A defesa da vida de quietude parte da confiança nos santos como testemunhas da verdade, pois rejeitar os santos equivale a rejeitar o próprio Deus dos santos, e por isso as objeções dos que se dedicam à erudição profana contra o recolhimento do intelecto no corpo devem ser examinadas à luz da experiência espiritual.
Os críticos afirmam que seria errado encerrar o intelecto no corpo e que seria preciso afastá-lo dele por todos os meios.
Eles zombam daqueles que aconselham os iniciantes a voltar o olhar para si mesmos e a recolher o intelecto por meio da respiração.
A acusação de que a graça divina seria introduzida pelas narinas é uma deturpação maliciosa da prática hesicasta.
O corpo não é mau nem indigno de abrigar o intelecto, pois
São Paulo o chama de templo do
Espírito Santo e morada de Deus, e o mal não consiste em o intelecto estar no corpo, mas em prender-se a pensamentos materiais.
A crítica à presença do intelecto no corpo aproxima-se da heresia que considera o corpo mau ou obra do
diabo.
Davi e Isaías testemunham que também a carne, o coração, o ventre e as entranhas podem desejar, alegrar-se e ressoar diante de Deus.
Quando
São Paulo fala do “corpo desta morte”, não condena a carne como natureza, mas a lei do pecado que nela se infiltrou pela queda.
A lei do pecado deve ser combatida no corpo pela vigilância do intelecto, que ordena as faculdades da alma e os membros do corpo mediante autocontrole, amor, sobriedade e oração purificadora.
O autocontrole regula os sentidos.
O amor orienta a parte passível da alma.
A sobriedade remove o que impede a ascensão da mente a Deus.
O intelecto purificado pela oração recebe no coração a luz do conhecimento da glória de Deus na pessoa de
Jesus Cristo.
O intelecto utiliza o coração como seu órgão principal, pois os pensamentos saem do coração e, segundo São
Macário, ali residem o intelecto e todos os pensamentos da alma.
A alma é uma só entidade com muitas potências e utiliza o corpo como órgão natural.
O intelecto não está no corpo como em recipiente material, pois é incorpóreo, mas está unido ao homem e atua pelo coração.
A vigilância rigorosa exige recolher o intelecto disperso pelos sentidos e reconduzi-lo ao coração, santuário dos pensamentos.
A vida espiritual exige que o intelecto retorne ao interior do corpo e do coração, pois a glória da alma está dentro, o Espírito clama no coração e o Reino dos céus está no interior do homem.
Resistir ao pecado, adquirir virtude e alcançar a percepção inteligível requerem a volta do intelecto a si mesmo.
Extrair o intelecto do corpo, e não apenas dos pensamentos materiais, é ilusão profana, raiz de heresia e invenção demoníaca.
O caminho correto instala o intelecto no corpo, no coração e em si mesmo.
A distinção entre essência e energia do intelecto permite compreender que ele pode retornar a si mesmo, pois sua atividade direta contempla as coisas exteriores, enquanto sua atividade circular volta-se para si e por si ascende a Deus.
A tradição hesicasta é confirmada por São João Clímaco, que define o hesicasta como aquele que procura encerrar o incorpóreo no corpo, e por isso a oração verdadeira não mantém o intelecto fora do corpo, mas o recolhe no interior.
A tentativa de manter o intelecto fora do corpo favorece delusões espirituais.
O hesicasta deve possuir dentro de si aquele que assumiu corpo e penetra toda matéria organizada.
O corpo material só pode abrigar o intelecto quando vive de modo adequado à união com ele.
O ensino dado aos iniciantes para olhar para dentro de si e recolher o intelecto com auxílio da respiração é legítimo, pois o intelecto inexperiente se dispersa continuamente e precisa ser reconduzido até alcançar concentração unificada.
A atenção à inspiração e à expiração ajuda a conter a mobilidade do intelecto.
O controle da respiração acompanha espontaneamente a concentração intensa.
Os que praticam a quietude corporal e mental repousam espiritualmente de toda atividade pessoal e transitória.
A experiência espiritual confirma a utilidade da postura corporal e do recolhimento interior, pois o corpo curvado, o olhar fixo no peito ou no umbigo e a atenção ao centro interior ajudam a reconduzir ao coração a potência do intelecto dispersa pelos sentidos.
O progresso na quietude torna espontâneas práticas que para os iniciantes exigem esforço.
A paciência nasce do amor e conduz ao próprio amor.
A postura corporal pode cooperar com o movimento circular do intelecto.
O estabelecimento da lei do intelecto no lugar onde atua a lei do pecado impede o retorno agravado do espírito mau expulso pelo batismo.
A ordem mosaica de estar atento a si mesmo exige vigilância integral da alma e do corpo pelo intelecto, para subjugar o homem não regenerado ao Espírito e impedir que alguma iniquidade secreta permaneça no coração.
A atenção a si mesmo liberta das paixões corporais e anímicas.
Quem examina a si mesmo não será condenado pelo juízo divino.
Quando o desejo corporal retorna à alma e por ela se eleva a Deus, também a carne se transforma e se torna morada de Deus.
A carne deve ser cuidadosamente vigiada porque nela se levanta o espírito mau contra o homem, e por isso até os perfeitos adotaram posturas corporais de oração que auxiliam o recolhimento interior.
Elias inclinou a cabeça sobre os joelhos, recolheu o intelecto em si e em Deus, e pôs fim à longa seca.
Os críticos da oração recolhida agem como fariseus, preocupados com o exterior e alheios à purificação do coração.
A postura do publicano, que não ousava levantar os olhos ao céu, confirma a legitimidade de voltar o olhar para si na oração.
Os adversários da quietude caluniam os hesicastas, pois atacam símbolos corporais usados para expressar realidades inteligíveis e espirituais, mas seus ataques aumentam a recompensa dos santos e os deixam fora da contemplação da verdade.
Eles escrevem por autoadulação, não por amor à verdade.
Eles procuram afastar os homens da vigilância espiritual.
Eles ridicularizariam até expressões bíblicas sobre a lei de Deus no centro do ventre e as entranhas restauradas por Deus.
A tradição de recolher o intelecto em si mesmo é transmitida por santos reconhecidos, como Simeão, o Novo Teólogo,
Nicéforo, Teolepto de Filadélfia,
Atanásio,
Nilo da Itália, Seliotes, Elias, Gabriel e outros homens dotados de experiência e graça.
Simeão, o Novo Teólogo, viveu uma existência milagrosa e deixou escritos de vida.
Nicéforo transmitiu textos dos santos padres sobre a vigilância.
Teolepto de Filadélfia iluminou o mundo como verdadeiro teólogo e visionário dos mistérios divinos.
A obediência deve ser dada aos que ensinam por experiência e graça, não aos que ensinam por vaidade, disputa e raciocínio espúrio.