A imagem seguinte pertence à matemática mística: Eriúgena pode ter aprendido a riqueza de significados místicos da ogdóade em particular de
Ambrósio (in Lucam V 49), segundo o qual enquanto Lucas fala de quatro
beatitudes proclamadas por Cristo, que circunscrevem as virtudes cardinais, Mateus fala de oito
beatitudes — “nestas oito ele encerrou um número místico; de fato muitos
salmos são escritos para o octacordo [um instrumento de oito cordas mencionado, como lembra o mestre em 1021 a, no título do
salmo 6]… porque assim como a oitava é o cumprimento de nossa esperança, assim a oitava é a soma das virtudes.”
De
Boécio (de arithm. 25, 3), João Escoto sabia que o número oito é o primeiro número cúbico (2x2x2), que na hipérbole do mestre torna-se “a solidez mais perfeita… do cubo sobrenatural.”
Dos Ambigua de Máximo conhecia o oitavo dia como símbolo da presença divina e da consumação de todas as coisas: “O oitavo e primeiro dia, ou melhor o dia único e indestrutível, é a pura e mais manifesta presença de Deus… E ainda, o sétimo dia é o sábado… e o transcendimento do discurso gnóstico segundo a contemplação. Mas o oitavo dia é a verdadeira transformação mediante a graça em direção ao início e à causa…” (LXI 46-62).
No mais majestoso de seus poemas, Aulae sidereae (Traube III 550-2), composto no 877 — ou seja, uma boa decena de anos após o Periphyseon —, Eriúgena canta os louvores da oitava: “Octonus numerus diuinos symfonat actus, / Nam dominus noster, quem tempus formulat omne, / Octauis natus, conceptus, morte reuersus…” (O número oito faz ressoar as gestas divinas, / Porque o nosso Senhor, a quem a totalidade do tempo dá forma, / nasceu, foi concebido, ressuscitou da morte em oitavas…).