Isaac o sírio, Tratados Místicos
XLIII PALAVRAS ÚTEIS, CHEIAS DE SABEDORIA ESPIRITUAL
A fé é a porta dos mistérios. Assim como o olho físico serve para as coisas dos sentidos, da mesma forma a fé se relaciona com os tesouros ocultos aos olhos da mente.
Possuímos dois olhos psíquicos, como dizem os banhistas, assim como possuímos dois olhos físicos. Mas nem ambos têm a mesma finalidade no que diz respeito à visão.
Com um deles, vemos a glória oculta de Deus, que está escondida nas coisas da natureza, Seu poder e Sua sabedoria, e Seu cuidado eterno por nós, que, por Sua providência especial, é direcionado a nós. Com o mesmo olho, vemos também as classes espirituais de nossos semelhantes.
Com o outro, vemos a glória de Sua natureza santa. Quando nosso Senhor deseja nos iniciar nos mistérios espirituais, Ele abre em nossa mente o oceano da fé.
Como uma graça além de toda graça, o arrependimento foi concedido ao homem. Arrepender-se é nascer de novo em Deus. Aquilo de que recebemos a garantia pelo batismo, recebemos como dom pelo arrependimento. O arrependimento é a porta da misericórdia que se abre a todos os que a buscam. Por essa porta entramos na misericórdia divina. Fora dessa entrada, não é possível encontrar misericórdia. Pois todos pecaram, segundo as palavras da Escritura, e são justificados gratuitamente pela graça. O arrependimento é uma segunda graça; nasce no coração da fé e do temor. O temor é a vara paterna que nos guia até o Éden espiritual. Quando chegamos lá, ele nos deixa e retorna. O Éden é o amor divino, no qual se encontra o paraíso de todos os bens, onde o bem-aventurado Paulo foi sustentado por alimento sobrenatural. Depois de ter comido da árvore da vida que ali se encontra, ele exclamou: “O que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração do homem concebeu são as coisas que Deus preparou para aqueles que o amam”. Adão foi privado dessa árvore pela promessa do Diabo. A árvore da vida é o amor divino que Adão perdeu com sua queda, após a qual ele trabalhou e se cansou. Aqueles que estão privados do amor divino ainda comem o pão conquistado com o suor de seu trabalho, mesmo que pratiquem a justiça, como foi ordenado ao progenitor de nossa raça quando ele o perdeu por causa de sua queda. Até encontrarmos o amor, trabalhamos na terra com seus espinhos. Entre espinhos semeamos e colhemos, mesmo que semeemos a semente da justiça. Somos constantemente picados por eles, mesmo que sejamos justificados, e vivemos com suor em nossos rostos.
Quando, porém, encontramos o amor, comemos o pão celestial e somos sustentados sem trabalho e sem cansaço. O pão celestial é aquele que desceu do céu e que dá vida ao mundo; este é o alimento dos anjos. Aquele que encontrou o amor come de Cristo em todos os momentos e torna-se imortal a partir de então. Pois quem comer deste pão não provará a morte na eternidade. Bem-aventurado é aquele que comeu do pão do amor, que é Jesus. Quem se alimenta de amor se alimenta de Cristo, que é o Deus que tudo governa. Testemunha disso é João, que diz: “Deus é amor”. Assim, aquele que vive com amor nesta criação sente o aroma da vida que emana de Deus. Ele respira aqui o ar da ressurreição. Neste ar, os justos se deleitarão na ressurreição. O amor é o reino do qual nosso Senhor falou quando, simbolicamente, prometeu aos discípulos que eles comeriam em Seu reino: “Vocês comerão e beberão à mesa do meu reino”. O que deveriam comer, senão amor? O amor é suficiente para alimentar o homem em vez de comida e bebida. Este é o vinho que alegra o coração do homem. Bem-aventurado aquele que bebeu deste vinho. Este é o vinho do qual beberam os lascivos e se tornaram castos; os pecadores e esqueceram os caminhos da ofensa; os bêbados e se tornaram jejuadores; os ricos e passaram a desejar a pobreza; os pobres e se tornaram ricos em esperança; os doentes e se tornaram valentes; os tolos e se tornaram sábios.
Assim como não é possível atravessar o oceano sem um barco ou um navio, também ninguém pode atravessar em direção ao amor sem medo. Este mar fétido, que se interpõe entre nós e o paraíso inteligível, atravessamos no barco do arrependimento, que tem o medo como leme. Se o leme do medo não governar este navio do arrependimento, no qual atravessamos o mar deste mundo em direção a Deus, nos afogaremos no mar fétido. O arrependimento é a nave, o medo é seu timoneiro, o amor é o porto divino.
O medo nos coloca na nave do arrependimento, nos faz atravessar o mar fétido do mundo e nos leva ao porto divino que é o amor, para o qual se voltam todos aqueles que estão cansados e oprimidos pelo arrependimento.
Quando chegamos ao amor, chegamos a Deus, e nossa jornada termina; passamos para a ilha que se encontra além do mundo, onde estão o Pai, o Filho e o Espírito Santo; a quem seja dada glória e domínio. Que Ele nos torne dignos de temê-Lo e amá-Lo. Amém.