Deus é uno, porque a divindade é una: sem princípio, simples, sobressubstancial, sem partes, indivisível, sendo a mesma unidade e
trindade, toda unidade segundo a essência e toda
trindade segundo as hipóstases, pois o
Pai, o
Filho e o
Espírito Santo são a divindade, e a divindade está neles toda perfeita e perfeitamente, sem divisão ou imperfeição, de modo que o
Pai, o
Filho e o
Espírito Santo são um só Deus, com a mesma essência, potência e operação.
Toda intelecção pertence aos inteligentes e aos inteligíveis, mas Deus não pertence nem aos inteligentes nem aos inteligíveis, pois está além disso, sendo superior ao pensar e ao ser pensado, já que o pensar e o ser pensado pertencem naturalmente aos seres que vêm depois dele.
Toda intelecção, como qualidade, tem sua sede em uma essência e um movimento determinado pela qualidade relativa à essência, não podendo acolher algo completamente livre e simples por si subsistente; Deus, porém, sendo totalmente simples sob ambos os aspectos, essência que não está em um sujeito e intelecção que não tem absolutamente nenhum sujeito, não pertence aos inteligíveis, pois está além da essência e da intelecção.
Assim como no centro se observa absolutamente indivisa a posição das linhas retas que partem dele, assim quem foi dignificado de estar em Deus entenderá preexistentes nele todas as razões das criaturas, com um conhecimento simples e indiviso.
Conformando-se às coisas pensadas, a intelecção, embora una, torna-se muitas intelecções porque se conforma aos vários aspectos das coisas pensadas; mas quando, após ultrapassar a multidão dos seres sensíveis e inteligíveis que a conformam, torna-se totalmente sem forma, então o Verbo que supera a intelecção se apropria dela e a distrai do que costuma alterá-la com as formas dos conceitos, e quem provou isso também cessou das suas obras, como Deus das suas.
Quem alcançou a perfeição atingível aqui embaixo pelos homens traz como frutos para Deus amor, alegria, paz, longanimidade e, no futuro, incorruptibilidade, eternidade e semelhantes, sendo talvez os primeiros frutos para quem completou a prática, e os outros para quem, mediante a verdadeira conhecimento, saiu de toda realidade criada.
Assim como o pecado é a obra própria da desobediência, a virtude é a obra própria da obediência, e assim como à desobediência segue-se a transgressão dos mandamentos e a separação de quem deu o mandamento, à obediência segue-se a observância dos mandamentos e a união com aquele que deu o mandamento; portanto, quem mediante a obediência observou o mandamento também operou a justiça e não se separou da união, mediante o amor, com aquele que deu o mandamento.
Quem se afasta da divisão produzida pela transgressão, primeiro afasta-se das paixões, depois dos pensamentos passionais, depois da natureza e das razões relativas à natureza, depois dos conceitos e dos conhecimentos a eles relativos; e finalmente, subtraído à multiplicidade das razões relativas à providência, encontra de modo não cognitivo a própria razão concernente à unidade, e o intelecto que, segundo esta razão somente, contemplou a própria imutabilidade, goza de uma alegria inefável, como quem alcançou a paz de Deus que supera toda intelecção.
O temor da geena dispõe os principiantes a fugir do mal; o desejo da recompensa dos bens dá àqueles que progridem a prontidão em operar as virtudes; o mistério do amor eleva o intelecto acima de todas as criaturas, tornando-o cego em relação a tudo o que vem depois de Deus, pois o Senhor torna sábios, mostrando-lhes as coisas mais divinas, apenas aqueles que se tornaram cegos em relação a tudo o que vem depois de Deus.
A palavra de Deus, semelhante a um grão de mostarda, antes de ser cultivada parece ser pequeníssima, mas uma vez convenientemente cultivada mostra-se tão grande que as grandes razões das criaturas sensíveis e inteligíveis, como aves, repousam nela, pois as razões de todas as coisas estão compreendidas nela, enquanto ela não está compreendida em nenhum dos seres; por isso, quem tem fé quanto um grão de mostarda pode com a palavra remover o monte de que o Senhor falou, isto é, pode expulsar a força do
diabo que está contra nós e transferir a sua sede.
O grão de mostarda é o Senhor, semeado em espírito, conforme a fé, nos corações dos que o recebem, e quem o cultiva com cuidado mediante as virtudes remove o monte do sentir terreno, afastando com autoridade o próprio hábito de mal, tão difícil de mover, e faz repousar em si, como aves do céu, as razões e os modos dos mandamentos, ou também as divinas potências.
Edificando a altura dos bens sobre o Senhor, como sobre o fundamento da fé, sobrepomos ouro, prata, pedras preciosas, isto é, teologia pura e genuína, vida transparente e luminosa, pensamentos divinos e conceitos esplendentes como gemas, não madeira, palha, cana, isto é, nem idolatria (inclinação para as coisas sensíveis), nem vida irracional, nem pensamentos passionais e privados, como de espigas, da inteligência segundo a sabedoria.
Quem aspira ao conhecimento fixe, inamovíveis, junto ao Senhor, as bases da alma, como Deus diz a Moisés: “Tu ficas aqui comigo”; mas deve-se saber que há diferença entre os próprios que ficam junto ao Senhor, pois o Senhor não se manifesta sempre em glória a todos os que ficam junto dele: aos principiantes aparece antes em forma de servo, àqueles que podem segui-lo enquanto sobe ao alto monte da sua transfiguração manifesta-se em forma de Deus, aquela em que era antes de o mundo existir; portanto, é possível que o mesmo Senhor não se manifeste do mesmo modo a todos os que se encontram junto dele, mas a uns de um modo e a outros de outro, segundo a medida da fé que está em cada um.
Quando o Verbo de Deus estiver em nós claro e esplendente e o seu rosto resplandecer como o sol, então também as suas vestes aparecerão cândidas, isto é, as palavras da sagrada Escritura dos
evangelhos, penetrantes e claras, sem nada de escondido; e com ele se apresentam também Moisés e Elias, isto é, as razões mais espirituais da lei e dos profetas.
Do modo como vem o
Filho do homem (como está escrito) com os seus
anjos na glória do
Pai, assim, a cada progresso da virtude, o Verbo de Deus se transfigura para os que dele são dignos, vindo com os seus
anjos na glória do
Pai, pois as razões mais espirituais presentes na lei e nos profetas, que Moisés e Elias representam em si mesmos aparecendo com o Senhor na transfiguração de Deus, conservam, na sua medida, a glória neles presente, revelando o seu significado, quanto é então compreensível a quem é digno.
Quem foi de certa medida iniciado na razão relativa à unidade certamente conheceu também as razões relativas à providência e ao juízo que lhe estão conjuntas; por isso considera bem, como diz São Pedro, que haja junto a ele três tendas para os personagens aparecidos, isto é, os três hábitos da salvação: o das virtudes, o do conhecimento e o da teologia, pois o primeiro exige a fortaleza e a temperança (de que era figura o
bem-aventurado Elias), o segundo exige a justiça na contemplação natural (que o grande Moisés revelava em si mesmo), e o terceiro exige a perfeição íntegra na prudência (que o Senhor manifestava); foram denominadas “tendas” porque há outras condições, melhores e mais esplendentes do que estas, que acolherão no futuro os que delas são dignos.
Daquele que é dedicado à prática se diz que reside na carne, como quem corta mediante as virtudes a relação entre a alma e a carne e afasta de si o engano das coisas materiais; mas daquele que se dá ao conhecimento se diz que reside na própria virtude, como quem contempla a verdade ainda em espelhos e enigmas, pois ainda não lhe apareceram as formas dos bens em si mesmas subsistentes assim como são, no deleite da visão face a face, porque todo santo procede através da imagem dos bens, como voltado para o futuro, gritando: “Sou hóspede… e estrangeiro, como todos os meus pais”.
Quem ora não deve nunca parar na ascensão sublime que o leva a Deus, pois assim como é preciso fazer ascensões de potência em potência quanto ao progresso prático das virtudes, e ascensão de glória em glória quanto ao progresso na contemplação das realidades espirituais, e à passagem da letra da sagrada Escritura ao espírito, assim devem fazer também aqueles que se encontram no lugar da oração: elevar o intelecto das coisas humanas e o sentir da alma para as coisas mais divinas, para que o intelecto possa seguir aquele que penetrou nos céus,
Jesus, o
Filho de Deus, que está em toda parte e, conforme a sua economia, tudo penetra por nós, para que nós, seguindo-o, penetremos através de tudo o que está depois dele e cheguemos a ele, com a condição porém de o entendermos não segundo a pequenez do seu abaixamento (conforme a economia), mas segundo a grandeza da infinidade da sua natureza.
É belo estar sempre dedicado à busca de Deus como nos foi ordenado, pois, mesmo que buscando ao longo da presente vida não possamos chegar ao limite da profundidade de Deus, todavia, chegando ainda que a uma pequena parte da sua profundidade, contemplamos o que é mais santo do que as coisas santas e mais espiritual do que as realidades espirituais, o que manifesta em figura o sumo sacerdote que, do Santo (que é mais santo que a zona do átrio), entra no Santo dos santos, que é mais santo do que o Santo.
Nenhuma palavra de Deus é múltipla ou multiplicidade: ela é ao invés única, composta de diferentes conceitos e destes cada um é parte da palavra; assim, quem fala pela verdade, mesmo que possa falar com tantas palavras a ponto de nada descuidar em relação ao objeto da sua pesquisa, pronunciou a única palavra de Deus.
Em Cristo, que é Deus e Verbo do
Pai, habita, segundo a essência, toda a plenitude da divindade corporalmente; em nós, porém, a plenitude da divindade habita por graça quando reunimos em nós mesmos toda virtude e sabedoria e de nenhum modo (quanto possível ao homem) elas se afastam da verdadeira imitação do arquétipo, não sendo estranho, logicamente, que habite também em nós a plenitude da divindade, formada por diferentes contemplações espirituais.
Assim como em nós a palavra, procedendo por natureza do intelecto, é mensageira dos seus movimentos secretos, assim o Verbo de Deus, conhecendo por essência o
Pai, como uma palavra conhece o intelecto que a gerou (enquanto nenhum dos seres gerados pode aproximar-se dele sem ele), revela o
Pai que conheceu enquanto Verbo por natureza, sendo por isso também chamado mensageiro do grande conselho.
O grande conselho de Deus
Pai é o mistério calado e desconhecido da economia, que o
Filho Unigênito revelou cumprindo-o mediante a encarnação, tornando-se mensageiro do grande conselho de Deus
Pai anterior aos séculos; e torna-se mensageiro do grande conselho de Deus aquele que conheceu a razão do mistério e tanto se eleva com a obra e a palavra, incompreensivelmente, através de todas as coisas, até que chegue àquele que tanto se abaixou para ele.
Se por nós o Verbo de Deus, conforme a sua economia, desceu até as partes inferiores da terra e subiu acima de todos os céus, ele que é por natureza totalmente imóvel, realizando antes em si mesmo como homem, conforme a economia, as realidades futuras, quem tem caro o amor pelo conhecimento observe alegrando-se misticamente qual seja, segundo a promessa, o fim daqueles que amam o Senhor.
Se o Verbo Deus,
Filho de Deus Pai, se fez
filho do homem e homem, a fim de fazer deuses e filhos de Deus os homens, devemos crer que nos encontraremos lá onde agora está o próprio Cristo como cabeça de todo o corpo, feito por nós precursor junto ao
Pai daquela que será a nossa mesma condição, pois na assembleia dos deuses (daqueles que se salvam) ele será Deus, estará no meio e distribuirá as recompensas da
bem-aventurança de lá em cima, sem que haja qualquer distância no espaço entre ele e os que são dignos.
Quem ainda satisfaz os apetites passionais da carne habita, como idólatra e fabricante de ídolos, na terra dos caldeus; mas quando, uma vez examinadas um pouco as coisas, percebe os bons costumes da natureza, então, deixada a terra dos caldeus, vem a Carran da Mesopotâmia, quero dizer, na condição intermediária entre a virtude e a malícia, que ainda não é pura do engano ligado à percepção sensível (pois isto significa Carran); mas se ultrapassar também a limitada inteligência do bem que se realiza mediante a percepção sensível, apressar-se-á para a terra boa, isto é, para aquele estado livre de toda malícia e ignorância, que o Deus sem mentira mostra e promete dar àqueles que o amam como prêmio da virtude.
Se o Verbo de Deus foi por nós crucificado por motivo da fraqueza, e foi ressuscitado pela potência de Deus, é evidente que faz e sofre sempre isso espiritualmente por nós, como quem tudo se tornou para salvar a todos; por isso fez bem o divino Apóstolo, entre os Coríntios fracos, a não considerar saber nada senão
Jesus Cristo e este crucificado, mas aos Efésios que são perfeitos escreve: “Em Cristo Deus nos ressuscitou, juntamente com ele, e juntamente com ele nos fez sentar nas sedes celestiais”, vindo assim a dizer que o Verbo de Deus se faz conforme a diferente capacidade de cada um: é crucificado para os que ainda são iniciados na piedade na prática e pregam as suas operações passionais com o temor divino; ressuscita, ao invés, e sobe aos céus para os que se despojaram inteiramente do homem velho que se corrompe segundo as concupiscências da sedução, vestiram inteiramente o novo, que é criado mediante o Espírito à imagem de Deus, e chegaram ao
Pai daquela graça que está neles, acima de todo principado, potestade, virtude, dominação e de todo nome que se nomeie, seja neste século seja no futuro, pois tudo o que vem depois de Deus, coisas, nomes, dignidades, será submetido àquele que, mediante a graça, se encontrar em Deus.
Assim como antes da vinda visível e na carne o Verbo de Deus tinha inteligivelmente morada junto aos patriarcas e aos profetas, prefigurando os mistérios da sua vinda, assim também após esta permanência ele não se encontra apenas junto aos que ainda são crianças, para nutri-los espiritualmente e conduzi-los à idade da perfeição segundo Deus, mas também nos perfeitos para delinear neles ocultamente, como numa imagem, os caracteres da sua vinda futura.
Assim como as palavras da lei e dos profetas, que eram precursoras da vinda do Verbo na carne, educavam as almas para Cristo, assim o mesmo glorioso Verbo de Deus encarnado tornou-se precursor da sua gloriosa vinda espiritual e educa as almas, com as suas palavras, a acolher a sua manifesta vinda divina, que ele sempre efetua fazendo passar da carne ao espírito, mediante a virtude, os que dele são dignos, e que efetuará no fim deste século, desvelando manifestamente as coisas até então inefáveis para todos.
Enquanto sou imperfeito e insubordinado, não obedecendo a Deus mediante a prática dos mandamentos, e enquanto não me tornei perfeito no conhecimento pelo meu sentir, também Cristo por minha causa é tido como imperfeito e insubordinado no que me diz respeito, pois eu o diminuo e mutilo, não crescendo juntamente com ele segundo o espírito, enquanto sou corpo de Cristo e membro pela minha parte.
“Nasce o sol, e põe-se o sol”, diz a Escritura; portanto, também a Palavra ora aparece em cima, ora em baixo, conforme a dignidade e a palavra ou a conduta daqueles que seguem a virtude e se movem em torno do divino conhecimento; mas
bem-aventurado quem mantém inextinguível em si mesmo, como Josué filho de Num, o Sol de justiça por toda a duração daquele dia que é a vida presente, sem que ele encontre um término na tarde do vício e da ignorância, para poder pôr em fuga do modo devido os malignos demônios que se insurgem contra ele.
O Verbo de Deus, levantando-se em nós mediante a prática e a contemplação, atrai todos a si, santificando-os mediante a virtude, os nossos pensamentos e raciocínios sobre a carne, a alma e a natureza dos seres, e os próprios membros do corpo e os sentidos, e pondo o conhecimento sob o seu próprio jugo; portanto, quem contempla as coisas divinas, com solicitude suba seguindo o Verbo, até que chegue ao lugar onde ele se encontra, pois lá atrai (como diz o Eclesiastes: “E para o seu lugar atrai”) aqueles que o seguem como sumo sacerdote que introduz no Santo dos santos, no qual entrou por nós como precursor com o que tem em comum conosco.
Quem se aplica à filosofia que é segundo a piedade e se põe diante das potências invisíveis, ore para que permaneça nele o discernimento natural (que possui luz proporcionada) e a graça iluminante do Espírito, pois um educa a carne à virtude mediante a prática, a outra guia com a sua luz o intelecto a preferir a tudo a convivência com a sabedoria, com a qual realiza a destruição das fortalezas da malícia e de toda altura que se levanta contra o conhecimento de Deus, como mostra Josué filho de Num, quando com a oração pede que o sol se detenha sobre Gabaon (isto é, que a luz do conhecimento de Deus lhe seja custodiada sem ocaso sobre o monte da contemplação do intelecto) e que a lua se detenha no vale (isto é, que o discernimento natural, que tem sede na fraqueza da carne, não se desvie da virtude).
Gabaon é o alto intelecto; o vale é a carne que a morte colocou em baixo; o sol é a Palavra que ilumina o intelecto, o provê da potência das contemplações e o liberta de toda ignorância; a lua é a lei segundo a natureza que persuade a carne a submeter-se de modo devido ao espírito, para tomar sobre si o jugo dos mandamentos; a lua é também símbolo da natureza devido à sua mutabilidade, mas nos santos permanece imutável por motivo do hábito inalterável da virtude.
Aqueles que buscam o Senhor não devem buscá-lo fora: eles devem ao invés buscá-lo em si mesmos, mediante a fé operante, pois está dito: “A palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração”, a palavra da fé, dado que o Cristo e a palavra que é buscada são a mesma coisa.
Nem considerando a sublimidade da infinidade divina devemos desesperar do amor de Deus pelos homens, como se não chegasse até nós por causa de tal sublimidade, e nem devemos faltar à fé na ressurreição da virtude morta em nós, quando refletimos ao desmedido abismo da nossa queda por causa do pecado, pois ambas as coisas são possíveis a Deus: tanto descer e iluminar o nosso intelecto com o conhecimento, como fazer ressurgir de novo a virtude em nós e elevar-nos em cima juntamente com ele mediante as obras da justiça, como está escrito: “Não digas no teu coração: Quem subirá até o céu? (para fazer descer o Cristo); ou: Quem descerá ao abismo? (para fazer subir o Cristo dos mortos)”. Talvez, segundo outra interpretação, “abismo” possa ser tudo o que vem depois de Deus, no qual está, toda inteira em todos segundo a providência, a palavra de Deus como vida que sobrevém aos seres que estão mortos (morte são todas as coisas que depois são tornadas vivas pela participação na vida), e por “céu” se entende a misteriosidade natural de Deus, pela qual ele é a todos incompreensível; se alguém, porém, quiser entender por “céu” a palavra da teologia e por “abismo” o mistério da economia, não diria coisa errada, pois ambas as realidades são dificilmente acessíveis a quem busque alcançá-las por via de demonstração, antes são totalmente inacessíveis se escrutadas sem a fé.
No homem dedicado à prática, a Palavra, espessando-se pelas virtudes, torna-se carne; no homem dedicado à contemplação, tornada sutil pelos conceitos espirituais, torna-se o que era no princípio, Deus Verbo junto ao
Pai.
Torna carne a Palavra quem, com exemplos e palavras mais espessas, segundo a capacidade dos ouvintes, realiza o ensinamento moral da Palavra; e, por sua vez, torna espírito a Palavra quem, com as sublimas contemplações, expõe a mística teologia.
Quem se dedica à teologia com base em proposições afirmativas torna carne a Palavra, porque não pode conhecer Deus senão como causa das coisas que se veem e se tocam; quem se dedica à teologia procedendo por eliminações em sentido negativo torna espírito a Palavra, como era no princípio, Deus, pois conhece bem o absolutamente incognoscível aquele que não o conhece com base absolutamente em nenhuma das coisas que podem ser conhecidas.
Quem aprendeu a cavar como fizeram os patriarcas, mediante prática e contemplação, os poços da virtude e do conhecimento que estão nele, encontrará dentro dele Cristo, fonte da vida, de quem a sabedoria nos ordena beber dizendo: “Bebe as águas das tuas talhas e da fonte dos teus poços”, pois assim faremos encontraremos os seus tesouros que estão dentro de nós.
Aqueles que vivem como os animais conforme apenas à percepção sensível, com grave perigo tornam carne a Palavra, porque abusam das criaturas de Deus a serviço das suas paixões e não entendem a palavra da sabedoria que se manifesta a todos para que conheçam a Deus e o glorifiquem a partir das suas criaturas e compreendam de onde, por que e para que fim fomos feitos e a que meta tendemos através das coisas visíveis, caminhando ao invés na treva através deste século, tateiam com ambas as mãos a sua só ignorância a respeito de Deus.
Aqueles que se detêm no só dito da sagrada Escritura e ligam a dignidade da alma ao culto corporal da lei, de modo repreensível tornam para si carne o Verbo, crendo que Deus se compraz em sacrifícios de animais irracionais, dando cuidado apenas ao corpo com as suas purificações exteriores, descuidando a beleza da alma, manchada pelas paixões, enquanto é para a alma que foi produzida toda a potência das coisas visíveis e foi dada toda palavra divina e lei.
O santo
evangelho diz que o Senhor é posto para ruína e ressurreição de muitos em Israel; olhemos, pois, que não seja “para ruína” daqueles que contemplam a criação visível só em relação com a percepção sensível e se atêm à só letra da sagrada Escritura, por não serem capazes de passar ao espírito novo da graça por estultícia, e seja ao invés “posto para ressurreição” daqueles que contemplam as criaturas de Deus e delas ouvem as palavras espiritualmente, e dão cuidado, com um comportamento reto, à só divina imagem que está na alma.
A palavra que diz como o Senhor seja posto “para ruína e ressurreição de muitos em Israel”, vista apenas no que anuncia de bom, deve entender-se “para ruína” das paixões e dos maus pensamentos que estão em cada um dos crentes, e “para ressurreição” das virtudes e de todo pensamento agradável a Deus.
Quem considera o Senhor apenas criador das coisas que nascem e se corrompem, toma-o pelo hortelão, como Maria Madalena; por isso o Soberano, para proveito de tal pessoa, foge ao seu toque (porque nela ainda não pôde subir ao
Pai) e assim lhe diz: “Não me toques”, pois sabe que recebe dano quem se aproxima dele com um tal preconceito demasiado baixo.
Aqueles que, por medo dos judeus, sentam-se no cenáculo na Galileia, depois de terem fechado as portas, isto é, aqueles que por medo dos espíritos do mal chegaram ao seguro na região das revelações, sobre o cume das divinas contemplações, e fecharam as portas dos sentidos, acolhem de modo incognoscível o Deus Verbo de Deus que sobrevém e se lhes manifesta sem a operação da percepção sensível, dá a impassibilidade mediante a paz e a outorga do Espírito santo mediante a inspiração, concede o poder contra os espíritos malignos e mostra os símbolos dos seus mistérios.
Para aqueles que escrutam segundo a carne o discurso relativo a Deus, o Senhor não sobe ao
Pai, enquanto para aqueles que o buscam segundo o espírito mediante as sublimes contemplações, ele sobe ao
Pai; não detenhamos, pois, sempre em baixo aquele que por amor de nós homens desceu em baixo, mas elevemo-nos em cima com ele para o
Pai, depois de termos deixado a terra e o que lhe pertence, para que ele não diga também a nós, como tinha dito aos judeus que não se tinham corrigido: “Vou para onde vós não podeis vir”, pois é impossível chegar ao
Pai do Verbo sem o Verbo.
A terra dos caldeus é a vida passional, na qual se criam e se adoram os ídolos dos pecados; a Mesopotâmia é quem oscila entre os dois opostos modos de conduta; a terra da promessa é a condição repleta de todo bem; portanto, quanto aquele que descuida este estado (do mesmo modo que o antigo Israel) é de novo arrastado para a escravidão das paixões, privado da liberdade que lhe tinha sido dada.
Deve-se notar como nenhum dos santos parece ter descido espontaneamente à Babilônia, pois não é lícito, nem é conforme a uma inteligência racional, que aqueles que amam a Deus prefiram aos bens os males; mas se alguns deles foram arrastados à força para lá juntamente com o povo, nós consideramos que eles o foram não por deliberação sua, mas induzidos pelas circunstâncias, para a salvação daqueles que tinham necessidade de ser conduzidos pela mão; por isso deixaram a palavra mais elevada do conhecimento e vieram ao ensinamento acerca das paixões, e por este motivo também o grande Apóstolo julgava ser mais útil permanecendo na carne (isto é, no ensinamento moral) a favor dos discípulos, embora desejando plenamente desligar-se do ensinamento moral e estar com Deus, mediante a contemplação simples e ultraterrena do intelecto.
Assim como o
bem-aventurado Davi salmodiando com a cítara aplacava Saul, atormentado pelo espírito maligno, assim também todo discurso espiritual, adoçado pelas contemplações do conhecimento, aplaca o intelecto tomado pelo mal, libertando-o da má consciência que o atormenta.
Fulvo e de olhos belos é, como o
bem-aventurado Davi, quem possui a palavra do conhecimento que reluz juntamente com o esplendor da vida segundo Deus, e nisto consistem a prática e a contemplação: uma que é tornada esplendente pelos costumes virtuosos, outra que é iluminada pelos conceitos divinos.
O reino de Saul é imagem do culto corporal da lei que o Senhor aboliu porque não levou a cumprimento nada, pois a lei (é dito) não levou nada a cumprimento; uma vez que o reino do grande Davi é prefiguração do culto evangélico, abraça perfeitamente todas as vontades que estão no coração de Deus.
Saul é a lei natural que em princípio o Senhor destinou a governar a natureza; uma vez que ele transgrediu o mandamento com a desobediência, poupando Agag rei de Amalek (isto é, o corpo) e escorregou nas paixões, é expulso do reino, para que acolha Israel Davi, isto é, a lei do espírito que gera a paz, e a paz constrói esplendidamente a Deus o templo da contemplação.
Samuel significa obediência a Deus; portanto, enquanto a Palavra exerce em nós o sacerdócio em força da nossa obediência, ainda que Saul poupe Agag (isto é, o sentir terreno), mata-o no seu zelo a Palavra sacerdote, e fere, confundindo-o, o intelecto amante do pecado, transgressor dos divinos decretos.
Quando o intelecto, pensando alto de si, cessa de interrogar com uma investigação adequada acerca do que é ou não é para ser feito aquela Palavra do ensinamento que o ungiu contra as paixões, então, pela sua ignorância, fica completamente preso pelas paixões, e porque por causa destas se separa parcialmente de Deus, em circunstâncias em que não quereria chega até a fazer do ventre, a favor dos demônios, uma divindade, querendo tirar dele um conforto ao que o oprime; convença-te Saul, que não toma Samuel como conselheiro em tudo, e por isso necessariamente se volta à idolatria e acaba por interrogar a ventríloqua como uma divindade.
Quem suplica de assumir o pão sobressubstancial não o recebe certamente todo inteiro assim como é o próprio pão, mas segundo a própria capacidade de o receber, pois o pão de vida dá-se a todos os que o pedem, no seu amor pelos homens, mas não a todos do mesmo modo: de modo superior àqueles que realizaram grandes obras de justiça, e de menos àqueles que são inferiores a estes, a cada um como a dignidade do intelecto é capaz de o receber.
O Senhor ora está ausente, ora presente: está presente na contemplação face a face, ausente na contemplação em espelho e enigmas.
Para quem é dedicado à prática, o Senhor está presente mediante as virtudes; daquele que não faz nenhum caso da virtude, ele está ausente; assim também para quem é dedicado à contemplação, ele está presente mediante o conhecimento verdadeiro dos seres, mas está ausente daquele que por algum motivo se desviou dela.
Afasta-se da carne quem passou do estado da prática para o da contemplação, arrebatado como sobre nuvens pelos conceitos mais elevados no ar transparente da mística contemplação, poderá, lá, estar com o Senhor sempre; afasta-se ao invés do Senhor quem não é ainda capaz de contemplar os conceitos com intelecto puro, quanto possível, sem as operações da percepção sensível, e não recebe de modo simples, sem enigmas, o discurso acerca do Senhor.
O Verbo de Deus é dito carne não só porque se encarnou, mas porque o Deus Verbo entendido simplesmente no princípio junto a Deus
Pai, possuindo claras e nuas as formas da verdade relativa aos seres, não contém
parábolas e enigmas, nem narrativas que requerem a alegoria; quando, porém, vem aos homens, que não podem aproximar-se dos nus inteligíveis com nú intelecto, ele, dialogando a partir de coisas a eles familiares, isto é, apresentando-se por meio de uma variedade de narrativas, enigmas,
parábolas e discursos obscuros, torna-se carne, pois ao primeiro contato o nosso intelecto não pode aproximar-se da Palavra nua, mas encarnada (isto é, à variedade das suas expressões): Verbo na sua natureza, mas carne no seu aparecer, de modo que a maioria crê ver a carne e não o Verbo, mesmo que em verdade seja o Verbo, porque o sentido da Escritura não é o que parece à maioria; portanto, o Verbo torna-se carne mediante cada um dos termos escritos.
O início do ensinamento dos homens na piedade se encontra naturalmente na carne, pois no nosso primeiro aproximar-nos da piedade, entramos em contato com a letra, não com o espírito; progredindo parcialmente no Espírito e afinando a espessura dos termos com contemplações mais subtis, viemos a encontrar-nos puramente no puro Cristo, quanto possível aos homens, de modo a poder dizer, com o grande Apóstolo: “Se também conhecemos Cristo segundo a carne, agora porém não o conhecemos mais”, por causa da aproximação simples do intelecto ao Verbo, sem os véus de que está coberto, progredindo do conhecimento do Verbo como carne até à glória dele, como Unigênito do
Pai.
Quem vive a vida em Cristo ultrapassou a lei e a natureza; queria dizer isto o divino Apóstolo escrevendo: “Em Cristo
Jesus, de fato, não há nem circuncisão nem prepúcio”, indicando com a circuncisão a justiça segundo a lei, e aludindo com o prepúcio à igualdade da natureza.
Alguns renascem mediante água e Espírito; outros recebem o batismo em Espírito santo e fogo; considero que estes quatro elementos (a água e o Espírito, o fogo e o Espírito santo) são o mesmo e único Espírito de Deus: para uns o Espírito santo é água (como o que deterge as manchas exteriores do corpo); para outros é Espírito (na medida em que produz os bens das virtudes); para outros é fogo (na medida em que purifica as imundícies interiores nas profundezas da alma); para outros, segundo o grande Daniel, é Espírito santo (na medida em que guia da sabedoria e conhecimento); assim, pela diversa operação no sujeito, o mesmo e único Espírito assume diferentes denominações.
A lei deu o sábado, para que (é dito) “descanse o teu jumento e o teu servo”, ambos indicando em enigma o corpo: o corpo de quem é dedicado à prática, de fato, é o jumento do intelecto (constrangido por força a levar pesos com os comportamentos virtuosos, segundo a prática); ele é ao invés servo de quem é dedicado à contemplação (porque é já dotado de racionalidade em força das contemplações e capaz de servir racionalmente às ordens do intelecto relativas ao conhecimento); e para ambos o sábado é o termo dos bens que se operam neles mediante a prática e a contemplação, oferecendo assim a cada um o repouso adequado.
Quem alcança a virtude com o conhecimento adequado tem o corpo como jumento e o impulsiona com a razão a operar o que convém fazer, e tem como servo o costume virtuoso da prática, isto é, aquele costume graças ao qual tem natural subsistência a virtude, costume adquirido (quase como com dinheiro) por meio de pensamentos dotados de discernimento; o sábado, por sua vez, é o estado impassível e pacífico da alma e do corpo conforme a virtude, isto é, um estado de imutabilidade.
A palavra de Deus, para aqueles que ainda se preocupam sobretudo com os aspectos corporais da virtude, torna-se palha e erva e nutre a parte passional da sua alma ao serviço das virtudes; para aqueles, porém, que se elevaram à contemplação da verdadeira compreensão das realidades divinas, é pão que nutre a parte inteligente da sua alma orientando-a a uma perfeição semelhante à divina; por isso encontramos que os patriarcas, nas suas viagens, providenciam-se de pães e os seus asnos de forragem, e no livro dos Juízes, o levita diz ao velho que o hospedou em Gabaa: “Há pães para nós e palha para os nossos asnos, e para os teus servos não falta nada”.
A palavra de Deus é dita “orvalho”, “água”, “fonte” e “rio”, como está escrito, porque ela é e se torna tal segundo a capacidade existente em quem a acolhe: para uns, de fato, ela é “orvalho” (porque apaga o ardor da operação exterior das paixões do corpo); é “água” para aqueles que ardem no profundo da alma por causa do veneno do mal (e não só destrói o adversário com uma paixão oposta, mas também comunica a potência vital para o ser-bem); “fonte” para aqueles nos quais perenemente jorra o hábito da contemplação (porque provê sabedoria); “rio” para aqueles que a rios vertem um ensinamento piedoso, reto e salutar (porque dessedenta abundantemente homens, bestas, feras e plantas): para que os homens sejam deificados, elevando-se com os conceitos inerentes às palavras; e aqueles que se tornaram como bestas por causa das paixões sejam tornados homens mediante a exata demonstração dos costumes segundo a virtude e recuperem a sua natural racionalidade; e aqueles que se tornaram como feras por motivo das hábitos malignos e das más ações, domesticados por uma exortação branda e delicada, recuperem a mansidão natural; e aqueles que, como as plantas, são insensíveis aos bens, amolecidos pela passagem da Palavra no profundo, recebam sensibilidade para produzir frutos e, como potência que os nutre, o valor próprio da Palavra.
O Verbo de Deus é “caminho” para aqueles que correm bem e com vigor na prática e no estádio da virtude, sem se voltar à direita com a vanglória ou à esquerda pela inclinação às paixões, mas dirigindo os seus passos segundo Deus; por não ter observado isto até ao fim é dito do rei Asa que em direção à velhice tinha se tornado doente nos pés, porque se tinha debilitado na carreira da vida segundo Deus.
O Verbo de Deus é dito “porta” porque introduz no conhecimento aqueles que bem realizaram todo o caminho das virtudes, na carreira irrepensível da prática; e é como uma luz que mostra os esplendidíssimos tesouros da sabedoria; o Verbo é, com efeito, ao mesmo tempo, caminho, porta, chave e reino: “caminho” (porque guia); “chave” (porque abre e é aberto para os que são dignos das coisas divinas); “porta” (porque introduz); “reino” (porque é dado em herança e está presente em todos por participação).
O Senhor é dito luz, vida, ressurreição e verdade: “luz” (porque é esplendor das almas, põe em fuga a treva da ignorância, ilumina o intelecto para que compreenda realidades inefáveis, mostra os mistérios visíveis apenas aos puros); “vida” (porque provê o conveniente movimento nas coisas divinas às almas que amam o Senhor); “ressurreição” (porque faz ressurgir o intelecto do morto apego às coisas materiais, tornando-o puro de qualquer forma de corrupção e mortalidade); “verdade” (porque dá aos que dele são dignos a imutável posse dos bens).
Deus Verbo de Deus
Pai está misticamente presente em cada um dos seus mandamentos, e Deus
Pai se encontra por natureza, todo e indiviso, em todo o seu Verbo; portanto, quem acolhe um mandamento divino e o põe em prática acolhe o Verbo de Deus que nele se encontra; quem depois, mediante os mandamentos, acolheu o Verbo, por meio dele tem juntamente acolhido o Espírito que nele por natureza se encontra, pois está dito: “Em verdade eu vos digo: quem acolhe aquele que eu enviarei, acolhe-me, e quem me acolhe, acolhe aquele que me enviou”; assim, quem acolheu um mandamento e o pôs em prática acolheu e possui misticamente a santa
Trindade.
Glorifica a Deus em si mesmo não quem o honra apenas com palavras, mas quem por Deus, por motivo da virtude, suporta de padecer penas; este é por sua vez glorificado por Deus com a glória que está em Deus, recebendo por participação a graça da impassibilidade como prêmio da virtude, pois quem glorifica a Deus em si mesmo mediante os padecimentos que encontra pela virtude, na prática, é por sua vez glorificado em Deus, mediante as impassíveis iluminações divinas na contemplação; diz com efeito o Senhor, chegando à sua paixão: “Agora foi glorificado o
Filho do homem, e Deus foi glorificado nele; …e também Deus o glorificará em si mesmo, e logo o glorificará”; e daí é evidente como os divinos carismas façam seguimento aos padecimentos pela virtude.
Enquanto nós vemos a palavra de Deus na letra da sagrada Escritura, tornada corpo em vários modos mediante os enigmas, não contemplamos ainda espiritualmente o
Pai incorpóreo, simples, eterno e uno, como ele está no incorpóreo, simples, eterno e único
Filho, segundo a palavra: “Quem me viu viu o
Pai”, e: “Eu estou no
Pai e o
Pai está em mim”; há portanto necessidade de grande ciência, para que, depois de ter primeiro penetrado os velames dos termos da Palavra, se possa contemplar com nú intelecto o puro Verbo subsistente em si mesmo, que claramente, quanto possível aos homens, mostra em si mesmo o
Pai; é por isso necessário que quem busca piamente a Deus não seja detido por nenhum termo, para que, sem se dar conta, não colha em lugar de Deus o que está em volta de Deus, amando perigosamente os termos escriturísticos em lugar da Palavra, enquanto a Palavra foge ao seu intelecto, que crê ter a Palavra incorpórea por meio dos seus revestimentos, como a egípcia que não tinha apanhado o próprio José mas os vestidos dele, e os antigos homens que, detendo-se na só beleza das coisas visíveis, não se aperceberam de servir à criatura em vez do Criador.
A palavra da sagrada Escritura, uma vez deposto o conjunto dos termos que estão sobre ela dando-lhe forma corpórea, em força dos conceitos mais elevados, como com voz de aura leve se mostra ao intelecto mais clarividente que, mediante o mais extremo abandono das operações naturais, pôde agarrar a só percepção da simplicidade, que de algum modo revela a Palavra, como o grande Elias que foi dignificado com esta visão na gruta de Horeb; Horeb significa com efeito “terreno novo”, e é o possesso das virtudes no espírito novo da graça; a “gruta” é o lugar secreto da sabedoria do intelecto: ali, quem chega percebe misticamente aquele conhecimento que está além da percepção sensível, e no qual o texto diz que se encontra Deus; portanto, quem, como o grande Elias, busca verdadeiramente a Deus, não chegará apenas a Horeb (isto é, ao possesso das virtudes, como operante na prática), mas também dentro da gruta que está sobre Horeb, isto é, como contemplativo, no lugar secreto da sabedoria, que se encontra apenas no possesso das virtudes.
Quando o intelecto tiver rejeitado as suas muitas opiniões acerca dos seres, então a Palavra da verdade se lhe manifestará claramente dando-lhe os ensinamentos do verdadeiro conhecimento, eliminando como escamas dos olhos os preconceitos de antes, como aconteceu ao divino e grande apóstolo Paulo; “escamas” realmente são as noções da Escritura atinentes apenas à letra e as contemplações passionais das coisas visíveis mediante a percepção sensível: sobrepostas à faculdade visiva da alma impedem a passagem da esquálida Palavra da verdade.
O divino apóstolo Paulo disse ter um conhecimento parcial do Verbo; o grande evangelista João diz ao invés ter contemplado a sua glória, pois afirma: “Contemplamos a sua glória, glória como de Unigênito do
Pai cheio de graça e de verdade”; mas talvez são Paulo disse ter um conhecimento parcial do Verbo enquanto Deus, porque o conhece apenas mediante as suas operações, e em certa medida (pois o conhecimento segundo a essência e a hipóstase é inacessível tanto a todos os
anjos como aos homens e não é de nenhum modo conhecida); São João, iniciado (quanto possível aos homens) no discurso perfeito acerca da encarnação do Verbo, disse ter contemplado a glória, isto é, o Verbo como carne, portanto a Razão ou o propósito pelo qual Deus se fez homem, cheio de graça e de verdade; de fato, o Unigênito é repleto de graça não como Deus por essência e consubstancial ao
Pai, mas uma vez que, conforme a economia, se tornou homem por natureza e a nós consubstancial, foi repleto de graça por nós que temos necessidade da graça; e da sua plenitude nós recebemos sempre a graça correspondente a cada nosso progresso; assim, quem tiver custodiado inviolável em si mesmo o Verbo perfeito, receberá a glória, cheia de graça e de verdade, do Deus Verbo que se fez carne por nós e que com a sua vinda, por nós glorificou e santificou a si mesmo em nós, pois está dito: “Quando ele se manifestar seremos semelhantes a ele”.
Enquanto a alma procede de potência em potência e de glória em glória (isto é, realiza um progresso maior de virtude em virtude e uma ascensão mais alta de conhecimento em conhecimento), não cessou de residir como estrangeira, segundo o dito: “Muito residiu como estrangeira a minha alma”; muita com efeito é a distância e grande o número das conhecimentos que deverão por ela ser ultrapassadas antes que ela chegue ao lugar da tenda admirável, até à casa de Deus, com voz de exultância, de louvor e de som de festa, acrescentando sempre voz a vozes, intelecção a intelecções para o progredir das divinas contemplações, com a exultância do intelecto para as coisas contempladas (isto é, com a alegria e o correspondente render de graças), pois estas são as festas celebradas por todos aqueles que receberam o Espírito da graça nos seus corações e que gritam: “Abba,
Pai!”.
O “lugar da tenda admirável” é o hábito impassível e íntegro das virtudes, no qual o Verbo de Deus, vindo, adorna a alma como uma tenda com as várias belezas das virtudes; a “casa de Deus” é o conhecimento composto de muitas e várias contemplações, pela qual Deus, vindo a habitar na alma, a colma com o cálice da sabedoria; a “voz de exultância” é o soçobro da alma pela riqueza das virtudes; a de “louvor” é o render de graças pela glória do banquete com a sabedoria; e o “som” que procede de ambas, “de exultância e de louvor”, é a contínua mística doxologia do seu confluírem juntos.
Quem corajosamente triunfou das paixões do corpo, combateu bravamente contra os espíritos impuros e expulsou da região da sua alma os conceitos procedentes destes, ore para que lhe seja dado um coração puro e seja renovado no seu íntimo um espírito reto: ore para ser completamente esvaziado dos maus pensamentos e para ser preenchido (em força da graça) dos pensamentos divinos, tanto a ponto de se tornar espiritual cosmos de Deus, esplendente e grande, composto de contemplações morais, naturais e teológicas.
Quem tornou puro o coração não só conhece as razões das coisas que vêm depois de Deus, mas fixa de certo modo o olhar no próprio Deus depois de ter ultrapassado todos os seres, e este é o termo supremo dos bens; Deus então, presente em tal coração, se digna a aí gravar as próprias letras mediante o Espírito, como nas tábuas de Moisés, na medida em que ele se deu, mediante a prática e a contemplação, conforme o mandamento que misticamente ordena: “Cresce”.
Coração puro vem dito provavelmente aquele que não tem nenhum movimento natural, em qualquer modo, para algo; Deus, presente neste coração por motivo da sua suma simplicidade, escreve nele as próprias leis como sobre uma tabuinha bem aplainada.
Coração puro é aquele que apresenta a Deus a memória livre de qualquer imagem e forma, pronta a receber as impressões apenas das formas dele mediante as quais ele se manifesta.
O intelecto de Cristo (que os santos recebem, conforme o dito: “Nós temos o intelecto de Cristo”) não sobrevém pela privação da potência intelectiva que está em nós, nem como um suplemento adicionado ao nosso intelecto, e nem como se o Cristo o fizesse passar essencialmente e hipostaticamente no nosso intelecto; ao invés, ilumina com a própria qualidade a capacidade do nosso intelecto, e conformando àquela do seu a operação do nosso; penso, com efeito, que tenha o intelecto de Cristo quem pensa segundo ele e pensa ele através de todas as coisas.
Nós dizemos ser corpo de Cristo segundo a palavra: “Nós somos corpo de Cristo e membros pela nossa parte”, não porque se torne aquele corpo por privação dos nossos corpos, nem porque o Cristo passe em nós hipostaticamente ou subdividido em membros, mas porque, à semelhança da carne do Senhor, nós depomos a corrupção do pecado; assim como com efeito o Cristo por natureza na carne e na alma (pelas quais se o considera homem) era sem pecado, assim também nós que cremos nele podemos ser sem pecado.
Na Escritura há séculos temporais e séculos que compreendem a consumação de outros séculos, segundo a palavra: “Agora, ao invés, uma vez por todas, na consumação dos séculos”, e o seguimento; e há ainda outros séculos não de natureza temporal depois do presente século temporal que é posto na consumação das eras, segundo a palavra: “Para que mostre nos séculos vindouros a sobreeminente riqueza”, e o seguimento; mas encontramos na Escritura também uma multidão de séculos passados, presentes e futuros, e certuns são indicados como séculos dos séculos, século do século, tempos seculares e gerações conjuntas aos séculos; ora, porém, para que não aconteça que tratando de que coisa entenda mostrar a Palavra com “séculos temporais”, que coisa com “tempos seculares e gerações”, que coisa sejam simplesmente os séculos e que coisa os “séculos dos séculos”, que coisa simplesmente o “século” e que coisa o “século do século”, nós prolonguemos demasiado o discurso além dos confins do nosso tema, deixemos aos estudiosos investigar acerca destas coisas e retornemos ao propósito pelo qual expusemos tudo isto.
Nós conhecemos, conforme a Escritura, algo que está além do século: e que exista, ele o diz, mas que coisa seja não o especifica, como no texto: “O Senhor reina sobre o século e sobre o século e além”; portanto, o puro reino de Deus é algo que está além dos séculos; não é com efeito lícito dizer que o reino de Deus teve início ou se manifesta com os séculos ou os tempos; nós cremos que ele seja herança, morada e lugar daqueles que se salvam, como nos transmite a Palavra veraz, qual meta daqueles que pela ânsia se movem para o objeto último dos seus desejos; lá chegados, é-lhes dado repouso de qualquer movimento, porquanto não têm mais algum tempo ou século a passar, porque, depois de terem passado além de todas as coisas, chegaram a Deus, que está antes de todos os séculos e que a natureza dos séculos não pode alcançar.
Por todo o tempo em que alguém está nesta vida, fosse também perfeito nesta condição tanto na prática como na contemplação, possui apenas parcialmente o conhecimento, a profecia e a caparra do Espírito santo, mas não a própria plenitude; quando, porém, ao findar dos séculos, chegar àquela sorte perfeita que mostrará face a face aos que dele são dignos a verdade em si mesma, não terá mais uma parte da plenitude, mas receberá toda a própria plenitude da graça, por participação, pois diz o divino Apóstolo que todos (isto é, aqueles que se salvam) alcançarão o homem perfeito, a medida da idade da plenitude de Cristo, no qual estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento; e uma vez que isto seja manifestado, o que é parcial será abolido.
Alguns buscam saber como será a condição daqueles que serão considerados dignos da perfeição no reino de Deus: implicará progresso e mudança, ou uma condição permanente? e como devemos pensar que serão as almas e os corpos? Alguém poderá conjeturar que, para a vida do corpo, dupla é a razão do nutrimento: por um lado é em vista do desenvolvimento, por outro para a conservação daqueles que se nutrem; de fato, enquanto não se tenha alcançado a maturidade do corpo, nós nos nutrimos em vista do desenvolvimento, mas quando o corpo cessa de crescer em dimensão, não nos nutrimos mais em vista do desenvolvimento, mas da conservação; do mesmo modo, também para a alma é dupla a razão do nutrimento; ela com efeito se nutre progredindo nas virtudes e nas contemplações enquanto, ultrapassadas todas as coisas, não chega à medida da idade da plenitude de Cristo: lá chegada, cessa todo progresso de crescimento e desenvolvimento mediado por realidades intermediárias e ela é diretamente nutrida de modo que ultrapassa a compreensão; por isso este tipo de alimento incorruptível está além do desenvolvimento e é destinado a conservar a perfeição deiforme dada à alma e a manifestar os esplendores infinitos daquele nutrimento, em força do qual a alma, recebendo assim o sempre ser-bem que toma nela morada, torna-se deus por participação da divina graça, depois que ela cessou de todas as operações do intelecto e da percepção sensível e fez cessar em si mesma todas as operações naturais do corpo, deificado juntamente com ela, segundo a participação na divindade a ele correspondente; deste modo, Deus só se manifesta através da alma e do corpo, uma vez removidas pelo excesso da glória todas as suas propriedades naturais.
Alguns estudiosos buscam saber de que modo se apresentará a diferença entre as eternas moradas e as coisas prometidas: se por uma diversa colocação ou pelo configurar-se diverso na qualidade e na quantidade de cada uma das moradas espirituais; alguns acolhem a primeira, outros a segunda opinião; mas quem conheceu a palavra: “O reino de Deus está dentro de vós” e “Muitas moradas junto do
Pai”, acolherá antes a segunda opinião.
Alguns buscam saber qual diferença haja entre o reino de Deus e o reino dos céus, se esta diferença seja na realidade ou na representação conceitual; a estes é preciso dizer que não diferem na realidade, mas na representação conceitual: “reino dos céus”, de fato, é a consecução do conhecimento puro, preexistente em Deus, dos seres conforme às suas razões próprias; “reino de Deus” é a participação por graça nos bens por natureza existentes junto de Deus; o primeiro se refere ao termo dos seres, o segundo exprime a ideia do que está além do termo dos seres.
A palavra: “Aproximou-se o reino dos céus”, não exprime, parece-me, o sentido de um encurtamento temporal; de fato, não vem de modo a poder ser observado, nem dirão: “Ei-lo aqui, ei-lo ali”, mas indica-se assim a relação com este próprio reino que está na íntima disposição daqueles que dele são dignos, pois está dito: “O reino de Deus está dentro de vós”.
O reino de Deus
Pai se encontra em potência junto de todos os crentes; em ato, se encontra naqueles que completamente depuseram da sua íntima disposição toda vida natural da alma e do corpo e estão em possesso da vida do espírito apenas e podem dizer: “Vivo, mas não mais eu: vive em mim Cristo”.
Alguns dizem que o reino dos céus é a vida nos céus daqueles que dele são dignos; outros ao invés dizem que é o estado daqueles que se salvam, semelhante ao dos
anjos; outros ainda dizem que é a própria forma da beleza divina daqueles que trouxeram a imagem do homem celeste; a meu parecer, todas as três opiniões a este respeito correspondem à verdade, pois a todos a graça futura é dada em correspondência à qualidade e quantidade da justiça que está neles.
Enquanto alguém passa com fortaleza através dos divinos combates da filosofia prática, retém junto de si o Verbo vindo da parte do
Pai no mundo mediante os mandamentos; mas quando, uma vez que se libertou das lutas contra as paixões próprias da via prática e se revelou vencedor das paixões e dos demônios, se volta à filosofia especulativa mediante a contemplação, permite ao Verbo deixar de novo o mundo e ir ao
Pai; por isso o Senhor diz aos discípulos: “Vós me amastes e crestes que eu saí de Deus: saí do
Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou ao
Pai”; chama provavelmente “mundo” a fadiga atividade das virtudes da prática; e “
Pai” aquele estado do intelecto que transcende o mundo e é livre de todo sentir material, em força do qual o Verbo de Deus está em nós e faz cessar a batalha contra as paixões e os demônios.
Quem mediante a prática conseguiu matar os membros que estão sobre a terra, e vencer mediante a palavra dos mandamentos o mundo das paixões que tinha em si, não terá já mais nenhuma aflição: porque já deixou o mundo e permanece em Cristo, que venceu o mundo das paixões e é outorgador de toda paz; quem de fato não abandonou o apego às coisas materiais terá sempre aflição, porque o seu sentimento mudará juntamente com as coisas que por natureza mudam; mas quem chegou a estar em Cristo não se aperceberá de nenhum modo desta mudança material; por isso o Senhor diz: “Disse-vos estas coisas para que em mim tenhais paz: no mundo tereis tribulação, mas tende coragem, eu venci o mundo”; isto é, em mim, Verbo da virtude, tendes paz, livres do turbilhão e do turbamento das paixões e das coisas materiais; mas no mundo (isto é, no apego às coisas materiais) tereis tribulação por motivo do seu alterno mudar-se; de fato, têm tribulação ambos: quem pratica a virtude (por causa da fadiga a ela conexa) e quem ama o mundo (pela natureza enganadora das coisas materiais); mas um tem uma tribulação salutífera, enquanto o outro tem uma tribulação ruínosa e funesta; de ambos o alívio é o Senhor, que faz cessar em si mesmo para um as fadigas das virtudes com a contemplação na impassibilidade, e que para o outro destrói a relação passional de apego às coisas corruptíveis mediante a penitência.
O motivo da condenação do Salvador, contido na inscrição da cruz, mostrou claramente como o Crucificado é rei e senhor da filosofia prática, natural e teológica; é dito com efeito que esta palavra estava escrita em latim, grego e hebraico; considero que com aquela em latim se deva entender a filosofia prática (porque segundo Daniel o reino dos Romanos era definido como o mais forte de todos os reinos da terra, e que outra coisa é própria da filosofia prática senão a fortaleza?); com aquela em grego entendo a filosofia natural (porque o povo grego se dedicou à filosofia natural mais do que todos os outros homens); com aquela em hebraico, entendo a iniciação teológica (porque é evidente como este povo, mediante os pais, foi desde as origens consagrado a Deus).
Não devemos constituir-nos matadores apenas das paixões do corpo, mas também destruidores dos pensamentos passionais da alma, como o santo que disse: “Cada manhã matava todos os pecadores da terra, para destruir da cidade do Senhor todos os operários de iniquidade”, isto é, as paixões do corpo e os pensamentos iníquos da alma.
Quem custodiu intacta a via das virtudes, sem se desviar nem de um lado nem do outro, com pia e reta conhecimento, experimentará (mediante a impassibilidade) a vinda de Deus nele; “Salmódia e compreenderei na via imaculada quando vieres a mim”: com “via imaculada” o
salmo entende a prática virtuosa; com “compreensão”, a capacidade cognitiva baseada na virtude, em força da qual se percebe a vinda de Deus; quem depois espera o seu Senhor na vigília das virtudes, é preciso que seja fiel e bom.
É preciso que quem é principiante na piedade não seja impulsionado só pela bondade à prática dos mandamentos, mas também é necessário que muitas vezes lute impulsionado pela severidade, ao recordação dos juízos divinos, assim que não ame só pelo desejo, mas também se abstenha do mal pelo temor; “Misericórdia e juízo a ti cantarei, Senhor”: cante assim a Deus no deleite do desejo, e dê vigor ao canto, temperado pelo temor.
Quem, mediante virtude e conhecimento, harmonizou o corpo com a alma, tornou-se cítara, flauta e templo de Deus: cítara (porque bem custodiu a harmonia das virtudes); flauta (porque, mediante as divinas contemplações, acolheu a inspiração do Espírito); templo (porque, com a pureza do intelecto, tornou-se morada do Verbo).