São Bernardo afirma, no livro V do tratado Da Consideração, que Deus ama enquanto caridade, conhece enquanto Verdade, senta—se enquanto Equidade, domina enquanto Majestade, opera enquanto Potência e revela enquanto Luz.
Os exemplos citados indicam que uma razão, idêntica em sua expressão abstrata à essencialidade pura, aparece no supósito atuante como uma forma que determina o conteúdo secreto da ação.
A segunda nota precisa que essa redução do concreto ao abstrato não possui o mesmo sentido na realidade trinitária e na relação das criaturas com Deus, expressando o caráter formal da relação significada pelo termo enquanto.
O bom e a bondade são um, pois o bom, enquanto bom, significa a sola bondade, assim como o branco significa a sola qualidade, isto é, a brancura.
Esses termos, bom e bondade, são um de maneira unívoca no Filho, no Espírito Santo e no Pai.
Em Deus e em nós, que somos bons, eles são um de maneira analógica.
Encontra—se uma imediação na relação do participante concreto com o participado abstrato mesmo considerando o caráter analógico da formação nos sujeitos criados, o que permite reduzir um ao outro na Justiça geradora e no justo gerado.
A Justiça engendra o justo, mas este permanece idêntico à justiça na medida em que é justo.
O termo enquanto é a reduplicação ou a réplica dos dois, exprimindo o seu vínculo e a sua ordenação recíproca.
O termo constitui a charneira do dobramento sobre si mesmo, sendo definido como o prego e o vínculo dos dois.
Esse terceiro termo, o advérbio que assinala a identidade formal do concreto com o abstrato, assume um sentido trinitário e fundamenta o mecanismo da reduplicação na relação mútua entre o Pai e o Filho.
O vínculo dos dois na Trindade, o prego que assinala a sua identidade essencial, é a Terceira Pessoa, o Espírito Santo.
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No Comentário sobre João, nota—se que ao falar do justo, que é o filho, e de sua mãe, a justiça, afirma—se que são um, e o termo enquanto atua como reduplicação, que testemunha o nexo e a ordem de dois, sendo o Espírito Santo a terceira pessoa na Trindade.
Encontra—se a imagem e a expressão da Trindade todas as vezes que o concreto é identificado com o abstrato, o participante com o participado e o sujeito formado com la forma, por meio do termo enquanto.
O justo, considerado enquanto tal, recebe todo o seu ser de justo apenas da justiça, sendo seu filho, e a justiça geradora é o pai do justo, porque este não é criado em sua qualidade de justo, mas gerado pela justiça.
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Esse princípio fundamenta—se na teologia trinitária e aplica—se a outros exemplos, como sabedoria e sábio, verdade e verdadeiro, bondade e bom.
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Eckhart desenvolve o aspecto trinitário da relação entre bondade e bom no Livro da Consolação Divina, onde afirma que a Bondade e o Bom se olham mutuamente.
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O olhar recíproco entre Justiça e Justo manifesta—se também como diálogo, encontro, toque e beijo, com referências ao Cântico dos Cânticos no Livro das
Parábolas do Gênesis.
Três momentos existem na ação do Uno que respondem às Três Pessoas divinas: la justiça ingênita, a justiça gerada e o amor mútuo ou vínculo do gerante e do gerado, emanando dos dois como de um só, já que a justiça ingênita e a justiça gerada são idênticas em natureza.
Esses três momentos da ação do Uno distinguem—se pelas relações opostas que são em Deus as três Pessoas realmente distintas.
Os três termos da mesma ação não formam três pessoas nos sujeitos criados, pois se distinguem apenas por relação e razão.
A lei da vida trinitária aplica—se em qualquer lugar onde a identidade do ser se manifesta sob o aspecto formal da produtividade do Uno.
Não se trata de uma causalidade exterior, eficiente ou final, todas as vezes que
Eckhart fala da conversão reflexiva, mas de uma ação interior e formal exercida pelo Uno.
O ebulimento formal constitui uma realidade inconcreta, um estado pré—criatural que exclui qualquer alteridade e diversidade numérica, diferindo da produção das criaturas onde o Uno está presente na multiplicidade de seus efeitos.
O Uno é o Princípio da emanação das Pessoas, presidindo a uma produção onde o Ser apenas mostra a sua identidade ao se produzir no Uno por geração e spiração.
A afirmação do ser em uma repetição de termos idênticos convém propriamente a Deus, pois não há nada tão idêntico a si mesmo quanto o ser e o ser, como no Eu sou Aquele que sou.
Não há proposição mais verdadeira do que aquela em que o mesmo é predicado de si mesmo.
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No Comentário sobre o Êxodo, afirma—se que a afirmação que consiste no ser e na identidade dos termos compete propriamente a Deus, pois nenhuma proposição é mais verdadeira do que aquela em que o mesmo é predicado de si mesmo.
Todas as afirmações da identidade essencial fundam—se no sum qui sum do Êxodo, do qual recebem uma riqueza secreta que atrai o espírito de
Eckhart.
Essas proposições contêm o mistério das relações trinitárias e deixam entrever o ebulimento formal no qual o Uno afirma la identidade do ser que é Deus, longe de serem tautologias desprovidas de sentido.
O bem bem de
Agostinho e outras expressões redobradas dão a conhecer um aspecto de essencialidade como Ser não misturado, supremo e fixado em si mesmo, ao libertarem uma razão formal pura.
O sum qui sum revela ao mesmo tempo o Ser não misturado e a plenitude do Ser, isto é, a pureza do Ser divino indistinto e a emanação das pessoas.
A pureza exclui qualquer denominação do Ser oculto, enquanto a plenitude permite atribuir todos os nomes ao ser considerado sob a razão do Uno, que é o princípio da operação todo—poderosa.
O Uno é o Princípio da procissão reversiva das Pessoas e de seus atributos comuns: a Justiça ingênita, a Justiça gerada e o amor mútuo das duas que faz dobrar o Filho sobre a unidade essencial do Pai.