CASSIANO — CONFERÊNCIAS
CONFERÊNCIAS XIV — PRIMEIRA CONFERÊNCIA DO ABADE NÉSTEROS — A CIÊNCIA ESPIRITUAL
I. Palavras do abade Nésteros sobre a ciência dos religiosos
A própria ordem do que prometemos, bem como a sequência da nossa viagem nos obrigam a conhecer agora os ensinamentos do abade Nésteros, que foi varão ilustre em tudo e de uma consumada ciência.
Sentindo que desejávamos a inteligência de algumas passagens das Sagradas Escrituras que tínhamos decorado, começou a assim nos falar.
Existem neste mundo muitas espécies de ciências, e sua variedade corresponde a das artes e profissões. Mas, embora sejam todas elas ou inteiramente inúteis ou proveitosas apenas aos interesses da vida presente, nenhuma, entretanto, existe que não seja ensinada conforme uma ordem e um método próprios, pelos quais podem adquiri—las os que as procuram.
Se, portanto, essas artes só se aprendem mediante linhas certas e particulares, quanto mais a disciplina e a profissão da nossa vida religiosa, que visa a contemplar os arcanos das coisas invisíveis e busca não vantagens presentes, mas o prêmio da eterna recompensa, exige uma ordem e um método bem determinado!
Dupla é a ciência da vida religiosa: a primeira, praktike, isto é, ativa, consuma-se no trabalho de emendar os costumes e se purificar dos vícios. A segunda, theoretike, consiste na contemplação das coisas divinas e no conhecimento das significações mais sagradas.
II. Como aprender o conhecimento das coisas espirituais
Quem quiser chegar a theoretike, tem de, primeiro, necessariamente, adquirir a ciência ativa empenhando-se com todo zelo e virtude. Esta praktike podemos possuí-la sem a theoretike, mas a “teorética” não pode, absolutamente, ser conseguida sem a ativa.
São como dois degraus ordenados e distintos para que a humildade humana possa subir para as alturas. Se eles se sucedem da maneira que dissemos, é possível chegar ao cume, ao qual ninguém poderá alcançar, se o primeira degrau for tirado. É, pois, em vão que tende à visão de Deus, quem não evita o contágio dos vícios: “O Espírito de Deus detesta o fingimento e não habita num corpo escravo do pecado” (Sab 1, 5 e 4).
III. A perfeição da vida ativa consiste em dois pontos
A perfeição da vida ativa consiste em dois pontos. O primeiro é o modo de conhecer a natureza dos vícios e o método de curá-los. O segundo é discernir a ordem das virtudes e formar com a sua perfeição a nossa alma, de maneira que ela já não mais as sirva como que coagida e sujeita a um império violento, mas se deleite com elas e delas se alimente como de um bem conatural, subindo com prazer o caminho árduo e estreito.
De que maneira, na verdade, poderia atingir o plano das virtudes, que é o segundo grau da disciplina ativa, ou os mistérios das coisas espirituais e celestes, em que consiste o grau mais sublime ainda da “theoria”, quem não pode compreender a natureza dos vícios nem se esforçou por extirpá—los?
A consequência lógica desse enunciado é que não se pode avançar para o mais alto, se não tiverem sido antes vencidas as dificuldades menores. E que muito menos perceberá o que lhe é extrínseco, quem não pode entender o que lhe é inato.
Saibamos, no entanto, que nos custara duas vezes mais a pena e o suor para expulsar os vícios, do que para adquirir as virtudes. Isto nós não compreendemos por uma conjetura pessoal, mas é o que nos ensina a palavra daquele que é o único a conhecer as forças e a condição da sua criatura: “Eis que eu hoje te estabeleci sobre as nações e sobre reinos, a fim de que arranques e destruas, ponhas a perder e dissipes, edifiques e plantes” (Jeremias 1:10).
Para expelir o que é nocivo, ele designou quatro coisas necessárias: arrancar, destruir, pôr a perder e dissipar. Mas para tornar-se perfeito nas virtudes e adquirir tudo que diz respeito a justiça, somente duas: edificar e plantar.
Donde se mostra claramente que é mais difícil arrancar e erradicar as paixões inveteradas do corpo e da alma, do que construir e plantar as virtudes espirituais.
IV. A vida ativa se divide em muitas procissões e ocupações
A “praktike”, que, segundo dissemos, consiste em dois pontos, divide-se em muitas profissões e ocupações.
Alguns, com efeito, dirigem toda a sua intenção para a vida secreta do deserto e para a pureza do coração, como, no passado, Elias e Eliseu e, nos nossos tempos, o bem-aventurado Antão e outros que perseguiram o mesmo propósito, que sabemos que gozaram duma união muito familiar com Deus, pelo silencio da solidão.
Outros dedicaram a sua solicitude e zelo a instruir os irmãos e a cura vigilante dos cenóbios, como, há pouco, o abade João, que nas vizinhanças da cidade de Thmuis presidiu a um grande mosteiro, e como alguns outros varões do mesmo mérito, que, bem nos lembramos, brilharam ate por sinais como os dos apóstolos.
Outros se comprazem no pio serviço de hospitalidade e de caridade prestada a estrangeiros em hospitais, obséquio este pelo qual outrora agradaram a Deus o patriarca Abraão e Loth, e recentemente, o bem-aventurado Macário, homem de singular mansidão e paciência, o qual dirigiu um hospital em Alexandria, exercendo isto de um modo tal que não podemos considerá-lo inferior a nenhum dos que buscaram a mais remota solidão.
Outros ainda, escolhendo o cuidado de enfermos, ou a mediação em favor dos miseráveis e oprimidos, ou que se aplicaram ao ensino ou, ainda, à distribuição de esmola aos pobres, tiveram um lugar eminente entre os maiores e mais santos, por sua afeição e bondade.
V. A perseverança na profissão escolhida
Portanto, é útil e conveniente a cada um, conforme o propósito de vida que escolheu ou a graça que recebeu, apressar—se com o maior zelo e diligência para chegar à perfeição da obra empreendida. Embora louvando e admirando as virtudes dos outros, não se afaste, de modo algum, da profissão que abraçou uma vez por todas, sabendo que, segundo o Apóstolo, um é o corpo da Igreja, mas muitos são os seus membros (Cf Romanos 12:4 ss), e que ela tem “dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada: seja de profecia, para o exercer segundo a regra da fé; seja de ministério, para o exercer nas funções de ministério; seja de ensinar, que ensine; ou de exortar, e que ele exorte. Aquele que distribui, faça-o com simplicidade; quem preside, seja com diligência; quem faz misericórdia, faça-o com jovialidade” (id 6-8).
Nenhum membro pode querer imitar o serviço dos outros membros, pois olhos não fazem o serviço das mãos, nem o nariz, o dos ouvidos. Deste modo, nem todos são apóstolos, nem profetas, nem doutores; nem todos têm a graça das curas, nem todos falam em línguas, nem todos interpretam (Cf 1 Coríntios 12:28).
VI. A inconstância dos fracos
Costuma acontecer aos que ainda não estão bem firmes na profissão que abraçaram: ouvindo louvores referentes a outros que vivem em situações, diferentes e praticam outras virtudes que as suas, de tal modo se inflamam, que desejam imediatamente imitá-los em sua disciplina. Os esforços que a fraqueza humana envida em tais circunstâncias, são necessariamente vãos.
Pois é impossível que um só e mesmo homem brilhe ao mesmo tempo em todas as virtudes acima enumeradas. Ao pretender todas juntas, acontece inevitavelmente que, enquanto vai atrás de todas, não consegue nenhuma integralmente. E dessa variação e inconstância, tem-se mais prejuízo que proveito.
Muitos são os caminhos que levam a Deus. Cada um, portanto, siga o que ele tomou até o fim, com irrevogável fidelidade, para ser perfeito em qualquer profissão.
VII. Exemplo de castidade, mostrando que nem todas as práticas devam ser imitadas por todos
Além do prejuízo ao qual se expõe o monge que por leviandade ambiciona passar a outros exercícios diversos do seu, ele ainda incorre num perigo de morte, porque, muitas vezes, o que alguns fazem corretamente, é tomado por outros como mau exemplo, e o que para muitos teve êxito, é por outros experimentado como nocivo.
Para dar um exemplo, é como se alguém quisesse imitar a virtude de certo homem que o abade João costuma citar, não como modelo a imitar, mas como causa de admirar.
Um dia, veio alguém ao referido ancião, e vestia roupa secular. Trazia-lhe algumas primícias de suas colheitas. Ele encontra ali um possesso atormentado por um dos mais ferozes demônios. Este, desprezando as ordens e adjurações do abade João, atestava que jamais sairia do corpo, por sua ordem. Mas, a chegada dequele homem, ele se encheu de terror e, gritando o seu nome com a maior reverência, se afastou.
Admirando-se, não pouco, de graça tão evidente, e ainda mais estupefato porque o via em trajes seculares, o ancião começou a indagar cuidadosamente sobre o seu modo de vida e profissão.
Quando ele disse que era um secular e casado, o bem-aventurado João, revolvendo em sua mente a excelência de tal virtude e graça, procurava reconhecer com maior atenção o gênero de vida que era o seu.
Ele afirmou que era homem do campo e que tirava a própria subsistência do trabalho de suas mãos. No mais, não via em si nenhum bem, a não ser que nunca deixava de ir a igreja, antes de partir para o trabalho no campo e, de tarde, antes de voltar para casa, para dar graças a Deus por lhe prodigalizar o pão cotidiano. Jamais, também, tomava alguma coisa do que colhia, antes de oferecer, primeiro, a Deus as primícias e os dízimos; nunca, também, conduzia os seus bois perto das lavouras alheias, sem lhes pôr focinheira, a fim de que o próximo não sofresse nenhum prejuízo por seu descuido.
Em tudo isso, entretanto, o abade João não via o suficiente para uma graça tão grande que, a seus próprios olhos, punha esse homem a frente de si. Assim, procurava saber dele o que é que podia ser cotejado com tão alta graça.
Diante da indagação tão insistente, e coagido pela reverencia, ele confessou que, doze anos antes, quando queria fazer-se monge, foi obrigado por seus pais a contrair matrimônio. Tomou mulher, mas a guardava como irmã, respeitando a sua virgindade, sem que ninguém até então soubesse disto.
Ao ouvir isto, o ancião se viu tomado pela maior admiração. Na presença do homem, ele não se conteve e proclamou, de publico, que não fora sem motivo, que o demônio, que o havia desprezado, não suportara a presença daquele. Sua virtude, continuou o ancião, ele próprio não ousaria tentar imitar, sem perigo para a sua castidade, e isto não apenas no ardor da juventude, mas nem mesmo agora.
Apesar, porém, de exprimir a maior admiração por esse fato, o abade João, no entanto, se eximiu de exortar qualquer um dos monges a experimentar o mesmo. Ele sabia que muitas coisas feitas corretamente por uns trazem um mau fim para outros que os querem imitar, e que uma graça especial conferida pelo Senhor a uns poucos, não pode servir para todos.
VIII. A ciência espiritual
Mas voltemos à exposição da ciência que constituiu o exórdio desta conversação.
Como acima dissemos, a “praktike” se divide em muitas, profissões e atividades. A “theoretike”, por seu lado, se divide em duas partes: a interpretação histórica e a inteligência espiritual.
E por isto que Salomão, ao enumerar a graça multiforme da Igreja, acrescentou: “Todos os que estão junto dele, tem uma dupla vestimenta” (Prov 31, 21).
Quanto a ciência espiritual, ele compreende três gêneros: a tropologia, a alegoria e a anagogia, dos quais se diz nos Provérbios: “Quanto a ti, escreve estas coisas em tríplices letras sobre a largura do teu coração” (Prov 22,20).
A Historia abraça o conhecimento das coisas passadas e visíveis, que o Apóstolo narra deste modo: “Esta escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava e o outro da mulher livre. O que nasceu da escrava, nasceu segundo a carne; o que nasceu da livre, em virtude da promessa” (Gálatas 4:22-23). O que se segue, pertence a Alegoria, porque aí se diz que as coisas que aconteceram realmente, prefiguravam um outro mistério. “Estas mulheres — continua ele — são as duas Alianças: uma, a do monte Sinai, gerando na escravidão, e é Agar. O Sinai é um monte da Arábia, que simboliza a Jerusalém de agora, que e escrava com os seus filhos” (id 24-25).
A Anagogia se eleva dos mistérios espirituais aos segredos do céu, mais sublimes e sagrados, como se vê no que o Apóstolo acrescenta: “Mas a Jerusalém do alto e livre, e é ela que é nossa mãe.” Porque está escrito: Alegra-te, estéril que agora dás à luz, irrompe em gritos, tu que não geravas, porque os filhos da abandonada são mais numerosos do que os daquela que tinha esposo“ (id 26-27).
A Tropologia é a explicação moral relativa a purificação da vida e a formação ascética, como se por estas duas Alianças compreendêssemos a ”praktike“ e a ciência da “theoretike”. Ou que quiséssemos tomar Jerusalém ou Sião pela alma humana, segundo estas palavras: “Louva, Jerusalém, o teu Senhor; louva o teu Deus, Sião” (SI 147,12).
Deste modo, portanto, as quatro figuras, se assim quisermos, se reúnem em uma só, de maneira que a mesma e única Jerusalém pode ser entendida em quatro accepções diferentes: segundo a historia, e a cidade dos Judeus; segundo a alegoria, a Igreja de Cristo; segundo a anagogia, a cidade celeste, “que é a mãe de todos nós” (Gálatas 4:26); segundo a tropologia, e a alma humana, que é, sob esse nome, frequentemente increpada ou louvada pelo Senhor.
Destes quatro gêneros de interpretação, diz o bem-aventurado Apóstolo: “Agora, pois, irmãos, se eu venho a vos falando em línguas, que proveito vos trago, a não ser que vos fale em revelação, ou em ciência, em profecia ou em doutrina?”(1 Coríntios 10:1-4)
A Revelação se refere a alegoria, pela qual aquilo que a narrativa histórica esconde, se torna manifesto pelo sentido espiritual. Para dar um exemplo, tentemos descobrir como “os nossos pais estiveram todos sob a nuvem, e foram todos batizados em Moisés na nuvem e no mar”, e como “todos comeram do mesmo alimento espiritual e beberam da mesma bebida espiritual, do rochedo que os acompanhava, e o rochedo era o Cristo” (1 Coríntios 11:13).
Esta explicação, que mostra a prefiguração do corpo e do sangue de Cristo que recebemos todos os dias, tem a natureza da alegoria.
A Ciência, também lembrada pelo Apóstolo, representa a tropologia.”Esta nos faz discernir, mediante um exame prudente, a utilidade ou decência das coisas que dependem do juízo prático. Como se dá quando nos é ordenado “JULGAR”, de nós para nós mesmos, “se convém que uma mulher ore a Deus, de cabeça não velada” (1 Cor 11, 13). Tal interpretação contém, como dissemos, um juízo moral.
A Profecia, que o Apóstolo pôs em terceiro lugar, significa a anagogia, que transfere o discurso para as coisas futuras e invisíveis, como neste casos “Não queremos, irmãos, que ignoreis o que diz respeito aos que adormeceram, a fim de não vos entristecerdes como os outros que não tem a esperança. Se, na verdade, cremos que o Cristo morreu e ressuscitou, devemos também Crer que Deus trará com Jesus os que adormeceram em Jesus. Assim, nos vos declaramos sobre a palavra do Senhor, que nos, os vivos, reservados para o tempo da vinda do Senhor, não viremos em frente dos que adormeceram em Cristo. Por que o próprio Senhor, ao sinal dado, a voz do arcanjo, ao som da trombeta divina, descera do céu, e os mortos que são em Cristo ressurgirão primeiro” (1 Tessalonicenses 4:12-15).
Nesta espécie de exortação, a figura que aparece e a anagogia.
A Doutrina expõe simplesmente a ordem da historia, em que não há nenhum sentido mais oculto do que aquele que soa nas próprias palavras. Assim, “eu vos ensinei primeiro, como eu mesmo recebi, que Cristo morreu por nossos pecados segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e ressuscitou no terceiro dia, e apareceu a Cefas” (1 Coríntios 15:3-5). E também:“ Deus enviou o seu Filho, formado duma mulher, nascido sob a Lei, a fim de libertar aqueles que estavam sob a Lei” (Gálatas 4:4-5). Ou estas palavras:“Escuta, Israel, o Senhor teu Deus e um Senhor único” (Deuteronômio 6:4).
IX. É preciso passar pela ciência ativa para progredir à ciência espiritual
Se, portanto, sois solícitos em chegar a luz da ciência espiritual, não por vício de vaidade e jactância, mas pela graça da purificação, inflamai-vos, primeiro, do desejo daquela bem-aventurança, da qual se diz: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5:8), a fim de que possais alcançar também aquela da qual fala o anjo a Daniel: “Os que tiverem sido doutos, fulgirão como o esplendor do firmamento; e os que instruem a muitos para a justiça, brilharão como as estrelas nas eternidades sem fim” ( Daniel 12:3); e noutro profeta: “Acendei em vos a luz da ciência, enquanto e tempo ” (Oséias 10:12).
Guardando essa diligência que eu sinto em vós pela leitura, apressai-vos, com todo zelo, para possuir o mais depressa possível a plenitude da ciência “prática”, isto é, moral. Sem ela, é impossível ter a pureza “theoretica”, de que falamos. E esta só a conseguem — como se fosse, por assim dizer, um prêmio, aqueles que, depois de muito servir numa vida de obras e trabalhos, se tornam perfeitos, não pelo efeito das palavras dos seus mestres, mas peIa virtude dos seus próprios atos.
Não é na meditação da Lei, que eles adquirem a inteligência, mas como o fruto das suas obras. Com o salmista, cantam: “Pelos vossos mandamentos, eu tive a inteligência” (SI 118,104), e, depois de ter eliminado as suas paixões, dizem com confiança: “Eu salmodiarei, e terei a inteligência no caminho imaculado” (SI 100,1-2).
O que salmodia, tem a inteligência daquilo que ele canta, se pisa no caminho imaculado, com o coração puro.
Se, pois, quereis preparar no vosso coração o sagrado tabernáculo da ciência espiritual, purificai-vos do contágio de todos os vícios e despojai-vos das preocupações deste século. É, com efeito, impossível que a alma, envolvida mesmo ligeiramente pelas preocupações do mundo, alcance o dom da ciência, e se torne fecunda em sentidos espirituais, e guarde com tenacidade as santas leituras.
Observai, pois, antes de tudo — principalmente tu, João, cuja idade mais jovem ajuda a guardar o que vou dizer — o empenho em ordenar a vossa boca um completo silencio, a fim de que não as anulem por uma vã exaltação nem o vosso zelo na leitura nem o vosso esforço animado por tanto desejo.
E nisso está o primeiro passo na ciência pratica; receber os ensinamentos e as palavras de todos os antigos, de coração atento, e boca, por assim dizer, muda, e conservá-los com solicitude na alma, empenhando-vos mais em os praticar do que em querer ensiná-los.
Pretender doutrinar é fonte de nociva presunção e vanglória, enquanto que a prática efetiva faz nascer os frutos da ciência espiritual.
Nos encontros com os antigos, não ouses dizer nada, a não ser para perguntar o que te seria prejudicial ignorar ou o que te é necessário saber. Não faças como alguns que, por amor da vanglória, fingem, só por uma ostentação de doutrina, querer saber o que, na realidade, bem conhecem.
A quem, somente em vista do louvor humano, insiste no esforço da leitura, é impossível merecer o dom da verdadeira ciência. Os que são prisioneiros desta paixão, estão forçosamente escravizados a outros vícios, sobretudo a soberba. Ora, assim derrubado na luta pela ciência prática e moral, como pode conseguir a ciência espiritual, que daquela deriva?
Se, portanto, em tudo, “pronto para escutar, mas lento a falar” (Tiago 1:19), para que, não se aplique a ti o que nota Salomão: “Se vires um homem veloz na palavra, fica sabendo que há mais esperança no insensato do que nele” (Prov 29,20). E não presumas ensinar a outrem, por palavras, o que não tenhas antes praticado em realidade.
Incumbe-nos manter esta ordem, que nosso Senhor estabelece por seu exemplo: “O que Jesus começou a fazer e ensinar” (At l,l). Cuidado, pois, em não vos precipitar a ensinar antes de fazer, para não serdes postos no número daqueles, de quem no evangelho diz o Senhor a seus discípulos: “Observai e fazei o que eles vos dizem, mas não pratiqueis o que eles fazem: dizem e não fazem. Ligam fardos pesados e insuportáveis e os põem no ombro dos homens, mas não querem movê-los nem com um dedo”(Mateus 23:3-Zj.).
Se “aquele que viola um dos menores mandamentos e ensina assim aos homens, será chamado o menor no reino dos céus” (Mateus 5:19), quem despreza muitos e maiores e assim presume ensinar, não já será chamado de mínimo no Reino dos céus, mas, sim, haverá de ser tido como o maior no suplício do inferno.
Deste modo, urge que não vos deixeis levar pelo exemplo daqueles que adquiriram habilidade em discutir e uma certa afluência verbal. Eles podem dissertar com elegância e facúndia sobre tudo que quiserem, e passam por ter a ciência espiritual, aos olhos dos que são incapazes de perceber o que eles são.
Pois, uma coisa e ter facilidade em falar e certo brilho no discurso, e outra é entrar até ao coração e a medula das palavras celestes, e contemplar, com o olhar mais puro do coração os mistérios profundos e escondidos. Isto não pode nenhuma ciência humana nem erudição secular possuir, mas somente a pureza da alma, pela iluminação do Espírito Santo.
X. Como aprender a verdadeira ciência
Se, por conseguinte, queres chegar a ciência verdadeira das Escrituras, apressa-te a conseguir, primeiro, uma invariável humildade de coração. É ela que te levará à ciência, não a que enche de vento (Cf 1 Cor 8,l), mas a que ilumina, pela perfeição da caridade. É impossível a uma alma impura obter a ciência espiritual.
Assim sendo, evita com todo cuidado, que o teu zelo pela leitura, em vez de te trazer a luz da ciência e a glória perpétua prometida pela iluminação da doutrina, gere instrumentos de perdição, nascidos da vaidade e da arrogância.
Depois disto, eliminadas as preocupações e os pensamentos terrenos, esforça-te, de toda maneira, por dedicar-te assiduamente, ou melhor, constantemente, a leitura sagrada, de modo que a meditação contínua impregne a tua alma, e a forme a sua própria imagem, fazendo dela, por assim dizer, uma arca da Aliança (Cf. Hebreus 9:4-5) com as duas tábuas de pedra, isto é, a eterna firmeza dos dois Testamentos: a urna de ouro, símbolo duma memória pura e sem mancha, que conserva com tenacidade o maná escondido, vale dizer, a eterna e celeste doçura dos sentidos espirituais e do pão dos anjos; e a vara de Arão, quer dizer, o estandarte da salvação, de nosso sumo e verdadeiro pontífice Jesus Cristo, sempre verdejante em sua memória imortal. Esta é, com efeito, a vara que, depois de cortada da raiz de Jessé (Cf Isaías 11,l), reverdece da sua morte, com um novo vigor.
Todas essas coisas são protegidas por dois Querubins, isto é, a plenitude da ciência histórica e espiritual. Porque Querubim significa “plenitude de ciência”. Eles cobrem sem interrupção o propiciatório de Deus, isto é, a tranquilidade do teu coração, e a protegem com sua sombra contra todos os assaltos dos espíritos malignos.
Assim, tua alma, elevada até se tornar não só a arca da divina Aliança, mas também o reino sacerdotal, absorvida, de certo modo, nos conhecimentos espirituais, pelo seu indissolúvel amor da pureza, cumprirá o preceito feito pelo Legislador ao pontífice: “E não sairás do santuário, para que não se profane o santuário de Deus” (Levítico 21:12), isto é, o seu coração, no qual o Senhor promete que habitará para sempre: “Habitarei neles e andarei no meio deles” (2 Coríntios 6:16).
Por isto, devemos ter todo o empenho em aprender de cor a série das sagradas Escrituras, e em repassá-las na memória, sem cessar. Esta meditação contínua nos produzirá um duplo fruto: primeiro, enquanto a atenção da mente está ocupada em ler e em preparar as leituras, não se deixará cativar pelos laços dos maus pensamentos; em segundo lugar, acontece que, depois de ter repassado muitas vezes certas passagens, trabalhando para guardá-las de memória, não conseguimos, na hora, entendê-las por causa dos bloqueios que prendem a nossa mente. Mas, em seguida, libertos dos encantamentos de ocupações e de coisas vistas, quando as repassamos, em silêncio, sobre tudo na meditação noturna, nós as contemplamos com maior clareza. E, então, quando nos repousamos, como que mergulhados no torpor dum Sono profundo, revela-se-nos a inteligência de sentidos totalmente escondidos, dos quais, estando acordados, não temos a mais leve suspeita.
XI. Os sentidos múltiplos das Escrituras divinas
À Medida que cresce, por esse esforço, a renovação da nossa mente, começa também a mudar a face das Escrituras, e a beleza de uma compreensão mais sagrada aumenta com os nossos progressos. Elas se acomodam à capacidade dos sensos humanos, aparecendo terrena para o homem carnal, e divina para os espirituais. Os que antes as viam como que envoltas em nuvens pesadas, não podem, desse modo, perceber a sua profundeza nem sustentar o seu esplendor.
Para mostrar melhor, por um exemplo, o que tentamos afirmar, basta citar um testemunho da Lei. Por ele, vou provar que todos os preceitos celestes se estendem a todo o gênero humano, mas segundo a medida do estado de cada um de nós.
Com efeito, está escrito na Lei: “Não fornicarás” (Êx 20,14). O homem ainda prisioneiro das paixões e obscenidades da carne guardará proveitosamente este preceito, tomando-o simplesmente em seu sentido literal. Mas aquele que já se desprendeu da ação torpe e do afeto impuro, cumpre-lhe observá-lo em seu sentido espiritual, como, por exemplo, afastar-se não só do culto dos ídolos, mas também de toda superstição paga, dos augúrios, dos presságios, da observância de sinais, de dias e de tempos. Ou, ao menos, não se deixe prender a essas conjeturas que se tiram de certas palavras e nomes, que corrompem a pureza da nossa fé.
É por tal fornicação, que se diz que Jerusalém foi desonrada, quando fornicou “em toda colina elevada e debaixo de toda árvore frondosa” (Jeremias 3:6). E que o Senhor, em outro lugar, repreende pela boca do profeta: “Que venham e te salvem os augúrios do céu, que contemplavam astros e contavam os meses, a fim de te anunciar o que estava para vir a ti” (Isaías 47:13). Tal é também a falta de que o Senhor acusa acolá o seu povo: “Um espírito de fornicação os enganou, e eles fornicaram se afastando do seu Deus” (Oséias 4:12).
Mas todo aquele que se livra desta dupla fornicação, terá uma terceira a evitar, a que consta das superstições da Lei e do Judaísmo, das quais disse o Apóstolo: “Observar dias e meses e tempos e anos” (Gálatas 4:10). E ainda: “Não pegues, nem saboreies, nem toques…” (Colossenses 2:21).
É fora de dúvida que tais coisas foram ditas a propósito das superstições da Lei. Cair nelas é seguramente tornar-se adúltero em relação ao Cristo, e não merecer escutar o que diz o Apóstolo: “Eu vos desposei a um esposo único, para vos apresentar ao Cristo como uma virgem pura” (2 Cor 11,2 ). Mas é para ele que se dirige a voz do mesmo Apóstolo, lembrando, o que se segue: “Temo, entretanto, que, como a serpente seduziu Eva por sua astúcia, também os vossos sentimentos se corrompam da simplicidade que há em Cristo Jesus” (id 3).
Mas se conseguir escapar também a esta fornicação, encontrará uma quarta, que é aquela cometida como um adultério em relação aos dogmas da fé, abraçando um doutrina herética. Dela, mais uma vez, o bem-aventurado Apóstolo diz: “Eu sei que, depois da minha partida, se introduzirão no meio de vós lobos cruéis que não pouparão o rebanho, e que mesmo dentre vós se levantarão homens que vão ensinar doutrinas heréticas, para arrastar consigo discípulos” (Atos 20:29-30).
Quem puder fugir desta, tenha cuidado para não cair numa forma mais sutil do pecado de fornicação, que consiste na divagação dos pensamentos. Todo pensamento que afasta, por pouco que seja, de Deus, e não somente dos pensamentos torpes, mas também qualquer pensamento inútil, e, aos olhos do perfeito, uma fornicação impura.
XII. Pergunta sobre a maneira de chegar ao esquecimento dos poemas seculares
Ao ouvir tais coisas, “fui tomado por uma viva compunção, inicialmente oculta, que, depois, me fez cair em profundos gemidos: “Tudo que acabais de desenvolver com tanta abundância — disse-lhe eu — me trouxe um desespero ainda maior do que eu sentia até agora. Pois, além daquelas servidões da alma que todos experimentam, e das distrações que, sem dúvida, atacam de fora os fracos, acresce um obstáculo especial a minha salvação, que pareço ter no meu exíguo conhecimento das letras.
Seja pelo zelo do meu pedagogo, seja por minha contínua dedicação à leitura, minha mente está agora como que infectada pelas obras dos poetas, pelas fábulas frívolas e por histórias de guerras, de que fui imbuído desde pequeno em meus primeiros rudimentos de estudos, que me ocupam mesmo à hora da oração. Quando salmodio ou suplico o perdão dos meus pecados, eis que a lembrança impertinente dos poemas outrora aprendidos me acode a mente, a imagem dos heróis e dos seus combates flutua diante dos meus olhos e minha alma, iludida por essas fantasias, não consegue aspirar à contemplação das coisas celestes. Nem as lágrimas, que diariamente derramo, têm forças para as repelir.
XIII. Resposta sobre como poderemos lavar esta espécie de tintura da memória
Nésteros: Do próprio mal que te faz desesperar da purificação, poderá sair um remédio bastante rápido e eficaz. A condição única é que transfiras para a leitura e meditação das Escrituras espirituais a diligência e o zelo que, segundo dizias, tiveste pelos estudos seculares.
É, com efeito, inevitável que tua mente fique ocupada com aqueles poemas, até que ela tenha conquistado, com igual zelo e assiduidade, outros objetos que repasse em si mesma, e possa dar a luz, em lugar dos pensamentos terrenos e infrutíferos, outros espirituais e divinos.
A Medida que ela conceber no fundo de si mesma estes novos pensamentos, poderá expulsar pouco a pouco os primeiros, até os abolir de todo. O espírito humano não pode ficar vazio de pensamentos. Se, portanto, ele não for ocupado com as coisas espirituais, forçosamente continuará embaraçado por aqueles que antes aprendera. Enquanto não tiver a que recorrer e exercer uma infatigável atividade, necessariamente resvala para aquilo de que está desde a infância imbuído, e ficará sempre revolvendo os pensamentos que concebeu através de um longo contato e assídua meditação.
A fim de que a ciência espiritual tome em ti força e perpétua solidez, e não a desfrutes só por pouco tempo, como os que não a possuem por seu esforço, e apenas entram em relação com ela pelo testemunho alheio, percebendo-a, por assim dizer, como um vago perfume no ar, mas para que ela seja de certo modo entranhada em teu coração e aí considerada pelo teu olhar e como que apalpada, convém que observes com toda diligência o seguinte.
Acontecerá, por acaso, que conheces muito bem o que ouvires numa conferência. Neste caso, não recebas com ar de desprezo e fastio o que já conheces. Ao contrario, confia isto ao teu coração com a mesma avidez que devemos sempre ter para ouvir as desejáveis palavras de salvação e para, de outro lado, as proferirmos nós mesmos.
Por mais frequente que nos seja a exposição de assuntos sérios, jamais uma alma que tem sede da verdadeira ciência experimentará a saciedade ou aversão. Eles lhe serão novos cada dia, e também cada dia desejados. E quanto mais a alma sedenta beber dessa ciência, tanto mais avidamente a escutará ou dela falará. E a repetição de tais santas verdades antes confirmará o conhecimento que ela tem delas, do que a encherá de enjoo pelas frequentes conferências sobre as mesmas.
É evidente indício de mente morna e soberba, receber com desgosto e negligência o remédio de palavras salutares, mesmo a custa de uma excessiva assiduidade em fazê-las escutar: “A alma saciada rejeita com mofa até favos de mel, ao passo que a alma carente acha doce até o amargo” (Prov 27,7).
Se, pois, se recolherem essas verdades com todo cuidado e forem guardadas no mais fundo da alma e marcadas com o selo do silêncio, elas serão depois como um vinho aromático, que alegrará o coração do homem. Amadurecidas por longas reflexões e ao ritmo demorado da paciência, elas se derramarão do vaso da tua alma com uma fragrância de perfume. Como uma fonte perene, elas vão transbordar dos veios da experiência e dos canais irrigantes da virtude. Brotarão do teu coração, como se viessem de um abismo profundo.
Acontecerá, então, contigo aquilo que nos Provérbios se diz a quem realizou tudo isto: “Bebe a água dos teus vasos e da fonte dos teus poços. Transbordem as águas da tua fonte e se espalhem nas tuas praças as tuas águas” (Prov 5,15-16). Segundo o profeta Isaías, “serás como um jardim bem irrigado, como uma fonte d'água que jamais secará. Os desertos que existem há séculos serão edificados para ti; levantarás os fundamentos postos de geração em geração; e serás chamado de construtor de sebes e restaurador da tranquilidade dos caminhos” (Isaías 58:11-12).
Ser-te-á dada a bem-aventurança que o mesmo profeta promete: “O Senhor fará que não mais se separe de ti o teu mestre, e teus olhos verão o teu preceptor. E teus ouvidos escutarão a voz daquele que te avisará, gritando atrás de ti: eis o caminho; anda por ele, sem desviar para a direita nem para a esquerda” (Isaías 30:20-21).
Desta maneira, acontecerá que não somente a direção e a meditação do teu coração, mas também todas as divagações e movimentos do teu pensamento, serão para ti uma incessante e santa ruminação da lei divina.
XIV. A alma impura não é capaz de dar nem de receber a ciência espiritual
Como aliás já dissemos, é de todo impossível que alguém possa conhecer ou ensinar essas coisas, a não ser que as tenha experimentado. Quem não é nem capaz de as perceber, como poderá comunicá-las? E ainda que tenha a presunção de ensinar, o seu discurso há de ser, fora de dúvida, ineficaz e inútil, limitando-se a atingir as orelhas dos ouvintes sem conseguir penetrar no seu coração. Pois não passará de um produto da carência de obras e de uma vaidade infrutífera, não saindo do tesouro de uma boa consciência, mas da vã presunção da jactância.
Impossível, com efeito, a uma alma impura, por mais assídua que seja a leitura, adquirir a ciência espiritual. Ninguém confia a um vaso fétido e estragado um perfume nobre ou um mel excelente ou um licor precioso. Um recipiente infectado por odores repulsivos mais facilmente contamina o perfume melhor, do que dele recebe alguma suavidade ou atrativo. Porque mais depressa se corrompe o que é puro, do que se purifica o que é corrompido.
Assim também é o vaso do nosso coração. Se não for previamente purgado de todo contagio fétido dos vícios, não merecerá receber esse perfume de benção, de que fala o profeta: “Como o óleo que derramado na cabeça, desce para a barba de Aarão, até a orla das suas vestes” (Salmos 132:2). Nem guardará impoluta a ciência espiritual ou as palavras da Escritura, “que são mais doces do que o mel e o favo cheio de mel” (Sl l8,ll). Pois, “que comunicação pode haver entre a justiça e a iniquidade? ou que sociedade entre a luz e as trevas? que acordo entre Cristo e Belial”? (1 Cor 6,14-15).
XV. Objeção pelo fato de que muitos impuros têm a ciência, enquanto muitos santos não a possuem
Germano: Esta afirmação não nos parece absolutamente fundada na verdade, nem apoiada em razão provável. Todos aqueles que recusam totalmente a fé de Cristo ou a corrompem por doutrinas ímpias e perversas, não possuem evidentemente um coração puro. Como, então, pode acontecer que muitos Judeus e também heréticos, e até os católicos que se deixam envolver por vícios diversos, chegam a um conhecimento perfeito das Escrituras e se gloriam de uma grande doutrina espiritual, ao passo que, ao contrário, imensa multidão de santos homens, de coração purificado de toda mancha de pecado, se contenta com uma fé bem simples e ignora os segredos duma ciência mais profunda?
Como, pois, fica essa tua sentença, que reserva aos corações puros a ciência espiritual?
XVI. Resposta, afirmando que os maus não podem ter a verdadeira ciência
Nésteros: Quem não pesa diligentemente todos os termos em que se exprimiu uma sentença, não examina corretamente o alcance de uma doutrina. Já antes dissemos que tais homens só tem certa perícia em discorrer, unida a uma feliz elocução, mas que são incapazes de entrar no âmago das Escrituras e no mistério dos seus sentidos espirituais.
A verdadeira ciência, só a possuem os verdadeiros adoradores de Deus, e não aquele povo ao qual se diz: — “Escuta, povo insensato, que não tens coração; que, tendo olhos, não vês, e ouvidos, não ouvis” (Jeremias 5:21). E ainda: “Porque rejeitaste a ciência, eu também te rejeito, para que não exerças as funções do meu sacerdócio” (Oséias 4:6).
Como está dito que em Cristo “estão escondidos todos os tesouros da sabedoria”, (Colossenses 2:3), como, então se pode Crer que obteve a verdadeira ciência, aquele que despreza ir ao encontro de Cristo, ou que, o tendo encontrado, o blasfema com boca sacrílega, ou desonra a fé católica por obras impuras? “O Espírito de Deus foge do fingido e não habita num corpo escravo do pecado” (Sab 1,5 e 4).
Não se pode, pois, chegar à ciência espiritual, senão seguindo a ordem que um dos profetas exprimiu de modo muito feliz: “Semeai para vós em vista da justiça, colhei a esperança da vida, acendei em vós a luz da ciência” (Oséias 10:12).
O primeiro cuidado é, pois, que semeemos para a justiça, isto é, que propaguemos pelas obras da justiça a nossa perfeição ascética. Depois, cumpre-nos colher a esperança da vida, isto é, recolher os frutos das virtudes espirituais, expulsando os vícios carnais. Desta maneira, finalmente, poderemos acender em nós a luz da ciência.
O Salmista também determina que essa ordem deve ser observada: “Bem-aventurados os que são imaculados em seu caminho, que andam na lei do Senhor. Bem-aventurados os que perscrutam os seus testemunhos” (Salmos 118:1-2).
Ele não disse primeiro que são bem-aventurados os que perscrutam os testemunhos do Senhor, acrescentando depois que são bem-aventurados os que são imaculados em seu caminho. Primeiro, diz ele: Bem-aventurados os imaculados em seu caminho, mostrando claramente que ninguém pode chegar corretamente a perscrutar os testemunhos do Senhor,sem antes, andar imaculado na via do Cristo pela vida ascética. Portanto, aqueles a que te referiste, não podem possuir, dada a sua impureza, esta ciência, mas só possuem uma ciência “pseudonymon”, isto é, falsa, que não merece este nome. Desta, fala o bem-aventurado Apóstolo: “Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando as novidades profanas em teus discursos e as oposições duma ciência de falso nome.
Em grego, e assim que esta dito: “tas antitheseis tes pseudonymou gnoseos”.
Quanto, pois, aqueles que parecem adquirir certa aparência de ciência, ou que, entregando-se com ardor a ler os volumes sagrados e a decorá-los de memória, não deixam, entretanto, os vícios da carne, os Provérbios tem esta expressão feliz: “Como anéis de ouro no focinho dum porco, assim é a beleza duma mulher de maus costumes” (Prov 11,22).
Que adianta, com efeito, adquirir as joias das palavras celestes e a beleza preciosíssima das Escrituras, se, agarrado a pensamentos e ações de lama, o homem a faz em pedaços, como se fosse uma terra totalmente imunda, ou a contamina nos redemoinhos enlameados das suas paixões impuras?
Aos que dela usam corretamente, a ciência costuma ser ornamento. Mas para pessoas daquela espécie, ela não só não pode ser ornamento, mas se cobre de imundícies pelo contágio de uma impureza que ela torna ainda maior.
“Da boca do pecador não provém belo louvor” (Sir 15,9). A ele esta dito pelo profeta: “Por que narras os meus preceitos e tens na boca a minha aliança?” (Salmos 49:16). De tais almas, que não possuem de modo estável o temor do Senhor (do qual se diz que “o temor do Senhor é ciência e sabedoria”, Prov 15, 33) — e que se esforçam por adquirir, por uma meditação continua, o senso das Escrituras, recorda-se nos Provérbios, em palavras bem apropriadas: “Que serve para o insensato ter a Riqueza? o homem sem inteligência não pode possuir a sabedoria” (Prov 17,16).
Esta verdadeira ciência espiritual está tão longe da erudição secular manchada pela impureza dos vícios carnais, que, às vezes, como sabemos, ela floresceu maravilhosamente até em homens desprovidos do dom da palavra e iletrados.
É o que se comprova, do modo mais claro, nos apóstolos e também em muitos santos varões, que não se abriam, como certas árvores, em frondosas mas estéreis folhagens, mas se curvavam ao peso de verdadeiros frutos da ciência espiritual. Deles é que está escrito nos Atos dos Apóstolos: “Vendo a constância de Pedro e de João, e verificando que eram homens iletrados e de baixa condição, ficaram cheios de espanto” (Atos 4:13).
Se, pois, te preocupas em chegar a respirar o seu perfume incorruptível, trabalha primeiro, de todas as tuas forças, para obter do Senhor a pureza da castidade. Pois ninguém possui a ciência espiritual, enquanto se deixa dominar pelas paixões carnais, e sobretudo pela fornicação. “No coração bom, repousa a sabedoria” (Prov 14,33); e ainda:“Quem teme o Senhor, achará a ciência com a justiça” (Sir 32,20).
Também o bem-aventurado Apóstolo nos ensina que é segundo a ordem que dissemos, que se chega à ciência espiritual. Querendo traçar a lista completa das suas virtudes, e, ao mesmo tempo, expor a ordem das mesmas, marcando a origem e a descendência de cada uma delas, ele acrescenta, depois de algumas palavras: “Em vigílias e em jejuns, na castidade, na ciência, na longanimidade, na bondade, no Espírito Santo, por uma caridade não fingida” (2 Coríntios 6:5-6) . Por essa maneira de ligar as virtudes uma a outra, ele nos quis ensinar com toda evidencia que se vai das vigílias e dos jejuns à castidade; da castidade à ciência; da ciência à longanimidade; da longanimidade à bondade; da bondade ao Espírito Santo; do Espírito Santo à recompensa duma caridade sincera.
Quando, portanto, chegares, através desta disciplina e nessa ordem, à ciência espiritual, terás também tu, fora de qualquer dúvida, uma doutrina, que não será estéril nem vã, mas cheia de vida e de frutos. Então, poderás lançar nos corações dos teus ouvintes a semente da palavra de salvação, que o orvalho abundante do Espírito Santo virá, em seguida, fecundar. Segundo a promessa do profeta, “a chuva será dada a tua semente, onde quer que semeares a terra; e o pão dos frutos da tua terra será muito abundante e substancial” (Isaías 30:23).
XVII. A quem se deve revelar a doutrina da perfeição
Guarda-te, pois, quando à tua idade mais madura te puser em condições de ensinar o que aprenderes mais por uma experiência laboriosa do que pela leitura, de te deixares levar pelo amor da vanglória, prodigalizando ao acaso o teu saber a almas impuras. Cairias naquilo que o sapientíssimo Salomão condena, ao dizer: “Não conduzas o ímpio as pastagens do justo, nem te deixes seduzir pela saciedade” (Prov 24,15). Pois, com efeito, “as delícias não aproveitam ao insensato” (Prov 19,10), e “não há necessidade de sabedoria onde falta o juízo: aí se gosta mais da insensatez” (Prov 18,2). Porque, em verdade, “o servo obstinado não se emenda com palavras; mesmo que ele compreenda, não obedecerá” (Prov 23,19).
Está igualmente escrito: “Não diga nada ao ouvido do insensato, para que ele não zombe das tuas sábias palavras” (Prov 23,9). E ainda: “Não deis o que é santo aos cães, nem lanceis as vossas pérolas diante dos porcos, para que não as calquem aos pés e, voltando-se contra vós, vos estraçalhem” (Mateus 7:6).
Assim, deves esconder aos homens desta espécie os mistérios dos sentidos espirituais, de medo que possas cantar com razão: “Eu guardei escondidas no meu coração as tuas palavras, a fim de não pecar contra ti”, (Salmos 118:11).
Mas talvez venhas a dizer: “A quem, pois, dispensar os segredos das santas Escrituras? O sapientíssimo Salomão to ensina: “Dai a embriaguez aos que estão tristes, e dai vinho a beber aos que se encontram em dores, para que esqueçam a sua pobreza e não se lembrem mais dos seus sofrimentos” (Prov 23,9). Isto quer dizer: aos que estão abatidos com aflição e tristeza pelo arrependimento das suas ações passadas, dai em abundância a alegria da ciência espiritual, como um “vinho que alegra o coração do homem” (Salmos 103:15); confortai-os com a embriaguez da palavra de salvação, para que não venham, por acaso, a se deixar deprimir pela continuação da sua amargura e por um desespero mortal, e “não sejam absorvidos numa excessiva tristeza” (2 Coríntios 2:7). Mas para os que vivem no torpor e na negligência, sem sentir em seu coração o menor remorso, eis o que esta dito: “Aquele que vive nas doçuras e sem sofrimento, ficará na indigência” ( Prov 14,23).
Evita, pois, com a maior cautela possível, deixar-te levar pelo amor da vanglória, para que não te aconteça ficar excluído do consórcio daquele que o profeta celebra, nestes termos: “Ele não emprestou o seu dinheiro com usura” (SI 14, 5).
Sendo dito, com efeito, que “as palavras do Senhor são palavras castas, uma prata depurada pelo fogo ao cadinho, refinada sete vezes” (Salmo 11,7), todo aquele que as dispensa por amor da glória humana, empresta o seu dinheiro com usura, não merecendo, por isto, nenhum louvor, mas somente os suplícios. Porque preferiu dissipar o dinheiro do seu senhor, para tirar um proveito temporal, em vez de aplicá-la de maneira que o Senhor, “ao voltar — como está escrito — recebesse com juros o que lhe pertence” (Mateus 25:27).
XVIII. Causas que tornam infrutífera a ciência espiritual.
Consta serem duas as causas que tornam ineficaz a doutrina espiritual. Ou aquele que ensina não experimentou o que diz, e, nesse caso, todos os esforços que faz para instruir não passam de ruído vazio de palavras. Ou, senão, é o ouvinte que é mau e cheio de vícios, e o seu coração endurecido permanece fechado a santa e salutar doutrina do homem espiritual. É destes, que diz o profeta: “O coração desse povo esta cegado, e ele se tornou duro de ouvido. Fecharam os seus olhos, de medo que vejam com seus olhos, e escutem com seus ouvidos, e que seu coração compreenda, e venham a converter-se, e eu os cure” (Isaías 6:10).
XIX. Por vezes, a graça do discurso salutífero é concedida mesmo a indignos
Algumas vezes, porém, a providencia do nosso Deus, “que quer salvar todos os homens e que eles venham ao conhecimento da verdade” (lTim 2,4), tem concedido, em sua pródiga liberalidade, que aquele que não se mostrou digno da pregação evangélica por uma vida irrepreensível, obtenha, entretanto, a graça da ciência espiritual, em vista da salvação de muitos.
Explica-se assim o nosso propósito de mostrar numa exposição semelhante a esta, as diversas maneiras como o Senhor concede carismas de curas, para expulsar os demônios. Levantemo-nos, agora, para tomar a nossa refeição, deixando para a tarde o exame dessa questão. Nós sempre compreendemos melhor aquilo que se apresenta pouco a pouco, e sem cansaço excessivo do corpo.