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Epístola do Conselho Privado

  1. A alma verdadeiramente humilhada e fundada na fé, que aniquila a si mesma em amor total ao Senhor, merece que Deus — com seu poder, sabedoria e bondade — a proteja de todas as adversidades sem que ela precise de qualquer esforço, ansiedade ou mérito próprio.
  2. As almas apenas parcialmente humilhadas não devem julgar nem estranhar as almas contemplativas que ousam abandonar-se totalmente a Deus, pois a vida ativa é suficiente para a salvação daquelas, mas não autoriza que censurem o caminho mais elevado das que vivem na contemplação.
  3. A recusa em dar crédito ao ensinamento unânime dos Padres da Igreja sobre a aniquilação do eu revela ou cegueira espiritual ou uma forma secreta de inveja, e tal resistência favorece o inimigo, que induz a confiar mais no próprio entendimento do que na sabedoria antiga e na graça divina.
  4. Quando a alma é tocada pela verdadeira contemplação — entendida como o “fazer nada de si” e o “fazer tudo de Deus” —, a razão humana morre completamente, assim como Raquel morreu ao dar à luz Benjamim, e quem tenta esquadrinhar com a razão as obras desse estado contemplativo age como quem mata o próprio filho recém-nascido.
  5. Da mesma forma que nos primeiros tempos da Igreja artesãos e estudantes abandonavam tudo subitamente ao serem tocados pela graça do martírio, é necessário crer que Deus ainda hoje toca almas escolhidas com a graça igualmente súbita da contemplação, preservando-as de todo inimigo pela bondade divina, sem esforço algum da parte delas.
  6. Quem se opõe a esse abandono total ou é movido pelo demônio, que rouba a confiança amorosa em Deus, ou ainda não atingiu a humildade necessária para a vida contemplativa, e não há razão para temer adormecer nessa percepção cega de Deus, pois o Senhor sustenta os passos de quem nele se lança.
  7. O trabalho da contemplação é justamente comparado ao sono, pois assim como no sono corporal os sentidos físicos se suspendem para que o corpo se restaure inteiramente, no sono espiritual as especulações inquietas da mente se calam para que a alma repouse em percepção amorosa de Deus e fortaleça suas potências espirituais.
  8. Ao oferecer a consciência nua e cega do próprio ser, é preciso mantê-la despida de qualquer atributo — nobreza, qualidade ou particularidade da existência humana —, pois qualquer revestimento alimenta o pensamento e lhe dá pretexto para dispersar a alma em inúmeras direções sem que ela perceba.