De mortes em renascimentos, a Alma cumpre no Espelho sua ascensão em direção a Deus através dos sete estados de graça, que recordam o sermão de são Bernardo sobre as sete necessidades que impelem a alma a buscar o Verbo, e as Sete Maneiras de amor de Beatriz de Nazareth.
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No primeiro estado de graça, a Alma faz tudo o que Deus lhe comanda — como escreve são Bernardo, deve aceitar os reproches de Cristo e conduzir contra si mesma um combate enérgico e vigilante; Beatriz de Nazareth descreve esse estado: “É um desejo ativo oriundo do amor; deve reinar longtemps no coração antes de afastar todos os obstáculos e deve obrar com força e engenhosidade (…) obter de Deus por seu zelo e sua fidelidade, de poder doravante sem ser detido pelas faltas passadas, servir o amor com uma consciência livre, um espírito purificado, uma inteligência clara.”
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No segundo estado de graça, a Alma não se contenta mais em fazer o que Deus comanda — ela deseja seguir também o que Deus aconselha, tornando-se a Amiga do Amado em se esforçando por fazer tudo o que Lhe agrada; são Bernardo havia predito: “Buscai o Verbo, que vos dará Ele mesmo a força de aceitar sua vontade. Ide refugiar-vos junto àquele que se fez vosso adversário e que vos tornará tais que ele não terá mais a ser: ele mudará suas ameaças em carícias, e o dom de sua graça será mais eficaz para vossa conversão que a violência de sua cólera.”
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No terceiro estado de graça, a Alma não se contenta mais com uma relação de amizade com Deus e deseja se engajar numa relação de amor, oferecendo em sacrifício sua vontade própria no martírio da segunda morte; Ricardo de Saint-Victor, autor dos Quatro Graus da violenta caridade, é evocado: “Escutai o gemido do prisioneiro que desespera de escapar: 'Não me é mais possível fugir, ninguém que se ocupe de mim' (Sl. CXLI, 5). Mas, vê-se amiúde, os que não podem salvar-se podem resgatar-se. Não podemos repelir a tentação pela força, nem esquivá-la pela prudência. É preciso que nos resgatemos pelas obras de misericórdia e a obediência e nos libertar do jugo da escravidão. Eis as verdadeiras riquezas pessoais das quais está escrito: 'o resgate do homem é sua riqueza' (Prov XIII, 9).”
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No quarto estado de graça, a Alma goza do afranquiamento que operou no grau anterior com a morte de Razão e de Vontade Desobediente — é um grau de embriaguez onde a Alma goza da abundância de delícias; Ricardo de Saint-Victor: “Amor único, predileção única, sede única, desejo único. / Para ela [a violenta caridade] ele suspira, a ela ele aspira, por ela ele arde, nela ele encontra seu repouso. / Nela somente ele retoma força, dela somente ele se farta.”
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Esse quarto estado comporta um perigo: a Alma pode desejar conservar esse grau de bem-estar em Deus para si mesma, interrompendo assim sua progressão anagógica; um mestre da escola Tch'an advertiu seu discípulo que se absorvia na doçura infinita da contemplação: “Não derives nesses limbos, não te abandones a essa embriaguez, não é assim que farás voar em estilhaços o teto da casa.”
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O quinto estado é o coração do Espelho ao qual ele deu seu título: é o espelho no qual a Alma viu por si mesma a inteira bondade divina e viu em retorno sua inteira malícia; nele a Alma é humilhada até o esgotamento total de suas forças, de modo que se encontra na impossibilidade de se levantar por si mesma — e é então que é arrebatada ao sexto estado.
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O quinto estado enuncia: “Eis por que a Alma se desfaz desse querer e o querer se desfaz dessa Alma e se entrega, se dá e se rende a Deus lá onde foi primeiramente tomado, sem reter nada que lhe seja próprio, para realizar a perfeita vontade divina, a qual não pode ser realizada na Alma sem esse dom.”
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No sexto estado, a terceira morte arrebata a Alma fora de si mesma, além de seus sentidos, de seu pensamento, de sua palavra; então somente a Alma cessa de se contemplar no espelho de Deus, pois ela se tornou o espelho no qual Ele pode novamente se ver: “esta Alma, assim pura e iluminada, não vê nem Deus nem ela mesma, mas Deus se vê por si mesmo nela, por ela, sem ela.”
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Beatriz de Nazareth descreve na sétima Maneira de amor a passagem do quinto ao sexto estado: “O amor a eleva e a abaixa; ele a atrai de repente para a atormentar em seguida; ele a faz morrer para fazê-la reviver; ele a fere e a cura, a torna louca e então sábia (…). Em espírito, ela se elevou acima do tempo, na eternidade, acima dos dons do amor que está fora do tempo, acima dos modos humanos de amar, acima de sua própria natureza em seu desejo de ultrapassá-la.”
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O sexto estado não dura — é uma cesura no quinto, uma brecha pela qual a visão torna-se iluminação; no coração do Espelho aparece a janela mística que, mal entreaberta, já se fechou sobre o estado de glória, sétimo e último estado de graça, que a Alma não pode aproximar em seu corpo mortal.