O mestre
Eckhart afirma no processo de Colônia que se deve distinguir entre o ser formalmente inerente e o ser absoluto que é Deus ao defender os artigos incriminados.
Deus é o próprio ser e é a esse título que Ele entra nas essências das coisas por não haver nada que Lhe seja exterior, constituindo o Ser mais interior do que a essência das criaturas.
As expressões tomistas utilizadas por
Eckhart não designam um ato finito pelo qual a essência existe, mas a ação mesma de Deus e a presença ativa da Causa primeira no fundo secreto dos seres criados.
A metáfora da luz que não adere ao meio diáfano recebe um sentido diferente daquele de São Tomás, pois o próprio ser designa o Ser infinito que retorna sobre a sua própria Essência no ato intelectual pelo qual Deus se afirma como Ser suficiente.
O exemplo físico não assinala a composição da existência com a essência nas criaturas, mas a impermissão da ação absoluta e incréa que está totalmente presente em tudo o que é.
Essa atividade do Superior exercida sobre o inferior permanecerá não misturada ao meio criado que atravessa, sendo definida como toda dentro e toda fora, assim como a luz no ar iluminado.
Trata—se do princípio incréu de ser e de cognoscibilidade que as criaturas não possuem em si mesmas, quer se chame Ipsum Esse em relação às essências indigentes ou quididas em relação aos supósitos privados de verdade.
O ser pelo qual as criaturas são entes não entra na composição metafísica das criaturas.
Não pode haver metafísica do criado para
Eckhart, pois a filosofia primeira deve considerar os seres criados em seus princípios essenciais fazendo abstração das causas exteriores que os constituem em seu ser segundo.
O ente criado só poderá ser abordado sob um relação de analogia que reflete a doutrina do ser do mestre turingiano e difere da analogia tomista.
O ato de existir de São Tomás não deve ser buscado nas expressões existenciais de
Eckhart, pois termos como próprio ser, atualidade de todos e ser mais íntimo situam—se na relação imediata entre o Ser incréu e o ser criado.
Trata—se da dupla realidade dos seres concebida como ser primeiro e segundo, ser virtual e formal, ou ser absoluto e formalmente inerente em todos os lugares onde se crê reconhecer a distinção real.
O mestre
Eckhart distingue apenas duas maneiras de ser uma essência — o ser pleno em Deus e o ser dividido nos supósitos criados — mesmo quando manifesta a intenção de distinguir nas criaturas a essência e a existência como o que é e o pelo qual é.
O ser significa sempre o que é, quer o seja por si mesmo como ser primeiro ou pela Causa que o produz a partir do não—ser como ser segundo.