Oração

Philokalia

  1. Às vezes, e com mais frequência, deve-se sentar num banquinho, pois é mais árduo, mas às vezes, para descanso, deve-se sentar por um tempo num colchão, e ao sentar deve-se ser paciente e assíduo, conforme o preceito de São Paulo “Perseverai pacientemente na oração” (Colossenses 4:2), sem se desencorajar e levantar rapidamente por causa da tensão e do esforço necessários para manter o intelecto concentrado em sua invocação interior.
    • Isaías diz: “As dores do parto se apoderaram de mim, como as de uma mulher em trabalho de parto” (Isaías 21:3).
    • Deve-se inclinar e reunir o intelecto no coração — desde que ele esteja aberto — e invocar o Senhor Jesus pedindo ajuda, suportando pacientemente e com fervor qualquer dor nos ombros ou na cabeça.
    • O Senhor diz: “O reino dos céus é alcançado pela força, e os que se forçam o tomam posse” (Mateus 11:12), indicando verdadeiramente a persistência e o labor necessários nessa tarefa.
  2. Alguns pais aconselham a dizer a oração completa “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem misericórdia de mim”, enquanto outros especificam dizê-la em duas partes — “Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia” e depois “Filho de Deus, ajuda-me” — porque isso é mais fácil, dada a imaturidade e a fraqueza do intelecto, pois ninguém por conta própria e sem a ajuda do Espírito pode invocar misticamente o Senhor Jesus, já que isso só pode ser feito com pureza e em sua plenitude com a ajuda do Espírito Santo (1 Coríntios 12:3).
    • Não se deve por preguiça mudar frequentemente as palavras da invocação, mas apenas raramente, para assegurar a continuidade.
    • Alguns pais ensinam que a oração deve ser dita em voz alta, outros que deve ser dita silenciosamente com o intelecto, mas com base na experiência pessoal recomenda-se ambos os modos, pois às vezes o intelecto se torna indolente e não consegue repetir a oração, e outras vezes o mesmo acontece com a voz.
    • Ao orar vocalmente deve-se falar em voz baixa e calma e não em voz alta, para que a voz não perturbe e não impeça a consciência e a concentração do intelecto, pois quando a oração for ativada no intelecto não haverá necessidade de orar em voz alta — na verdade, será impossível —, pois se estará satisfeito em realizar todo o trabalho apenas com o intelecto.
  3. Ninguém pode dominar o intelecto a menos que ele mesmo seja dominado pelo Espírito, pois o intelecto é incontrolável não porque seja por natureza sempre ativo, mas porque por nossa contínua remissão foi entregue à distração e a isso se acostumou, e quando violamos os mandamentos dAquele que nos regenera no batismo nos separamos de Deus e perdemos nossa consciência Dele e nossa união com Ele.
    • O intelecto separado dessa união e alienado de Deus é levado cativo por toda parte, e não pode recuperar sua estabilidade a menos que se submeta a Deus e seja aquietado por Ele, unindo-se alegremente a Ele por meio de oração incessante e diligente e por meio da confissão noética de todas as nossas faltas a Ele cada dia.
    • O Salmista diz: “Confessai ao Senhor e invocai o Seu santo nome” (Salmo 105:1).
    • Refrear a respiração também ajuda a estabilizar o intelecto, mas apenas temporariamente, pois depois de um pouco ele volta a se distrair, enquanto quando a oração é ativada ela realmente mantém o intelecto em sua presença e o alegra e liberta do cativeiro.
    • A mente só é posta sob controle naqueles que foram aperfeiçoados pelo Espírito Santo e que alcançaram um estado de concentração total em Cristo Jesus.
  4. No caso de um iniciante na arte da guerra espiritual, somente Deus pode expulsar os pensamentos, pois são apenas os fortes nessa guerra que estão em posição de lutar contra eles e bani-los — e mesmo eles não o fazem por si mesmos, mas combatem com a assistência de Deus, revestidos com a armadura de Sua graça.
    • São João Clímaco diz: “Açoita os teus inimigos com o nome de Jesus”, pois Deus é um fogo que cauteriza a maldade (Deuteronômio 4:24; Hebreus 12:29).
    • O Senhor é pronto para ajudar e virá prontamente em defesa dos que O invocam de todo o coração de dia e de noite (Lucas 18:7).
    • Se a oração ainda não foi ativada, podem-se pôr os pensamentos em fuga de outro modo, imitando Moisés (Êxodo 17:11-12): levantando-se, erguendo as mãos e os olhos ao céu, e Deus os porá em fuga.
    • Se a oração está ativada e se é atacado pelas paixões corporais mais obstinadas e graves — nomeadamente a indolência e a luxúria —, deve-se às vezes levantar e erguer as mãos pedindo ajuda contra elas, mas fazendo isso apenas raramente, e depois voltar a sentar, pois há o perigo do inimigo enganar mostrando alguma forma ilusória da verdade.
  5. Não se deve salmodiar com frequência, pois isso induz a inquietação, nem tampouco deixar de salmodiar de todo, pois isso induz à indolência e à negligência, devendo-se seguir o exemplo dos que salmodiam de tempos em tempos, pois a moderação em todas as coisas é o melhor, como dizem os antigos gregos.
    • Salmodiar com frequência é apropriado para os noviços na vida ascética, por causa do labor que envolve e do conhecimento espiritual que confere, mas não é apropriado para os hesicastas, que se concentram totalmente em orar a Deus com labor do coração, evitando todas as imagens conceituais.
    • São João Clímaco diz: “A quietude é o despojamento dos pensamentos”, sejam de realidades sensíveis ou inteligíveis, e ainda: “Dedica a maior parte da noite à oração e apenas uma pequena parte à salmodia.”
    • Se ao estar sentado se vê que a oração está continuamente ativa no coração, não se deve abandoná-la e levantar para salmodiar até que, no bom tempo de Deus, ela parta por conta própria.
    • A salmodia foi nos dada por causa de nossa grosseria e indolência, para que sejamos conduzidos de volta ao nosso verdadeiro estado, e nossa salmodia deve estar de acordo com nosso modo de vida e ser angélica, não espiritual e secular.
    • São João Clímaco diz que a oração noética é “a fonte das virtudes” e que rega as faculdades da alma como plantas.
    • Os que ainda não foram iniciados na oração devem salmodiar com frequência, sem medida, recitando grande variedade de salmos, e não devem desistir dessa prática assídua até alcançarem o estado de contemplação e descobrirem que a oração noética está ativada neles.
    • São Paulo diz: “Que cada um persevere naquilo a que foi chamado” (1 Coríntios 7:24).
    • Uma vez provada a graça, deve-se salmodiar com parcimônia, dando a maior parte do tempo à oração, mas se se sentir indolência deve-se salmodiar ou ler textos patrísticos.
    • São João Clímaco diz: “As coisas pequenas podem não parecer sempre tão pequenas aos grandes, e as coisas grandes podem não parecer completamente perfeitas aos pequenos.”
  6. O ventre, rainha das paixões, se puder ser mortificado ou semi-mortificado, não se deve relaxar, pois por ele caímos e por ele — quando bem disciplinado — nos levantamos, e por ele perdemos tanto nosso estado divino original quanto o segundo estado divino que nos foi conferido quando renovados em Cristo pelo batismo.
    • Um hesicasta deve sempre comer pouco, nunca em excesso, pois quando o estômago está pesado o intelecto fica nublado e não se pode orar resolutamente e com pureza.
    • Quem quer alcançar a salvação e se esforça por amor ao Senhor para levar uma vida de quietude deve estar satisfeito com um pão de peso, três ou quatro copos de água ou vinho diariamente, tomando no momento apropriado um pouco dos alimentos que estiverem à mão, mas nunca comendo até a saciedade.
    • Ezequiel diz: “Filho do homem, por peso comerás o teu pão e por medida beberás a tua água” (Ezequiel 4:16).
    • Há três graus de alimentação: o autocontrole — ficar com fome depois de ter comido —, a suficiência — não ficar com fome nem sobrecarregado — e a saciedade — ficar levemente sobrecarregado.
    • Comer novamente depois de atingir o ponto de saciedade é abrir a porta da gula, pela qual entra a impudicícia.
    • São Paulo diz que apenas os perfeitos podem estar tanto com fome quanto saciados e ao mesmo tempo fortes em todas as coisas (Filipenses 4:12).
  7. Ao redor dos iniciantes e dos que dependem de seu próprio conselho os demônios estendem as redes de pensamentos e imagens destrutivos e abrem fossos nos quais tais pessoas caem, pois sua cidade ainda está nas mãos dos obreiros da iniquidade, e em sua impetuosidade são facilmente mortos por eles.
    • A lembrança de Deus, ou oração noética, é superior a todas as outras atividades, sendo o amor por Deus e a principal virtude, mas uma pessoa que é atrevida e desavergonhada em sua aproximação a Deus e excessivamente zelosa em seus esforços para conversar com Ele em pureza é facilmente destruída pelos demônios se lhes for dada licença para atacá-la.
    • O Senhor em Sua compaixão frequentemente nos impede de sucumbir à tentação quando nos vê aspirando excessivamente com confiança a alcançar o que ainda está além de nossas capacidades.
    • São Paulo chama de “discernimento de espíritos” (1 Coríntios 12:10) o dom divino que permite distinguir entre o mau e o bom com a espada do ensinamento de Deus (Efésios 6:17).
    • Siraque diz: “Mantém a paz com muitos, mas que os teus conselheiros sejam um em mil” (Eclesiastes 6:6).
    • Se ao cultivar a quietude e aspirar a estar com Deus se vir algo — seja sensorial ou noético, dentro ou fora, seja mesmo uma imagem de Cristo, de um anjo ou de algum santo, ou se se imaginar ver uma luz no intelecto e lhe der uma forma específica —, nunca se deve entretê-la, pois o próprio intelecto possui naturalmente um poder imaginativo e pode facilmente produzir, para seu próprio prejuízo, quaisquer formas e imagens que queira.
    • Deve-se sempre ser cauteloso e manter o intelecto livre de cores, formas e imagens, não dando assent prontamente a nada antes de interrogar os que têm experiência espiritual e investigar cuidadosamente.
    • Um noviço deve prestar atenção exclusivamente à atividade de seu coração, pois este não é enganado, rejeitando tudo o mais até que as paixões se acalmem.
    • A oração autêntica — o calor que acompanha a Oração de Jesus, pois é Jesus quem acende o fogo na terra de nossos corações (Lucas 12:49) — consome as paixões como espinhos e enche a alma de deleite e alegria.
    • O Senhor diz: “Coragem; sou Eu; não temais” (Mateus 14:27).
    • A guarda mais segura contra a queda da alegria da oração para um estado de presunção é perseverar na oração e no luto interior, pois abraçando uma tristeza cheia de consolo se permanece protegido do dano.
    • Há três virtudes relacionadas com a quietude que devem ser guardadas escrupulosamente: o autocontrole, o silêncio e a autorrepreensão, que é o mesmo que humildade, sendo todas elas abrangentes e se sustentando mutuamente, e delas nascendo a oração e por elas florescendo.
    • A graça começa a operar nas pessoas durante a oração de maneiras diferentes, pois o Espírito se distribui como quer em uma variedade de modos (Hebreus 2:4): em alguns o Espírito aparece como um redemoinho de temor; em outros como um sentido de júbilo interior ou exultação; em outros se manifesta interiormente como um fogo não material mas real; e finalmente em outros — particularmente nos bem avançados na oração — Deus produz um fluxo suave e sereno de luz.
    • Elias o Tisbita serve aqui como exemplo (1 Reis 19:11-12), pois Deus disse a Elias no monte Horeb que o Senhor não estava nisto ou naquilo — não nas ações particulares em que Se manifesta aos iniciantes —, mas no fluxo suave de luz, pois é neste que Ele atesta a perfeição de nossa oração.
    • São Paulo diz que Cristo vem habitar no coração (Efésios 3:17), revelando-Se misticamente pelo Espírito Santo.
    • Os efeitos da graça são evidentes por si mesmos: ela induz gentileza, longanimidade, humildade, alegria, serenidade e estabilidade nos pensamentos, e faz odiar o que é mundano e cortar a indulgência sensual e a atividade das paixões — o que o diabo não consegue produzir, pois ele produz vaidade, arrogância, covardia e toda espécie de mal.
    • A alface é semelhante em aparência à chicória, e o vinagre ao vinho, mas quando se os prova o palato discerne e reconhece as diferenças entre cada um, e do mesmo modo a alma, se possui o poder do discernimento, pode distinguir com seu sentido noético entre os dons do Espírito Santo e as ilusões de Satanás.