Isaac o sírio, Tratados Místicos
XLIV SOBRE QUANTOS GRAUS O CONHECIMENTO POSSUI E SOBRE OS GRAUS DA FÉ
Existe um conhecimento que é anterior à fé e existe um conhecimento que nasce da fé. O conhecimento anterior à fé é o conhecimento natural; aquele que nasce da fé é o conhecimento espiritual.
O que é o conhecimento natural? É o conhecimento que distingue o bem do mal e que também é chamado de distinção natural. Deus implantou na natureza racional a capacidade de distinguir o bem do mal, naturalmente, sem instrução; contudo, esse conhecimento se amplia por meio da instrução. Não há ninguém em quem esse [conhecimento] não esteja ativo; e essa é a força do conhecimento da alma racional por natureza, ou seja, a distinção entre o bem e o mal se manifesta nela naturalmente, sem cessar; aqueles que apresentam deficiência nesse aspecto estão abaixo do nível da razão. Aqueles em quem isso se encontra mantêm-se eretos na natureza psíquica, e n’eles não foi destruído aquilo que Deus concedeu à natureza psíquica, para honra de Sua razão.
Aqueles que destruíram esse conhecimento que distingue entre o bem e o mal são desprezados pelo profeta: o homem não tem discernimento quanto à sua própria honra. A honra da natureza racional é a faculdade de distinguir entre o bem e o mal. Com razão, o profeta compara aqueles que destruíram essa faculdade aos animais, que não possuem alma discriminatória e racional. Graças a essa faculdade, somos naturalmente capazes de encontrar o caminho de Deus, e esse é o conhecimento natural que antecede a fé; esse é o caminho para Deus. Pelo fato de o homem saber distinguir entre o bem e o mal, ele recebe a fé. A própria força da natureza testemunha que é belo para o homem acreditar naquele que criou todas essas coisas e que ele reconheça as palavras de Seus mandamentos e as cumpra.
Do fato de ele acreditar nisso nasce o temor de Deus. Quando o homem se apega ao serviço do temor de Deus e, por meio desse serviço, avança até certo ponto nele, nasce o conhecimento espiritual, do qual já dissemos que nasce da fé. Não que ele simplesmente nasça da fé. Da fé simples, por si só, não nasce o conhecimento espiritual, mas da fé nasce o temor de Deus. E quando começamos com o serviço do temor de Deus, do serviço do temor de Deus nasce o conhecimento espiritual, de acordo com a palavra do abençoado comentarista: “Quando um homem possui a vontade de se apegar ao temor de Deus e uma mente reta, ele receberá facilmente a revelação das coisas ocultas”. A revelação das coisas ocultas ele chama de conhecimento espiritual. Não que o temor de Deus produza isso; não é possível produzir aquilo que não está implícito na natureza. Mas o conhecimento é concedido gratuitamente para o serviço do temor de Deus.
Quando tu perguntares, bem, descobrirás que o serviço do temor de Deus é o arrependimento. E o conhecimento espiritual é, como já dissemos, aquilo de que recebemos a garantia no batismo e que recebemos de fato por meio do arrependimento. O dom do qual dissemos que o recebemos por meio do arrependimento é o conhecimento espiritual, que é concedido gratuitamente para o serviço do temor de Deus. O conhecimento espiritual é a percepção das coisas que estão ocultas. Quando um homem percebe as coisas que são invisíveis, mas extremamente proveitosas — e é a isso que se refere o conhecimento espiritual —, dessa percepção nasce uma fé diferente. Não que seja contrária à fé antiga; pelo contrário, ela até a corrobora. É chamada de fé da visão. Até então havia a audição; agora há a visão. A visão é mais verdadeira do que a audição.
Todas essas coisas nascem daquele conhecimento que distingue entre o bem e o mal e que se agita na natureza. E esta é a semente da excelência, como tem sido chamada. Mas quando ocultamos isso por nossa vontade, que ama o desejo, perdemos todo esse bem.
A esse conhecimento estão ligadas uma agonia perpétua no coração; angústia e pesar; temor a Deus; vergonha perante a natureza; pesar pelas coisas transitórias que [ocupavam a mente] antes; zelo pelo que é digno; lembrança perpétua da morte, pensamentos torturantes sobre essa transição e preocupação com seus preparativos; súplica apaixonada a Deus para que entremos bem por aquele portão pelo qual toda a natureza tem de passar; desprezo pelo mundo e nobre luta em nome da excelência. Todas essas coisas se encontram nesse conhecimento natural. O homem deve examinar sua disciplina à luz disso e, quando estiver em harmonia com esses princípios, seguirá o caminho da natureza. Quando ele ascende mais alto e alcança o amor, abandona o domínio da natureza, e a luta, o medo e a fadiga deixam-no em paz.
De acordo com o que foi dito, o homem deve avaliar suas ações [para saber] por qual caminho está trilhando: naquilo que está abaixo da natureza, na natureza ou acima da natureza. Por meio dessas distinções, que foram claramente expostas, o homem pode compreender facilmente qual deve ser a disciplina de toda a sua vida. Quando não estás nas coisas da natureza aqui descritas, nem nas coisas acima da natureza, fica claro que habitas abaixo da natureza.