O tocador de alaúde oferece um modelo de imitação para quem busca a verdade, pois inclina a cabeça, escuta atentamente o canto e tange as cordas com o plectro, saltando de alegria (halletai) ante a doçura da melodia produzida.
O alaúde representa o coração, as cordas os sentidos e o plectro o intelecto (dianoia), que move constantemente o plectro através da razão (to logikon), gerando lembrança constante de Deus e prazer inefável na alma.
O fechamento dos sentidos do corpo é condição para que brote a fonte de água viva concedida à samaritana, comparável à terra que naturalmente contém água pronta a manar (hallomenon kai pegazon), luz que Adão possuía antes da desobediência.
A água viva e manante brota perpetuamente da alma, assim como residia na alma de Ignácio o Teóforo, que afirmou não haver em si fogo de amor pelas coisas materiais (philoylon), mas água ativa e que fala.
A vigilância noética da alma, três vezes bendita, é comparada à água que brota das profundezas do coração, fazendo o homem interior transbordar de orvalho e espírito divino, e tornando o homem exterior fogoso em aparência.
Aquilo que é movido na alma pelo
Espírito Santo em decorrência da luta espiritual aquieta o coração e clama Aba,
Pai (Gl 4:6), não tendo figura nem forma (aschematiston e amorphon), mas transfigurando (metaschematizei) e formando (morphopoiei) o homem pela glória e pela chama do Espírito divino.
O intelecto purificado pela vigilância escurece facilmente se não se desvincular completamente das coisas externas pela lembrança constante de
Jesus, enquanto aquele que uniu prática e contemplação já não precisa repelir distrações, pois é ferido pelo eros divino de Cristo.
Aquietar (stesai) as paixões e impulsos da carne, ou mesmo praticar a quietude (scholazein) com a razão, é possível para os que vivem no mundo, mas apenas a vida solitária pode erradicá-las por completo.
Salmo 45:11: aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus
O
diabo ataca os principiantes (eisagogikois) com sons distintos ou indistintos, mas aos que se dedicam à contemplação projeta formas imaginárias (eidolopoiei), pintando o ar como luz ou fogo para enganar o atleta de Cristo.
O objetivo da atenção e da oração revela-se na compunção incessante, no coração contrito e no amor ao próximo, sendo seus opostos os pensamentos de desejo, a maledicência e o ódio ao próximo.
O Paraíso descrito na Escritura é uma Imagem do Homem
As coisas visíveis são imagens (eikones) das coisas invisíveis do homem, de modo que o jardim do Éden plantado por Deus no Oriente representa o homem interior, sendo o coração a terra e as plantas as contemplações e percepções divinas que ali são livremente (boulomenos) plantadas pelo intelecto criado à imagem de Deus.
referência a Gênesis 2:8 e Gênesis 1:27
o Sol noético ilumina o Paraíso interior assim como o sol sensível ilumina o Éden sensível
uma fonte no meio do jardim divide-se em quatro rios principais (eis archas tettaras), regando toda a face da terra, conforme Gênesis 2:6-10
A fonte única que rega o jardim, sendo de natureza diversa das plantas e do solo, é suficiente para irrigar plantas de composições (kraseos) opostas entre si, assim como o Espírito Vivificante, sendo Uno e Único (monoeides), distribui-se nas quatro virtudes cardeais sem ser da mesma natureza das atividades humanas.
João 4:14: a água que Eu lhe der se tornará nele uma fonte de água
as quatro virtudes cardeais são prudência, temperança, justiça e coragem (archas tettaras)
Romanos 5:5: o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo
Espírito Santo que nos foi dado
Isaías 11:2 numera o espírito de sabedoria entre as sete energias do Espírito
1Pedro 4:8: o amor cobre uma multiplicidade de pecados
Elias mata sacerdotes vergonhosos pela espada (3Rs 18:40) e Fineias mata uma midianita e um israelita com lança (Nm 25:8), exemplos do espírito de zelo
Gálatas 5:22: a alegria é fruto do Espírito
Romanos 11:8: Deus dá a alguns um espírito de contrição
a Escritura chama o Espírito tanto de fogo quanto de água, e também de fonte e de rios
A rocha ferida (plegeisan) por Moisés com a vara, da qual brotaram águas supernaturalmente (pegasasan), representa o coração de pedra endurecido pela obstinação que, ao ser tocado por Deus no momento certo (kairios plexe kai katanyxe) com a Palavra em vez da vara, torna-se contrito e deixa brotar livremente o poder do Espírito.
referência a Êxodo 17:1-7
a rocha, transportada numa única carroça (amaxa), produziu água suficiente para incontáveis carroças
A capacidade do coração de receber um fluxo constante e ilimitado do
Espírito Santo permanece um mistério, pois o Espírito sopra onde quer e ninguém sabe de onde vem nem para onde vai.
João 3:8: o Espírito sopra onde quer, e ouves o som dele, mas não sabes de onde vem nem para onde vai (referência a auvtaletheia, a Verdade-em-si-mesma)
O homem recebeu o privilégio de plantar em si mesmo um paraíso divino à imitação de Deus (theomimetos), reunindo em si as visões e percepções divinas já mencionadas e os ensinamentos teológicos (theologemata), de modo a persuadir Deus pela oração adequada a fazer brotar rios de água viva do coração.
João 7:38: aquele que crê em Mim, do seu interior fluirão rios de água viva
João 7:39: o Discípulo Amado explica que isto se referia ao Espírito que os crentes receberiam
Sobre os dons espirituais
Os dons e graças concedidos por Deus à humanidade superam os dados ao primeiro Adão, a quem foi soprado o fôlego de vida (pnoen zoes), a graça do Espírito Vivificante (zoopoiou Pneumatos), tornando-o uma alma vivente, e não apenas uma alma.
Gênesis 2:7: o homem se tornou uma alma vivente
sem o Espírito de Deus, a forma divina (to theoeides) se perde e o homem torna-se semelhante aos animais
João 15:5: sem Mim nada podeis fazer
pela presença desse fôlego, Adão recebia glória e brilho divino (theoeikelon eukleian), discernimento (dioratikos) e profecia, sendo um segundo deus pela graça, até que a desobediência fez o Espírito fugir e Adão se tornasse semelhante aos animais irracionais
Salmo 48:13: tornou-se semelhante a eles
A compaixão de Deus enviou o Verbo, que traz consigo o
Espírito Santo, e todos os que recebem o Verbo pela fé recebem simultaneamente o Espírito de Deus, não apenas externamente como Adão ou os discípulos quando Cristo soprou sobre eles, mas invisível e repentinamente, como um sopro de vento (pnoe).
Sobre a energia divina e humana, e sobre a paz
A energia natural humana, dependente do impulso (horme) da alma e da vontade (thelesis), não consegue por si só extinguir o apetite (epithymia) e a irascibilidade (thymikon), enquanto a energia supernatural do
Espírito Santo no coração opera independentemente da vontade do homem, tornando inativa a parte passível (to pathetikon) da alma e enchendo o intelecto de alegria (euthymein) e vida.
Gálatas 5:22: amor, alegria, paz, paciência, bondade e generosidade são frutos do Espírito
o espírito de ilusão e falsidade, por contraste, agita a alma e não produz amor, alegria ou paz
Sob a graça, a alma contempla a Deus em paz, tranquilidade e impassibilidade (apatheia), alcançando o conhecimento da beleza inefável e deslumbrante (oraiotes) divina, regozijando-se de modo indizível num
Pai infinito e incompreensível que já desde o presente se torna sua herança.
A glória pertence Àquele que glorifica os humildes tornando-os ainda mais humildes, pois Ele afirma estar enraizado num povo glorificado, elevando-Se como um cedro do Líbano e estendendo Seus ramos como um terebinto.
Eclesiástico 24:12-13: como um cedro no Líbano fui elevado (hypsothen)
Eclesiástico 24:16: meus ramos são ramos de glória e graça
Cântico dos Cânticos 2:3: a alma senta-se à sombra Dele e prova a doçura de Seu fruto
2Coríntios 2:16: Paulo torna-se para alguns o aroma da morte e para outros o aroma da vida
Mateus 5:8: os puros de coração verão a Deus
a doçura e a glória divinas se manifestam apenas aos que possuem sentidos noéticos (aistheseis noerai) e praticam a quietude
a fuga do mundo, a reclusão e a quietude criam espaço para a compaixão divina habitar na alma, gerando frutos como amor, alegria, paz, longanimidade, bondade e mansidão (Gl 5:22)
Sobre a vida contemplativa, e o que o contemplativo necessita; a oração é um aspecto da contemplação; os Padres contam a contemplação como oração
A vida contemplativa e a oração sagrada são companheiras inseparáveis, dois brotos divinamente favorecidos (theocharitotoi) e deificantes (theopoioi) da parte noética da alma, unidos sob o termo único de prática (praxis) e contemplação (theoria) do intelecto.
Isaac afirma que a ação do intelecto consiste no refinamento, na meditação contínua sobre Deus e na oração incessante, ocorrendo na parte desiderativa (epithymetikon) da alma, sendo chamada contemplação
Máximos afirma que o intelecto não pode ser purificado sem a contemplação de Deus e a comunhão (homilias) com Ele na oração
Máximos também afirma que o afastamento do mundo, a contemplação e a oração diminuem e depois eliminam o desejo
Máximos acrescenta que a parte racional da alma se move propriamente quando atraída a Deus pela contemplação espiritual e pela oração
Máximos exorta a dar alas à parte racional da alma pela leitura, contemplação e oração
Sobre o versículo, Deus é Espírito, e os que O adoram devem adorá-Lo em espírito e verdade (Jo 4:24)
A fórmula no plural, aqueles que O adoram, é adequada Àquele que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade, preparando muitas moradas para serem gozadas de modo variado, segundo a condição (hexis) e o livre-arbítrio (proairesis) de cada um.
1Timóteo 2:4: Deus deseja que todos os homens sejam salvos
João 14:2: muitas moradas
Isaías 9:5-6: o Mensageiro do Grande Conselho
A fé é espírito, pois fala claramente sobre Deus e as realidades divinas e invisíveis, sendo este o fundamento pelo qual até o iletrado que segue os mandamentos e os mestres experientes adora a Deus em espírito e verdade.
Aquele ocupado com o conhecimento da criação e da Escritura procede do visível e verbal ao noético, da carne ao Espírito, e ascende diretamente ao que está acima do intelecto e da verdade, até Deus, adorando assim em espírito e verdade.
Os que cantam e oram, atentando ao sentido das palavras, e o que vê a Deus de modo concentrado pela luz do conhecimento, e ainda quem reflete em si a luz da glória e da economia de Cristo experimentando a efusão do
Espírito Santo do
Pai, adoram a Deus em espírito e verdade de modo cada vez mais sublime.
Sobre a oração
Deus ensina o conhecimento ao homem (Sl 93:10) concedendo a oração por inspiração do Espírito, que sopra sem cessar e manifestamente, tornando a oração um espelho puro pelo qual o intelecto percebe seu desvio, sua errância, seu cativeiro, sua negligência e seu engano, mas também o ar da pureza, o esplendor da contemplação e a chama ardente do eros divino.
1Reis 2:9 (referência ao sopro do Espírito)
1Tessalonicenses 5:17: orar sem cessar
pela oração o intelecto conhece os diferentes estados da alma e a influência das paixões, alcançando o discernimento e a vida monástica experimentada pela disciplina (askesis)
Sobre as coisas necessárias para a oração e como ela é digna de tamanha honra
A oração sagrada e espiritual não apenas ensina e instrui nas obrigações da virtude, mas também exorta para o bem e confere a força necessária para superar a fraqueza humana, comportando três aspectos cruciais: instrução, exortação e o poder que torna leves os mandamentos difíceis (exeumarizousan).
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João 14:26: o Consolador (parakleton) vos ensinará todas as coisas
1Coríntios 12:11: o mesmo Espírito distribui dons diferentes a cada um conforme Sua vontade
1Coríntios 12:8-9: os dons do Espírito são distinguidos entre si — sabedoria, conhecimento, profecia, curas
João 15:5: sem Mim nada podeis fazer
Mateus 23:7-10: não chameis a ninguém na terra de mestre, pois um só é o vosso Mestre, o Cristo
João 14:9 (referência ao envio do Consolador para permanecer para sempre)
Sobre a oração
Quando o intelecto adquire pela graça uma concepção clara de Deus, deve examinar sua própria fraqueza e negligência, e somente depois de se humilhar genuinamente deve aproximar-se de Deus pela oração, com confiança fundada na misericórdia incompreensível divina.
Sobre o versículo, Deus disse a Abrão, Sai da tua terra (Gn 12:1); sobre a contemplação
O chamado a Abrão, o migrante (to perate), para deixar sua terra, sua parentela e a casa de seu pai e ir para a terra que Deus lhe mostraria, dirige-se de modo mais sublime ao intelecto que se torna migrante, passando das coisas sensíveis para as inteligíveis.
Gênesis 12:1: sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai
Êxodo 33:3: terra que mana leite e mel
Marcos 10:21: vende tudo o que tens e dá aos pobres, toma a tua cruz e segue-Me
Salmo 50:14 (referência ao Espírito guia)
O Espírito de Deus é chamado o dedo de Deus, e a terra que mana leite e mel representa a compreensão de Deus, alcançável apenas pela iluminação do Espírito Vivificante refletido pelo
Filho.
Lucas 11:20: se Eu expulso demônios pelo dedo de Deus
Mateus 12:28: pelo Espírito de Deus
Êxodo 8:15: este é o dedo de Deus, dito pelos sábios egípcios
Deus é a Terra Prometida que os mansos herdarão, e o leite e o mel representam as Luzes primordiais (ta proina phota), os Raios gêmeos: o
Filho como mel, cuja encarnação adoça toda a raça humana, e o
Espírito Santo como leite, simples em forma, não gerado, mas procedente do
Pai.
Aquele que, pelo poder e energia da Divindade Tri-hipostática, transporta-se das coisas sensíveis ao esplendor unificado e à contemplação da Santa
Trindade torna-se pai e produtor (probolevs) de muitas e inefáveis concepções místicas, como muitas nações.
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Salmo 35:10: em Tua luz veremos a luz
1Coríntios 1:29: para que nenhuma carne se glorie diante de Deus
Abrão significa migrante, e Abraão significa pai de muitas nações
Sobre a humildade e a contemplação
A causa da exaltação do intelecto torna-se o motivo último da humildade, pois aquilo que infinitamente exalta a alma é exatamente o que a humilha, sendo o início da contemplação a humildade e a perfeição da humildade a contemplação.
Isaías 58:5: dobrar o pescoço como um aro
a contemplação que exalta (hypsopoion theorian) distingue-se da contemplação que os gregos possuíam, que não exaltava
O intelecto deiforme (theoeides) que desceu é também o que ascendeu, e aquele que ascendeu é também o que desceu, pois quando atinge as coisas mais altas pela graça com humildade, rebaixa-se abaixo de todas as coisas.
Sobre o mesmo
Ao retornar a Deus com o auxílio da graça, o intelecto é inicialmente possuído por um estado de autoacusação (katechetai katastasei katagnoseos), passando por purificação pela quietude e alcançando uma segunda autoacusação mais abundante e constante, da qual nasce uma humildade mais segura e pura.
mesmo recebendo bênçãos públicas de todos os homens, o intelecto se veria como inferior a todos, e ainda menos que o nada, pois o que não existe ao menos não peca
Jeremias 1:8: Eu estou contigo
Salmo 102:10: Ele não nos tratou segundo as nossas iniquidades nem nos retribuiu segundo os nossos pecados
Efésios 2:5: pela graça somos salvos
Efésios 2:13: a unidade da fé
1Timóteo 2:4: o entendimento da verdade
Sobre a contemplação
A criação com suas realidades inteligíveis e a Escritura com suas realidades espirituais testemunham a glória, o reino, a sabedoria, o poder e a magnificência de Deus, mas esse testemunho é pequeno como uma gota no oceano (ek pelagous ranida), pois Deus proveu apenas o necessário por abundância de Sua bondade.
ao formar Adão, Deus contemplava toda a multiplicidade do gênero humano
a terra, o céu, o sol, o ar e o mar mantêm entre si a proporção e harmonia dadas por Deus
Caso o Criador não tivesse limitado a criação apenas ao necessário, mas a tivesse feito segundo Seu próprio poder, sabedoria, glória e magnificência, existiriam mundos infinitos, estranhos, supernaturais e incompreensíveis, cuja glória a alma dificilmente poderia suportar.
Isaías 40:23 e
Job 26:7: Ele fez a terra como nada, suspendendo-a sobre o nada
Salmo 103:2: Ele estende os céus como uma cortina
Salmo 103:32: Ele olha para a terra e ela treme
Deus quis fazer uma só obra, o ser humano, como rei de tudo na terra e como outro deus posto sobre as criações divinas, produzindo este mundo fácil e instantaneamente para as necessidades do homem, reservando as realidades mais gloriosas para uma era posterior.