Ambrósio de Milão. Patrística. Editora Paulus
Sobre a prioridade da fé e a abertura dos sentidos
Sobre as renúncias e promessas feitas no batismo
Chegando à fonte, o batizando é ungido como atleta de Cristo para lutar no mundo, onde há luta, aí também há a coroa, embora a recompensa esteja no céu.
Ao ser interrogado, o batizando responde “Renuncio” ao
diabo e às suas obras, ao mundo e às suas concupiscências, devendo lembrar-se dessa palavra e das consequências do seu aval.
A promissória assinada não está guardada na terra, mas no céu, pois onde está o
corpo de Cristo, aí também estão as águias, conforme o
Evangelho (
Mateus 24:28).
Sobre a superioridade do batismo cristão em relação às figuras antigas
Os sacramentos dos cristãos são mais divinos e anteriores aos dos
judeus, pois enquanto os judeus que atravessaram o mar morreram no deserto, quem passa por esta fonte não morre, mas ressuscita.
No caso do sírio Naamã, a água não cura por si mesma, mas a água que contém a graça de Cristo cura, sendo uma coisa o elemento e outra a consagração, uma coisa o ato e outra a eficácia do
Espírito Santo.
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Sobre as múltiplas figuras do batismo na Escritura
No mar Vermelho houve uma figura do batismo, como diz o Apóstolo: “Nossos pais foram todos batizados na nuvem e no mar” (
1 Coríntios 10:2), sendo que aquelas coisas aconteciam em figura, mas para os cristãos são na
realidade.
No dilúvio, pereceu toda a corrupção da
carne e somente a raça do justo permaneceu, sendo o batismo esse dilúvio onde todos os pecados são desfeitos e somente ressuscitam o espírito e a graça.
Na piscina de Betesda, um
anjo descia e agitava a água, e aquele que descia primeiro ficava curado de qualquer doença, representando a figura de Cristo e sendo um sinal para os incrédulos.
Quando Eliseu lançou madeira na água e o ferro do machado veio à tona, vê-se que a enfermidade de todos os homens é tirada através da cruz de Cristo.
Em Mara, Moisés pôs madeira na fonte amarga e a água se tornou doce, significando que toda criatura sujeita à corrupção é água amarga, mas ao receber a cruz de Cristo começa a ser doce.
Sobre o significado teológico do batismo como morte e ressurreição
O batismo foi encontrado para desfazer a trama do
diabo neste mundo, sendo um desígnio de Deus, pois os
fariseus que não quiseram ser batizados desprezaram o desígnio de Deus (
Lucas 7:30).
O batizando é interrogado três vezes, crendo em Deus
Pai onipotente, em nosso Senhor
Jesus Cristo e na sua cruz, e no
Espírito Santo, entrando na água a cada vez para ser sepultado com Cristo e ressurgir com Cristo.
Assim como
Pedro, que havia negado três vezes, foi interrogado três vezes por Cristo se o amava e respondeu “Senhor, tu sabes que eu te amo” (
João 21:17), assim a tríplice confissão absolve as inúmeras faltas da vida passada.
O batismo é na morte de
Jesus, significando que, como Cristo morreu para o pecado e vive para Deus, também o batizando morre para as antigas atrações dos pecados e ressuscita pela graça de Cristo.
Sobre a unção, a lavagem dos pés e o selo espiritual
Recebe-se o myrum, isto é, o ungüento, na cabeça, pois a razão do sábio está em sua cabeça, e a sabedoria, ao receber a graça, começa a tornar-se perfeita, o que se chama regeneração.
Após a fonte, o sumo sacerdote lava os pés do batizando, seguindo o exemplo do Senhor que disse a Pedro: “Se eu não lavar os teus pés, não terás parte comigo” (
João 13:8).
Embora a Igreja romana não tenha esse costume de lavar os pés, por causa do grande número, trata-se de um mistério e santificação para lavar os venenos da serpente na parte onde Adão foi suplantado.
Depois da fonte, vem o selo espiritual, quando, pela invocação do sacerdote, se infunde o Espírito da sabedoria e da inteligência, do conselho e da força, do
conhecimento e da piedade, e do temor santo, que são as sete virtudes do Espírito (
Isaías 11:2-3).
Sobre a abertura dos olhos e a aproximação ao altar
Depois do batismo, pode-se aproximar do altar e ver o que antes não se via, como o cego curado por
Jesus que tomou barro, ungiu os seus olhos e lhe disse: “Vai a Siloé” (que significa Enviado), e ele foi, lavou-se e voltou enxergando (
João 9:6-7).
O homem se reconhece ao procurar refúgio no batismo de Cristo, recebendo o barro que significa o respeito, a prudência e a consideração da própria fragilidade, para então ir à fonte onde se anuncia a cruz.
Aproximando-se do altar, os
anjos olham e se admiram, dizendo: “Quem é esta que sobe do deserto alvejada?” (
Cantares 8:5), pois foram concedidas coisas que até os
anjos desejam ver, como disse o apóstolo Pedro.
Sobre a antiguidade e a eficácia dos sacramentos cristãos
Os mistérios dos cristãos são mais antigos do que os dos judeus, pois no tempo de Abraão, o sacerdote Melquisedec ofereceu pão e vinho (
Gênesis 14:14-18), sendo ele “sem pai, sem mãe, sem genealogia, sem início dos dias, nem fim de sua vida, semelhante ao
Filho de Deus” (
Hebreus 7:3).
Antes da consagração, o pão é pão comum, mas depois das palavras de Cristo, o pão se transforma em carne de Cristo, pois é a palavra de Cristo que produz o sacramento, a mesma palavra pela qual todas as coisas foram feitas (
Salmos 32:9; 148,5).
A palavra de Cristo muda as leis da natureza, como no nascimento de Cristo de uma virgem, na divisão do mar Vermelho, na água de Mara que se tornou doce com a madeira, e no ferro do machado que subiu à tona pela madeira.
O pão se transforma em corpo de Cristo e o vinho com água se transforma em sangue, sendo que se bebe o símbolo do precioso sangue para que não haja horror do sangue derramado, mas se realize o preço da redenção.
Sobre a consagração e a frequência da comunhão
O sacerdote, usando as palavras de Cristo, diz: “Tomai e comei disso todos, porque isto é o meu corpo” e “Tomai e bebei disso todos, porque este é o meu sangue” (
Mateus 26:26-28), sendo que antes das palavras de Cristo é pão, mas depois é corpo de Cristo.
O maná do céu foi dado aos judeus, mas o corpo de Cristo é maior, pois aquele que comeu o maná morreu, enquanto quem comer este corpo terá a remissão dos pecados e não morrerá para sempre (
João 6:49-59).
Quando o sacerdote diz “Corpo de Cristo”, o fiel responde “Amém”, isto é, “é verdadeiro”, confessando em espírito que recebe o corpo de Cristo, cuja figura veio antes com Melquisedec.
Todas as vezes que se recebe o sacramento, anuncia-se a morte do Senhor (
1 Coríntios 11:26), e sendo o sangue derramado para a remissão dos pecados, deve-se recebê-lo sempre, pois quem sempre peca deve sempre ter um remédio.
Sobre a mistura da água com o vinho e o convite ao banquete celeste
No cálice coloca-se vinho e também água, porque no tempo de Moisés, Moisés tocou a rocha com a vara e a rocha jorrou água, sendo que a rocha era Cristo (
1 Coríntios 10:4), e do lado de Cristo na cruz saiu água e sangue (
João 19:31-34): água para purificar, sangue para redimir.
A alma purificada de todos os pecados diz a Cristo: “Que ele me beije com beijos de sua boca, porque os teus seios são melhores do que o vinho” (
Cantares 1:1), e “Teu nome é um perfume que escorre; por isso, as donzelas te amaram” (
Cantares 1:2).
O
salmo 22 se aplica aos sacramentos celestes: “O Senhor me apascenta e nada me faltará… Preparaste uma mesa diante de mim… Ungiste a minha cabeça com óleo e o teu corpo inebriante, que é excelente” (
Salmos 22:1-5).
Sobre a oração dominical e o modo de orar
Os santos apóstolos pediram ao Senhor
Jesus: “Senhor, ensina-nos a orar” (
Lucas 11:1), e o Senhor pronunciou a oração: “
Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade assim no céu como na terra. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes ser induzidos em tentação, mas livra-nos do mal” (
Mateus 6:9-13).
O batizado, que não ousava levantar o rosto para o céu, recebeu a graça de Cristo e todos os seus pecados foram perdoados, sendo salvo pela graça (
Efésios 2:5), e por isso pode dizer “
Pai nosso”, chamando a Deus como
Pai comum.
O pão da oração dominical é o pão epioússion, isto é, substancial, não o pão que entra no corpo, mas o pão da vida eterna que reconforta a substância da alma.
Se o pão é cotidiano, não se deve esperar um ano para recebê-lo, como fazem os gregos no Oriente, mas recebê-lo a cada dia, pois quem tem uma ferida procura um remédio, e o remédio é o celeste e venerável sacramento.
Na oração, deve-se perdoar as dívidas (os pecados) assim como se perdoa aos devedores, e pedir para não ser induzido em tentação, mas para ser libertado do mal, sendo que se Deus está conosco, ninguém contra nós (
Romanos 8:31).
Sobre a verdadeira carne e o verdadeiro sangue de Cristo
O que se recebe é verdadeira carne e a bebida é o verdadeiro sangue de Cristo (
João 6:56), e embora se veja aparência, a palavra de Cristo pode mudar e transformar as leis gerais da natureza.
Quando os discípulos de Cristo não suportaram a palavra de que ele daria sua carne para comer e seu sangue para beber, eles se retiraram, mas Pedro disse: “Tu tens palavras de vida, para onde irei eu longe de ti?” (
João 6:69).
Recebem-se os sacramentos de maneira simbólica, mas recebe-se a graça e a virtude da real natureza, pois Cristo é o pão vivo que desceu do céu (
João 6:41), e quem recebe a carne participa da substância divina por esse alimento.
Sobre a Trindade e o modo de orar em todo lugar
Em tudo o que se faz no batismo, é conservado o mistério da
Trindade, estando em todo lugar o
Pai, o
Filho e o
Espírito Santo, com uma só operação e uma só santificação, havendo diversidade de graças, mas o mesmo Espírito, diversidade de serviços, mas o mesmo Senhor, diversidade de operações, mas o mesmo Deus que realiza tudo em todos (
1 Coríntios 12:4-6).
O apóstolo Paulo diz “Quero que os homens rezem em todo lugar, elevando mãos puras, sem ira e sem discussão” (
1 Timóteo 2:8), e o Senhor diz no
Evangelho “Tu, quando rezares, entra em teu quarto e, fechada a porta, reza ao teu
Pai” (
Mateus 6:6), não havendo contradição porque o quarto é o espírito.
Quando se ora, não se deve gritar nem se vangloriar no meio das pessoas, pois aquele que vê o que está escondido ouve a oração em segredo, e a oração deve começar com o louvor de Deus, depois a súplica, o pedido e a ação de graças.
As mulheres devem orar sem ostentar enfeites e jóias (
1 Timóteo 2:9), tendo o ornamento na oração de coração puro, onde se encontra o homem escondido de coração que é sempre rico junto de Deus (1Pd 3,3-4).