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CASSIANO — CONFERÊNCIAS

CONFERÊNCIA XVI — PRIMEIRA CONFERÊNCIA DO ABADE JOSÉ SOBRE A AMIZADE

I. O que nos perguntou o abade José em primeiro lugar

O bem-aventurado José, cujos ensinamentos e preceitos devo agora mostrar, é um dos três anciãos que mencionei na primeira conferência. De família ilustre e um dos principais da sua cidade, Chamada Thmuis, no Egito, aprendera a falar fluentemente não só a sua língua materna, mas também o grego. Isto lhe permitia exprimir-se com muita elegância quando falava conosco ou com aqueles que não sabiam o egípcio, sem precisar de recorrer a intérprete, como os outros.

Percebendo que desejávamos receber as suas lições, perguntou-nos primeiro se éramos irmãos. Ao ouvir em resposta que nos unia uma verdadeira fraternidade, não carnal, mas espiritual, e que desde o início da nossa renúncia, estivemos sempre unidos por uma estreita sociedade, tanto na peregrinação que ambos encetamos para nos formar na milícia espiritual, quanto nos exercícios do mosteiro, ele assim começou a sua conversa.

II. Discurso do ancião sobre o gênero das amizades infiéis

Muitos são os gêneros de amizade e de ligações que unem, de diferentes modos, a raça humana em laços de dileção.

Para uns foi primeiro uma recomendação que os fez conhecer-se, para depois os levar às relações de amizade.

Já outros, o que os fez contrair laços de afeição, foi a ocasião de algum ajuste relativo ao dar e receber.

Certos, porém, concluíram pacto de amizade, em razão da semelhança e comunidade que tinham, seja nos negócios, seja no serviço militar, ou na profissão e nas propensões. Esta comunhão tem o poder de amansar mutuamente os corações mais ferozes, a ponto de levar até aqueles que nas florestas e nas montanhas se entregam ao latrocínio e se deleitam com a efusão de sangue humano, a abraçarem com carinho os cúmplices de seus crimes.

Há ainda outra forma de dileção, contraída pelo próprio instinto da natureza e pela lei da consanguinidade. Por ela preferem-se naturalmente a todos os demais os da mesma tribo, os próprios cônjuges, ou os progenitores, ou os irmãos e os filhos. Vê-se isto não só entre os homens, mas também entre as aves e os animais. O afeto natural desses seres os instiga a proteger e a defender suas ninhadas e filhotes, até a ponto de se expor por eles ao perigo e à morte.

Mesmo as espécies de animais selvagens, de répteis ou de pássaros, cuja ferocidade insuportável ou cujo veneno mortal os separa e põe à parte de todos os outros, como, por exemplo, os basiliscos, o rinoceronte, os grifos, embora o simples fato de vê-los seja, segundo se diz, um perigo para todos, não cessam de viver sempre em paz entre si, sem se prejudicar mutuamente, por causa da sua ligação de origem e afeto.

Mas todas essas espécies de afeição que dissemos, comuns a bons e a maus, e até mesmo entre feras e serpentes, é certo que não podem perseverar até ao fim. Elas são frequentemente interrompidas e divididas pela distância, pelo esquecimento causado pelo tempo ou por um acordo verbal ou solução de uma causa e de negócios. Nascidas de diversas uniões criadas pelo lucro, pela paixão, pelo sangue ou por outras relações, também se dissolvem por ocasião de qualquer separação.

III. Donde vem uma amizade indissolúvel

Entre todas as espécies de amizade, só uma é indissolúvel. É aquela que une não pelo favor de uma recomendação, nem pela grandeza dos serviços ou benefícios, nem por qualquer forma de contrato ou pela força da natureza, mas somente pela semelhança da virtude.

Só esta, digo-lhes eu, jamais se rompe por qualquer acidente, nem a distância nem o tempo a podem desunir, e nem mesmo a morte é capaz de rasgar. É a verdadeira e indissolúvel dileção, que cresce com a perfeição e a virtude geminadas dos amigos, e cuja aliança, uma vez formada, não é quebrada nem pela diversidade dos desejos, nem pelo conflito das vontades em luta.

De resto, conhecemos também a muitos que, depois de firmados nesta profissão, não puderam conservar sempre sem ruptura uma amizade muito ardente que contraíram por amor do Cristo. Embora se apoias sem num princípio válido para a sua união, não guardaram com igual e mesmo ardor o propósito que tinham abraçado. Seu mútuo afeto era desses que só duram um tempo, porque não era alimentada por igual virtude num e noutro, mas apenas pela paciência de um dos dois.

Por mais magnânima e infatigável que seja a parte daquele que se esforça em conservá-la, é inevitável que ela venha a se romper pela pusilanimidade do outro.

Por maior que seja a paciência dos fortes, para com as fraquezas daqueles que procuram com excessiva frouxidão a saúde da perfeição, são os próprios fracos que não as suportarão. Eles têm em si mesmos as causas de perturbação que não os deixam ficar tranquilos.

É o que costuma acontecer com os que sofrem de uma doença corporal. Atribuem à negligência dos cozinheiros ou dos empregados os fastios do seu estomago doente. Por maior que seja a solicitude dos que lhes servem, imputam aos sãos a causa, da sua agitação, sem perceber que ela está neles mesmos, por sua má saúde.

É por isto, como dissemos, que a união indissolúvel e fiel duma amizade só se firma pela igualdade das virtudes. “O Senhor faz habitar numa mesma casa os que têm um mesmo espírito” (Sl 67,7).

Deste modo, a dileção só pode permanecer sem ruptura, naqueles que têm um mesmo propósito, uma única vontade, um só querer ou não querer.

Se quereis, vós também, guardar inviolável a vossa amizade, deveis apressar-vos a expulsar primeiro os vossos vícios e mortificar vossas vontades próprias e, em seguida, unidos no mesmo esforço e no mesmo propósito, realizar com diligência aquilo que enchia de grande alegria o profeta, ao dizer: “Vede como é bom e como é agradável para irmãos habitarem em comum!” (Sl 132,1).

Isto se deve entender não materialmente, mas espiritualmente. Nada adianta, com efeito, estar juntos numa mesma casa, mas separados quanto à vida e o propósito. Nem importa, por outro lado, estar separados pela distância, se estão unidos por igual virtude. Diante de Deus, é a união quanto ao modo de viver, e não quanto ao lugar, que faz habitar irmãos numa só habitação. E não se pode guardar a paz em sua integridade, onde se acha a divergência das vontades.

IV. Pergunta se se deve fazer algo de útil, mesmo contra o desejo de um irmão.

Germano: Como é então? Se alguém quer fazer algo que lhe parece útil e salutar segundo Deus, e o outro não concorda, como deverá agir? Fazer aquilo, mesmo à revelia do irmão, ou deixar de fazer, para satisfazer a este?

V. Resposta: a amizade constante só pode existir entre os perfeitos

José: Se dissemos que a graça da amizade não pode perseverar, plena e perfeita, senão entre os perfeitos, identificados numa igual virtude, e que uma mesma vontade e comum propósito não permitem que haja entre eles, a não ser raramente, modos diversos de pensar, ou divergências no que toca ao progresso da vida espiritual. Pois se começarem a se inflamar em disputas coléricas, é claro que não foram jamais unidos de coração, segundo a regra que eu disse.

Mas ninguém pode começar pela perfeição, a não ser que principie pelo seu próprio fundamento.

Vós mesmos não procurais saber qual é o tamanho da perfeição, mas, sim, o meio de adquiri-la. Toma-se, pois, necessário que eu vos faça conhecer brevemente a sua lei e o caminho que devem tomar vossos passos, para que possais mais facilmente obter o bem da paciência e da paz.

VI. Por que modos pode a amizade manter-se inviolável.

O primeiro fundamento de uma amizade verdadeira é o desprezo dos bens mundanos e o desdém por tudo que temos. Seria, com efeito, extremamente injusto e mesmo ímpio, se depois de termos renunciado ao mundo e a tudo que nele há, preferíssimos ao afeto precioso de um irmão os trastes vis que nos restam.

O segundo é que corte cada um as suas próprias vontades, evitando, deste modo, que, à força de JULGAR-se sábio e competente, prefira a sua opinião à dos outros.

O terceiro ponto consiste em saber que tudo, mesmo o que se estima útil e necessário, deve ser preterido em favor do bem da caridade e da paz.

O quarto é Crer que não devemos, em hipótese nenhuma, ceder à cólera, por qualquer que seja o motivo, justo ou injusto.

Em quinto lugar, importa que se deseje tratar a ira que algum irmão, mesmo sem motivo, concebeu contra nós, do mesmo modo que fazemos com a nossa própria cólera. Pois sabemos que a tristeza de outrem nos é tão perniciosa, como se nós mesmos nos irritássemos contra alguém, a não ser que procuremos, enquanto possível, arredá-la da sua alma.

Finalmente — e isto é a morte de todos os vícios — creiamos que podemos, cada dia, deixar este mundo.

Esta convicção não permitirá que reste em nosso coração tristeza alguma. Mais ainda, ela reprimirá todos os movimentos de concupiscência e de vícios.

Todo aquele que guardar esses princípios, estará livre de sentir ou de causar a amargura da cólera ou da discórdia. Falhando os mesmos, o inimigo da caridade vem logo lançar no coração dos amigos o insidioso veneno da tristeza. E assim, é inevitável que as repetidas disputas façam resfriar, pouco a pouco, a amizade, até que, enfim, se completa a ruptura entre corações desde muito feridos.

Quem, ao contrário, toma o caminho que dissemos, como poderá jamais separar-se do amigo, se, nada reivindicando como próprio, corta pela raiz a origem dos litígios, que nascem geralmente de pequenas coisas e de objetos desprovidos de valor?

Com toda a sua força, ele guarda o que lemos nos Atos dos Apóstolos sobre a unidade reinante entre os fiéis: “A multidão dos crentes tinha um só coração e uma, só alma; ninguém dizia seu o que ele possuía mas tudo era comum entre eles” (At. 4,3).

Como poderiam surgir sementes de discórdia em alguém que, servindo não à sua, mas à vontade do irmão, se torna imitador do seu Senhor e Criador, que assim fala, em nome da humanidade que assumiu: “Não vim fazer a minha vontade, mas a daquele que me enviou”? (Jo 6,38).

Como acenderia a fogueira da disputa aquele que deciciu confiar mais na apreciação do irmão do que em seu próprio juízo, quando está em jogo o seu modo de entender as.coisas? Aprovando ou reprovando, segundo o juízo do outro, as suas próprias conclusões, ele realiza, pela humildade de um coração cheio de afeto, a palavra do Evangelho: “Não como eu quero, mas como tu o queres” (Mt 26,39).

Que motivo terá para permitir algo que entristeça um irmão, aquele que não considera nada mais precioso do que o bem da paz? Ele não perde a memória dessa palavra do Senhor: “É nisto que todos reconhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). Esse amor, o Cristo quis que seja o sinal pelo qual se reconheça neste mundo o rebanho das suas ovelhas, a marca, por assim dizer, distintiva que as distinga do resto dos homens.

Por que, então, permitira que se acolha em si ou permaneça em outro o ranço da tristeza? Não considera ele, por acaso, como princípio absoluto, que a cólera, perniciosa como ela é e ilícita, não pode ter justas causas? e, ainda, que é tão impossível orar, se ele se irrita contra o irmão, como se este se irrita contra si? De coração humilde, na verdade, ele guarda esta palavra do Senhor, nosso Salvador: “Se, ao apresentares a tua oferenda ao altar, te recordas de que teu irmão tem algo contra ti, deixa ali a tua oferenda e vai primeiro te reconciliar com ele; depois, vem e apresenta a tua oferta” (Mt 5, 23-24).

De nada servirá, com efeito, afirmar que não tens ira, e crer que observas este mandamento: “O sol não se ponha sobre a tua cólera” (Ef 4,26) e este outro: “Quem se encoleriza contra o seu irmão, é réu do juízo” (Mt 5,22), se, ao mesmo tempo, desprezas, de coração duro, a tristeza do próximo, quando podes trazer-lhe alívio com a tua doçura.

Incorres do mesmo modo na censura de faltar ao preceito do Senhor, pois aquele que disse que não deves irar-te contra o teu irmão, também disse que não deves desprezar a sua tristeza. Pois não importa, diante de Deus “que deseja a salvação de todos os homens” (1 Tim 2,4), se é a ti mesmo ou a um outro que pões a perder. Para Deus é o mesmo prejuízo, quem quer que seja que se perde.

De outro lado, aquele que se delicia com a perdição de todos, aufere o mesmo ganho, seja pela tua, seja pela morte do teu irmão.

Finalmente, como poderia guardar contra o seu irmão a mais leve mágua, quem acredita que pode cada dia e até mesmo nesse instante emigrar do século presente?

VII. Não se deve preferir nada à caridade, nem pôr nada abaixo da cólera

Da mesma forma que não se deve preferir nada à caridade, é preciso, ao contrário, nada pôr abaixo do furor e da ira.

Devemos, pois, sacrificar tudo, por mais útil e necessário que pareça, para evitar a desordem da cólera. E tudo que julgamos adverso, importa-nos, ao contrário, assumir e suportar para conservar intacta a tranquilidade da dileção e da paz. Pois é necessário Crer que nada é mais danoso do que a cólera e a tristeza, e nada mais proveitoso do que a caridade.

VIII. Quais as causas de dissensão entre os espirituais.

Assim como entre irmãos ainda carnais e fracos o inimigo lança a cólera e a desunião a propósito das coisas vis e terrenas, entre os espirituais, é pela diversidade dos modos de pensar, que ele faz nascer a discórdia.

É disto, sem dúvida, que frequentemente surgem disputas e querelas de palavras que o Apóstolo condena (cf Gal 5,20). Destas, em seguida, o inimigo invejoso e maligno tira ocasião para levar à ruptura irmãos até então unidos numa só alma. É bem verdadeira, com efeito, a sentença do sábio Salomão: “A disputa suscita o ódio, ao passo que aqueles que não disputam, a amizade os protege” (Prov 10,12).

IX. É preciso cortar também as causas espirituais das discórdias.

Assim, não serviria de nada, para guardar uma perpétua e indivisível caridade, amputar a primeira causa de dissídio, que costuma nascer das coisas caducas e terrenas. Nem também permitir aos irmãos, indiferentemente, o uso comum de todos os objetos que nos são necessários, se não cortamos igualmente a segunda causa, que se origina, em geral, da diferença de opiniões nas coisas espirituais, e se não adquirimos em tudo um espírito humilde e o acordo de vontade com os outros.

X. Do melhor modo de procurar a verdade.

Lembro-me bem que, no tempo em que a minha juventude ainda me aconselhava a ter um companheiro, acontecia frequentemente termos sobre assuntos de moral ou de exegese um determinado entendimento que nos parecia o mais verdadeiro e razoável.

Bastava, porém, que nos reuníssemos e passássemos a exprimir abertamente as nossas opiniões, para que, logo, ao examinar em comum certas afirmações, um de nós as acusava de falsas e nocivas e, em seguida, numa decisão conjunta, as condenávamos como perniciosas.

No entanto, elas nos pareciam, de início, brilhantes como uma luz, quando o diabo no-las inspirava, e poderiam facilmente gerar a discórdia, se o preceito dos antigos, que guardávamos como um oráculo Divino, não nos prevenisse de toda disputa. Eles, com efeito, prescreviam, como uma espécie de lei, que nenhum de nós confiasse mais em seu próprio juízo do que no do irmão, se não quisesse deixar-se iludir pela astúcia do diabo.

XI. É impossível não cair nas ilusões do demônio, se alguém se fia em seu próprio juízo.

Na verdade, é muitas vezes confirmado o que diz o Apóstolo: “O próprio Satanás se transfigura em anjo de luz” (2 Cor 11,14), lançando fraudulentamente nos pensamentos uma névoa escura e medonha, como se fosse a verdadeira luz da ciência.

Se esses pensamentos não encontram um coração manso e humilde, que os submeta ao exame dum irmão amadurecido pela experiência ou dum antigo bem seguro, cujo juízo os aprecie com diligência, sendo, assim, acolhidos ou rejeitados por nós, acabaríamos, sem dúvida, perecendo da morte mais terrível.

A quem se fia em seu próprio juízo, é impossível evitar esse perigo, a não ser que ele se torne amante da verdadeira humildade e a pratique, e realize, com toda a contrição do coração, aquilo que o Apóstolo pede com a maior instância: “Se há alguma consolação no Cristo, se há algum consolo na caridade, se há ternura e compaixão, tornais perfeita a minha alegria: tende um mesmo pensamento, um mesmo amor, uma só alma, um só sentimento; nada façais em espírito de competição nem por vanglória, mas, com humildade, julgando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fil 2, 1-3).

O mesmo Apóstolo diz ainda: “Cada um considere o outro como mais digno de estima” (Rom 12,10), de maneira que atribua a seu companheiro mais ciência e santidade que a si mesmo, e creia que a verdadeira e perfeita discrição se encontra mais no julgamento do outro do que no seu próprio.

XII. Por que razão não se devem desprezar os inferiores nas conferências.

Acontece muitas vezes, seja por ilusão diabólica, seja por erro humano — não há ninguém nesta carne que não possa errar como homem — que até aquele de espírito mais penetrante e de ciência maior concebe em sua mente alguma idéia falsa, ao passo que um outro de inteligência mais lenta e de mérito menor pensa, às vezes, de modo mais certo e mais verdadeiro.

Assim sendo, não deve ninguém se convencer, cheio de vão orgulho, que pode, por mais sábio que seja, prescindir da contribuição de outro. Pois ainda que as ilusões diabólicas não lhe enganem os juízos, não escapará, contudo, dos laços ainda mais fortes da presunção e da soberba.

Quem, na verdade, poderia reivindicar para si tal independência, sem grande risco, quando o próprio “vaso de eleição”, em quem o Cristo falava, como ele mesmo o declara, assegura que subiu a Jerusalém exclusivamente para conferir com os outros apóstolos, num exame em segredo, o Evangelho que ele pregava aos pagãos, por revelação do Senhor e com a sua colaboração?

Com isto se mostra claramente que esta regra não só conserva a unanimidade e a concórdia, mas também põe a salvo de todas as ciladas do demônio e dos laços das suas ilusões.

XIII. A caridade não é só uma coisa de Deus, mas é Deus mesmo

Finalmente, a virtude da caridade é elevada a tal altura, que o bem-aventurado apóstolo João declara que ela é não só uma coisa de Deus, mas que ela é Deus mesmo, ao dizer: “Deus é caridade; quem permanece na caridade, permanece em Deus e Deus nele”(l Jo 4,16).

Nos mesmos, na verdade, percebemos a tal ponto ser ela divina, que podemos sentir em nós, como algo bem vivo, aquilo que diz o Apóstolo: “A caridade de Deus foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que habita em nós” (Rom 5,5). O que equivale a dizer: Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que hábita em nós. O qual, se ignoramos o que devemos rogar, “interpela por nós com gemidos inenarráveis, e Aquele que perscruta os corações sabe qual é o desejo do Espírito, pois é segundo Deus que ele pede pelos santos” (Rom 8, 26-27).

XIV. Os graus da caridade.

É possível ter para com todos aquela caridade que se chama “agape”. É dela que fala o bem-aventurado Apóstolo: “Portanto, enquanto temos tempo, pratiquemos o bem para com todos, sobretudo com nossos irmãos na fé” (Gal 6,10).

Devemos, aliás, a tal ponto testemunhá-la a todos sem exceção, que o Senhor nos ordena que a tenhamos também para com os nossos inimigos: “Amai os vossos inimigos” (Mt 5,44).

Mas quanto à “diáthesis”, isto é, o amor de afeição, é de tributar-se só a poucos, e apenas àqueles que são unidos pela semelhança de costumes ou a sociedade das virtudes, embora essa mesma “diáthesis” pareça ter muitas variedades,

Um, com efeito, é o afeto com que se amam os pais, outro os cônjuges, outro os irmãos, outro os filhos. E mesmo nessas relações afetivas existem grandes diferenças, e nem o próprio afeto dos pais pelos filhos é uniforme.

Temos disto uma prova no exemplo do patriarca Jacó que, sendo Pai de doze filhos e amando a todos eles com uma caridade verdadeiramente paternal, amava, porém, a José com um afeto particular, como abertamente o lembra a Escritura: “Seus irmãos o invejavam, porque seu pai o amava” (Gen 37,4).

Não que esse justo, esse pai, não amasse muito os outros filhos, mas ele tinha por aquele, que trazia em si a figura do Senhor, um afeto mais terno e mais complacente.

É, aliás, o mesmo que, segundo lemos, se afirma, com absoluta clareza, do evangelista S. João, que é designado como “o discípulo que Jesus amava” (Jo 13,23). Certamente, o Senhor abraçava os outros onze com igual predileção, como ele próprio o atesta no Evangelho, ao dizer: “assim como eu vos amei, Amai-vos uns aos outros” (id 34). É deles também que se diz em outra passagem: “Amando os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim” (id l).

Mas aqui o afeto dado a um não significa tepidez da caridade em relação aos outros discípulos, mas somente a superabundância do seu amor por João, segundo lho merecia o privilégio da virgindade e a sua integridade na carne.

Esta afeição é apresentada como mais sublime e, de certo modo, excepcional, por que não é a confrontação do ódio que a realça, mas a graça mais copiosa dum amor transbordante.

Encontramos, algo assim no Cântico dos Cânticos, quando fala a pessoa da esposa: “Ordenai em mim a caridade” (Cant. 2,4). Ora, a caridade verdadeiramente ordenada é aquela que, não tendo ódio por ninguém, ama, entretanto, alguns de preferência, em razão dos seus merecimentos. Amando a todos em geral, reserva dentre eles para si os que acha dever abraçar com especial afeto. E entre estes que são os maiores e os principais em seu amor, põe à parte alguns que se elevam acima dos outros em sua afeição.

XV. Aqueles que, por sua dissimulação, aumentam a sua própria indignação e a dos irmãos

Ao contrário disto, conhecemos alguns irmãos — e preferíamos que tal não acontecesse — de grande obstinação e dureza. Quando percebem que estão sentidos com um irmão ou que um irmão está sentido com eles, procuram dissimular a tristeza causada em sua alma por sua própria indignação ou pela do outro. Afastando-se, então, daqueles que deviam apaziguar por uma humilde satisfação ou pelo diálogo, põem-se a cantar alguns versículos de Salmos. Pensam com isto acalmar a amargura do seu coração. Mas essa afronta só faz aumentar o que teriam podido extinguir num instante, se quisessem ser mais solícitos e humildes, fazendo que, por um arrependimento oportuno, se curasse a sua própria ferida e abrandasse o espírito do irmão.

Agindo deste modo, afagam e alimentam sua fraqueza, ou melhor, sua soberba, em vez de extirpar a raiz das contendas, esquecidos daquele preceito do Senhor, que nos diz: “Quem se encoleriza contra seu irmão, é réu de julgamento” (Mt 5,22). E ainda: “Se te lembras que teu irmão tem algo contra ti, deixa tua oferenda perto do altar, e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; depois vem apresentar tua oferta” (Mt 23-24).

XVI. O Senhor rejeita a oferenda das nossas orações, se um irmão tem alguma inimizade contra nós.

A tal ponto, com efeito, nosso Senhor não quer que tenhamos desprezo pela tristeza do outro,que, se um irmão tem alguma queixa contra nós, ele não recebe os nossos dons, isto é, não permite que lhe ofereçamos as nossas orações, até que, por uma pronta satisfação, tenhamos tirado do seu espírito a tristeza que ele concebeu justa ou injustamente.

Ele não diz, na verdade, “se teu irmão tem uma verdadeira razão de queixa contra ti, deixa tua oferenda perto do altar, e vai primeiro reconciliar-te com ele”, mas, sim, “se te lembras que teu irmão tem algo contra ti”, isto é, mesmo que seja leve e insignificante e que provocou a indignação do teu irmão contra ti, e isto vier de repente à tua lembrança, saibas que não deves oferecer o dom espiritual das tuas preces antes de fazer desaparecer, por uma satisfação cheia de doçura, a tristeza do coração do teu irmão, qualquer que seja a sua causa.

Se, portanto, a palavra do Evangelho nos manda reparar o agravo feito a irmãos ressentidos mesmo por alguma inimizade passada, de mínima importância e por fúteis razões, o que nos acontecerá, pobres de nós que deixamos, por uma obstinada dissimulação, de reconhecer faltas recentes e gravíssimas cometidas por nossa culpa? Repletos de um orgulho diabólico, temos vergonha de humilhar-nos e negamos a nossa autoria na tristeza do irmão.

Nosso espírito rebelde se recusa, a submeter-se aos preceitos do Senhor, pretendendo que não devemos observá-los ou somos incapazes de cumpri-los. Com isto, porém, julgando que ele nos deu preceitos impossíveis ou inconvenientes, tomamo-nos, como diz o Apóstolo, “não cumpridores, mas juízes da lei” (Ti 4,11).

XVII. Aqueles que acham que devem ser mais pacientes com os seculares do que com os irmãos.

Com que lágrimas, também, devemos chorar por causa de alguns irmãos que irritados por qualquer injúria, encontram alguém que deseja acalmá-los e acaba por enervá-los com seus pedidos. Ao ouvirem dele que não devem jamais ter ou guardar mágua de um irmão, conforme está escrito: “Quem se ira contra o seu irmão, será réu do juízo” (Mt 5,22) e ainda: “o sol não se ponha sobre a tua cólera” (Ef 4,26), imediatamente exclamam: Se um pagão, se um secular tivesse feito ou dito tal coisa, era preciso suportá-lo. Mas, quem poderia tolerar que um irmão cometa conscientemente tão grave falta ou profira insulto tão insolente?

Como se a paciência não fosse devida senão aos infiéis e aos sacrílegos, e não a todos sem exceção. Como se a cólera fosse julgada nociva contra um pagão e útil contra o irmão, quando, em verdade, o mal que um espírito perturbado causa a si mesmo, por sua obstinação na própria mágoa, não é diferente, qualquer que seja aquele contra quem se levanta essa comoção.

Que tamanha obstinação, ou, melhor, loucura, obra de um espírito bronco, não distinguir a própria significação das palavras! Pois não se diz que aquele que se encoleriza contra o pagão e réu do juízo — o que poderia, talvez, na sua interpretação, excetuar os que nos são unidos pela mesma fé e vida. Mas o evangelho se exprime de modo bem claro: Quem se ira contra o irmão, é réu do juízo“.

Ainda que, segundo a lei da verdade, devamos acolher todo homem como irmão, nesta passagem, en tretanto, o nome de irmão designa mais os fiéis e aqueles que participam da nossa vida, do que os pagãos.

XVIII. Aqueles que, fingindo paciência, excitam os irmãos à cólera, por seu silêncio.

Que é isto que, às vezes, fazemos, quando, acreditando que somos pacientes, desdenhamos responder às agressões que sofremos? Mas, ao mesmo tempo, com o nosso silêncio amargo ou um gesto ou movimento de zombaria, mofamos de irmãos já ressentidos, com essa face tranquila, mais os provocamos à cólera, do que o fariam as mais violentas injúrias.

E nisso não nos estimamos culpados diante de Deus, porque nossos lábios nada proferiram que nos pudesse condenar aos olhos dos homens. Como se, em Face de Deus, fossem só as palavras e não, sobretudo, a vontade, que nos incriminassem. E como se houvesse crime só na obra do pecado, e não também na intenção e no desejo. Ou como se, ao sermos julgados, se indagasse apenas o que fizemos e não também o que tivemos o propósito de fazer!

A culpa, com efeito, não está só na qualidade do agravo cometido, mas também na intenção do seu autor. Por isto, o nosso Juiz, na sua apreciação verdadeira, não vai examinar o modo como o agravo feriu o queixoso, mas por culpa de quem ele se atiçou. O objeto do exame é o fato do pecado, e não a maneira como se produziu.

Que importa, em verdade, se alguém matou o irmão a espada, ou se o levou à morte por alguma fraude, quando é certo que foi ele que por dolo ou crime lhe causou a morte?

Como se bastasse não empurrar por sua própria mão o cego ao precipício, quando já basta, para ser responsável por sua morte, que alguém, podendo, deixa de segurá-lo, quando o vá prestes a cair na cova. Será criminoso só aquele que estrangula seu irmão com as próprias mãos, e não também o que preparou a corda, ou a passou em seu pescoço, ou, também, o que, podendo, não o livrou?

Assim, pois, de nada serve calar, se nos impomos o silêncio só para obter por seu meio o que a injúria causaria. Simulamos, então, alguns gestos que, além de lançar em maior cólera aquele que devíamos curar, ainda nos valem louvores pelo mesmo ato que lhe causa ruína e perdição! Como se não fosse mais criminoso, tirar glória da perda de um irmão.

A um e outro, portanto, esse silêncio é igualmente máu, pois aumenta a tristeza no coração do próximo e não permite que esta desapareça do nosso. Contra os que agem de tal modo é bem apropriada a maldição do profeta: “Ai daquele que põe fel na “bebida do amigo, e o embriaga para ver a sua nudez! Ele se enche de ignomínia, em vez de glória” (Hab 2, 15-16). Deles também diz um outro: “O irmão só pensa em suplantar o irmão, e o amigo usa de fraude para enganar seu amigo; o homem zomba do seu irmão, e eles não dirão a verdade” (Jer 9,4-5). Estenderam a sua língua como um arco, para lançar a mentira e não a verdade” (id 3).

Muitas vezes, a paciência fingida excita mais vivamente a ira, do que uma palavra, e ficar calado supera as piores injúrias. Suportam-se mais facilmente os ataques do inimigo, do que as enganosas carícias dum zombador.

Destes é que diz devidamente o profeta: “Suas palavras são mais untuosas do que o Óleo, mas elas são dardos penetrantes” (Sl 54,22). E em outro lugar: “As palavras dos velhacos são doces, mas ferem até ao fundo das entranhas” (Prov 26,22). Podemos também lhes aplicar convenientemente o dito: “Ele tem na boca palavras de paz para o amigo, mas em segredo lhe arma ciladas” (Jer 9,8), mas, na verdade, é o trapaceiro que sai enganado com elas. Porque “aquele que prepara um laço para pegar seu amigo, acaba se enredando nele” ( Prov 29,5); e “quem cava um fosso para o seu próximo é o primeiro a cair nele” (Prov 26,27).

Finalmente, quando veio uma grande multidão com espadas e paus para prender o Senhor, ninguém foi mais cruel parricida contra o Autor da nossa vida, do que aquele que se adiantou a todos para lhe oferecer a falsa homenagem da sua saudação e lhe deu um Beijo de amor mentiroso.

Disse-lhe, então o Senhor: “Judas, entregas o Filho do Homem por um beijo? (Lc 22,48), isto é, o amargor da tua perseguição e do teu ódio tomou por cobertura esse sinal feito para exprimir a doçura do verdadeiro amor!

Mas ele amplia mais abertamente e com maior veemência a força da sua dor, pela boca do profeta: “Se fosse o meu inimigo a me ultrajar, eu o teria suportado; se fosse aquele que me odeia a se elevar contra mim com as suas palavras, eu me teria escondido dele. Mas tu, que tinhas uma só alma comigo; que eras o meu guia e meu conhecido, que repartias comigo doces refeições, e de comum acordo ias comigo à casa de Deus!” (Sl 54,13-15).

XIX. Aqueles que jejuam por causa da indignação.

Outro gênero de tristeza, verdadeiramente sacrílego, que não seria digno de lembrança, se não soubessemos que é admitido por muitos irmãos, é quando, contristados ou enraivecidos, eles se abstêm teimosamente de alimento.

Assim, — e não podemos dizê-lo sem vergonha — eis homens que, estando tranquilos, alegam que não podem passar da hora sexta, ou, no máximo, da nona, para fazer a sua refeição. Mas, quando se enchem de tristeza ou de raiva, são insensíveis ao jejum até de dois dias. Em vez de enfraquecer-se com a falta de alimento, sustenta-os a saciedade da cólera.

Com isto, evidentemente, cometem o crime de sacrilégio, pois suportam com diabólica soberba jejuns que só a Deus devemos oferecer, para humilhar o coração e purificar-se dos vícios. É como se oferecessem não a Deus, mas aos demônios as suas orações e sacrifícios. Merecem, por isto, escutar a censura de Moisés: “Sacrificaram aos demônios e não a Deus, a deuses que eles nem conheciam” (Deut 32,17).

XX. Da paciência simulada por alguns que apresentam a outra face à bofetada.

Não desconhecemos também um outro gênero de loucura, que se vê em alguns irmãos, sob as tintas duma paciência mascarada. Para eles não basta suscitar querelas. Precisam ainda irritar seus irmãos com palavras provocantes para que estes os firam. Uma vez atingidos em alguma parte do corpo pelo mais leve toque, apresentam outra parte dele para ser batida, como se fossem realizar por tal meio a perfeição do mandamento: “Se alguém te bate na face direita, oferece-lhe também a outra” (Mt 5,39). Mas eles ignoram totalmente o alcance e a intenção desta Escritura.

Pensam, com efeito, exercer a paciência através do vício da cólera. Ora, é para erradicar completamente esse vício, que não só se proíbem a reciprocidade do talião e o incitamento à luta, mas ainda recebemos o preceito de apaziguar o furor de quem nos bate, aturando a sua injúria redobrada.

XXI. Pergunta: Como podem, apesar de obedecer aos mandamentos do Cristo, ser frustrados da perfeição evangélica?

Germano: Como censurar aquele que, satisfazendo ao preceito evangélico, não somente deixa de a- plicar a pena de talião, mas também está pronto a sofrer uma injúria renovada?

XXII. Resposta: O Cristo observa não só o fato, mas também a vontade.

Josó: Como dissemos há pouco, é preciso considerar não só o ato que se pratica, mas também a disposição de espírito e a intenção do seu autor.

Assim, pois, se, no íntimo do vosso coração, pesais bem o ânimo e os sentimentos que animam as ações de alguém, vereis que é de todo impossível realizar a virtude da paciência e da brandura com um espírito contrário, a saber, um espírito de impaciência e de furor.

Nosso Senhor e Salvador, ao nos instruir para uma virtude profunda de paciência e brandura, encerrada no santuário íntimo da nossa alma e não apenas trazida nos lábios, nos deu esta fórmula de perfeição evangélica: “Se alguém te bater na tua face direita, apresenta-lhe também a outra”. (Subentenda-se, com certeza, a palavra “direita”). Ora, esta outra face direita, por assim dizer, só pode ser entendida do homem interior. O Senhor deseja, assim, extirpar das mais recônditas profundezas da alma a própria raiz da cólera. Equivale a dizer que, se o homem exterior receber em sua face direita o ataque dum agressor, o homem interior deve, por sua vez, oferecer a sua direita à afronta, consentindo humildemente à agressão.

Ele partilha, então, do sofrimento do homem exterior, entregando, de algum modo, e submetendo o seu corpo à injúria que o agride, a fim de que o homem interior não se abale, nem mesmo em silêncio, com o golpe sofrido pelo exterior.

Vedes, pois, que eles estão muito longe da perfeição evangélica, que nos ensina a guardar a paciência, não por palavras, mas pela tranquilidade interior do coração. Ela nos ordena que a conservemos quando algo de contrário nos acontece, de tal modo que não só nos mantenhamos alheios à perturbação da cólera, mas também possamos, cedendo à injúria, levar à tranquilidade aqueles que se deixaram abalar por seu vício. Des te modo, vencemos por nossa brandura o seu furor.

Com isto cumprimos igualmente o conselho do Apóstolo: “Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal pelo bem” (Rom 12,21). É o que não podem, com toda certeza, cumprir, aqueles que, num espírito de orgulho, proferem palavras de doçura e de humildade e, assim, longe de apagar o incêndio da cólera, ainda mais o acendem tanto no seu, como no coração do irmão agastado. Ainda que pudessem eles, de algum modo, permanecer mansos e tranquilos, nem assim, no entanto, colheriam alguns frutos de justiça, pois reivindicam para si, à custa do próximo, a glória da paciência. Por este fato, eles se tornam absolutamente estranhos à caridade recomendada pelo Apóstolo, a qual “não busca o seu próprio interesse” (1 Cor 13,5), mas o dos outros. Ela não procura enriquecer-se, tirando proveito do prejuízo do próximo, nem adquirir alguma coisa, à custa da nudez alheia.

XXIII. É forte e sadio aquele que se dobra à vontade do outro.

É preciso saber com certeza que, em geral, quem se submete à vontade do seu irmão desempenha um papel mais forte do que aquele que se mostra mais agarrado às suas próprias opiniões.

Enquanto aquele, pelo apoio dado ao próximo e pela paciência que tem com ele, merece o título de são e forte, o segundo, ao contrário, merece o de fraco e, sob certos aspectos, o de doente. Pois é alguém que temos de rodear de afagos e carícias, convindo mesmo; às vezes, relaxar um pouco em coisas necessárias, para que ele fique tranquilo e em paz.

Assim agindo, aliás, não pense alguém que perdeu algo de sua perfeição, embora tenha, por condescendência, subtraído um pouco da austeridade que se propôs. Bem ao contrário, saiba que lucrou muito mais pelo bem da longanimidade e da paciência.

É, com efeito, o preceito apostólico: “Vós que sois fortes, suportai as fraquezas dos fracos” (Rom 15,1); e ainda: “Carregai os fardos uns dos outros, e tereis assim cumprido a lei do Cristo” (Gal 6,2).

Jamais, em verdade, o fraco suporta o fraco, nem o que está igualmente doente poderá suportar ou curar o doente. Mas quem pode trazer remédio ao fraco, e aquele que não está submetido à fraqueza. Com razão, se lhe diz: “Médico, cura-te a ti mesmo” (Lc 4,23).

XXIV. Os fracos fazem injúria, mas não podem sofrê-la.

Deve-se notar, igualmente, que é natural aos enfermos ser prontos e fáceis a ofender e a levantar questões, mas não querem ser eles mesmos tocados pela menor suspeita de injúria. Pródigos em insultos insolentes, eles cavalgam soberbamente com uma liberdade inconsiderada, mas não se contentam em suportar nem mesmo as coisas menores e mais leves.

Desta forma, segundo a sentença dos antigos que atrás referimos, a caridade não pode perdurar, estável e sem ruptura, senão entre homens de igual virtude e do mesmo propósito. Do contrário, é inevitável que ela se rompa a qualquer tempo, quaisquer que sejam os cuidados do outro para a conservar.

XXV. Pergunta: Como será um forte aquele que não atura o fraco sempre?

Germano: De que modo pode ser digna de louvor a paciência do varão perfeito, se ele não consegue tolerar sempre o fraco?

XXVI. Resposta: é o fraco, em verdade, que não deixa que o suportem.

José: Eu não disse que a virtude e a paciência daquele que é forte e robusto devam ser vencidas. Mas, sim, que a saúde péssima do fraco, entretida pelo apoio do que é são, e piorando dia a dia, acabará gerando as causas pelas quais ou ele não deverá mais ser ajudado, ou, senão, por presumir que a paciência do outro é uma acusação da sua impaciência, preferirá se afastar um dia, a viver sempre amparado pela generosidade do outro.

Assim, aos que almejam guardar inviolável o afeto da amizade, a lei que devem, a meu ver, observar acima de tudo, é que o monge, ultrajado por qualquer injúria, conserve bem tranquilos não só os seus lábios, mas igualmente o fundo do seu coração. E se ele, todavia, se sente, ainda que de leve, perturbado, contenha-se com todo silêncio, seguindo exatamente o que diz o Salmista: “Eu me perturbei, e não falei” (Sl 78,5), e ainda: “Guardarei as minhas vias, de medo de pecar pela língua. Pus uma guarda à minha boca, enquanto o pecador estava em frente de mim. Fiquei mudo, e me humilhei, e guardei o silêncio mesmo para as coisas boas” (Sl 38, 2-3).

É bom que ele não se ponha a considerar o momento presente, evitando que a sua boca profira tudo aquilo que lhe é sugerido, na hora, pela cólera impetuosa, e o que lhe dita o coração exasperado.

Em vez disso, repasse na lembrança a graça da caridade anterior, e veja, por antecipação, em seu espírito, a paz restituída, contemplando-a como que logo de volta, no próprio tempo em que ele se sente já abalado.

Enquanto ele se reserva para gozar da concórdia iminente, não experimentará o amargor da desavença presente, e assim a resposta que der será sobretudo em termos dos quais nem ele tenha de se acusar, nem o outro a censurar, quando a amizade se restabelecer. Desta forma, ele cumprirá a palavra do profeta: “Há cólera, lembra-te da misericórdia” (Hab 3,2).

XXVII. Como reprimir a ira.

Devemos, pois, conter todos os movimentos da cólera, e moderá-los pelo governo da discrição, para não cairmos naquele arrebatamento furioso que Salomão condena: “O ímpio explode toda a sua cólera, mas o sábio a distribui por partes” (Prov 29,11), isto é, o insensato perturbado pela raiva, se inflama à sua vingança, mas o sábio, pela madureza do seu conselho e moderação, a atenua e expele pouco a pouco.

Tal é também a palavra do Apóstolo: “Não vos vingueis por vós mesmos, mas dai lugar à cólera” (Rom 12,19), o que significa: Não corrais à vingança, sob a pressão da ira, mas dai lugar à cólera. Isto quer dizer: Não deixeis os vossos corações se apertarem na estreiteza da impaciência e da pusilanimidade, de tal modo que não possam sustentar a tempestade violenta da comoção, quando ela se desencadear. Ao contrário, dilatai-os, recebendo nos largos espaços da caridade as vagas adversas da raiva, pois a caridade “tudo sofre, tudo aguenta” (1 Cor 13,7).

Deste modo, tenha a vossa alma, dilatada pelos espaços da longanimidade e da paciência, recessos salutares de conselho, onde a horrível fumaça da cólera, recebida e difusa, encontre, por assim dizer, uma saída e logo se desvaneça.

Pode-se também compreender a coisa da maneira seguinte. Damos lugar à ira, toda vez que cedemos, de coração humilde e tranquilo, à agitação do outro, e, confessando-nos de alguma forma dignos de todas as injúrias, nos submetemos à impaciência exasperada.

Há, no entanto, os que assim tomam o sentido da perfeição apostólica: dar lugar à ira consiste, segundo a sua opinião, em afastar-se do que está enraivecido. A mim, porém, parece que isto leva mais a entreter o fogo das rixas, do que a cortá-las.

A cólera do próximo, é preciso vencê-la imediatamente, por uma humilde satisfação; a fuga a provoca, mais do que a evita.

Outra palavra de Salomão, semelhante à precedente, nos diz: “Não te apresses em teu espírito a te encolerizares, porque a ira repousa no seio dos insensatos” (Ecles 7,9). E ainda: “Não corras depressa à briga, para que não te arrependas no fim” (Prov 25,8).

Condenando, é verdade, a prontidão na disputa e na cólera, não quer dizer que ele lhes aprove a lentidão. Deve-se igualmente acolher a palavra seguinte: “O insensato manifesta na mesma hora a sua ira, enquanto o homem astuto encobre a sua ignomínia” (Prov 12,16).

Decidindo que o sábio deve ocultar a paixão vergonhosa da ira, ele culpa a rapidez da cólera, mas não sem proibir também a sua lentidão. Se ele achou que a ira deve ser ocultada, ao irromper por força, da fraqueza humana, é para que, sabiamente escondida na hora, desapareça para sempre.

Esta é, com efeito, a natureza da ira: adiada, ela enfraquece e morre; manifestada, ela se inflama cada vez mais.

Que os corações, portanto, se dilatem e se abram, para que, apertados pela estreiteza da pusilanimidade, não os encham os ardores turbulentos da cólera. Pois não podemos acolher num coração estreito aquele mandamento Divino que, segundo o profeta, e infinitamente largo, nem, ainda, dizer com o profeta: “Eu corri no caminho dos teus mandamentos, porque dilatáveis o meu coração” (Sl 118,32).

Que a longanimidade seja uma sabedoria, evidentíssimos testemunhos da Escritura no-lo ensinam: “O varão longânime é grande na prudência, o pusilânime é muito insensato” (Prov 14,29). Por isso, lembra a Escritura aquele que pediu ao Senhor o dom da sabedoria: “E Deus deu a Salomão uma enorme sabedoria e prudência, e um coração largo como as areias sem número do mar” (3 R 4,29).

XXVIII. Amizades contraídas por juramento não podem ser firmes.

Uma coisa que tem sido frequentemente comprovada por múltiplas experiências, é que aqueles que contraíram aliança de amizade pelo princípio do juramento não puderam, de modo algum, conservar íntegra a concórdia. É que eles não se esforçaram por conservá-la pelo desejo da perfeição nem pelo preceito apostólico da caridade, mas por um amor terreno e pela obrigação e pelos laços do pacto que contraíram. Ou, então, foi aquele astuciosíssimo inimigo que, para fazê-los prevaricadores do seu juramento, os precipita a quebrar ainda mais depressa os vínculos da amizade.

É, pois, certíssima a sentença dos varões mais prudentes: a verdadeira concórdia, a amizade indissolúvel, não pode subsistir senão em homens de costumes reformados e de idêntica virtude e propósito.

Foi esta a exposição que nos fez sobre a amizade, num discurso espiritual, o bem-aventurado José, que assim nos inflamou ainda mais ardentemente a guardar em perpétuo a caridade da nossa amizade.