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APRECIAÇÕES SOBRE A INICIAÇÃO
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Há ignorantes que imaginam que alguém «se inicia» a si mesmo, o que é em certo modo uma contradição nos termos; esquecem, se é que o souberam alguma vez, que a palavra initium significa «entrada» ou «começo», confundem o fato mesmo da iniciação, entendida em seu sentido estritamente etimológico, com o trabalho que terá que levar a cabo ulteriormente para que essa iniciação, de virtual que foi a princípio, torne-se mais ou menos plenamente efetiva. Compreendida assim, a iniciação é o que todas as tradições concordam em designar como o «segundo nascimento»; e, como um ser poderia atuar por si mesmo antes de ter nascido? Sabemos bem o que se poderá objetar a isso: se o ser estiver verdadeiramente «qualificado», leva já nele as possibilidades que se tratam de ser desenvolvidas; por que, se isso for assim, não as poderia realizar por seu próprio esforço, sem nenhuma intervenção exterior? Isso, efetivamente, uma coisa que é permissível considerar teoricamente, a condição de concebê-la como o caso de um homem «duas vezes nascido» do primeiro momento de sua existência individual; mas, se nisso não há impossibilidade de princípio, ainda assim não há menos uma impossibilidade de fato, no sentido de que isso é contrário à ordem estabelecida para nosso mundo, ao menos em suas condições atuais. Não estamos na época primitiva em que todos os homens possuíam normal e espontaneamente um estado que hoje em dia está vinculado a um alto grau de iniciação; e além disso, para falar a verdade, a própria palavra iniciação, em tal época, não podia ter nenhum sentido. Estamos no Kali-Yuga, quer dizer, em um tempo onde o conhecimento espiritual tornou-se oculto, e onde somente alguns podem lhe alcançar ainda, providenciado que se coloquem nas condições requeridas para lhe obter; agora bem, uma dessas condições é precisamente esta da qual falamos, tal como outra condição é um esforço que os homens das primeiras idades tampouco tinham necessidade alguma, posto que o desenvolvimento espiritual se cumpria neles tão naturalmente como o desenvolvimento corporal.
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Fizemos observar em outra parte que as fases da iniciação, do mesmo modo que as da «Grande Obra» hermética, que não é no fundo mais que uma de suas expressões simbólicas, reproduzem as do processo cosmogônico; esta analogia, que se funda diretamente sobre a do «microcosmo» com o «macrocosmo», permite, melhor que toda outra consideração, esclarecer a questão tratada no presente. Pode-se dizer, efetivamente, que as aptidões ou possibilidades incluídas na natureza individual são primeiro, em si mesmas, apenas uma matéria prima, quer dizer, uma pura potencialidade, onde não há nada de desenvolvido ou diferenciado; é então o estado caótico e tenebroso que o simbolismo iniciático faz corresponder precisamente ao mundo profano, e no qual se encontra o ser que não chegou ainda ao «segundo nascimento». Para que esse caos possa começar a tomar forma e a organizar-se, é mister que uma vibração inicial lhe seja comunicada pelas potências espirituais, que a Gênesis hebraica designa como os Elohim; esta vibração, é o Fiat Lux que ilumina o caos, e que é o ponto de partida necessário de todos os desenvolvimentos ulteriores; e, do ponto de vista iniciático, esta iluminação está constituída precisamente pela transmissão da influência espiritual da qual acabamos de falar. Após, e pela virtude desta influência, as possibilidades espirituais do ser já não são a simples potencialidade que eram antes; tornaram-se uma virtualidade disposta a desenvolver-se em ato nas diversas etapas da realização iniciática.
A vinculação a uma organização tradicional regular, dissemos, não é somente uma condição necessária da iniciação, mas também, inclusive, o que constitui a iniciação no sentido mais estrito, tal como a define a etimologia da palavra que a designa, e é o que se representa por toda parte como um «segundo nascimento», ou como uma «regeneração».
«Segundo nascimento», porque abre ao ser um mundo diferente daquele onde se exerce a atividade de sua modalidade corporal, mundo que será para ele o campo de desenvolvimento de possibilidades de uma ordem superior; «regeneração», porque assim restabelece a este ser a prerrogativas que eram naturais e normais nas primeiras idades da humanidade, quando esta ainda não se afastara da espiritualidade original para afundar-se cada vez mais na materialidade, como devia fazê-lo no curso das épocas ulteriores, e porque deve lhe conduzir, como primeira etapa essencial de sua realização, à restauração nele do «estado primitivo», que é a plenitude e a perfeição da individualidade humana, e que reside no ponto central, único e invariável, de onde o ser poderá elevar-se depois para os estados superiores.
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SÍMBOLOS DA CIÊNCIA SAGRADA
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Sabe-se além disso quê a saída de Jonas do interior da baleia foi sempre interpretada como símbolo da ressurreição, portanto de passagem para um novo estado. Isso oferece, por outro lado, uma analogia com o sentido de “nascimento” que, sobretudo na Cabala hebraica, liga-se à letra nún, e que precisamos entender espiritualmente como um “novo nascimento”, ou seja, uma regeneração do ser individual ou cósmico.
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O desenvolvimento do germe espiritual pressupõe que o ser não saia de seu estado individual e do meio cósmico em que se encontra, do mesmo modo que apenas ao sair do corpo da baleia Jonas “ressuscita”. E se for lembrado o que escrevemos antes, pode-se compreender sem dificuldade que essa saída é a mesma que se faz da caverna iniciática, cuja concavidade é também representada pela semicircunferência de nún. O “novo nascimento” supõe necessariamente a morte do antigo estado, quer se trate de um indivíduo ou de um mundo. Morte e nascimento, ou ressurreição, são dois aspectos inseparáveis, pois nada mais são, em realidade, que as duas faces opostas da mesma mudança de estado. A letra nún, no alfabeto, segue imediatamente o mim, que tem a morte (el-mawt) entre as suas principais significações, e cuja forma representa o ser dobrado por completo sobre si mesmo, reduzido de certo modo a mera virtualidade, a que corresponde ritualmente a atitude de prosternação. Mas essa virtualidade, que pode parecer um aniquilamento transitório, torna-se logo, pela concentração de todas as possibilidades essenciais do ser num ponto único e indestrutível, o próprio germe de onde sairão todos os seus desenvolvimentos nos estados superiores.
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A caverna é ao mesmo tempo um lugar de sepultura e de “renascimento”, e, na história de Jonas, a baleia desempenha precisamente esse duplo papel.
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A morte para o mundo profano, seguida da “descida aos Infernos”, é, bem entendido, a mesma coisa que a viagem ao mundo subterrâneo ao qual a caverna dá acesso. Mas, no que se refere à própria iniciação, longe de ser considerada como morte, é, ao contrário, um “segundo nascimento” e uma passagem das trevas para a luz. O lugar desse nascimento é ainda a caverna, pelo menos nos casos em que nela se realiza a iniciação, de fato ou simbolicamente, pois é evidente que não se pode generalizar demais e que, do mesmo modo que para o labirinto que examinaremos a seguir, não se trata de algo necessariamente comum a todas as formas iniciáticas sem exceção. A mesma coisa aparece aliás, mesmo exotericamente, no simbolismo cristão da Natividade, de forma ainda mais clara que em outra tradições, o que torna evidente que a caverna, como local de nascimento, não pode ter a mesma significação precisa que a caverna como local de morte e sepultura. Poderíamos observar, no entanto, para reunir pelo menos entre si esses dois aspectos diferentes, e aparentemente opostos, que a morte e nascimento são como que duas faces de uma mesma mudança de estado, e que sempre se considera que a passagem de um estado a outro deve efetuar-se na obscuridade. Nesse sentido, a caverna seria então, de modo mais exato, o próprio lugar dessa passagem; mas isso, mesmo sendo estritamente verdadeiro, só se refere a um dos lados de seu complexo simbolismo.
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A verdade é que, longe de ser um lugar tenebroso, a caverna iniciática é iluminada interiormente, enquanto que fora dela, ao contrário, reina a obscuridade. Assim, o mundo profano é naturalmente assimilado às “trevas exteriores”, e o “segundo nascimento” é, ao mesmo tempo, uma “iluminação”.
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É preciso notar ainda que quando a caverna é ao mesmo tempo local da morte iniciática e do “segundo nascimento”, deve então ser considerada como dando acesso, não só aos domínios subterrâneos ou “infernais”, mas também aos domínios supraterrestres.
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É precisamente desse ponto de vista que a caverna pode ser considerada como o local do “segundo nascimento”. A esse respeito, encontramos textos tais como: “Saiba que Agni, que é o fundamento do mundo eterno (“principial”), e pelo qual este pode ser alcançado, está oculto na caverna (do coração)”, o que se refere, na ordem microcósmica, ao “segundo nascimento”, e também, mediante sua transposição para a ordem macrocósmica, ao nascimento análogo do Avatâra.
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Para maiores desenvolvimentos sobre esse ponto remetemos uma vez mais ao Rei do Mundo. Podemos notar também que a assimilação do “segundo nascimento” a uma “germinação” do luz lembra, de forma clara, a descrição taoísta do processo iniciático como “endogenia do imortal”.
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Assim, a localização na base da coluna vertebral refere-se ao estado de “Sono” em que se encontra o luz no homem comum;10 no coração se dá a fase inicial de sua “germinação”, que é propriamente o “segundo nascimento”; ao olho frontal corresponde a perfeição do estado humano, isto é, a reintegração no “estado primordial”; enfim, na coroa da cabeça está a passagem para os estados supra-individuais.