A vida monástica autêntica considera toda conversação como perturbação da comunhão contínua com Deus, pois a fala dispersa a concentração interior do intelecto que constitui o monge verdadeiro.
A simples expectativa de visitas e conversas perturba a quietude mental, e a escrita impõe ao intelecto preocupações ainda mais exigentes, sobretudo quando a alma ainda necessita de cura pela oração.
A oração não deve ser abandonada antes da cura das paixões da alma.
A escrita prolonga uma forma de conversação com ausentes e pode cair nas mãos de leitores indesejados.
A palavra escrita costuma sobreviver ao autor e expô-lo para além de sua intenção.
Muitos padres dedicados à extrema quietude evitaram escrever, e a censura maliciosa contra escritos espirituais revela uma atenção desviada das realidades divinas para detalhes externos de letras, sílabas e palavras.
A censura sofrida foi justa não por conflito com os padres, mas pela ousadia de tratar realidades espirituais sem dignidade suficiente, e a correção recebida tornou-se instrução providencial, não ira divina.
São João
Crisóstomo e
São Paulo exemplificam como os ensinamentos santos podem ser deturpados por ignorantes e instáveis, mesmo quando procedem de grande clareza espiritual.
A reverendíssima madre Xênia, embora experiente na obediência, na quietude e nos mandamentos divinos, solicita conselhos movida por um desejo espiritual que nunca se sacia.
A instrução é oferecida por amor cristão, sobretudo em favor das filhas do Imperador sob a direção de Xênia e da monja Sinésis, que se deseja unir a Cristo, o doador da incorruptibilidade.
A alma, embora imortal por natureza, pode sofrer uma morte espiritual causada pelo pecado, conforme ensinam São João,
São Paulo, São Pedro e o próprio Senhor ao chamar de mortos os que vivem segundo o mundo vão.
A morte verdadeira da alma consiste em sua separação de Deus, assim como a morte do corpo consiste na separação entre corpo e alma.
A transgressão de Adão produziu a morte interior da alma e tornou também o corpo sujeito ao cansaço, ao sofrimento, à corrupção e à morte.
A ressurreição futura não livrará os ímpios da segunda morte, pois a vida eterna será comunhão no Reino, enquanto a morte futura será castigo interminável.
A segunda morte inclui castigo sem fim, verme que não dorme, ranger de dentes, trevas exteriores e fogo inextinguível.
São Paulo distingue a vida segundo o Espírito, que conduz à vida, da vida segundo a carne decaída, que conduz à morte.
A violação do mandamento divino é a causa de toda morte, e a verdadeira morte consiste em a alma perder a graça divina e submeter-se ao pecado.
A vida verdadeira da alma é a união com Deus, restabelecida pela obediência aos mandamentos, enquanto a palavra de Cristo se torna vida para os obedientes e juízo para os desobedientes.
A vida concedida por Deus alcança também o corpo, que pela ressurreição se torna imortal, livre da dor, da doença, da tristeza e da condenação futura.
Cristo morreu corporalmente sem que seu corpo se separasse da divindade, e os que vivem piedosamente serão separados do corpo sem se separarem de Deus, participando da ressurreição, da ascensão e da vida divina.
Todos ressuscitarão, mas cada um conforme seu estado interior.
Quem mortifica pelo Espírito as inclinações mundanas viverá eternamente com Cristo.
Quem amortecer sua vida espiritual pelas paixões será julgado com o
diabo e entregue à segunda morte.
A morte verdadeira teve origem no próprio lugar da vida, no paraíso, e por isso a vida verdadeira deve ser adquirida nesta existência mortal por arrependimento e comunhão com Deus.
A vida presente é o tempo da penitência, não da retribuição final.
Depois desta vida, manifesta-se o juízo justo de Deus.
A compaixão divina deve ser experimentada agora pela conversão.
Ninguém deve desesperar enquanto vive, pois a permanência nesta vida indica a possibilidade de retorno a Deus e de escolha livre entre o caminho da vida e o caminho da morte.
A longanimidade de Deus revela sua compaixão, pois Ele não condena imediatamente os desobedientes, mas concede tempo para conversão, filiação divina e união espiritual com Ele.
Deus recorda continuamente a possibilidade da vida.
O
Pai chama os homens à vinha, que é o
Filho.
Cristo é a videira, e os fiéis são os ramos chamados a produzir obras de vida.
O
Pai reconcilia consigo os homens por meio do
Filho, chama-os ao trabalho na vinha e recompensa como dívida amorosa o esforço feito em favor da própria salvação.
O Redentor concede vida em plenitude ao fazer dos fiéis seus irmãos e coerdeiros, mas os ramos da videira devem cortar tudo o que impede o fruto digno da eternidade.
Devem ser podados riqueza, vida cômoda, honras vãs e paixões da alma e do corpo.
Devem ser rejeitados pensamentos, palavras, visões e audições que ferem a alma.
Sem a poda cuidadosa do coração, não há fruto apto para a vida eterna.
A pureza também pode ser buscada no matrimônio, mas a virgindade monástica antecipa a condição angélica da ressurreição e evita ocasiões de captura pelo
diabo.
A mulher ligada por vínculos naturais ao marido, aos filhos e aos parentes encontra maior dificuldade para alcançar a liberdade, a ausência de preocupações e a tranquilidade próprias da dedicação exclusiva ao Senhor.
A virgem verdadeira, configurada a Cristo nascido da Virgem e esposo das almas virginais, renuncia não apenas ao casamento carnal, mas também aos vínculos mundanos que a reconduzem às afeições terrenas.
A renúncia aos pais por causa do Esposo imortal é mais coerente do que a renúncia feita por uma esposa terrena em favor de um esposo mortal.
A cidadania celeste impede que a alma se prenda novamente ao parentesco segundo a carne.
O amor ao mundo constitui hostilidade contra Deus.
As pessoas casadas também são advertidas por
São Paulo a viverem como se não estivessem presas ao mundo.
A virgem, como ramo da videira da vida, deve alegrar-se com o cuidado do
Pai e obedecer mais perfeitamente ao Esposo, sem desejar a vida das mulheres mundanas nem seus bens passageiros.
As casadas honram a virgindade ao desejá-la, mas a virgem se desonra ao desejar a condição das casadas.
O contato com os desejos mundanos conduz à riqueza, à fama, à glória e aos prazeres desta vida.
Cristo pronuncia ai contra ricos, saciados, zombadores e louvados por todos.
A esposa da vida não possui comunhão com os mortos espirituais, pois o caminho largo do mundo conduz à destruição, enquanto a porta estreita exige abandono da vanglória, da sensualidade e das posses.
O caminho largo não é isento de tristeza, mas é largo porque muitos passam por ele carregados de preocupações materiais, enquanto o caminho estreito da virgindade traz aflição salvífica, consolação e Reino dos céus.
A
bem-aventurança dos pobres em espírito ensina que a humildade da alma é a raiz da pobreza santa, e a pobreza corporal só é bendita quando nasce dessa humildade interior.
A pobreza em espírito exclui hipocrisia e vaidade, pois somente o espírito contrito e humilde aceita simplicidade exterior, despojamento e ausência de elogios como estado digno diante de Deus.
Cristo cura primeiro a potência apetitiva da alma, porque o desejo enfermo alimenta a ira e ambos perturbam a inteligência, impedindo a saúde integral da alma.
O amor às posses materiais é o primeiro fruto mau da potência apetitiva, pois não nasce da natureza necessária, mas da escolha, tornando-se raiz de avareza, fraude, rapina, roubo e idolatria da cobiça.
As paixões ligadas ao amor às posses são alimentadas pela falta de fé na providência de Deus, que leva a confiar nas riquezas em vez de buscar o Reino celeste e eterno.
O desejo de enriquecer já é pernicioso, mesmo quando a riqueza não é obtida.
Quem deseja ser rico cai em tentações e laços do
diabo.
A necessidade nasce do amor desordenado, e esse amor nasce da insensatez.
A busca da riqueza, mesmo sob pretexto de bom fim, revela medo da pobreza e falta de fé naquele que prometeu prover o necessário aos que buscam o Reino de Deus.
O verdadeiro comerciante espiritual vende até o necessário para multiplicar o ganho eterno.
Quanto menor o celeiro terreno de onde sai a semente, maior se torna a colheita espiritual.
O acúmulo de riquezas prende o homem vivo dentro de um túmulo absurdo.
O intelecto do avarento vivo fica sepultado no pó do ouro, e a pobreza voluntária, quando não praticada por ostentação, liberta da paixão mortal e fétida do apego às riquezas.
O monge dominado pelo amor às posses não pode obedecer, nem praticar a quietude, nem perseverar na oração, pois seu intelecto permanece onde está seu tesouro.
Giezi e Judas exemplificam a ruína espiritual e corporal causada pela cobiça.
A renúncia é o primeiro passo da profissão monástica.
A posse terrena impede até a concepção mental do Reino.
A segunda descendência do mau desejo é a autoadulação, manifestada no embelezamento do corpo, nas roupas caras e na vaidade mundana que antecede o amor pelas coisas exteriores.
A cura da vaidade exige conhecimento da glória divina, desejo dessa glória, paciência diante do desprezo humano e atribuição de todo bem a Deus.
A virtude deve ser recebida como dom, não como conquista pessoal.
A humildade cresce quando os olhos do intelecto permanecem fixos em Deus.
O recolhimento, a cela e a consciência da própria fragilidade auxiliam a cura da vanglória.
A autoadulação desonra a alma ao buscar louvor humano por meio da aparência, da linhagem, das roupas vistosas e de sinais exteriores de infantilidade espiritual.
A virtude praticada para receber louvor humano perde sua elevação celeste, cai à terra e produz vergonha, instabilidade de pensamentos, distração e turbulência interior.
A honra humana é vazia, priva da honra verdadeira e gera inveja, que está na origem do primeiro homicídio e da condenação de Cristo.
A vida cristã realiza o bem por Cristo e para a glória de Deus, sem desejo de agradar aos homens, pois o servo de Cristo não busca popularidade.
A terceira descendência do mau desejo é a gula, da qual nasce toda impureza carnal, embora os movimentos naturais do corpo só se tornem paixão quando são usados contra seu fim bom.
O intelecto é a primeira vítima das paixões carnais.
As imagens sensíveis, sobretudo por meio dos olhos, incitam o intelecto ao mau uso dos corpos.
Eva exemplifica como a contemplação complacente da beleza sensível antecede a queda.
A cura das paixões impuras deve começar pelo intelecto, pois jejum e dureza corporal são inúteis sem oração e humildade que cortem a corrente interior dos maus pensamentos.
A oração e a humildade santificam a raiz interior e produzem santidade exterior.
A alma contemplativa deve cingir a potência apetitiva pela verdade.
O corpo também precisa de esforço e abstinência moderada para não dominar a inteligência.
A monja que deseja santidade deve permanecer na cela, suportar fadigas e rezar com humildade, pois o mundo exterior dispersa a alma por sons e visões impuras.
A pobreza em espírito, unida à humildade, ao esforço corporal e ao despojamento, dá domínio sobre as paixões e torna a alma herdeira do Reino dos céus.
A
bem-aventurança dos pobres em espírito resume muitas virtudes e exclui muitos vícios.
A poda espiritual inclui também provações comparáveis ao frio, ao gelo, à neve, à geada, ao vento e ao calor suportados pelas plantas.
As tentações e tribulações devem ser suportadas com alegria, pois sem elas nenhuma virtude produz fruto digno do lagar divino e dos celeiros eternos.
As aflições involuntárias só são abençoadas quando se aprende antes, pela pobreza de espírito, a suportar as aflições voluntárias que vencem prazer e vanglória.
A tentação aceita com humildade purifica a alma.
A aflição desperta oração ardente e eficaz.
Quem sofre deve perdoar, agradecer e orar pelos que o afligem como por benfeitores.
A tristeza espiritual, nascida da pobreza em espírito, torna os que choram participantes da
bem-aventurança divina prometida por Cristo.
Cristo une o luto à pobreza porque a pobreza voluntária em nome de Deus gera uma tristeza voluntária e espiritual, diferente da tristeza mundana que produz morte.
A pobreza espiritual possui quatro formas inseparáveis: pobreza do corpo, pobreza do modo de pensar, pobreza de bens mundanos e pobreza pelas provações exteriores.
A pobreza corporal voluntária gera luto, lágrimas e consolação, pois a autolimitação no sono, no alimento e no conforto contrita o coração e expulsa a amargura.
A facilidade, a vida branda e a sensualidade endurecem o coração.
A renúncia e o autocontrole produzem compunção e doçura espiritual.
São João Clímaco ensina que sede e vigília afligem o coração, e do coração aflito brotam lágrimas.
A humildade temerosa de Deus gera autorrepreensão, apresenta à alma a imagem dos tormentos do inferno e aumenta o temor diante de sua duração e intensidade inexprimíveis.
O luto eterno do inferno nasce da consciência dos pecados sem esperança de salvação, enquanto nesta vida o mesmo luto é benéfico porque Deus o escuta e oferece a si mesmo como Consolador.
A autorrepreensão humilde comprime a alma até extrair o vinho salvífico da compunção, que destrói as paixões e enche a alma de alegria bendita.
A pobreza de bens mundanos também gera luto salutar.
Quem abandona dinheiro e posses liberta a alma das preocupações exteriores.
A alma desapegada volta-se para dentro e examina a si mesma.
Quando o intelecto se retira das coisas materiais, reconhece a máscara deformada produzida pelas dispersões mundanas, lava-a pelo luto e entra em seu tesouro interior para rezar ao
Pai em segredo.
A paz e a humildade concedidas por Deus tornam-se o recinto seguro do paraíso inteligível, onde florescem as virtudes, o amor e a alegria inefável do século futuro.
O abandono das posses gera ausência de preocupação.
A ausência de preocupação gera atenção e oração.
Atenção e oração geram luto e lágrimas.
Luto e lágrimas eliminam disposições passionais e abrem caminho à alegria.
As lágrimas de tribulação transformam-se em lágrimas de deleite, a oração torna-se ação de graças, e a meditação das verdades divinas produz júbilo e esperança segura dos bens futuros.
O Esposo manifesta-se mais claramente às almas purificadas pelo luto
bem-aventurado, apesar das censuras maliciosas contra quem afirma os ensinamentos dos santos padres.
Quando as paixões interiores são expulsas e o intelecto retorna a si mesmo, a alma é ordenada pelas virtudes, progride espiritualmente e se purifica até se libertar de toda marca de mal e de todo acréscimo estranho.
O intelecto purificado transcende as realidades inteligíveis e seus conceitos imagéticos, rejeita tudo com piedade e permanece diante de Deus em silêncio.
A graça interior recria o intelecto de modo sublime e o ilumina com luz inefável.
O intelecto ascende pela força do Espírito, não pela fantasia mental.
A alma ouve palavras inefáveis, contempla realidades invisíveis e participa de tudo em Deus.
O homem interior torna-se semelhante aos
anjos e aproxima de Deus toda a criação.
São
Nilo ensina que o estado próprio do intelecto é uma altura inteligível semelhante ao azul celeste e iluminada pela Santíssima
Trindade durante a oração.
A libertação de todos os conceitos permite contemplar o intelecto como safira ou cor do céu.
São Diádoco distingue o dom batismal da renovação da imagem divina e o dom superior da semelhança com Deus, que exige cooperação.
A semelhança perfeita e o amor espiritual dependem da iluminação consciente do
Espírito Santo.
São Isaac confirma que a oração pura ilumina o intelecto com a luz da Santíssima
Trindade e revela sua pureza como cor celeste, chamada pelos anciãos de Israel de lugar de Deus.
O intelecto iluminado transmite ao corpo sinais da beleza divina, fortalece a virtude, revela os logoi das criaturas e recebe conhecimentos extraordinários sem buscá-los como fim principal.
A iluminação pode trazer visão profética, percepção de coisas distantes e conhecimento do passado, do presente e do futuro.
Esses dons aparecem como efeitos incidentais da comunhão com a luz divina.
O fim principal é o retorno do intelecto a si mesmo e a reunião das potências da alma nele.
A graça restaura a beleza original da alma e a assimila ao Arquétipo.
Como tal consumação está acima da fraqueza comum, convém retornar ao fundamento do luto espiritual e distinguir a tristeza mundana sem consolação da tristeza segundo Deus.
A pobreza involuntária, a fome, a dor e a desonra produzem tristeza sem consolo quando falta conhecimento verdadeiro.
O domínio desordenado por prazeres e dores multiplica o sofrimento e fere a alma.
O
Evangelho, os profetas, os discípulos e os apóstolos ensinam que a pobreza conduz à riqueza inexaurível e a via estreita livra da tribulação eterna.
A tristeza mundana produz morte porque gera trevas espirituais, enquanto o luto espiritual comunica a luz divina que é a verdadeira vida da alma.
São Marcos ensina que os maus pensamentos obscurecem a alma, ocultam a realidade do pecado e impedem a oração purificadora necessária para encontrar a morada interior de Cristo.
A tristeza mundana nasce das paixões e antecipa o luto eterno, enquanto o luto
bem-aventurado consola, antecipa a alegria eterna, estabiliza a virtude e impede a regressão espiritual.
O luto pelos pecados remove a disposição para o mal e faz com que os pecados passados sejam tratados por Deus como involuntários, abrindo caminho para a vida eterna.
O primeiro estágio do luto é doloroso por estar unido ao temor de Deus, mas seu desenvolvimento une-se ao amor divino e conduz à consolação sagrada do Paráclito.
O início do luto assemelha-se a um pedido de desposório com Deus, enquanto sua consumação é união nupcial pura com o Esposo, pela qual a alma se torna um só espírito com o Senhor.
A graça que habita nos santos não é criada, pois nela o próprio Espírito se une aos santos, e o luto perfeito assemelha-se ao abraço do
Pai ao filho pródigo que retorna.
Na pobreza bem-aventurada, a alma deve prostrar-se e chorar diante do Senhor para lavar os pecados passados, tornar-se inacessível ao mal e receber a bênção e a consolação do Paráclito, glorificando o
Pai não originado e o
Filho unigênito pelos séculos.