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ISAQUE o Sírio — Tratados Místicos

Traduzidos para o inglês por A. J. Wensinck, publicada em 1923

XXVII SOBRE DE QUANTAS MANEIRAS DIFERENTES A VISÃO DE SERES INCORPÓREOS É PERCEBIDA PELA NATUREZA HUMANA

Todos os tipos de corpos racionais, sejam eles simples ou sutis, podem ser alcançados pela percepção da natureza humana de três maneiras: pela densidade pessoal (que é uma) maneira não essencial; pela sutileza pessoal (que é uma) maneira não essencial; pela verdadeira contemplação, que é a visão essencial.

A primeira maneira é dominada pelos sentidos; a segunda, pela visão psíquica simples; a terceira, pela força natural do espírito. Além disso, uma é dominada pela vontade e pela razão; outra, pela vontade e pela luz psíquica e por tudo o que fortalece esta última.

A vontade é, em primeiro lugar, a causa; e estes são os filhos da liberdade, mesmo que, no momento da ação, a liberdade e a vontade permaneçam em silêncio, desde que a influência seja ativa e potente. E apenas uma é dominada pelo poder de manifestação, mesmo sem a vontade dos receptores e sem o conhecimento essencial, assim como os sentidos são receptores de todos os acidentes sem a vontade.

Essas três formas são ministradas por forças sagradas que se misturam a nós para nossa instrução e para que possamos encontrar a vida. Aqueles que são impuros têm poder para ministrar duas delas, as quais podem usar quando se aproximam de nós, para a perdição, não para o benefício. À terceira forma eles não se aproximam com o propósito de usá-la, a fim de adquirir poder sobre nós para nos desviar do caminho.

Pois não é possível que os filhos das trevas se aproximem da luz; os demônios não possuem o poder de ativar as percepções naturais da mente. Os anjos sagrados, no entanto, possuem essa faculdade de ativar e

iluminar. Os demônios, porém, possuem as percepções falsas — os filhos das trevas — como seu poder e domínio. Do iluminado, o destinatário recebe luz; do escuro, escuridão. E qual é a razão pela qual isso foi concedido àqueles, e não a estes? A percepção que cada um desses mestres demonstra e ensina é, primeiro, vislumbrada por ele em sua própria pessoa, aprendida e experimentada; então, ele é capaz de nos transmitir a verdade das coisas em virtude de seu verdadeiro conhecimento a respeito delas, que encontraram primeiro por meio do poder de compreensão rápida da mente clara e pura. Os demônios também possuem rapidez, mas não iluminação. A rapidez é diferente da iluminação. A primeira, sem a segunda, leva seus possuidores à destruição e à insipidez; a segunda ensina a verdade, a primeira, uma falsa verdade; pois a luz revela a veracidade das coisas por completo e se torna maior ou menor de acordo com o comportamento.

A partir de seu conhecimento, os anjos sagrados derramam em nós, por meio das emoções causadas pelas coisas, aquilo que eles saboreiam e adquirem em primeiro lugar e, assim, nos transmitem. E esses mestres secundários também despertam em nós, em correspondência com seu conhecimento, emoções causadas pelas coisas. No domínio em que não têm liberdade, é necessário (para eles) despertar em nós deliberações corretas a respeito dessas coisas. Como já disse, portanto, que isto te seja certo: mesmo que fôssemos capazes de recebê-la, eles não seriam capazes de nos ensinar a verdadeira contemplação, embora a conheçam desde tempos imemoriais. Cada membro de um grupo ou de outro — os anjos sagrados ou aqueles do grupo oposto — nos ensina e nos incita, a nós, discípulos, a nos comportarmos de acordo com seu próprio comportamento.

Para mim, isto é verdade: que a mente, por si mesma, mesmo sem a mediação dos anjos sagrados, tende para o bem, mesmo sem instrução, mas que é incapaz de receber o conhecimento das coisas más sem a mediação dos demônios ou dos sentidos, (e é incapaz) de tender para elas por sua própria vontade. Em nossa natureza, o bem está implantado, o mal não. E tudo o que é estranho e é ensinado de fora precisa de um intermediário. O que está plantado no interior, porém, se desdobra naturalmente, mesmo sem instrução, ainda que de forma vaga. Mas, embora nossa natureza tenda por si mesma para o bem, ela é incapaz, sem a orientação dos anjos sagrados, de aumentar isso e de ser iluminada por ele. Nós os temos como mestres, assim como eles têm uns aos outros; ou seja, aqueles que são inferiores (têm como mestres) aqueles que são mais instruídos e iluminados do que eles próprios. Assim, eles têm uns aos outros (como mestres) até aquele que tem como mestre a Santíssima Trindade. E mesmo ele (não recebe instrução) por si mesmo, mas tem como mestre o mediador Jesus, por meio do qual recebe (instrução) e a transmite àqueles que estão no mesmo plano e abaixo dele.

Penso também o seguinte. Como naturalmente não possuímos de forma alguma a força para sermos movidos pela contemplação divina, e compartilhamos dessa deficiência com todos os seres celestiais, é somente pela graça, sem exercício ou cálculo (da nossa parte), que somos movidos por algo que, naturalmente, é estranho à mente humana e angelical. Pois a contemplação relativa à divindade não se compara a outros tipos de contemplação; pois possuímos a contemplação quanto às suas naturezas por meio de nossa participação na natureza dupla que lhes é própria, devido ao que há em nós e também neles; mas não participamos da natureza da Essência, nem possuímos contemplação a respeito Dele. Como a faculdade de ser movido por essa contemplação não pertence naturalmente a nenhum dos seres racionais da primeira e da segunda classe, ela deve ser um dom da graça em todas as mentes celestiais e terrenas.

Não é como outras faculdades causadas pela natureza, por mais iluminadas e purificadas que sejam. Mas penso — e isso é verdade — que a mente de nós, filhos do homem, deve ser conduzida (apenas) por revelações e intuições a ponto de alcançar essa contemplação essencial, que é a mesma coisa que a verdadeira revelação; sem a mediação delas, porém, nossa mente não poderia ser conduzida. E nossa mente não possui uma força como a daqueles seres elevados e exaltados que recebem todas as revelações e a contemplação diretamente da Essência, sem intermediário. Mas mesmo eles (recebem essas revelações) por meio de uma imagem da Essência, não da própria Essência. De modo que nossa mente também se encontra no mesmo nível que as outras classes, incapaz de receber revelações e contemplação por si mesma, sem um intermediário, mas apenas de Jesus, que empunha o cetro do Reino. As outras classes, a saber, as outras classes primárias, recebem (revelações) transmitindo-as uma à outra, a respeito de todas as questões de governo e de sua compreensão (não a respeito da Essência), da primeira para a segunda e assim por diante, até que o mistério tenha percorrido todas as classes.

Mas muitos são os mistérios que permanecem nessa única classe primária sem se espalharem pelas outras classes, porque, com exceção dessa, elas não são capazes de receber um mistério tão grandioso. Há ainda outros mistérios que procedem da classe primária e são revelados apenas à segunda, mas são preservados ali em silêncio; as outras classes não os percebem. Outros, por sua vez, são revelados à terceira e à quarta classes. Há também (diferenças de) superioridade e inferioridade na revelação no caso de anjos individuais. Alguns deles são ricos em revelações e mistérios de ordem elevada lhes são revelados, e recebem luz abundante. Alguns são inferiores e seus impulsos são fracos demais para esses mistérios. E assim, entre as classes espirituais, há excelência e deficiência, superioridade e inferioridade no que diz respeito ao recebimento de revelações. Com exceção daquela classe superior, que é a primária de todas as classes, as demais, sem exceção, recebem contemplação e sugestões a respeito de todo o governo divino por meio de seus semelhantes. E se isso ocorre com eles, quanto menos somos capazes, sem eles e sem um intermediário, de receber tais mistérios. Mas sempre que uma percepção surge nas mentes dos santos, essa revelação — seja qual for o mistério — provém desses (seres celestiais). Quando permitido por Deus, a revelação é transmitida por cada classe superior à inferior, até a mais baixa; da mesma forma, quando permitido pela divindade, o mistério é transmitido por aqueles que são dignos dele aos seres humanos.

Por meio deles, de qualquer forma, os santos tornam-se receptores da luz da contemplação, pela qual contemplam a Essência louvada, que é um mistério que não aprendem uns com os outros. Esses (seres superiores) são espíritos administradores, enviados àqueles que herdarão a vida por meio da percepção de tais insights das verdades que lhes são próprias.

No mundo vindouro, porém, esse tipo de transmissão será aniquilado. Pois então ninguém receberá a revelação da glória de Deus para o deleite de sua alma por meio de seu companheiro, mas ela será concedida a cada um individualmente, na medida em que estiver de acordo com a medida de sua excelência e conforme for considerado digno pelo Senhor do Universo; mas ele não receberá o dom por meio de seu companheiro, como ocorre neste mundo. Pois não há quem aprenda, nem quem ensine, nem quem deseje receber de seus companheiros aquilo que lhes falta. Pois ali um único Doador se revela, sem intermediário, a todos os receptores. E aqueles que recebem todo o deleite espiritual o recebem Dele. De modo que não O percebem por meio de insights isolados, mas pela revelação (direta) de Si mesmo, sem o intermediário externo dos impulsos. Lá é abolido o grau de aluno e de professor, e o amor impetuoso de cada um está fixado em um só.

Também digo que mesmo aqueles que são açoitados no Inferno são atormentados pelos açoites do amor. Açoites por amor, ou seja, daqueles que percebem que pecaram contra o amor, são mais duros e amargos do que as torturas causadas pelo medo. O sofrimento que se apodera do coração pelo pecado contra o amor é mais agudo do que qualquer outra tortura. É errado um homem pensar que os pecadores no Inferno são desprovidos de amor pelo Criador. Pois o amor é fruto do verdadeiro conhecimento, tal como se professa ser concedido a todas as pessoas. O amor age com sua força de duas maneiras. Ele tortura aqueles que pecaram, como também acontece no mundo entre amigos. E proporciona deleite àqueles que guardaram seus mandamentos. Assim também é no Inferno. Digo que as torturas severas são a dor causada pelo amor. Os habitantes do céu, porém, embriagam suas almas com o deleite do amor.

Alguém foi questionado sobre quando se poderia acreditar que havia sido considerado digno do perdão dos pecados. Ele respondeu: quando perceber que, interiormente, os odeia com um ódio total e que seu modo de vida é o oposto do que era anteriormente. Aquele que se encontra nesse estado terá a certeza de que seus pecados foram perdoados por Deus, em virtude do testemunho prestado pela consciência de sua alma, de acordo com a palavra do Apóstolo. O coração que não condena é testemunha de si mesmo.