A impassibilidade é apresentada como a flor da praktiké e como seu termo próprio, de modo que o Tratado Prático poderia ser compreendido como tratado sobre a impassibilidade, pois sua primeira parte expõe a libertação progressiva das paixões mediante a rejeição dos pensamentos sugeridos pelos demônios, enquanto a segunda descreve a natureza desse estado e os sinais pelos quais sua aproximação e presença podem ser reconhecidas.
A noção de impassibilidade suscitou fortes críticas de
Jerônimo contra
Evágrio, sobretudo no contexto da controvérsia pelagiana, porque
Jerônimo entendeu a doutrina evagriana como pretensão de impecabilidade absoluta e a associou a erros de Prisciliano, dos gnósticos, dos seguidores de
Evágrio e do próprio
Evágrio, embora sua acusação se concentre especialmente na impassibilidade sem mencionar diretamente os demais erros origenistas.
A crítica de
Jerônimo possui fundamento parcial, porque a apatheia tem origem pagã e sobretudo estoica, designando no ideal do sábio a libertação das paixões fundamentais e a saúde da alma; ao definir a impassibilidade como saúde da alma,
Evágrio retoma uma concepção familiar aos estoicos, para os quais as paixões eram doenças da alma e a impassibilidade correspondia à cura dessas doenças.
A noção cristã de impassibilidade já existia antes de
Evágrio, aplicada sobretudo a Deus como propriedade divina, mas
Clemente de Alexandria foi decisivo ao propor a apatheia como ideal realizável pelo asceta cristão, articulando-a à encrateia, à gnose e à caridade;
Evágrio depende especialmente de Clemente ao fazer da impassibilidade um ideal humano acessível neste mundo e ao inseri-la no centro de uma doutrina espiritual em que a caridade conduz à ciência e a ciência conduz à caridade.
Evágrio define a impassibilidade, em continuidade com os estoicos, como saúde da alma, entendida de modo mais preciso como estado em que as três partes da alma foram curadas e cada uma delas age segundo sua própria natureza, em conformidade com a tradição platônica da divisão da alma em parte racional, parte irascível e parte concupiscível.
A parte racional da alma possui origem essencial, pois corresponde ao intelecto criado puro e incorpóreo, enquanto as partes irascível e concupiscível têm origem acidental e pertencem ao estado corporal do intelecto decaído; por isso, a cura necessária para a impassibilidade recai sobre essas duas partes passionais, que devem ser purificadas pela praktiké até que deixem de obscurecer o intelecto e passem a agir segundo sua natureza própria, sob as virtudes correspondentes.
A impassibilidade evagriana não implica a supressão da parte irascível nem da parte concupiscível, pois essas dimensões da alma desempenham papel positivo no estado virtuoso, auxiliando a salvação e sustentando a vida ascética; o corpo, do mesmo modo, não é desprezado, mas considerado instrumento necessário para a praktiké e para a aquisição da ciência espiritual, desde que a ascese seja moderada e não prejudique a saúde.
A impassibilidade não pertence propriamente a Deus nem ao intelecto em sua condição incorpórea, pois o que é puro, nu e sem corpo está acima dela; em
Evágrio, a impassibilidade pertence propriamente aos
anjos, isto é, aos seres corporais privados de paixões, de modo que, ao atingir a impassibilidade perfeita, o homem não se torna semelhante a Deus por essa propriedade, mas se torna semelhante aos
anjos e, em sentido forte, torna-se
anjo.
A impassibilidade possui muitos graus e não deve ser imaginada como estado absoluto obtido de uma só vez, pois se realiza progressivamente ao longo da praktiké;
Evágrio interessa-se especialmente pelas provas e sinais desse progresso, distinguindo falsa impassibilidade, proximidade das fronteiras da impassibilidade, passagem de uma impassibilidade relativa a uma muito profunda e passagem de uma impassibilidade imperfeita à perfeita, sendo o sinal principal a ausência de perturbação diante dos pensamentos e das lembranças.
A impassibilidade bem-aventurada é a meta imediata da praktiké, mas não constitui fim em si mesma, pois é buscada em vista da gnose ou ciência espiritual; por meio dela, o asceta torna-se gnóstico e passa da vida prática à vida gnóstica, embora praktiké e gnostiké não devam ser concebidas como dois domínios simplesmente justapostos, separados por uma linha rígida.
A impassibilidade não é um limite sem espessura, mas um estado com múltiplos graus, e a vida gnóstica começa já quando se atinge o limiar da impassibilidade; nesse período intermediário, a ciência espiritual ajuda a progredir na própria praktiké, pois nutre a alma, aperfeiçoa a cura das potências interiores e permite ao asceta avançar da impassibilidade imperfeita para a impassibilidade perfeita, aproximando-se da condição angélica.
A doutrina das Képhalaia gnostica distingue dois níveis de ciência dos seres criados, a ciência dos seres visíveis, ou contemplação natural segunda, e a ciência dos seres invisíveis, ou contemplação natural primeira; a primeira corresponde àqueles que ultrapassaram as fronteiras da impassibilidade, enquanto a segunda pertence aos que já alcançaram a impassibilidade perfeita, de modo que a impassibilidade descrita no Tratado Prático é uma realidade em progresso, orientada para a perfeição angélica.
A concepção evagriana da impassibilidade revela-se mais nuançada do que a crítica de
Jerônimo supunha, pois não faz dela uma propriedade divina atribuída ao homem nem uma perfeição consumada neste mundo, mas uma propriedade angélica em direção à qual o asceta progride; além disso, a impassibilidade está intimamente ligada à caridade, que dela nasce e a comprova, cura especialmente a parte irascível da alma, combate a cólera por piedade, misericórdia e doçura, e constitui junto com a impassibilidade a via de acesso à ciência espiritual.