Após uma relativa acalmia durante o século V, as discussões origenistas ressurgiram no início do século VI em meios monásticos palestinos, e o testemunho de Barsanúfio destacou o papel da obra de
Evágrio, especialmente dos Capítulos Gnósticos, nessa nova controvérsia.
Um monge consultou Barsanúfio após ler
Orígenes, Dídimo,
Evágrio e seus discípulos, ficando perturbado com doutrinas sobre a preexistência das almas, a condição inicial dos intelectos nus, a queda dos seres racionais e a apocatástase final.
Barsanúfio e João rejeitaram as opiniões gnósticas atribuídas a
Evágrio, mas admitiram a leitura do que nele fosse útil à alma, insistindo na humildade, na compunção e na recusa de especulações superiores à capacidade espiritual do monge.
A atitude de Barsanúfio diante de
Evágrio prolonga a tradição do Deserto, que preserva o valor ascético de
Evágrio, mas desconfia de seu ensinamento gnóstico por associá-lo à vaidade intelectual e ao orgulho espiritual.
A anedota transmitida por João Mosco sobre a cela de
Evágrio mostra a reputação negativa que circulava nos ambientes monásticos, nos quais suas opiniões eram vistas como inspiradas por um demônio e perigosas para a fé reta.
A consulta feita a Barsanúfio demonstra que a obra de
Evágrio continuava sendo lida nos mosteiros e que essa leitura gerava inquietações de consciência e divisões entre monges considerados bons, mas suspeitos de se julgarem gnósticos.
O conflito origenista do século VI deslocou-se para os mosteiros da região de Jerusalém, especialmente para a Nova Laura, fundada por dissidentes da Grande Laura de São Sabas e destinada a tornar-se o principal foco dos monges origenistas.
A história do conflito palestino é conhecida sobretudo pela Vida de São Sabas, de Cirilo de Citópolis, testemunho hostil aos origenistas, mas fundamental para reconstruir os acontecimentos.
O primeiro incidente conhecido ocorreu em 514, quando Agapeto descobriu na Nova Laura monges que difundiam secretamente opiniões de
Orígenes,
Evágrio e Dídimo sobre a preexistência, sob a liderança do palestino Nonos.
Leôncio de Bizâncio entrou no círculo origenista da Nova Laura e foi afastado por São Sabas em Constantinopla depois que se descobriu sua adesão às opiniões de
Orígenes.
Após a morte de São Sabas, Nonos e seus partidários intensificaram sua ação, contando com apoios influentes em Constantinopla, especialmente Domício e Teodoro Askidas, que favoreceram os origenistas junto ao poder imperial.
A violência entre monges aumentou depois da leitura pública de Antípatro de Bostra contra
Orígenes, levando à expulsão de origenistas da Grande Laura e ao reforço da Nova Laura como centro de resistência.
A intervenção imperial de 543 contra
Orígenes foi seguida pela divisão interna dos origenistas palestinos entre isocristas e protoctistas, sendo os primeiros o partido mais radical e ligado a Teodoro Askidas.
A condenação do origenismo em 553 ocorreu no contexto do quinto Concílio Ecumênico, convocado sobretudo para tratar dos Três Capítulos, mas também ligado à crise monástica palestina.
A tese segundo a qual o quinto Concílio não teria condenado o origenismo deve ser rejeitada, pois os testemunhos antigos e os documentos associados ao concílio confirmam uma condenação específica das doutrinas origenistas.
A intervenção de Conon e dos monges enviados por Eustóquio a Constantinopla contribuiu para a redação da carta de Justiniano ao sínodo e para a formulação dos anatematismos contra o origenismo.
A condenação conciliar de 553 não atingiu apenas
Orígenes, mas também
Evágrio e Dídimo, especialmente por suas doutrinas sobre a preexistência e a apocatástase.
Documentos conciliares posteriores, como o Sínodo in Trullo e o sétimo Concílio Ecumênico, confirmaram a associação de
Orígenes, Dídimo e
Evágrio como representantes de fábulas doutrinais condenadas.
Sophrônio de Jerusalém, Tarásio de Constantinopla,
Nicéforo e diversos historiadores bizantinos reiteraram que
Orígenes, Dídimo e
Evágrio haviam sido condenados pelo quinto Concílio.
Anastásio Sinaíta, Teófanes e Jorge, o Monge, apresentaram a condenação de
Orígenes, Dídimo e
Evágrio como rejeição de doutrinas sobre preexistência das almas, restauração dos demônios, fim dos castigos e dissolução dos corpos.
A associação de
Evágrio ao nome de
Orígenes não foi casual, pois sua obra continha de modo decisivo as opiniões sobre preexistência, apocatástase e transformação dos seres que foram condenadas em 553.
Os anatematismos de 543 resumem o origenismo tradicional atribuído a
Orígenes, condenando a preexistência das almas, a alma preexistente de Cristo, a forma esférica dos corpos ressuscitados, os astros animados, a limitação do poder divino e a apocatástase.
A série de 543 retoma principalmente erros já denunciados no século IV, mas acrescenta com maior nitidez a opinião sobre os corpos ressuscitados esféricos, cuja origem não se encontra claramente em
Evágrio.
Os quinze anatematismos de 553 desenvolvem uma formulação mais ampla e sistemática, centrada na preexistência dos intelectos, na queda diferenciada dos seres racionais, na mudança de corpos e nomes, e na restauração final da hênade primitiva.
A diferença essencial entre 543 e 553 está na cristologia, pois os anatematismos de 553 condenam a distinção entre o Verbo de Deus e o Cristo entendido como intelecto criado que permaneceu unido à contemplação divina.
A cristologia condenada em 553 afirma que o Cristo, como intelecto não decaído, criou o mundo, assumiu corpos diversos para salvar os seres racionais e deixará de ter preeminência quando todos forem restaurados à mesma união com o Verbo.
O documento de 553 visa mais diretamente os monges de Jerusalém, especialmente os isocristas, cuja doutrina sustentava que todos os seres racionais se tornariam iguais ao Cristo na apocatástase.
A oposição entre isocristas e protoctistas girava em torno da posição do Cristo, pois os isocristas defendiam a igualdade final de todos com Cristo, enquanto os protoctistas buscavam preservar alguma superioridade cristológica.
A citação de Teodoro Askidas confirma que o ponto decisivo da controvérsia era a igualdade dos apóstolos, mártires e demais intelectos com Cristo na apocatástase.
O resumo atribuído ao abade Ciríaco apresenta a doutrina isocrista como negação de que Cristo seja uma pessoa da
Trindade, destruição futura dos corpos, criação de mundos pelos restaurados e igualdade de todos com Cristo.
A doutrina resumida por Ciríaco coincide substancialmente com os quinze anatematismos de 553, confirmando que estes exprimem a doutrina dos monges origenistas palestinos, sobretudo dos isocristas.
A origem da cristologia isocrista deve ser buscada em
Evágrio, não em Pitágoras, Platão,
Orígenes ou Dídimo, pois os Capítulos Gnósticos expõem claramente o Cristo como intelecto unido à ciência da Unidade.
Em
Evágrio, o Cristo pertence às naturezas racionais e não é connatural à
Trindade enquanto Cristo, embora esteja sempre inseparavelmente unido ao Verbo de Deus pela ciência essencial.
A distinção evagriana entre Cristo e Verbo coincide com a condenada em 553, pois o Cristo é apresentado como natureza racional criada que possui Deus por união, e o Verbo é o verdadeiro Deus ao qual ele permanece unido.
Para
Evágrio, o Cristo, como único intelecto que permaneceu unido à Unidade, criou os corpos e os mundos em vista da salvação das naturezas racionais decaídas.
A encarnação, em sentido evagriano, não é atribuída primariamente ao Verbo, mas ao Cristo que possui o Verbo em si, formulação que corresponde diretamente ao nono anatematismo de 553.
A salvação completa implica que todos os intelectos acedam de novo à ciência essencial, tornem-se coerdeiros de Cristo e alcancem uma igualdade na Unidade em que não haverá chefes nem subordinados.
A cristologia de
Evágrio é essencialmente isocrista, pois não admite uma preeminência eterna do Cristo sobre os demais intelectos restaurados.
O décimo quarto anatematismo reproduz literalmente doutrinas dos Capítulos Gnósticos sobre a destruição dos mundos, a dissolução dos corpos, a abolição dos nomes e a igualdade final da ciência e das substâncias.
A teoria evagriana da abolição dos números e dos nomes corresponde à restauração da Unidade, pois a queda introduziu separação, diferenciação, corpos, mundos e denominações entre os intelectos.
O quinto anatematismo combina sentenças evagrianas sobre a passagem dos seres entre estados angélicos, psíquicos, demoníacos e humanos, demonstrando dependência textual direta dos Capítulos Gnósticos.
As correspondências doutrinais e literais mostram que os Capítulos Gnósticos constituem a principal fonte dos quinze anatematismos de 553 e que o origenismo então condenado é, em grande medida, origenismo evagriano.
A condenação de 553 transformou
Evágrio de autor suspeito em herege condenado e encerrou a linhagem de monges intelectuais que uniam ascese rigorosa e especulação sobre os mistérios.
A oposição entre monges simples e monges gnósticos não deve ser reduzida a impostura, pois os origenistas entendiam certas questões não reveladas como campo legítimo de investigação espiritual.
O espírito de livre pesquisa herdado de
Orígenes aparece em
Evágrio por fórmulas interrogativas e cautelosas, destinadas a reservar doutrinas difíceis aos capazes de compreendê-las.
Apesar da condenação,
Evágrio não pôde ser totalmente excluído da tradição monástica, porque sua autoridade ascética permanecia presente na História Lausíaca, na História dos Monges do Egito e nos Apotegmas dos Padres.
Autores como João Clímaco e Máximo, o Confessor, utilizaram amplamente
Evágrio sem nomeá-lo, ou apenas o mencionaram para reprová-lo, preservando sua influência enquanto evitavam seu nome condenado.
Copistas gregos suprimiram ou substituíram o nome de
Evágrio em textos monásticos, como nos Apotegmas e na tradição manuscrita da História Lausíaca, revelando a suspeita persistente contra sua pessoa.
A condenação de 553 provocou a perda do texto grego dos Capítulos Gnósticos, obra principal e especulativa de
Evágrio, enquanto seus escritos ascéticos puderam continuar circulando por não conterem explicitamente doutrinas origenistas.
A distinção feita pelo próprio
Evágrio entre ensinamento prático e ensinamento gnóstico facilitou a preservação de sua obra ascética e permitiu que ele continuasse sendo autoridade monástica mesmo após a condenação.
Parte da obra evagriana passou a circular sob o nome de
Nilo, provavelmente para permitir sua leitura edificante sob um nome menos comprometido com o origenismo.
O uso do nome de
Nilo funcionou como antídoto ao nome condenado de
Evágrio, favorecendo a conservação e a difusão de escritos ascéticos úteis à alma apesar da condenação de seu autor.
Os Capítulos Gnósticos revelam que
Evágrio foi mais origenista do que se pensava e que o origenismo combatido por Teófilo tinha consistência real, não sendo mera construção polêmica.
O confronto entre os Capítulos Gnósticos e os anatematismos de 553 mostra que o origenismo do século VI tinha afinidade ainda maior com
Evágrio do que com o origenismo do século IV.
A doutrina condenada em 553 foi principalmente o origenismo evagriano dos monges isocristas da Palestina, de modo que
Evágrio aparece, em certos aspectos, como mais responsável que
Orígenes pelo sistema anatematizado.
A história grega dos Capítulos Gnósticos terminou com a condenação e o desaparecimento do texto, mas continuou de modo inesperado entre os sírios, que preservaram a obra apesar de também serem hostis ao origenismo.