Na prática contemplativa solitária, a consciência deve ser esvaziada de todo pensamento prévio, de toda intenção deliberada e de toda forma vocal ou mental de oração, restando apenas um propósito nu e cego voltado a Deus sem qualquer atributo ou conceito.
Pensamentos bons e maus devem ser igualmente postos de lado antes da prática
Salmos, hinos, antífonas e demais formas de oração — sejam interiores ou vocais, gerais ou especiais — não devem ocupar a consciência ativa
A única oferta é a pura existência do contemplativo: “O fato de que existo, Senhor, ofereço a ti, sem me preocupar com qualquer atributo do teu ser, exceto simplesmente que és como és — nada além disso”
A crença nua de que Deus é como é deve servir de fundamento, sem que a inteligência discursiva penetre mais fundo nele
A escuridão humilde da consciência nua é o espelho em que o contemplativo deve ver a si mesmo e a Deus, reconhecendo que Deus é o ser do contemplativo, não apenas como causa, mas como presença habitante, de modo que os dois se unam em espírito sem divisão.
A distinção essencial permanece: Deus é o ser do contemplativo, mas o contemplativo não é o ser de Deus
Deus é ao mesmo tempo sua própria causa e seu próprio ser — nada pode existir sem ele, mas ele também não pode existir sem si mesmo
Por ser o ser tanto de si mesmo quanto de todas as coisas, Deus é um em todas as coisas e todas as coisas estão nele
O pensamento e o sentimento do contemplativo devem ser unidos a ele pela graça, sem curiosidade escrutinadora sobre os atributos obscuros do próprio ser ou do ser divino
O sustento secreto ocorre de modo cego e parcial — que é tudo o que é possível nesta vida presente — para que o desejo ardente nunca se esgote
O gesto contemplativo pode ser expresso de forma simples, seja em palavras, seja na intenção do coração, como oferta da própria existência a Deus.
“O fato de que existo, Senhor, ofereço a ti, pois és tu mesmo”
O pensamento deve ser nu, claro e simples, sem qualquer artifício ou engenhosidade
O ensinamento contemplativo não é difícil nem profundo, e o fato de que letrados e eruditos o considerem obscuro e abstruso é motivo de escândalo e de repreensão misericordiosa.
A cegueira produzida pela habilidade engenhosa do saber e dos dons naturais impede os letrados de alcançar o entendimento genuíno dessa obra simples de contemplação
A alma do homem ou da mulher mais simples e sem instrução une-se a Deus em humildade amorosa e caridade perfeita por meio dessa mesma obra
A distância entre o letrado cego e essa compreensão é maior do que a que separa uma criança aprendendo o alfabeto do maior sábio universitário — na verdade, sua cegueira e sua habilidade fazem com que entendam ainda menos
O que eles chamam equivocadamente de engenhosidade do espírito é, visto corretamente, apenas uma lição simples e fácil para quem não tem instrução
Quem não consegue pensar e sentir que é — não o que é, mas que é — revela uma ignorância excessiva, pois até os animais irracionais possuem a consciência da própria existência.
Mesmo a vaca mais ignorante ou o animal mais desprovido de razão possuem a consciência da própria existência
Aos seres humanos, únicos dotados de razão entre todos os animais, cabe em grau incomparavelmente maior pensar e sentir a própria existência