A admirável obra sobre Mestre
Eckhart deve-se em grande parte a essa singularidade de
Lossky, pois o doutor turíngio não faltou a historiadores — entre os quais há excelentes —, mas a dificuldade não está em encontrar uma boa interpretação de Mestre
Eckhart, e sim em escolher entre tantas interpretações coerentes, fundadas em textos irrecusáveis e, no entanto, diferentes entre si ao ponto de serem por vezes contraditórias.
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O mérito mais raro desse longo estudo é precisamente a recusa de reduzir a teologia de
Eckhart ao desenvolvimento sistemático de uma única noção fundamental, sem contudo concebê-la como um ecletismo em que cada uma dessas noções encontraria sucessivamente seu lugar.
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Se há em
Eckhart uma noção fundamental, é a de Deus — ou, mais precisamente, a da inefabilidade de Deus.
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O título do livro situa com exatidão o objeto no coração mesmo da doutrina.
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Eckhart concebeu sua obra como uma investigação eminentemente positiva sobre a nescidade — o não-saber — da divindade.
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Tentando sucessivamente todas as vias já conhecidas e levando cada uma ao seu limite,
Eckhart faz ver que tudo o que se pode afirmar legitimamente de Deus pode — e deve — ser afinal negado, para dar lugar a uma afirmação aparentemente contrária.
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Deus é o Ser — mas não seria antes o Um? Ou o Intelecto?
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Compreender que Deus é cada uma dessas perfeições, absoluta e puramente — portanto em aparente exclusão das demais —, é precisamente em que consiste a ignorância transcendente que eleva Deus além de todas as afirmações.
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Dessa pluralidade de investigações, cujas conclusões parecem contradizer-se, decorre o estilo que explica a longa paciência exigida do historiador para ordenar cada verdade em seu lugar sem sacrificar nenhuma.
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Precisamente porque tudo o que é verdadeiro em si o era primeiramente de Deus,
Eckhart quis perseguir a verdade em todos os planos, e essa vasta abertura de seu campo de pesquisas tornava inevitáveis numerosos encontros com certos predecessores — encontros que, por sua vez, provocaram muitos mal-entendidos.
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Quando
Eckhart estabelece que Deus é o Ser, torna-se fácil classificá-lo como tomista — seguidor de
Tomás de Aquino.
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Quando afirma em seguida que Deus é antes o Um puro do que o Ser puro, parece seguir os passos de Pseudo-
Dionísio Areopagita.
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Vladimir
Lossky levou muito tempo para se orientar nesse labirinto e para guiar nele o leitor.
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Eckhart fala a língua de santo Tomás sem ser tomista, assim como fala a de
Dionísio sem aderir a uma estrita teologia do Um.
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Chegado tarde, quando a teologia escolástica já havia dado seus frutos mais belos,
Eckhart não pode tentar nenhuma via sem encontrar nela alguns predecessores — e não faz esforço algum para evitá-los.
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Ao contrário,
Eckhart “experimenta” as doutrinas alheias, submetendo seus princípios a uma espécie de prova de resistência, trocando cada uma por outra que passará pela mesma prova, até que sua insuficiência para dizer o que é Deus acabe por se revelar.
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Eckhart fala diversas linguagens, mas sempre para exprimir seu próprio pensamento, e o historiador que lhe atribui uma delas com exclusão das demais tem todas as chances de escrever um livro claro e satisfatório para o espírito — mas terá falhado com seu objeto.
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É isso que o título do livro diz muito bem, em sua simplicidade.
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Eckhart não inventou o método negativo em teologia — esse método lhe foi legado por
Dionísio, que praticou assiduamente, e pelos mestres da teologia grega à qual Vladimir
Lossky, por razões inteiramente pessoais, sempre permaneceu profundamente ligado.
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A Idade Média latina tampouco negligenciou esse método; ao contrário, ele ocupa lugar de honra em teologias como as de são Bernardo e de são
Tomás de Aquino.
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Contudo, esse lugar não é o mesmo: o que no tomismo representa a última palavra da obra e o coroamento da doutrina, torna-se em
Eckhart o mote ativo da pesquisa e, no fundo, a própria substância da verdade que o teólogo se esforça por nos persuadir.
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Vladimir
Lossky queria iluminar a recusa que
Eckhart opõe a toda tentativa de incluir a divindade em uma noção que se pretendesse suficiente para defini-la.
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Lossky exige do leitor a modéstia que ele próprio praticava tão naturalmente — e o consentimento a uma ignorância final que é aqui o verdadeiro saber.
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Em suma, exige mais renúncias do que promete satisfações dogmáticas.
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Essa ascese ativa de um intelecto que se disciplina em pleno conhecimento de causa não se separa de sua fidelidade ao objeto — e é por ela que se exprime melhor o que, na alma de Vladimir
Lossky, respondia naturalmente à de Mestre
Eckhart.
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Uma afinidade secreta havia conduzido
Lossky ao doutor turíngio — não para aprová-lo sempre, mas ao menos para colocar a seu serviço a simpatia espiritual à qual somente as doutrinas acabam por entregar seus segredos.
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Se havia uma consolação humana possível diante da perda do amigo, seria nesse livro — onde ele pôs tanto de si mesmo, e do mais íntimo — que o benefício de sua presença não poderia ser de todo perdido.
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O prefácio é assinado por Étienne
Gilson, da Academia Francesa.