O Cântico das Criaturas revela que
Francisco de Assis, ao louvar a noite, não se detém em sua escuridão, mas sim nas suas claridades, evidenciando uma contínua busca pela luz divina através das criaturas.
A denominação de “irmã” para a lua e as estrelas, no poema, indica uma relação de afeto íntimo e pessoal de Francisco com esses elementos cósmicos, indo além de uma simples menção.
A escolha do adjetivo “preciosas” para qualificar as estrelas revela uma valorização profunda e simbólica da matéria cósmica, criando uma imagem rica em significados inconscientes que transcendem o sentido objetivo.
Essa palavra, “preciosas”, é a mesma que Francisco utiliza para designar os objetos e lugares destinados à Eucaristia, estabelecendo uma relação entre o valor das estrelas e o do sagrado.
Ao aplicar esse termo à lua e às estrelas, o santo confere a essas realidades cósmicas uma expressividade sacra, transformando-as em uma linguagem do sagrado para ele.
A valorização religiosa da lua, conforme os estudos de Eliade, está ligada à compreensão do declínio e da morte como fases necessárias para um novo nascimento, reconciliando o homem com seu destino cíclico.
Esse simbolismo lunar, que ilustra a morte seguida de ressurreição, foi posteriormente utilizado pela apologética cristã para prefigurar a ressurreição, como exemplificado por Santo
Agostinho.
No entanto, a imagem lunar no Cântico não faz alusão direta a essas fases, devendo ser compreendida no movimento total do poema, que integra o sofrimento e a morte como vias de acesso ao Transcendente.
A celebração da lua e das estrelas, logo após o louvor ao sol, revela uma atitude de acolhimento ao mistério noturno, indicando que também nessa face da existência há luz para aqueles que se entregam ao mistério total da vida.
A noite, para o homem que busca controlar racionalmente seu destino, não possui valor, ao passo que, para aquele que a acolhe com confiança, ela se torna símbolo das profundezas inconscientes e maternas do ser, como ilustrado por Péguy.
No âmbito psíquico, as imagens da noite e de suas claridades funcionam como um espelho para a alma, revelando suas próprias profundezas, seu inconsciente e seu mistério total, onde o homem se reconhece e se confronta consigo mesmo.
A imagem de “Irmã Lua e as Estrelas” é valorizada não por sua utilidade ou função, mas por seu próprio ser, sua substância, abrindo caminho para um mundo de valores interiores que pertencem ao domínio do “ser” e não do “fazer”.
A associação dos adjetivos “claras” e “preciosas” remete, inconscientemente, à figura de Santa Clara, cujo nome e vida consagrada se tornam um símbolo para a integração do princípio feminino na espiritualidade de Francisco.
A presença de Clara representa para Francisco um acolhimento em profundidade, uma abertura ao ser e à mulher em sua vocação transcendente, o que foi fundamental para sua maturidade espiritual e a “espiritualização da vida”.
A louvor a Irmã Lua e as Estrelas é uma expressão simbólica e inconsciente da experiência profunda de espiritualização das forças obscuras, da transfiguração do Eros em Ágape, onde os símbolos femininos noturnos representam o confronto do homem com sua própria “noite” interior.
Essas imagens simbolizam o arquétipo feminino em sua universalidade, representando a vida, a morte, o desejo e o progresso espiritual, e traduzem a metamorfose da alma ao se abrir para seu mistério total.
No Cântico, a imagem das claridades da noite complementa a do sol, formando um casal cósmico fraterno que evita os excessos de um regime espiritual unilateral, seja ele puramente solar (racionalista) ou puramente noturno (orgiástico).
Diferentemente de Nietzsche, que se identifica com seu próprio sol e confessa não poder cantar as estrelas, Francisco não se fecha em sua própria luz, mas se reconhece irmão de todas as criaturas e, com elas, eleva-se ao Altíssimo.
A celebração das claridades noturnas é a linguagem de uma alma pobre que, recusando-se a monopolizar o sol, permanece aberta ao mistério do ser em sua totalidade, sendo essa abertura já uma transfiguração que se expressa no grande símbolo cósmico feminino.
O louvor final, “Louvado sejas, meu Senhor, por Irmã Lua e as Estrelas”, emerge das profundezas da alma como um eco de uma pobreza íntima que, longe de ser vazia, é um grande esplendor interior, do qual todas as estrelas claras, preciosas e belas se originam.