Palavra

BERTHO, Marie. “Le miroir des âmes simples et anéanties” de Marguerite Porète: une vie blessée d’amour. Paris: Larousse “Sélection du Reader’s digest”, 1993.

Testemunho ou ficção

A composição do Miroir forma um díptico: uma primeira parte de 122 capítulos que vai do Prólogo até o primeiro Explicit, onde as figuras da alegoria se entrelaçam num modo narrativo que empresta todos os seus procedimentos à ficção, e uma segunda parte de 17 capítulos onde as figuras alegóricas se apagam em favor de um relato depurado em primeira pessoa do singular sobre um caminho percorrido na interioridade da oração do coração.

O Miroir ou a vocação de uma palavra

Quando Marguerite empreendeu redigir o Miroir, ela buscou, por meio da ficção alegórica, despojar sua experiência de sua dimensão pessoal a fim de pôr em luz seu arquétipo, extraindo de sua existência um modelo ideal de vocação universal que ela pôs em cena numa narrativa exemplar.

Uma palavra livre: uma voz para o Livre Espírito

Tomaram-se muitas liberdades com os ditos da beguina para condenar a liberdade, e durante seu processo foi uma palavra truncada, desfigurada que se julgou: sobre os quinze artigos extraídos do Miroir, três ao menos, privados de seu contexto, apareceram heréticos.

Uma palavra perigosa

A liberdade de expressão, reflexo de uma liberdade espiritual encontrada na penumbra da experiência mística e assumida em plena luz através do Miroir, apareceu para a autoridade eclesiástica como subversiva, pois a Igreja se apresentava na época aos fiéis como a única detentora da Boa Nova e do monopólio da palavra sagrada e da inspiração divina.