A razão das coisas que devem ser produzidas está no Produtor intelectualmente como uma semente, competindo—lhe ser o primeiro e o princípio.
As coisas produzidas são conhecidas e são o que são em relação a essa razão, por ela e segundo ela, sendo o conhecido e o feito nada sem ela.
A quididade ou razão das coisas constitui a raiz e a causa primeira de tudo o que é afirmado ou negado a respeito de uma coisa.
Averróis afirma no comentário ao livro VII da Metafísica que o conhecimento da quididade das coisas sensíveis faz conhecer a Causa primeira de tudo o que existe, sendo a quididade essa própria causa.
A coisa cai e desce para o exterior após ser produzida fora do Produtor, situando—se fora do ser, da vida e da intelecção daquele que a produz.
A coisa criada encontra—se entenebrecida pela sombra do tempo, ou pela sombra da criação e do criado, do feito e do supósito, que significa o que está posto abaixo do Produtor.
A coisa cai sob a ordem da última determinação pelo Princípio, que é a do fim, situando—se consequentemente na ordem do bem por estar posta fora e abaixo da razão de seu Princípio.
O bem não está na alma, mas no exterior, nas coisas, segundo a lição do Filósofo.
A causalidade interior e seminal pertence à quididade no intelecto do Produtor, onde os conteúdos quididativos são redutíveis a uma única Razão.
As quididades exercem em relação às criaturas a função do Logos joanino por serem idênticas ao Verbo no princípio paternal, de modo que sem essa razão o conhecido e o feito nada são.
A quididade é anterior à produção para fora na qual a coisa produzida se torna inferior ao Intelecto divino e cai na ordem do criado, que é uma região do fieri definida como a sombra do próprio ser.
O feito ou criado recebe o ser deficiente de um supósito que cabe a tudo o que está posto abaixo do Produtor ao ser gerado pela causa eficiente fora do princípio intelectual.
O domínio do ser criado caracteriza—se pelos supósitos ou substâncias individuais que são partes múltiplas do universo que pertence à ordem da finalidade e do Bem que é objeto da vontade.
Esse ser segundo da substancialidade individual é o ser criado pelo qual uma coisa produzida fora é boa, visto que o bem reside na realidade exterior.
O Deus do Gênesis afirma que as criaturas são boas ao contemplá—las, confirmando que elas não pertencem mais ao Intelecto por serem produzidas por sua vontade e dotadas de supósitos.
Uma coisa criada não é mais verdadeira na medida em que é boa, pois deixou de ser completa para se dividir em supósitos ou se fracionar na matéria.
A divisão e o número são próprios dos supósitos e residem neles, enquanto a indivisão e a unidade provêm da forma e da espécie.
-
Eckhart comenta a autoridade do Gênesis 1, 34 sobre a criação da luz e a sua divisão a partir das trevas.
-
A luz serve de exemplo de uma realidade que devia preexistir no intelecto do Criador antes de ser produzida fora na natureza.
-
Esse ser feito é o segundo ser das coisas pelo qual a criatura é boa, e o filósofo diz que o bem está nas coisas.
-
Após a frase a luz foi feita, segue—se que Deus viu que a luz era boa, já não sendo verdadeira por não ser plena, mas divisa nos supósitos.
-
A divisão e o número pertencem aos supósitos, enquanto a indivisão procede da forma.
O ser criado é a existência das naturezas ou substâncias individuais, e criar significa produzir o ser divisível das naturezas singulares se a primeira coisa criada é o ser e a criação é a doação do ser.
A causa eficiente e o ato criador de Deus produzem existentes particulares e conteúdos essenciais individualizados nas substâncias próprias de cada ser criado.
As coisas são constituídas pelos gêneros e pelas espécies e possuem a plenitude do ser não dividido em seu ser primeiro, onde detêm a verdade e são verdadeiramente o que são por essência.
-
No Livro das
Parábolas do Gênesis, explica—se que as coisas possuem verdade a partir do primeiro modo, constituídas de gêneros e espécies em um ser pleno, enquanto fora não possuem esse ser pleno.
O termo ouro designa toda a espécie e unicamente a espécie desse metal, mas o ouro nunca se encontra segundo esse modo de ser nas coisas produzidas no exterior.
O ouro apresenta—se sob a espécie nos supósitos singulares dentro do domínio do ser criado, onde se divide perdendo a plenitude e se mistura deixando de ser puro e verdadeiro.
-
No Livro das
Parábolas do Gênesis, afirma—se que o ouro significa toda a espécie desse metal, o que não ocorre nas coisas feitas fora onde ele se divide e se mistura.
-
Em todo criado difere o supósito e a natureza, conforme ensina Tomás no segundo Quodlibet.
-
No Quodlibet II, São Tomás distingue a essência e a existência nos anjos e indaga se neles o supósito e a natureza são o mesmo, respondendo que em todos os seres criados o supósito é diferente da natureza.
-
O mestre
Eckhart devia admitir supósitos criados não materiais por se referir a essa composição dos anjos.
-
Esse artigo fazia duplo emprego com a questão de se o anjo se compõe de essência e ser, sendo o ser segundo o ser singular dos supósitos produzidos pela eficiência criadora.
A plenitude e a pureza do ser correspondem para
Eckhart à universalidade da espécie em oposição ao ser particular de um supósito.
O ser é concebido no espírito de uma filosofia das essências em ambos os casos, tratando—se de dois níveis diferentes de essencialidade e não de existência.
O ser pleno e não dividido encontra—se apenas no intelecto que possui por objeto a quididade formada de gêneros e espécies.
Esse ser íntegro é a quididade ou a razão ideal das coisas no intelecto divino ou humano na medida em que este é capaz de apreender o universal.
A quididade da coisa divide—se e enuncia—se nos supósitos ao nível do ser criado particular.
A quididade perde a sua pureza ao se misturar com o que lhe é alheio, deixando de ser verdadeira e passando a pertencer à natureza que é inferior ao intelecto por estar efetuada fora da espécie.
A quididade pertence sempre à ordem das essências, quer permaneça indivisa no intelecto ou esteja dividida no ser exterior.
A causa eficiente que projeta a quididade para fora modifica apenas o seu modo de ser uma essência, reduzindo—o ao de um ser particular cujo grau de realidade diminuída se aproxima do nada.
-
Étienne
Gilson contrapõe as doutrinas onde ser significa existir em relação às ontologias essencialistas, observando que nestas últimas o ser apresenta—se como uma valor variável proporcional à essência da qual depende, como ocorre em Duns Scot e em Platão.
-
A ontologia de
Eckhart tenderá a rejeitar esses graus variáveis do ser no não—ser, conferindo ao Ser—mesmo um sentido absoluto que exclui meio termo entre ser e não ser.
-
Essa transposição de um traço do existencialismo tomista para uma ontologia essencialista conferirá uma feição original à doutrina da analogia em
Eckhart.