ZOLLA, Elémire. I mistici dell’Occidente. 2. In: Gli Adelphi. Nuova edizione riveduta, terza edizione ed. Milano: Adelphi edizioni, 2013.
Quando a alma é transportada para as coisas visíveis ao espírito, mas semelhantes às que são visíveis ao corpo, de modo a se afastar dos sentidos do corpo mais do que no sono, mas menos do que na morte, ela é socorrida pela admoestação divina, graças à qual sabe que não está vendo corpos, mas visões semelhantes a corpos. Assim como aqueles que sabem que estão vendo em sonho antes mesmo de acordar, são essas pessoas, mesmo que pareçam vislumbrar as coisas que estão por vir de modo a conhecer o futuro, cujas imagens são vistas como se estivessem presentes, seja porque a mente do homem é divinamente auxiliada, seja porque uma das coisas assim reconhecidas revela seu significado; João, no Apocalipse, beneficiou-se de tal revelação. E grande é a revelação, mesmo que aquele a quem essas coisas são reveladas ignore se saiu do corpo ou ainda se encontra nele, mas, de qualquer forma, vê com o espírito afastado dos sentidos. De fato, quem é assim arrebatado pode até ignorá-lo, caso isso não lhe seja abertamente revelado. Além disso, se foi arrebatado para fora dos sentidos corporais de modo a encontrar-se entre essas semelhanças dos corpos que se veem com o espírito, será por elas arrebatado para ser transportado à região das ideias intelectuais. Ali se reconhece a verdade límpida, sem qualquer semelhança corporal, sem que seja obscurecida por nuvens de falsas opiniões. Ali as virtudes da alma não são cansativas; ali a única virtude está em amar o que se vê, e a felicidade suprema é ter o que se tem. Ali a vida bem-aventurada é saboreada em sua fonte, de onde se espalha algo sobre esta vida humana, de modo que se vive nas tentações deste século com temperança firme, com justiça prudente. Ali se reconhece a claridade do Senhor, não por visão significativa ou corporal, como foi vista no Sinai, nem espiritual, como a viram Isaías ou João no Apocalipse, mas especificamente, a olho nu, na medida em que a mente humana pode compreender, segundo a graça de Deus que a eleva, de modo que Deus fale face a face com aquele a quem Ele tornou digno de tal colóquio, e entende-se a face da alma e não do corpo, como foi escrito a respeito de Moisés, que, segundo o Êxodo, quis ver Deus, não como O havia visto no monte ou no tabernáculo, mas na essência em que Deus consiste, sem as semelhanças corporais, na medida em que isso é dado à mente humana. Ele o mereceu, como atesta o Senhor dizendo: «Se houver entre vós um profeta, eu, o Senhor, falarei com ele em visão ou em sonho, não como com o meu servo Moisés, falando-lhe face a face, à vista e não por enigmas» (Números, 12, 6-8), e Moisés viu a claridade de Deus. Deus fala com aqueles que deseja com essa eloquência inefável, de forma mais secreta e com maior presença; de fato, nenhum ser vivo jamais O viu, vivendo nesta vida mortal, com estes sentidos corporais, a não ser que já estivesse morto para esta vida ou tivesse saído do corpo, ou fosse tão avesso às coisas carnais e delas alienado a ponto de não saber, como o Apóstolo, se se encontra no corpo ou fora dele, quando é arrebatado nessa visão tão verdadeira e certíssima. Ali, de fato, se saboreia, ainda que parcialmente, a verdadeira vida que, após esta outra mortal, nos caberá viver junto com os anjos na eternidade. Por isso, o Senhor diz: «Bem-aventurados os puros de coração, porque verão o Senhor». Quando a mente humana é iluminada por tal visão, ela percebe todas as coisas com verdadeira inteligência em si mesma ou na visão, pois a luz em que se encontra é Deus. Quando, arrebatada para fora dos sentidos corporais, a alma se apresenta a essa visão que não se produz num espaço, mas de um modo todo particular, ela vê também acima de si mesma aquilo em graça do qual reconhece também algo dentro de si. Que a alma que aspira a essa doçura tenha cuidado, para que, antes de ter experimentado essa visão diviníssima, não se deixe arrebatar pelo anjo de Satanás, semelhante ao anjo da verdadeira luz; que tenha cuidado para não acolhê-lo, confiando no que ele não pode dar, e para não pôr em dúvida, por outro lado, o arrebatamento que ocorre pela virtude do espírito; antes: não acredite em nenhum espírito que a arrebate de qualquer forma, mesmo que prediga coisas verdadeiras. De fato, o arrebatamento demoníaco que nos ilude produz o falso profeta; ao contrário, o espírito bom conduz ao dom da profecia o fiel que arrebatou em êxtase apenas algum tempo depois de tê-lo tornado eloquente nos mistérios.
A visão intelectual não se obtém por meio de palavras e sílabas, como pela audição, mas pela intuição simultânea da mente, como se tem pela visão, da mesma forma que todas as coisas se revelam em um único momento no próprio espírito de Deus, conhecidas e vistas em vez de ouvidas por meio de enigmas, e tal visão vê com veracidade e imutabilidade. Por isso, os profetas são chamados de videntes. Assim como o corpo do homem, se fosse todo um olho, pela frente e por trás, veria as coisas ao redor de uma só vez, da mesma forma a mente iluminada por Deus, naquele momento da ascensão, compreende todas as coisas que lhe são mostradas simplesmente olhando para elas.
Portanto, quando começares a ser uma pomba de simplicidade na conversa espiritual e uma rola de castidade na adesão a Deus, mantém-te em guarda com maior diligência contra as astúcias do abutre que ronda por aí, isto é, contra as armadilhas e os arrebatamentos do demônio meridiano, de cujas laços não escaparás a não ser submetendo-te à obediência em plena humildade. De fato, muitas vezes ele costuma arrebatar as almas dedicadas à oração perpétua com lágrimas, sem qualquer opressão, mas, pelo contrário, elevando-as acima dos sentidos corporais e predizendo coisas, aliás, verdadeiras, admoestando-as sobre muitas coisas santas e salutares, para poder enganá-las melhor quando elas quase dão crédito a essas coisas boas. No entanto, em virtude da verdadeira fé, ele também está condenado a se revelar, manifestando-se como demônio (daemonem se esse manifeste personare) à alma que, em êxtase, pergunta: «Quem és tu?». Às vezes, ele arrebata a alma e ilude vilmente o corpo, o que o revela, sem dúvida, como espírito imundo. Àqueles que progridem no mosteiro, ele sugere o eremitério, e precipita aquele que lhe dá ouvidos e que ele arrancou do caminho da salvação para o abismo da morte eterna, matando-o. Além disso, exaspera aquele que permanece no claustro contra as ordens dos outros, para afastá-lo da paz do coração. Sugere aos mais devotos que se elevem acima de si mesmos entre as coisas grandes e maravilhosas, levando-os ao exagero em qualquer de suas ocupações. Ele quer, com o excesso, mostrar-se espírito santo àqueles que não o reconhecem, e à alma iludida não resta nenhum recurso se não receber iluminação de Deus. De fato, muitas vezes, com um concerto de sons doces, que ressoa no céu, quando a alma é arrebatada e pergunta «Quem és tu?», recebe a resposta: «Eu sou Deus».
A mente que ainda não foi iluminada dessa maneira se engana por muito tempo, acreditando que ora é o espírito bom, ora o mau que a arrebata maravilhosamente, e é necessário que sofra quando o Espírito Santo sopra levemente. De fato, quando é arrebatada pelo anjo bom, Deus lhe concede discernir com um certo sabor espiritual. Quando então se purifica a ponto de ser capaz de compreender as palavras da própria Sabedoria, sem mediador algum, elevada no Espírito Santo para Deus e fora do corpo e de toda imaginação, então, com suavíssima doçura, com um único e verdadeiro intuito, vê, sabe e compreende tudo o que lhe é mostrado naquela visão segura.