Sacerdócio 6

João Crisóstomo, Sacerdócio Livro VI

  1. A condição futura dos líderes eclesiásticos será insuportável, pois eles terão que prestar contas por cada alma sob seus cuidados, enfrentando não apenas vergonha, mas castigo eterno, conforme a advertência sobre os que vigiam pelas almas e a lei do atalaia que, se não soar a trombeta, será responsabilizado pelo sangue do que perecer.
  2. O sacerdote precisa de virtudes angélicas, com alma mais pura que os raios do sol para que o Espírito Santo não o abandone, e ele possa dizer que Cristo vive nele, enfrentando tentações muito maiores do que os reclusos do deserto, pois a beleza feminina, os enfeites e perfumes são capazes de perturbar a mente, a menos que ela seja endurecida por muita abstinência.
  3. Homens que escaparam dessas armadilhas caíram em outras opostas, como aparência descuidada, vestes sórdidas e pobreza, que primeiro despertam pena e depois levam à ruína; e como será possível respirar livremente com tantos laços em volta, incluindo as honras vindas de mulheres e homens, que geram bajulação servil e orgulho insensato?
  4. A maioria dos sujeitos ao sacerdote está atolada nos cuidados desta vida, tornando-se mais lenta nos deveres espirituais, de modo que o mestre precisa semear a doutrina diariamente; além disso, o sacerdote age como embaixador do mundo inteiro diante de Deus, pedindo por vivos e mortos, e ao invocar o Espírito Santo e oferecer o sacrifício terrível, sua alma deve ser mais pura que qualquer coisa, com os anjos em volta do altar.
  5. O conflito do sacerdócio é muito maior que o dos reclusos, pois estes dependem da força do corpo para jejuns e vigílias, enquanto aquele exige pureza de alma e virtudes como sobriedade e prudência, sem necessidade de vigor físico, sendo que o sacerdote deve ser um homem versátil, nem fingido nem bajulador, mas cheio de liberdade e firmeza, adaptando-se proveitosamente às circunstâncias.
  6. O recluso necessita de boas condições corporais e lugar adequado, mas o sacerdote dispensa esses aparatos, tendo toda sua habilidade armazenada no tesouro da mente; admiro a vida solitária como prova de paciência, mas não de fortaleza completa da alma, pois quem governa a nave no porto não dá prova de sua arte, ao contrário do que a guia em alto-mar.
  7. Não é surpreendente que o recluso, vivendo só, não cometa muitos pecados graves, pois não encontra irritações; mas quem se dedica a multidões e permanece firme em meio à tempestade merece justa admiração; Crisóstomo evita o mercado e a multidão para não ter muitos acusadores, mas se alguém examinar sua mente, encontrará muita corrupção, e ele confessa que, se pudesse escolher, preferiria mil vezes a distinção no cuidado da igreja, se fosse capaz.
  8. Basílio pergunta se devem colocar na administração da igreja os que vivem em sociedade, cheios de artifícios e vícios; Crisóstomo responde que tais homens não devem sequer ser considerados, mas sim aqueles que, mesmo misturando-se com todos, mantêm sua pureza e santidade inabaláveis; o cargo clerical testa as almas como o fogo testa os metais, revelando e agravando os defeitos, sendo que o bispo deve cuidar também das mulheres, o que oferece muitas oportunidades de ataque do maligno.
  9. O bispo verdadeiramente excelente não deve menosprezar as censuras, mas se purificar diante de todos com grande tolerância e mansidão, seguindo o exemplo de Paulo, que temia até a suspeita de furto e por isso providenciou outros para administrar o dinheiro, removendo antecipadamente as causas dos boatos ruins, embora fosse loucura suspeitar dele.
  10. Basílio pergunta se Crisóstomo está livre de trabalhos e cuidados vivendo só; ele responde que ainda os tem, mas a diferença é como entre cair num oceano sem limites e atravessar um rio; embora não possa ajudar outros, contenta-se em salvar a si mesmo das ondas, pois acredita que seu castigo será mais brando se não salvar outros do que se destruir a si e aos outros após tão grande honra.
  11. Deus acusa mais veementemente os israelitas porque pecaram após tantas honras, e ordena que se ofereça pelo sacerdote o mesmo sacrifício que por todo o povo, provando que as feridas do sacerdócio precisam de mais ajuda; até as filhas dos sacerdotes, por causa da dignidade do pai, sofrem punição mais severa pelo mesmo pecado que as filhas dos leigos.
  12. Crisóstomo pergunta se parecem razoáveis seus temores, pois embora agora seja tomado pela vaidade, muitas vezes se recupera, e desejos desenfreados acendem chama lânguida por falta de combustível; mas se viesse entre a multidão, não poderia se beneficiar dessas reflexões, e sua alma fraca seria facilmente dominada pelas paixões, que são como feras selvagens alimentadas por honras, poder, reputação, luxúria e sociedade feminina.
  13. Desde que Basílio lhe transmitiu a suspeita do bispado, Crisóstomo tem estado em perigo de desmoronamento completo, chorando pela noiva de Cristo, entregue a ele, o mais indigno; e para ilustrar sua angústia, imagina a filha do rei, belíssima e virtuosa, sendo dada a um homem vil e aleijado, ou um jovem pastor sendo posto no meio de um exército terrível, com todas as calamidades da guerra.
  14. Não pense que a descrição é exagerada, pois se pudesse ver com os olhos a batalha tenebrosa do diabo, veria algo muito mais terrível, com almas caídas e feridas espirituais, sem tréguas nem descanso, exigindo armadura constante; como então desejar comandar os soldados de Cristo, sendo o mais inexperiente e fraco, traindo-os para o serviço do diabo?
  15. Basílio lamenta, pois veio aprender que desculpa dar aos que acusam Crisóstomo, mas agora se preocupa com que desculpa dar a Deus por si mesmo; ele implora que Crisóstomo estenda a mão e não o deixe, mas Crisóstomo sorri e diz que virá confortá-lo sempre que possível, abraça-o e o exorta a suportar corajosamente sua sorte, crendo que Cristo lhe dará tal segurança que o receberá no tabernáculo eterno.