1ª CENTÚRIA SOBRE TEOLOGIA

Resumo dos parágrafos

  1. Deus é uno, sem princípio e incompreensível, possuindo inteira a potência do ser, escapando absolutamente às categorias de “quando” e “como”, sendo por isso inacessível a todos e não reconhecível por nenhum dos seres mediante representação natural.
  2. Deus não é em si mesmo como nos é possível conhecer, não sendo princípio, nem meio, nem fim, nem qualquer outra coisa naturalmente considerada junto a estas, pois é ilimitado, imóvel e infinito, estando infinitamente acima de toda essência, potência e operação.
  3. Toda essência, incluindo em si sua própria delimitação, é por natureza princípio do movimento que se considera ter em potência; todo movimento natural voltado à operação, concebido depois da essência mas antes da operação, é meio por situar-se naturalmente entre uma e outra; e toda operação, por razão própria naturalmente circunscrita, é fim do movimento essencial que logicamente a precede.
  4. Deus não é essência em nenhum sentido do termo, de modo a também ser princípio, nem potência, de modo a ser meio, nem ato, de modo a ser fim do movimento essencial antes concebido em sua potencialidade, mas é entidade que cria e transcende a essência, imobilidade que cria e transcende a potência, propriedade que realiza toda operação sem ter fim, em uma palavra, entidade criadora de toda essência, potência e operação, e de todo princípio, meio e fim.
  5. Princípio, meio e fim são determinações das coisas distintas no tempo, podendo dizer-se o mesmo das coisas compreendidas no século, pois o tempo, possuindo movimento mensurável, é definido pelo número, e o século, tendo incluída em seu conceito a categoria do “quando”, está sujeito a separação por ter tido um princípio de ser, de modo que, não sendo tempo e século sem princípio, menos ainda o são as realidades neles contidas.
  6. Só Deus é por natureza propriamente e sempre, compreendendo em si, de todos os modos, tudo o que propriamente é, estando acima também do que é propriamente; assim, nada do que em geral dizemos ser possui de algum modo o ser-propriamente, não devendo considerar-se presente em Deus desde a eternidade, quanto à essência, nada de diverso, nem o século, nem o tempo, nem nenhum dos seres que neles vivem, pois o ser-propriamente e o ser-não-propriamente de modo algum se conciliam.
  7. Todo princípio, meio e fim não exclui de modo absoluto a categoria de relação; Deus, porém, sendo absoluta e ilimitadamente infinito superior a toda relação, evidentemente não é princípio, nem meio, nem fim, nem qualquer outra coisa em que se possa considerar, segundo a relação, a categoria de rapport com algo.
  8. Todos os seres são chamados inteligíveis porque possuem os princípios demonstráveis das noções a eles relativas; Deus, porém, não é chamado inteligível, mas apenas se crê existente a partir dos inteligíveis, de modo que nenhum dos inteligíveis lhe é de algum modo comparável.
  9. As noções dos seres possuem por natureza, ligadas a si, suas próprias razões para sua demonstração, sendo por elas naturalmente definidas; quanto a Deus, só se pode crer que ele é por meio das razões que estão nos seres, dando ele aos fiéis, de modo mais seguro que toda demonstração, crer e confessar que propriamente é, sendo a fé verdadeiro conhecimento de princípios indemonstráveis, enquanto substância de realidades que ultrapassam o intelecto e a razão.
  10. Princípio, meio e fim dos seres é Deus enquanto operante, não enquanto passivo, valendo isso também para todos os outros nomes pelos quais o designamos: é princípio enquanto criador, meio enquanto provedor, fim enquanto delimitação, sendo dele, por ele e nele todas as coisas.
  11. Nenhuma alma racional é por essência mais nobre que outra alma racional, pois Deus, em sua bondade, criando cada alma à sua imagem, traz-lhe um movimento próprio, e cada uma, por determinação própria, escolhe a honra ou voluntariamente atrai sobre si a desonra por suas obras.
  12. Deus é o Sol da justiça, como está escrito, que indistintamente faz brilhar sobre todos os raios da própria bondade, mas, por vontade própria, a alma costuma tornar-se ou como cera, se ama a Deus, ou como lama, se ama a matéria; assim como a lama se endurece e a cera se molda ao sol, toda alma amante da matéria e do mundo, advertida por Deus e a ele resistindo como lama por vontade própria, endurece-se e leva-se à perdição, como o faraó, enquanto a que ama Deus se molda como cera e, recebendo as marcas e impressões das realidades divinas, torna-se morada de Deus no Espírito.
  13. Quem fez resplandecer o intelecto com pensamentos divinos, habituou a razão a celebrar incessantemente o Criador com hinos divinos e santificou a sensibilidade com imagens puras, acrescentou ao bem natural segundo a imagem o bem da vontade segundo a semelhança.
  14. Guarda a alma sem mácula diante de Deus quem obriga a mente a pensar somente em Deus e em suas virtudes, faz da razão recta interpretação e explicação dessas virtudes, e ensina a percepção sensível a representar piamente o mundo visível e tudo o que nele há, anunciando à alma a magnificência das razões que estão nas coisas.
  15. Libertando-nos da amarga escravidão dos demônios tirânicos, Deus nos deu como dom o jugo amoroso da piedade, a humildade, pela qual toda potência diabólica é domada e a quem a alcançou é criado e inviolavelmente guardado todo bem.
  16. Quem crê teme; quem teme se humilha; quem se humilha torna-se manso, adquirindo o hábito da inatividade dos movimentos contra a natureza da ira e da concupiscência; quem é manso observa os mandamentos; quem os observa se purifica; quem se purificou resplandece; e quem se tornou resplandecente é feito digno de unir-se ao Verbo Esposo no tálamo dos Mistérios.
  17. Assim como o agricultor que busca um campo adequado para transplantar uma árvore selvagem encontra inesperadamente um tesouro, também o asceta humilde e simples, de alma livre da rudeza da matéria, à semelhança do bem-aventurado Jacó, ao ser interrogado pelo pai sobre o modo de sua perícia, responde que é o que o Senhor Deus pôs diante dele, pois quando Deus concede sem esforço e inesperadamente contemplar sabiamente sua sabedoria, parece ter-se encontrado de súbito um tesouro espiritual, sendo o asceta provado um agricultor espiritual que transplanta, como árvore selvagem, a contemplação das coisas visíveis voltada à percepção sensível para a região das realidades inteligíveis, encontrando assim o tesouro da manifestação por graça da sabedoria que está nos seres.
  18. O conhecimento das divinas contemplações que cai de improviso sobre o asceta que, por humildade, não o esperava, abate o pensamento de quem o busca com esforço e fadiga para ostentá-lo e não o encontra, gerando no insensato injusta invidia pelo irmão, pensamentos homicidas contra ele, e tristeza por si mesmo, por não poder se vangloriar com elogios.
  19. Os que com esforço buscam o conhecimento e não o alcançam não o alcançam por falta de fé, ou porque, por ambição, pretendem insensatamente insurgir-se contra os que possuem o conhecimento, como antigamente o povo contra Moisés, sendo a respeito destes que a lei diz que alguns subiram ao monte com violência e o amorreu que o habita saiu e os feriu, pois é necessário que os que simulam virtude por ostentação não apenas caiam por falsificarem a piedade, mas também sejam atingidos pela própria consciência.
  20. Quem aspira ao conhecimento por ostentação e não o obtém não deve invejar o próximo nem entristecer-se, mas antes fazer a paraskevê do sábado em algum dos lugares vizinhos, conforme prescrito, isto é, esforçando-se primeiro com o corpo, na prática, para preparar a alma para o conhecimento.
  21. Os que se aproximam dos seres com piedade e rectidão, sem buscar a ostentação, encontrarão as contemplações dos seres ao seu encontro, percebidas com extrema clareza, sendo a respeito deles dito pela lei que, ao entrarem, herdarão cidades grandes e belas, casas plenas de bens que não construíram, cisternas que não escavaram e vinhas e oliveiras que não plantaram, pois quem não vive para si, mas para Deus, torna-se repleto de todos os carismas que até então não apareciam por causa do tumulto premente das paixões.
  22. Fala-se de dois modos de percepção sensível, uma habitual, que subsiste também quando dormimos sem perceber nada do que lhe é sujeito e cuja utilidade é nula por não estar voltada à operação, e outra atual, com a qual percebemos as coisas sensíveis; assim também o conhecimento é duplo, um meramente científico, que por hábito apenas capta as razões dos seres sem utilidade por não estar voltado à execução dos mandamentos, e outro que opera atualmente, ao qual se atribui a verdadeira compreensão dos seres por experiência.
  23. O hipócrita, enquanto crê permanecer oculto, fica tranquilo e persegue a gloria fazendo-se crer justo, mas, ao ser descoberto, pronuncia palavras de morte, julgando esconder sua vergonha ao insultar os outros, sendo por isso comparado pela Escritura, como camaleão, à raça das víboras, e a ele se ordena dar frutos dignos da conversão, isto é, tornar a disposição oculta do coração conforme ao comportamento exterior.
  24. Dizem alguns ser fera todo animal do ar, da terra ou do mar não considerado puro segundo a lei, ainda que pareça de índole tranquila, e a Escritura designa pelo nome desses animais cada homem segundo sua paixão particular.
  25. Quem finge amizade em prejuízo do próximo é um lobo que oculta sua malícia sob pele de ovelha, e, ao encontrar costumes simples ou uma palavra segundo Cristo, coisas feitas ou ditas com inocência, devasta e destrói, lançando críticas sem conta sobre aqueles a quem ataca por palavras ou costumes, como quem espreita a liberdade dos irmãos em Cristo.
  26. Quem finge silêncio por malícia trama engano ao próximo, e, se falha em seu intento, vai-se acrescentando dor à própria paixão; quem, porém, cala por amor ao bem, aumenta a amizade e se vai alegre como quem obteve a iluminação que dissipa as trevas.
  27. Quem numa assembleia interrompe sem motivo a escuta dos discursos não consegue ocultar que está enfermo de vaidade, pois, dominado por ela, gira e regira inúmeras propostas com a intenção de interromper o curso do discurso.
  28. O sábio, tanto ao ensinar como ao aprender, quer ensinar e aprender apenas o que é útil; já o sábio apenas em aparência, ao interrogar ou ser interrogado, exprime apenas coisas ociosas.
  29. Quem recebe bens por graça de Deus deve repartilhá-los generosamente com os outros, conforme está dito “de graça recebestes, de graça dai”, pois quem oculta o dom acusa o Senhor de dureza e poupa a carne renegando a virtude, e quem vende a verdade aos inimigos, reconhecido como vaidoso, acaba se enforcando por não suportar a vergonha.
  30. Os que ainda temem a luta contra as paixões e o ataque dos inimigos invisíveis devem calar-se, isto é, não usar o método da contradição em defesa da virtude, mas confiar a Deus o cuidado de si pela oração, conforme se diz no Êxodo “o Senhor combaterá por vós e vós vos calareis”; já os que, destruídos seus perseguidores, buscam comportamentos virtuosos devem ter apenas o ouvido da mente aberto, conforme “escuta, Israel”; e a quem, pela purificação, aspira fortemente ao conhecimento divino convém a piedosa franqueza de palavra, conforme “por que clamas a mim?”, sendo assim útil a quem é ordenado o silêncio refugiar-se em Deus, a quem é mandado escutar a prontidão na obediência aos mandamentos, e a quem tem o conhecimento clamar incessantemente em súplica para afastar os males e agradecer pelos bens.
  31. Jamais a alma pode tender ao conhecimento de Deus se o próprio Deus, por condescendência, não a toma e atrai a si, pois o intelecto humano não teria força para alcançar nenhum vislumbre divino se Deus mesmo não o atraísse, na medida em que isso é possível a um intelecto humano, e o iluminasse com raios divinos.
  32. Quem imita os discípulos do Senhor não se recusa, por causa dos fariseus, a caminhar em dia de sábado pelos campos semeados e colher espigas, mas, alcançada a impassibilidade ao termo da prática, recolhe as razões das criaturas, nutrindo-se piamente da divina ciência dos seres.
  33. Quem é apenas crente segundo o evangelho move o monte de sua própria malícia pela prática, rejeitando, devido à instável volubilidade do que cai sob a percepção sensível, sua antiga disposição quanto a essas coisas; quem pode ser discípulo, recebendo das mãos do Verbo os pedaços dos pães do conhecimento, alimenta milhares de homens, mostrando pela prática a potência sobreabundante do Verbo; e quem chegou a ser apóstolo cura toda enfermidade e doença, expulsando os demônios, isto é, banindo a operação das paixões, sanando os doentes, reconduzindo pela esperança ao hábito da vida piedosa os que dela foram privados, e repreendendo com a palavra do juízo os que se debilitaram por sua indolência, pois, tendo recebido a ordem de pisar serpentes e escorpiões, aniquila princípio e fim do pecado.
  34. O apóstolo é também totalmente discípulo e crente, mas o discípulo não é totalmente apóstolo, embora seja totalmente crente, e quem é apenas crente não é nem discípulo nem apóstolo, podendo porém o terceiro, pela conduta e contemplação, passar à dignidade do segundo, e o segundo à do primeiro.
  35. Todas as coisas criadas no tempo segundo o tempo, ao alcançarem a perfeição, detêm-se e cessam de crescer segundo a natureza, mas todas as coisas produzidas segundo a virtude pela ciência de Deus, ao alcançarem a perfeição, movem-se para o crescimento, pois suas perfeições constituem princípios de outras, de modo que quem, pelas virtudes da prática, faz cessar em si a substância das coisas corruptíveis, com isso dá início a formações mais divinas; e, assim como Deus jamais cessa de fazer o bem nem teve início em fazê-lo, pois é próprio da luz iluminar como é próprio de Deus fazer o bem, pela lei, que regula a estrutura das coisas sujeitas a nascimento e corrupção segundo o tempo, o sábado é honrado com o repouso, enquanto pelo evangelho, que introduz a condição das coisas inteligíveis, o sábado recebe decoro pela realização de boas obras, ainda que com isso se indignem os que ainda não sabem que o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado, e que o Filho do homem é Senhor também do sábado.
  36. Para a lei e os profetas há o sábado, os sábados e os sábados dos sábados, assim como circuncisão e circuncisão da circuncisão, ceifa e ceifa da ceifa, conforme o dito “quando ceifardes a vossa messe”, indicando a primeira expressão o termo da filosofia prática, natural e teológica, a segunda a libertação do devir e das razões a ele inerentes, e a terceira a introdução e posse dos princípios mais espirituais relativos à percepção sensível e ao intelecto, tudo isso ocorrendo de modo triplo, para que quem possui o conhecimento saiba por que Moisés observa o sábado morrendo fora da terra santa, Josué filho de Num circuncida depois de atravessar o Jordão, e os que herdam a boa terra oferecem a Deus o tributo da ceifa dupla e sobreabundante.
  37. O sábado é a impassibilidade da alma racional que, conforme a prática, removeu completamente os vestígios do pecado.
  38. Os sábados são a liberdade da alma racional que, pela contemplação natural em Espírito, depôs a própria operação segundo a natureza voltada à percepção sensível.
  39. Os sábados dos sábados são a quietude espiritual da alma racional que retirou o intelecto de todas as mais divinas razões que estão nos seres e o ligou inteiramente só a Deus pelo êxtase do eros, tornando-o totalmente imóvel diante de Deus pela teologia mística.
  40. A circuncisão é o abandono da disposição passional da alma quanto à produção das coisas.
  41. A circuncisão da circuncisão é a completa remoção e eliminação dos próprios movimentos naturais da alma quanto à produção das coisas.
  42. A ceifa é a colheita e o conhecimento científico, pela alma racional, das razões mais espirituais dos seres, segundo virtude e natureza.
  43. A ceifa da ceifa é a compreensão de Deus, inacessível a todos, que subsiste no intelecto de modo incognoscível após a contemplação mística dos inteligíveis, sendo oferecida do modo devido por quem honra dignamente o Criador a partir das criaturas visíveis e invisíveis.
  44. Há outra ceifa mais espiritual, dita ser do próprio Deus, e outra circuncisão mais mística e outro sábado mais secreto, no qual Deus, sabatizando das próprias obras, repousa, conforme “a messe é grande mas os trabalhadores são poucos”, “circuncisão do coração em espírito”, e “Deus bendisse o sétimo dia e o santificou, porque nele cessou de todas as suas obras que tinha começado a fazer”.
  45. A ceifa de Deus é a total morada e permanência nele daquele que dela é digno, realizada depois do término dos séculos.
  46. A circuncisão do coração em espírito é a total eliminação das operações naturais da percepção sensível e do intelecto em relação às coisas sensíveis e inteligíveis, operada pela presença do Espírito que, sem intermediários, transforma completamente corpo e alma no que é mais divino.
  47. O repouso sabático de Deus é o encontro total das coisas criadas com ele, em razão do qual Deus faz cessar, quanto à operação natural delas, sua própria operação divina que nelas ineffavelmente opera, cessando da operação natural exercida em cada ser, pela qual cada um é naturalmente movido, quando cada um, recebendo de modo a si proporcionado a operação divina, estabelece em torno do próprio Deus sua operação segundo a natureza.
  48. Quem tem zelo deve buscar quais obras convém pensar que Deus começou a criar e quais não começou, pois, se cessou das que começou, evidentemente não cessou das que não começou, sendo talvez as obras de Deus que começaram a existir no tempo todos os seres que delas participam, como as diversas substâncias dos seres cujo não-ser precede o ser, havendo um tempo em que esses seres participantes não existiam, e sendo talvez as obras de Deus que não começaram no tempo os entes participáveis dos quais por graça participam os seres participantes, como a bondade e tudo o que se compreende no conceito de bondade, ou seja, toda vida, imortalidade, simplicidade, imutabilidade, infinitude e tudo o que se considera segundo a essência em torno de Deus, coisas que são obras de Deus e não começaram no tempo, pois o não-ser nunca precedeu a virtude nem qualquer das coisas ditas, mesmo que os diversos seres que delas participam tenham tido princípio de ser no tempo, sendo toda virtude sem princípio, não tendo tempo que a preceda, pois só Deus eternamente gera o seu ser.
  49. Deus transcende infinitas vezes infinitamente todos os entes participantes e participáveis, pois tudo o que possui uma razão categorial de ser é obra de Deus, ainda que uma coisa, em sua origem, tenha começado a existir no tempo por origem, enquanto outra foi posta entre as criaturas por graça, como potência inata que proclama Deus presente em todas as coisas.
  50. Todas as coisas imortais e a própria imortalidade, todos os seres vivos e a própria vida, todas as coisas santas e a própria santidade, todas as coisas virtuosas e a própria virtude, todas as coisas boas e a própria bondade, todas as coisas que são e o próprio ser, são manifestamente obras de Deus, tendo algumas começado no tempo, pois houve um tempo em que não existiam, enquanto outras não tiveram início temporal algum, pois nunca houve tempo em que não existissem virtude, bondade, santidade, imortalidade, sendo as coisas que começaram no tempo o que são e se definem pela participação naquelas que não começaram no tempo, já que de toda vida, imortalidade, santidade e virtude Deus é criador, por transcender a essência de tudo o que se pensa ou diz.
  51. O sexto dia, segundo a Escritura, apresenta o cumprimento dos seres compreendidos na natureza; o sétimo circunscreve o movimento da propriedade do tempo; o oitavo manifesta o modo de ser daquilo que transcende a natureza e o tempo.
  52. Quem percorre apenas o sexto dia segundo a lei, fugindo do domínio das paixões que opressivamente agem na alma, passa sem temor pelo deserto através do mar, sabatizando somente na inatividade das paixões, mas quem atravessou o Jordão e abandonou também o estado meramente inativo das paixões alcançou a herança das virtudes.
  53. Quem percorre o sexto dia segundo o evangelho, tendo desde o início matado os primeiros movimentos do pecado, alcança pelas virtudes o estado de impassibilidade, lugar deserto de toda malícia, e sabatiza segundo o intelecto, permanecendo livre também da simples representação das paixões, enquanto quem atravessou o Jordão transfere-se para a região do conhecimento, pela qual o intelecto, como templo misticamente construído pela paz, torna-se morada de Deus no espírito.
  54. Quem, por sua parte, percorreu o sexto dia de modo divino, com obras e reflexões convenientes e realizou bem suas obras com Deus, superou pela cognição toda existência sujeita à natureza e ao tempo e transferiu-se para a mística contemplação da eternidade e das realidades eternas, sabatizando de modo incognoscível segundo o intelecto pelo total distanciamento e superação dos seres; e quem foi feito digno também do oitavo dia ressuscitou dos mortos, isto é, de todos os conceitos e palavras sensíveis e inteligíveis posteriores a Deus, e começou a viver a bem-aventurada vida de Deus, o único que com verdade é propriamente dito e é vida, tendo também ele se tornado Deus pela deificação.
  55. O sexto dia é o cumprimento perfeito, por parte de quem se ocupa da prática, das operações naturais relativas à virtude; o sétimo é o término e cessação, por parte de quem se ocupa da contemplação, de todas as reflexões naturais acerca do conhecimento inefável; o oitavo é a passagem e transferência à deificação dos que dela são dignos, sendo talvez para mostrar de modo particularmente místico esse sétimo e oitavo dia que o Senhor os chamou dia e hora da consumação, como o que inclui os mistérios e razões de todas as coisas, os quais nenhuma das potências celestes ou terrestres poderá jamais conhecer antes de experimentar a paixão, exceto a própria bem-aventurada Divindade que fez essas coisas.
  56. O sexto dia manifesta a razão de ser dos seres; o sétimo indica o modo do ser-bem dos seres; o oitavo mostra o inefável mistério do sempre ser-bem dos seres.
  57. Sabendo que o sexto dia é símbolo da operação prática, deve-se nele satisfazer toda a dívida das obras da virtude, para que também a nosso respeito se diga “e Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom.”
  58. Satisfaz à dívida da atividade boa que louva a Deus quem, com a fadiga do corpo, procura para a alma a ordenada variedade das virtudes.
  59. Quem cumpriu a paraskevê das obras da justiça passou ao repouso da contemplação cognitiva, pela qual, compreendidas de modo digno de Deus as razões dos seres, repousa do movimento intelectual dessa contemplação.
  60. Quem, por nosso intermédio, participou do repouso de Deus no sétimo dia, participará também por nosso intermédio da operação que Deus realiza, segundo a deificação, no oitavo dia, isto é, do repouso místico, levantando-se desse repouso e deixando jacentes no sepulcro as faixas e o lenço que estavam sobre a cabeça, ao ver os quais alguém, como Pedro e João, crê que o Senhor ressuscitou.
  61. O sepulcro do Senhor talvez seja este mundo, ou o coração de cada crente; as faixas são as razões das coisas sensíveis junto com os modos da virtude; o lenço é o conhecimento simples e invariável das coisas inteligíveis, junto com a teologia recebida, pelo qual antes se conhecia o Verbo, que possui compreensão que ultrapassa essas coisas, de todo inacessível a nós sem tal conhecimento e teologia.
  62. Os que sepultam com honra o Senhor também o verão ressuscitar em gloria, sendo ele invisível a todos os que não são como eles, pois não pode mais ser apreendido pelos que lhe armam ciladas, já que não tem os revestimentos exteriores com que parecia querer deixar-se prender por aqueles que, querendo-o, ele aceitou padecer pela salvação de todos.
  63. Quem sepulta com honra o Senhor inspira respeito a todos os que amam a Deus, tendo-o convenientemente subtraído à derrisão triunfante e ao ultraje, não deixando aos incrédulos motivo de blasfêmia em sua afixação ao lenho, sendo dignos de ódio os que selaram o sepulcro e ali puseram soldados, caluniando o Verbo ressuscitado como roubado, comprando com dinheiro tanto o falso discípulo — o modo ostentado de virtude — quanto os soldados, para a calúnia contra o Salvador ressuscitado, sabendo quem tem conhecimento o sentido disso, isto é, como e quantas vezes o Senhor é crucificado, sepultado e ressuscita, fazendo morrer os pensamentos passionais que se ocultam junto ao coração por causa dos demônios e, nas tentações, dividem como vestes os comportamentos moralmente dignos, e como ele supera, como selos, as marcas dos pecados na disposição passional da alma.
  64. Quem ama o dinheiro e simula virtude por cálculo, ao encontrar como obter o objeto de seu desejo, renega o comportamento pelo qual antes era tido como discípulo do Verbo.
  65. Ao ver certos soberbos que não suportam os elogios feitos aos melhores e tramam para que não se publique a verdade dita sobre eles, contradizendo-a com inúmeras tentações e calúnias ímpias, deve-se pensar que o Senhor é por eles novamente crucificado e sepultado, guardado por soldados e selos; mas o Verbo, fazendo-os recair sobre si mesmos, ressuscita, resplandecendo ainda mais por ter sido combatido, como que fortalecido em sua impassibilidade pelos sofrimentos, sendo mais forte que todos por ser e ser chamado verdade.
  66. O mistério da encarnação do Verbo contém o sentido de todos os enigmas e figuras da Escritura e a ciência das criaturas visíveis e inteligíveis, e quem conheceu o mistério da cruz e do sepulcro conheceu as razões dessas coisas, enquanto quem foi iniciado na potência arcana da ressurreição conheceu o propósito pelo qual Deus, no princípio, fez subsistir todas as coisas.
  67. Todas as coisas visíveis necessitam da cruz, isto é, do estado que obstrui a relação estabelecida com elas por aquilo que age sobre elas de modo sensível, e todas as coisas inteligíveis necessitam do sepultamento, da total imobilidade daquilo que nelas opera segundo o intelecto, pois, eliminada, junto com a relação, a operação e o movimento naturais em torno de cada coisa, o Verbo, que só existe em si mesmo, aparece como ressuscitado dos mortos, possuindo em sua definição todas as coisas que dele derivam, sem que nenhuma tenha qualquer afinidade natural com ele por relação, pois a salvação dos que são salvos é segundo a graça e não segundo a natureza.
  68. Os séculos, os tempos e os lugares são realidades relativas a outras, e sem eles nada existe do que com eles se pensa, mas Deus não pertence às realidades relativas a outras, não tendo absolutamente nada que se pense junto com ele; assim, se a herança dos que dela são dignos é o próprio Deus, quem é feito digno dessa graça estará acima de todos os séculos, tempos e lugares, tendo a Deus mesmo por lugar, conforme está escrito “sê para mim um Deus defensor e um lugar fortificado para me salvar.”
  69. O fim não tem absolutamente nada semelhante ao meio, do contrário não seria fim; meio é tudo o que existe depois do princípio e tem depois de si o fim; se, pois, todos os séculos, tempos e lugares, junto com tudo o que com eles se pensa, estão depois de Deus — que é princípio sem princípio — e dele distam infinitamente como de um fim infinito, em nada diferem do meio, mas o fim dos que são salvos é Deus, e não se deverá considerar meio algum em relação aos salvos, tornados semelhantes ao fim último.
  70. O mundo todo é determinado por suas próprias razões e é dito lugar e século dos que nele vivem, possuindo lugares de contemplação a ele naturalmente ligados, capazes de gerar nos que ali vivem uma compreensão parcial da sabedoria de Deus sobre todas as coisas; enquanto se servem destes para a compreensão, não podem estar sem meio nem sem inteligência parcial, mas, como o parcial se abole quando se manifesta o perfeito, e todos os espelhos e enigmas desaparecem quando sobrevém a verdade face a face, quem é salvo, tornado perfeito segundo Deus, estará acima dos mundos, dos séculos e dos lugares pelos quais até então era educado como uma criança.
  71. Pilatos é figura da lei natural; a multidão dos judeus, da lei escrita; quem, segundo a fé, não supera essas duas leis não pode receber a verdade que supera a natureza e a lei, crucificando de fato o Verbo, seja considerando o evangelho escândalo, como os judeus, seja loucura, como os gregos.
  72. Quando se vê Herodes e Pilatos fazendo amizade entre si para matar Jesus, deve-se pensar no acordo, com o mesmo fim, entre o demônio da fornicação e o da vaidade, que conspiram juntos para matar a razão da virtude e do conhecimento, pois o vaidoso, fingindo conhecimento espiritual, remete ao demônio da fornicação, e o da fornicação, fingindo hipocritamente pureza, remete ao da vaidade, sendo por isso dito que, “vestindo-o de uma roupa esplêndida, Herodes remeteu Jesus a Pilatos.”
  73. É bom não ser condescendente com a carne nem entregar o intelecto às paixões, pois está dito que não se colhem figos dos espinhos — isto é, virtude das paixões — nem uvas do espinheiro — isto é, o grande conhecimento, da carne.
  74. O asceta, provado pela sustentação das tentações, purificado pela disciplina do corpo, aperfeiçoado pelo cuidado das mais altas contemplações, é feito digno da divina consolação, dizendo Moisés que “o Senhor vem do Sinai” — isto é, das tentações —, “apareceu-nos do Seir” — isto é, das fadigas do corpo — e “apressou-se do monte Farã com as miríades de Cades” — isto é, do monte da fé com miríades de santos conhecimentos.
  75. Herodes representa a razão do sentir carnal; Pilatos, a da percepção sensível; Cesar, a das coisas sensíveis; os judeus, a dos pensamentos psíquicos, de modo que, quando por ignorância a alma adere às coisas sensíveis, entrega à percepção sensível o Verbo para ser morto, ratificando por sua adesão o reino das coisas corruptíveis, pois dizem os judeus “não temos outro rei senão Cesar.”
  76. Herodes representa a operação das paixões; Pilatos, o estado de desvio por elas produzido; Cesar, o tenebroso dominador do mundo; os judeus, a alma, de modo que, quando a alma, sucumbindo às paixões, entrega a virtude como súdita ao hábito da malícia, renega manifestamente o reino de Deus e passa à tirania destruidora do diabo.
  77. Não basta à alma, para a alegria espiritual, a submissão das paixões, se não adquirir também as virtudes pelo cumprimento dos mandamentos, pois está escrito “não vos alegreis porque os demônios vos estão submissos” — isto é, as atividades das paixões — “mas porque vossos nomes foram escritos no céu”, isto é, inscritos no lugar da impassibilidade, pela graça da filiação mediante as virtudes.
  78. É absolutamente indispensável a quem possui o conhecimento a riqueza das virtudes pela prática, pois está dito que quem tem bolsa — o conhecimento espiritual — a tome, e também alforje — a abundância das virtudes que nutre copiosamente a alma —, e quem não tem nem bolsa nem alforje — nem conhecimento nem virtude — venda seu manto e compre uma espada, isto é, entregue corajosamente a própria carne aos trabalhos das virtudes e, pela paz de Deus, ponha sabiamente a mão na guerra contra as paixões e os demônios, ou seja, naquele hábito que discerne, pela palavra de Deus, entre o mal e o bem.
  79. O Senhor se manifesta com trinta anos, ensinando secretamente com esse número, a quem souber discernir, os mistérios que lhe dizem respeito, pois o número trinta representa misticamente o Senhor como criador e provedor do tempo, da natureza e dos seres inteligíveis que ultrapassam a natureza visível: do tempo pelo sete, pois o tempo é setenário; da natureza pelo cinco, pois a natureza é quinária devido à percepção sensível dividida em cinco partes; dos inteligíveis pelo oito, pois a origem dos seres inteligíveis está acima do período medido do tempo; e Deus revela-se provedor pelo dez, pela santa década dos mandamentos que conduz os homens ao bem e porque o Senhor, ao tornar-se homem, ofereceu misticamente como primícia a denominação desse número, somando-se cinco, sete, oito e dez para obter trinta; assim, quem souber bem seguir o Senhor como guia não ignorará por que também ele se manifestará com trinta anos, capaz de anunciar o evangelho do reino, quando, sem desviar o percurso de sua alma — que avança através dos contrários como um arco de tempo —, criar irrepreensivelmente, como uma natureza visível, o mundo das virtudes segundo a via ativa, e quando, pela contemplação, alcançar com segurança o conhecimento e puder providencialmente infundi-lo também nos outros, tendo então, como se corporalmente tivesse essa idade, trinta anos quanto ao espírito, manifestando ao mesmo tempo nos outros a operação dos bens que lhe são próprios.
  80. Quem está relaxado pelos prazeres do corpo não é operante quanto à virtude nem bem disposto quanto ao conhecimento, e por isso não tem um homem — um pensamento sensato — que o lance na piscina quando a água é agitada, isto é, na virtude capaz de receber o conhecimento e curar toda doença, a menos que o doente, por descuido, não seja precedido por outro que lhe impeça a chegada da cura, e por isso permanece trinta e oito anos enfermo, pois quem não contempla a criação visível para a gloria de Deus nem eleva piedosamente o pensamento à natureza inteligível permanece justamente doente por esse número de anos, já que o número trinta, tomado naturalmente, indica a natureza sensível, e, visto segundo a prática, a virtude prática, enquanto o número oito, considerado misticamente, revela a natureza inteligível dos seres incorpóreos, e, contemplado segundo a ciência, a sapientíssima teologia, permanecendo enfermo quem por elas não é movido a Deus, até que chegue o Verbo e lhe ensine o modo de curar-se rapidamente, dizendo “levanta-te, toma o teu leito e anda”, ordenando-lhe erguer o intelecto do amor ao prazer que o domina, tomar o corpo sobre os ombros das virtudes e ir para casa, isto é, para o céu, sendo bom que o que é pior seja levado à virtude pelo que é melhor, sobre os ombros da via ativa, em vez de o melhor ser levado pelo pior ao amor ao prazer pela moleza.
  81. Enquanto, com a mente, não tivermos saído puramente de nossa essência e da de todos os seres posteriores a Deus, não teremos alcançado o hábito da imutabilidade segundo a virtude, mas, quando, pelo amor, chegarmos a essa dignidade, conheceremos o sentido da promessa divina, devendo crer-se que os dignos têm sua morada inamovível onde antes o intelecto, pelo amor, radicou sua potência, pois quem não saiu de si mesmo e de todos os seres que de algum modo podem ser pensados, e não se estabeleceu no silêncio que ultrapassa o pensamento, não pode estar totalmente livre da mudança.
  82. Toda intelecção manifesta multiplicidade ou ao menos dualidade, pois está entre dois extremos que une um ao outro, o pensante e o pensado, nenhum dos quais pode ser totalmente simples — o pensante sendo uma realidade dotada da faculdade de pensar, e o pensado uma realidade capaz de ser pensada ou que tem em si previamente a essência daquilo de que é potência —, pois nenhum dos seres é por si essência ou intelecção simples a ponto de ser unidade indivisível; quanto a Deus, porém, se o dizemos essência, ele não tem por natureza ligada a si a potência de ser pensado, senão seria composto, e se o dizemos intelecção, não tem por natureza a essência como sujeito da intelecção, mas Deus mesmo é por essência intelecção, todo e somente intelecção, e ele mesmo, segundo a intelecção, é essência, toda e somente essência, e tudo além da essência, sendo por isso também unidade indivisível, sem partes, simples; assim, quem tem tal intelecção ainda não saiu da dualidade, mas quem a abandonou totalmente alcançou de algum modo a unidade, por ter ao máximo deposto a potência de pensar.
  83. Nos muitos há alteridade, desigualdade e diferença; em Deus, porém, que é propriamente uno e só, há apenas identidade, simplicidade e igualdade, não sendo, pois, sem perigo dedicar-se às contemplações acerca de Deus antes de sair da multidão, como mostra Moisés ao plantar a tenda da mente fora do acampamento para então conversar com Deus, pois tentar manifestar em palavras o que é inefável é perigoso, já que o discurso expresso é dualidade e mesmo multiplicidade, sendo coisa muito mais sólida contemplar o que é apenas com a alma, sem voz, porque isso se funda na unidade indivisa e não nos muitos; e o sumo sacerdote, que tem ordem de entrar uma vez por ano no Santo dos Santos além do velo, ensina como apenas quem ultrapassou o átrio, o Santo, e chegou ao Santo dos Santos — isto é, quem superou toda a natureza das coisas sensíveis e inteligíveis e se tornou puro de toda propriedade relativa à origem — pode aproximar-se com a mente despida e nua das representações relativas a Deus.
  84. O grande Moisés fixou sua tenda fora do acampamento, isto é, fixou a vontade e a mente fora das coisas visíveis, e assim começa a adorar a Deus, e, entrando na trevas, isto é, no lugar invisível e imaterial do conhecimento, ali celebra os sacrossantos ritos.
  85. A trevas é o estado invisível, imaterial e incorpóreo que possui o conhecimento revelador dos seres; quem, como outro Moisés, nela entrou, embora tenha por natureza corpo mortal, contempla as coisas imortais, e, tendo gravado em si por esse conhecimento a beleza das divinas virtudes, como uma pintura que possui perfeitamente imitada a imagem da beleza original, desce e se aproxima dos que querem imitar essa virtude, mostrando também por isso quão benéfica e generosa é a graça à qual comungou.
  86. Quem segue sem mácula a filosofia segundo Deus tira grandíssimo proveito da ciência conforme a ela, pois não mais transforma sua vontade junto com as coisas, mas, com firmeza sólida, põe prontamente a mão em tudo o que está em harmonia com a razão da virtude.
  87. Batizados em Cristo pelo Espírito para a primeira incorruptibilidade segundo a carne, aguardamos a última segundo ele mesmo, no Espírito, pela aplicação às boas obras e depois de ter guardado incontaminada a primeira da morte voluntária, em virtude da qual nenhum dos que a possuem pode temer a perda dos bens adquiridos.
  88. Deus, querendo por misericórdia para conosco fazer descer do céu para os que estão na terra a graça da divina virtude, preparou simbolicamente a sagrada tenda e tudo o que nela há, que é imagem, figura e imitação da sabedoria.
  89. A graça do Novo Testamento está misticamente oculta na letra do Antigo, por isso o Apóstolo diz que a lei é espiritual; a lei, pois, torna-se antiquada e envelhece quanto à letra, mas quanto ao espírito é jovem e continuamente operante, pois a graça não pode de modo algum envelhecer.
  90. A lei contém a sombra do evangelho; o evangelho é imagem dos bens futuros, proibindo aquela as obras más e propondo este as ações boas.
  91. Diz-se que toda a sagrada Escritura se divide em carne e espírito, como se fosse um homem espiritual, não errando contra a verdade quem diz que o que a Escritura afirma é carne, e seu significado é espírito, isto é, alma, sendo manifestamente sábio quem, deixando o corruptível, tornou-se inteiramente partícipe do incorruptível.
  92. A lei é a carne do homem que, segundo a sagrada Escritura, é espiritual; percepção sensível são os profetas; o evangelho é a alma inteligente, que opera por meio da carne da lei e da percepção sensível dos profetas e mostra sua própria potência por suas operações.
  93. A lei possuía a sombra, e os profetas a imagem dos bens divinos e espirituais que estão no evangelho, e o evangelho, por sua vez, mostrou-nos na realidade a própria verdade já presente a nós, aquela que era prefigurada pela lei e pelos profetas.
  94. Quem com sua conduta de vida cumpre a lei torna inoperantes apenas as realizações do mal, imolando a Deus a operação das paixões irracionais, tendo assim o suficiente para sua salvação devido à infância espiritual em que se encontra.
  95. Quem é educado pela palavra profética, além da operação das paixões, depõe também toda forma de consentimento a elas presente em sua alma, para que, crendo estar livre do mal quanto à parte inferior — a carne —, não o cometa abundantemente, sem perceber, pela parte superior — a alma.
  96. Quem abraçou sinceramente a vida evangélica cortou de si o princípio e o fim do mal e persegue toda virtude com a obra e a palavra, oferecendo um sacrifício de louvor e confissão, livre de toda perturbação das paixões em ato e da luta do intelecto contra elas, tendo como único e inesgotável deleite a esperança dos bens futuros que nutre sua alma.
  97. Aos que se ocupam com mais zelo das sagradas Escrituras, a palavra do Senhor aparece de modo duplo: uma comum e mais divulgada, visível a muitos, conforme “o vimos e não tinha aparência nem beleza”, e outra mais secreta e acessível a poucos — aos que já se tornaram semelhantes a Pedro e João, diante de quem o Senhor se transfigurou em gloria que supera a percepção sensível, conforme “resplandecente de beleza mais que os filhos dos homens” — sendo a primeira própria dos principiantes e a segunda dos que se tornaram, na medida do possível, perfeitos no conhecimento, referindo-se a primeira, imagem da primeira vinda do Senhor, ao que purifica pelos sofrimentos quem se dedica à prática, e a segunda, prefiguração da segunda vinda gloriosa, ao que transfigura pela sabedoria, deificando, os que têm o conhecimento, dizendo-se a respeito disso “Espírito”, de modo que quem assim é, pela transfiguração do Verbo em si, reflete como em espelho, a rosto descoberto, a gloria do Senhor.
  98. Quem é solidamente constante nas dificuldades pela virtude possui operante em si a primeira vinda do Verbo que o purifica de toda mácula; quem, pela contemplação, transferiu o intelecto ao estado angélico possui a potência da segunda vinda que opera nele a impassibilidade e a invencibilidade.
  99. A percepção sensível segue quem se dedica à prática, que realiza as virtudes com seus próprios esforços, enquanto a libertação da percepção sensível segue quem se dedica ao conhecimento e voltou o intelecto a Deus, afastando-o da carne e do mundo, pois quem luta na prática para libertar a alma do vínculo natural de sua relação com a carne tem a vontade continuamente oprimida pelos esforços, enquanto quem, pela contemplação, eliminou os pregos dessa relação não é mais retido por nada, tornado puro do padecer e livre de poder ser capturado por quem quisesse fazê-lo.
  100. O maná dado a Israel no deserto é o Verbo de Deus, que basta a todo deleite espiritual dos que o comem, assumindo todo sabor segundo o desejo diverso de cada um, possuindo a qualidade de todo alimento espiritual, de modo que para quem foi gerado do alto pelo Espírito, de semente incorruptível, torna-se puro leite racional, para quem é débil torna-se hortaliças que reconfortam a potência passível da alma, e para quem, pelo hábito, tem os sentidos da alma exercitados no discernimento do bem e do mal, dá alimento sólido, possuindo o Verbo de Deus infinitas outras potências que aqui não poderiam ser contidas, mas se alguém, uma vez livre desta vida, for feito digno de ser posto à frente de muitas ou de todas as coisas, alcançará todas ou algumas das potências do Verbo, por ter sido fiel aqui no pouco, sendo toda a soma dos divinos carismas dados aqui pequena e limitada em comparação com os futuros.