Isaac o sírio — TRATADOS MÍSTICOS
Traduzidos para o inglês por A. J. Wensinck; obra publicada em 1923
Isaac of Nineveh : Mystic Treatises (XXII)
XXII SOBRE VÁRIAS (EXPERIÊNCIAS) DURANTE A ORAÇÃO E SOBRE OS LIMITES DO PODER DA MENTE. E ATÉ QUE PONTO ELA TEM PODER PARA CONTROLAR SEUS IMPULSOS ARBITRÁRIOS POR MEIO DOS VÁRIOS HÁBITOS DE ORAÇÃO. E QUAL É O LIMITE PRESCRITO À NATUREZA DURANTE A ORAÇÃO, O LIMITE QUE A ORAÇÃO NÃO PODE ULTRAPASSAR. E COMO, QUANDO ELA O ULTRAPASSA E VAI ALÉM, DEIXA DE SER ORAÇÃO, MESMO QUE O QUE ACONTECE SEJA DENOMINADO DE ORAÇÃO
Glória a Aquele cuja dádiva foi derramada sobre a humanidade, por ter determinado que os homens, embora de carne, sirvam na terra à classe dos seres imateriais, e por ter considerado digna a natureza dos mortais de falar sobre tais mistérios, especialmente nós, pecadores que somos, que nem sequer somos dignos de ouvir o que se diz a respeito dessas coisas. Em Sua generosidade, Ele abriu nosso coração cego para compreender, pela contemplação das Escrituras e pela instrução dos grandes Padres, mesmo que eu não tenha sido considerado digno de experimentar, por zelo pessoal, um milésimo do que escrevi com minhas próprias mãos, especialmente neste tratado, que nos aventuramos a escrever para a iluminação e exortação de nossa alma e daqueles que nele se depararem, para que, talvez, em virtude de seu desejo, ela seja incitada a se aproximar da prática.
Como assim? O deleite durante a oração é diferente da visão durante a oração. Esta última é mais excelente do que a primeira, assim como um homem adulto é superior a uma criança. Acontecerá que as palavras se tornem doces na boca e que uma única palavra da oração seja repetida infinitamente, de modo que nenhum sentimento de saciedade com ela te leve a prosseguir e passar para uma segunda.
Às vezes, da oração nasce uma certa contemplação que também faz a oração desaparecer dos lábios. E aquele a quem essa contemplação ocorre torna-se como um cadáver sem alma, em êxtase. A isso chamamos visão durante a oração e não uma imagem ou forma forjada pela fantasia, como dizem os tolos. Também nessa contemplação durante a oração há graus e diferenças nos dons. Mas, até esse ponto, ainda há oração. Pois o pensamento ainda não passou para o estado em que não há oração, mas para um estado superior a ela. Pois os movimentos da língua e do coração durante a oração são as chaves. O que vem depois deles é a entrada no tesouro. Aqui, então, todas as bocas e línguas ficam em silêncio, e o coração, o tesoureiro dos pensamentos, a mente, o governador dos sentidos, o espírito ousado, aquela ave veloz, e todos os seus meios e poderes, bem como as súplicas persuasivas, têm de permanecer imóveis ali: pois o senhor da casa chegou.
Pois, assim como toda a força das leis e dos mandamentos que Deus estabeleceu para a humanidade tem seu fim na pureza do coração, segundo a palavra dos Padres, assim também todos os tipos e hábitos de oração com os quais a humanidade ora a Deus têm seu fim na oração pura. Lamentações, auto-humilhações, súplicas, súplicas íntimas, lágrimas doces e todos os outros hábitos que a oração possui — como já disse: seu limite e o domínio dentro do qual são postos em movimento é a oração pura.
Assim que o espírito ultrapassa o limite da oração pura e prossegue adiante, não há mais oração, nem emoções, nem lágrimas, nem autoridade, nem liberdade, nem súplicas, nem desejo, nem anseio por qualquer das coisas que se esperam neste mundo ou no mundo vindouro.
Portanto, não há oração além da oração pura, e todas as suas emoções e hábitos, por sua autoridade e liberdade, conduzem o espírito até aqui, e há luta nisso; mas, além desse limite, ele passa ao êxtase e não é mais oração. A partir daqui, o espírito desiste da oração; há visão, mas o espírito não ora.
Todo tipo de oração que existe é posto em movimento pelos impulsos da alma. Mas quando a mente entra nas emoções da espiritualidade, então ela não pode mais orar.
A oração é diferente da contemplação durante a oração, embora uma seja causada pela outra. Uma é a semente; a outra, a carga (da colheita) carregada pelas mãos, enquanto o ceifeiro fica surpreso com a visão indescritível de como, a partir dos grãos medíocres e nus da semente, espigas gloriosas crescem repentinamente diante dele. E, durante essa visão, ele permanece imóvel.
Toda oração que existe é exigência e pedido, ou louvor ou ação de graças. Mas julguem se existe algum desses modos, ou exigência de qualquer coisa, quando a mente já passou para esse domínio e entrou nesse lugar.
Pergunto isso àqueles que conhecem a verdade. Não é dado a todos investigar essas distinções, mas apenas àqueles que foram testemunhas e ministros pessoais desse assunto, ou que foram criados na presença dos autores espirituais (NT: literalmente: os Padres) de tais experiências, e receberam a verdade de suas bocas, e passaram seus dias com tais ocupações, perguntando e respondendo sobre assuntos da verdade. Assim como entre dez mil homens dificilmente se encontra um único que tenha cumprido os mandamentos e as leis em qualquer medida e que tenha sido considerado digno da serenidade da alma, assim também raramente se encontra um entre muitos que, em virtude de uma vigilância árdua, tenha sido considerado digno da oração pura e que tenha alcançado esse domínio e sido considerado digno desse mistério. Poucos são considerados dignos da oração pura, apenas alguns. Mas, quanto ao mistério que está além, dificilmente se encontra um único homem em cada geração que tenha se aproximado desse conhecimento da graça de Deus.
A oração é um súplica por, um cuidado com, um anseio por algo, seja a libertação das coisas más daqui ou do mundo vindouro, seja um desejo pelas coisas prometidas, seja uma exigência por algo pelo qual o homem deseja se aproximar de Deus. Nessas emoções estão incluídos todos os hábitos de oração. Mas o fato de ela ser pura ou não depende das seguintes circunstâncias. Se, quando o espírito está preparado para oferecer uma das emoções que enumeramos, qualquer deliberação ou distração estranha se misturar a ela, a oração é considerada impura, pois trouxe ao altar do Senhor um animal que não é permitido (oferecer), sendo esse altar um coração reto e compreensivo.
Mas quando o espírito se entrega com anseio a uma dessas emoções, de acordo com a necessidade do caso, no momento da súplica, e quando, por causa de sua prontidão, o olhar da emoção é direcionado pelo olho da fé para além da cortina do coração, as entradas da alma são assim fechadas contra as deliberações estranhas que são chamadas de forasteiros (NT: prosélitos), a quem a lei não permite entrar no tabernáculo. Isso é chamado de oferta aceita do coração e oração pura. Seus limites vão até aqui. O que está além disso não pode ser chamado de oração.
Se alguém mencionar o que os Padres chamam de oração espiritual, sem compreender o significado das palavras dos Padres, dizendo: “Isso também pertence ao domínio da oração”, penso que, se ele alcançasse o verdadeiro discernimento, seria uma blasfêmia se se encontrasse alguma criatura que afirmasse que a oração espiritual pode ser feita de fato. Pois toda oração que pode ser feita encontra-se deste lado da espiritualidade. E tudo o que é espiritual está, por natureza, livre de emoção e de oração.
Ora, se o homem mal consegue fazer a oração pura, o que se deve dizer da oração espiritual? Os santos Padres costumam designar todas as emoções proveitosas e toda a ação espiritual pelo nome de oração. E o abençoado comentarista (NT: Teodoro de Mapsuéstia) chega a considerar as belas ações como oração; embora esteja claro que a oração é diferente das ações, que são coisas feitas. Mas, às vezes, eles designam como oração espiritual aquilo que, em outras ocasiões, chamam de contemplação; e, às vezes, de conhecimento; e, às vezes, de revelações de coisas inteligíveis. Vês como os Padres variam suas designações para as coisas espirituais? Isso ocorre porque designações precisas só podem ser estabelecidas em relação às coisas terrenas. As coisas do mundo vindouro não possuem um nome verdadeiro, mas apenas um simples conhecimento, que se eleva acima de todos os nomes, sinais, formas, cores, hábitos e denominações compostas. Portanto, quando o conhecimento da alma se eleva acima desse círculo de coisas visíveis, os Padres utilizam, a respeito desse conhecimento, quaisquer designações que lhes agradem, embora ninguém conheça os nomes reais para que as deliberações psíquicas possam basear-se neles. Utilizamos denominações e enigmas, de acordo com a palavra do santo Dionísio (Areopagita), que diz: “Utilizamos sinais e sílabas, nomes convencionais e palavras em nome dos sentidos”. Mas quando, por meio da ação espiritual, nossa alma é movida para as coisas divinas, então os sentidos e suas funções tornam-se supérfluos para nós, assim como as forças espirituais da alma se tornam supérfluas assim que nossa alma se torna a imagem da divindade por meio da unificação com o incompreensível e radiante nos raios do sublime, por meio daqueles impulsos que não são para os olhos.
Portanto, meu irmão, disto podes ter certeza: que o poder da mente de usar as emoções com discernimento tem seu limite na pureza durante a oração. Quando a mente atingir esse ponto, ela ou recuará, ou desistirá da oração; assim, a oração é, por assim dizer, uma mediadora entre o estado psíquico e o espiritual. Contudo, enquanto estiver na emoção, ela se encontra no estado psíquico. Mas, assim que ultrapassa esse limite, a oração cessa.
Assim como os santos, no mundo vindouro, não oram quando a mente é envolvida pelo espírito (divino), mas permanecem em êxtase naquela glória deliciosa, da mesma forma a mente, quando se tornar digna de perceber a bem-aventurança futura, esquecerá a si mesma e tudo o que há aqui, e não será mais comovida pelo pensamento de nada (NT: Cf. a descrição de Plotino sobre o deleite da mente quando ela esquece a matéria).
O homem, portanto, pode livremente ir tão longe a ponto de afirmar: toda excelência, seja qual for, e todas as formas de oração, sejam elas no corpo ou no espírito, estão no domínio do livre arbítrio, assim como a mente que domina os sentidos. Mas quando a influência do espírito reina sobre a mente que regula os sentidos e as deliberações, a liberdade é retirada da natureza, que não governa mais, mas é governada. E como poderia haver oração nesse momento, quando a natureza não possui poder sobre si mesma, mas é conduzida por uma força externa sem saber para onde? A natureza, então, não direciona as emoções do espírito de acordo com sua vontade, mas o cativeiro reina sobre a natureza naquele momento e a conduz para onde a percepção sensual cessa; pois a natureza nem mesmo tem vontade naquele momento, a ponto de não saber se está dentro ou fora do corpo, como atesta a Escritura. Tem, portanto, oração alguém que é cativo a tal ponto e que nem mesmo se conhece a si mesmo? Portanto, ninguém deve afirmar blasfemamente que existe alguém capaz de ousar dizer que é possível fazer uma oração espiritual. Essa audácia é reivindicada pelos mesalleyanos, aqueles ignorantes arrogantes que proclamam sobre si mesmos que são capazes de fazer oração espiritual quando bem entendem. Mas aqueles que são humildes, possuem discernimento, estão dispostos a aprender com os Padres e conhecem os limites da natureza, não abandonam suas reflexões a essa audácia.
E, portanto, quando não há oração, pode então esse dom inefável ser designado pelo nome de oração? A razão, como dizemos, está no fato de que, no momento da oração, (esse dom) é concedido àqueles que são dignos. E na oração ele tem seu ponto de partida, porque esse dom glorioso não pode ser concedido a não ser nesse momento, de acordo com o testemunho dos Padres. Por isso é chamado de oração, porque a partir da oração a mente é conduzida a esse estado abençoado, e porque a oração é seu ponto de partida e não ocorre em nenhuma outra ocasião, segundo o testemunho de Mar Evágrio e outros. E vemos também que a maioria dos santos afirma que, durante a oração, sua mente era arrebatada.
Se alguém perguntar: “Como é que somente neste momento esses dons grandiosos e indescritíveis são concedidos?”, respondemos: “Porque neste momento, mais do que em qualquer outra hora, o homem está concentrado e preparado para voltar-se para Deus e para desejar e esperar compaixão Dele”. Em resumo: é o momento em que o pedido daquele que está à porta do rei e pede com desejo e súplica tem mais chances de ser ouvido. E que momento há em que o homem esteja tão atento, apto e preparado quanto no momento em que ora? Ou seria apropriado que ele fosse considerado digno disso no momento em que dorme, resolve algum assunto ou está com a mente distraída? No entanto, os santos nem mesmo conhecem um momento de ociosidade, pois estão sempre ocupados com as coisas espirituais; quando não estão se preparando para a oração, frequentemente meditam sobre algumas passagens das Escrituras, ou sua mente se dedica à contemplação das coisas criadas, ou (sua mente está ocupada) com outras coisas cuja meditação é proveitosa.
No momento da oração, o olhar do espírito está exclusivamente fixo em Deus e a tendência de sua emoção é inteiramente direcionada a Ele, e a Ele oferece as súplicas do coração com o zelo necessário, com fervor e ardor. Portanto, é apropriado que, nesse momento, quando um único pensamento domina a alma, a misericórdia divina jorre d’Ele. Pois vemos também que, quando oferecemos o sacrifício visível, enquanto todos estão preparados e de pé em oração, suplicando e implorando, com a mente concentrada em Deus, o dom do Espírito desce sobre o pão e o vinho que colocamos no altar. Também a Zacarias o anjo apareceu no momento da oração e lhe anunciou a concepção de João. E a Pedro apareceu, enquanto ele orava no telhado a oração da sexta hora, a revelação que o informou sobre a aceitação dos gentios, por meio do pano que desceu do céu e dos animais que nele se encontravam. E a Cornélio apareceu, quando ele orava, o que está escrito a respeito dele. E Deus falou com Josué, filho de Num, enquanto ele estava prostrado em oração. E sobre a arca foi colocada uma placa, a partir da qual o sacerdote era instruído por revelação divina sobre o que era exigido, no momento em que o sumo sacerdote, uma vez por ano, entrava no santuário interno na hora temível da oração, enquanto todas as tribos dos filhos de Israel estavam reunidas e permaneciam em tremor e temor no tabernáculo externo, em oração. E enquanto o sumo sacerdote estava prostrado, a voz de Deus era ouvida da placa sobre a arca, em uma revelação temível e indescritível. Quão temível era o mistério que era ministrado nessa cerimônia! Assim, todas as revelações e visões que aconteceram aos santos ocorreram no momento da oração.
Que momento é tão santo e adequado para a santificação e o recebimento de dons quanto o momento da oração, no qual o homem fala com Deus? Nesse momento, o homem expressa seus desejos a Deus, suplicando-Lhe e conversando com Ele, e toda a sua emoção e pensamento se concentram, de todas as partes, sobre Ele com intensidade; ele pensa somente em Deus e suplica somente a Ele; todo o seu pensamento está absorvido no diálogo com Ele, e seu coração está cheio Dele. É nesse estado, portanto, que o Espírito Santo une às coisas pelas quais o homem ora algumas percepções inatingíveis, que Ele desperta nele de acordo com sua aptidão para ser comovido, de modo que, por meio dessas percepções, a emoção da oração cessa, a mente fica absorta em êxtase e o objeto desejado da oração é esquecido. Os impulsos são afogados em uma embriaguez profunda e o homem não está mais neste mundo. Então, não há mais distinção entre corpo e alma, nem lembrança de nada, como diz Evágrio.
A oração, a saber, é a firmeza da mente, que só é interrompida pela luz da Santíssima Trindade por meio do êxtase. Vês como a oração é interrompida quando essas percepções, que nascem no espírito a partir da oração, passam para o êxtase, como eu disse no início deste tratado e em vários trechos adiante.
Além disso, ele (evidentemente Evágrio) diz: A firmeza da mente é a elevação das percepções inteligíveis (NT: literalmente: coisas), que se assemelha à cor do céu sobre o qual se eleva, no momento da oração, a luz da Santíssima Trindade. Quando um homem é considerado digno de toda essa graça, de modo que, durante a oração, seja elevado a essa altura? Ele diz: Quando a mente se despoja do homem velho e se reveste do novo pela graça, então também vê sua firmeza no momento da oração, assemelhando-se à safira ou à cor do céu, como o lugar de Deus era chamado pelos anciãos de Israel, a quem Ele apareceu na montanha.
Assim, como já disse, esse dom não deve ser chamado de oração espiritual, mas o que, então? O fruto da oração pura, que está imerso no espírito. A mente ascendeu aqui acima da oração. E, tendo encontrado o que é mais excelente, desiste da oração. E, além disso, não há mais oração, mas o olhar em êxtase para as coisas inatingíveis que não pertencem ao mundo dos mortais, e a paz sem conhecimento de qualquer coisa terrena. Esta é a bem conhecida ignorância (Cf. Dionísio Areopagita) a respeito da qual Evágrio diz: “Bem-aventurado aquele que, durante a oração, alcançou a inconsciência que não pode ser superada.”