que conduz à cidade (isto é, à dura, rígida relação dos sentidos com as coisas sensíveis, tão difícil de vencer); mas esta porta é aberta automaticamente pelo ensinamento da contemplação natural em Espírito e agora conduz sem medos o intelecto para os inteligíveis a ele conaturais, livre da loucura de Herodes.
  80. O diabo é juntamente inimigo de Deus e seu vingador: inimigo quando, no seu ódio a Deus, parece ter adquirido nos nossos confrontos uma espécie de amor ruinoso, e persuade a nossa vontade mediante o prazer (com os vários tipos de paixões deliberadamente acolhidas) a preferir as coisas passageiras aos bens eternos, roubando assim à alma toda a sua ânsia e nos distraindo completamente do divino amor, fazendo-nos voluntários inimigos do nosso Criador; o diabo é ao invés vingador quando, descobrindo o ódio que tem por nós (tornados já seus sujeitos em força do pecado), requer que nós sejamos punidos, porque nada é mais caro ao diabo do que punir o homem; quando isto lhe é concedido, inventa assaltos de paixões involuntárias que se sucedem um após o outro e, como uma tempestade, se arremete ferozmente sobre aqueles que, por permissão de Deus, tem em seu poder, e isto não para realizar o comando divino, mas pela ânsia de satisfazer a sua paixão de ódio contra nós, para que, pelo grande peso destes eventos penosos, a alma (dobrada pelo esfaimamento) se exclua da potência da divina esperança, fazendo deste assalto de eventos penosos não uma admoestação, mas um motivo de recusa de Deus.
  81. Quando aqueles que adquiriram o hábito da prática e a ciência contemplativa, se servem destas para obter glória dos homens, esboçando só externamente costumes virtuosos e exprimindo só a palavras sabedoria e conhecimento; quando, sem as obras da justiça, ostentam aos olhos dos outros a boria por esta virtude e conhecimento, então eles são justamente entregues a penas convenientes, para aprender através do padecer aquela humildade que lhes era desconhecida por causa da sua vã presunção.
  82. Cada demônio procura este ou aquele assalto das tentações, conforme a sua atitude inata; pois, quem é operador de um mal, quem de um outro, e um do outro, manifestamente, é mais malvado e tem maior atitude para uma certa forma de mal.
  83. Sem a divina permissão, nem os demônios mesmos podem de algum modo prestar serviço ao diabo, pois é o próprio Deus que, com adequada providência, plena de amor pelo homem e de bondade, permite ao diabo infligir mediante os seus ministros castigos vários, como mostra bem o relato de Jó que descreve como o diabo não podia de nenhum modo aproximar-se de Jó sem o divino voler.
  84. Fé que tem real subsistência é aquela que é manifesta e ativa; em força dela, o Verbo de Deus se mostra, naqueles que são dedicados à prática, tomando corpo nos mandamentos, por meio dos quais, como Verbo, eleva ao Pai (no qual é por natureza) aqueles que os realizam.
  85. O mistério do Novo Testamento anuncia mudança de vida, culto angélico, voluntário estranhar-se da alma do corpo, origem da renovação divina no Espírito; e a Escritura indica com o termo “circuncisão espiritual” a recisão da relação passional da alma com o corpo.
  86. Sendo Deus bom e querendo arrancar completamente de nós o semente do mal (o prazer, que despoja o intelecto do divino amor), permite ao diabo infligir-nos penas e castigos; deste modo raspa da alma, com as penas, o veneno do precedente prazer; ele quer produzir em nós ódio e completo desgosto pelas coisas presentes que afagam a só percepção sensível, e de cujo uso, uma vez que as possuímos, não extraímos outro que castigo; deste modo ele quer também fazer com que a potência punidora do diabo, cheia de ódio pelo homem, se torne a causa contingente do regresso à virtude daqueles que a ela voluntariamente tinham vindo menos.
  87. É conveniente e justo que sejam punidos pelo diabo aqueles que volentieri tinham acolhido os seus malignos sugerimentos para induzir a pecados voluntários, pois o diabo por um lado semeia o prazer mediante as paixões voluntárias, por outro lado aporta a dor mediante as involuntárias.
  88. O intelecto contemplativo e dedicado ao conhecimento é muitas vezes entregue por punição ao diabo, que justamente lhe inflige penas e desventuras, para que padecendo aprenda a sabedoria da constância e da suportação das penas, em vez de se apegar tolamente e em vão, na sua soberba, a coisas que não existem.
  89. Quem sofre por ter transgredido o divino mandamento, se reconhece a razão da divina providência que o cura, aceita com reconhecimento e com alegria o que lhe acontece de penoso e se corrige da culpa pela qual é punido; quem ao invés é insensível à cura, é justamente privado da graça que lhe tinha sido dada e é entregue à agitação das paixões para que chegue a realizar, assim abandonado, aquelas coisas de que tinha no íntimo a ânsia.
  90. Quem, consciente do que cometeu, aceita voluntariamente de receber, com o devido render de graças, o penoso sobrevir das tentações não queridas, não é exilado do hábito da virtude e da graça, enquanto aceita o sobrevir dos tormentos, sujeitando-se voluntariamente ao jugo do rei de Babilónia e pagando a sua dívida; ao contrário, permanecendo na virtude e na graça, paga ao rei de Babilónia as violentas penas que provêm da parte passional da sua natureza e também o consenso que ele dá a elas mentalmente, como devedor por motivo das culpas precedentes; e oferece a Deus, mediante um culto veraz (isto é, mediante uma disposição íntima de humildade), a correção das culpas.
  91. Quem não aceita com gratidão aquelas tentações não queridas que, por permissão divina, a sua correção, vêm sobre ele, e não depõe, arrependido, a presunção de ser justo, é entregue à prisão, porque resiste aos divinos responsos dos justos juízos e se recusa a sujeitar-se voluntariamente ao jugo do rei de Babilónia, segundo o decreto divino; é assim entregue aos ferros, às cadeias, à fome, à morte, à espada e ao exílio total da sua terra; estas coisas com efeito, e também piores, sofre quem, como da própria terra, é exilado do estado de virtude e conhecimento, porque por soberba e vã presunção não quer dar satisfação das suas culpas e comprazer-se nas tribulações, nas necessidades e nas angústias, como o divino Apóstolo; sabia com efeito o grande Apóstolo que a humildade que externamente, a respeito do corpo, é produzida pelas penas, custodia os divinos tesouros da alma e por isso suportava tolerando, tanto por si mesmo como por aqueles aos quais ele era modelo de virtude e de fé, de modo que, ainda que eles sofressem como culpados (como aquele homem de Corinto que tinha sido golpeado com pena), tivessem nele, que sofria inocente, um encorajamento e um modelo de suportação.
  92. Quem não se detém na percepção sensível sobre as imagens das coisas visíveis, mas com o intelecto investiga as suas razões como de impressões de realidades inteligíveis, ou as contempla como razões de criaturas sensíveis, aprende que não há nada de impuro nas realidades visíveis, pois todas são por natureza muito boas.
  93. Quem não sofre mutações por causa do movimento das coisas sensíveis, segue de modo genuíno a prática das virtudes; e quem não deixa que as suas imagens se imprimam no seu intelecto, obteve uma opinião verdadeira sobre os seres; quem depois superou com a mente a essência mesma dos seres, ultrapassada esta, de verdadeiro teólogo, se aproximou do Uno além do conhecimento.
  94. Todo intelecto dedicado à contemplação, tendo a espada do Espírito (que é a palavra de Deus) e tendo morto em si mesmo o movimento da criação visível, atuou a virtude; e, recidindo de si mesmo a imagem das aparências sensíveis, encontrou a verdade nas razões dos seres; e é desta verdade que consta a contemplação natural; subindo depois acima da essência dos seres, recebe a iluminação do Uno divino e sem princípio; e disto é feito o mistério da verdadeira teologia.
  95. A cada um Deus se manifesta conforme a opinião que cada um tem dele; àqueles cuja ânsia ultrapassa o âmbito da matéria e nos quais as potências da alma são perfeitamente coordenadas no único e mesmo incessante moto ao redor de Deus, ele se manifesta como Unidade e Trindade, mostrando assim a própria existência e indicando misticamente o como; àqueles cuja ânsia se move ao redor do só âmbito material e nos quais as potências da alma são entre si disjungidas, não se manifesta como ele mesmo é, mas como são eles, mostrando como eles tenham agarrado com ambas as mãos a dualidade da matéria, pela qual o mundo corpóreo consta de matéria e forma.
  96. O divino Apóstolo chama as diferentes operações do Espírito santo “carismas diversos” operados porém pelo único e mesmo Espírito; se, pois, a manifestação do Espírito é dada na medida da fé de cada um, com a participação a algum carisma particular, quer dizer que cada um dos fiéis, conforme a sua fé e a sua disposição de ânimo, recebe em correspondente medida a operação do Espírito, e esta lhe dá a capacidade adequada para pôr em obra este ou aquele mandamento.
  97. Um recebe uma palavra de sabedoria; um uma palavra de conhecimento; um outro, de fé; algum outro ainda, um dos carismas do Espírito enumerados pelo grande Apóstolo; do mesmo modo, um recebe mediante o Espírito o perfeito e imediato amor de Deus, livre de qualquer materialidade, na medida da fé; um outro, mediante o mesmo Espírito, o carisma da caridade perfeita para o próximo; um outro, algum outro carisma conforme ao mesmo Espírito: cada um, como se disse, tem operante em si o próprio carisma, pois se diz que toda capacidade de pôr em obra um mandamento é carisma do Espírito.
  98. O batismo do Senhor é a completa matança da nossa propensão para o mundo sensível; o cálice constitui o renegação da mesma vida presente por amor da verdade.
  99. O batismo do Senhor é figura das penas voluntárias que nós assumimos por amor da virtude; uma vez lavadas com estas as manchas da consciência, nós acolhemos a morte voluntária da propensão para as coisas visíveis; o cálice é figura das provas não queridas que nos assaltam, por amor da verdade, por circunstâncias não de nossa escolha: através destas nós preferimos o divino desejo até mesmo à natureza mesma e voluntariamente entramos na morte da natureza imposta por estas circunstâncias.
  100. Esta é a diferença entre o batismo e o cálice: o batismo faz morrer por amor da virtude a propensão aos prazeres da vida; o cálice faz com que os fiéis prefiram a verdade à natureza mesma.